Dezembro de 1926 – Westminster

As pernas de Amélie doíam. Ela checou o relógio, mais uma vez.

Três minutos desde a última vez que conferiu as horas, uma hora e dezenove minutos desde que eles começaram a correr, já fora do internato.

Georgia não parecia se abalar tão fácil, estava à frente de todos. Os pés batiam abafados nas folhas molhadas, sempre no mesmo ritmo. Ela se movia como uma raposa, e seus cabelos vermelhos banhados pela luz da lua acentuavam ainda mais esse aspecto.

Travis gostava disso.

Embora ele estivesse atrás das duas, separado por alguns poucos metros de distância. Seus passos eram apressados e pesados, e a cada momento pareciam cada vez mais dificultosos, os cabelos negros e bagunçados do rapaz lhe caíam sobre os olhos, e o ar parecia ter dificuldade para entrar em seus pulmões. Foi o que Amélie deduziu, pois sentia o mesmo.

A chuva havia passado poucos minutos depois de eles se embrenharam na floresta, e desde então a temperatura decaiu de maneira absurdamente rápida. O ar gelado cortava as narinas de Amélie conforme ela inspirava, e a expiração era visível, saindo em pequenas nuvens de fumaça de sua garganta.

Quando era criança ela e o pai gostavam de fingir que eram dragões quando isso acontecia. A garota se agasalhava o máximo possível, então ela e Adham, seu pai, iam para a varanda da frente de sua casa e brincavam. Amélie geralmente era um dragão feroz em busca de um cavaleiro perdido, e na maioria das vezes obtinha sucesso em sua captura.

— Por que eu sempre sou o dragão, papai? – perguntara-lhe ela, certa vez.

— Você é uma fonte de calor, minha querida. – ele lhe respondera. – Você emana luz. Veja seus cabelos. São fogo puro, e esse fogo queima dentro de você. E sabe o que lhe torna um dragão tão perfeito? – ele sussurrara como se fosse um segredo só dos dois. Costumava sempre fazer isso, deixar as coisas mais interessantes do que poderiam ser. – Você consegue controlar o fogo que está aqui. – ele apontou o coração da menina, e mesmo com todas as camadas de roupa, Amélie sentiu como se seu pai tocasse sua alma, e trouxesse, de alguma forma, mais calor e mais vida para ela.

Por muitas vezes Amélie se perguntou se não seria ele quem emanava luz.

E então, naquele momento, ela foi tomada pela saudade. Uma vontade, maior do que ela nunca sentiu, se avolumou em seu peito. Ela queria estar em casa naquele momento, debaixo de seus cobertores quentinhos, com o abajur ao lado de sua cama iluminando o quarto com sua bela luz alaranjada e seu pai lhe dizendo “boa noite, minha querida Amélie”, e dando-lhe um beijo suave em sua testa, que lhe trazia uma sensação de proteção que só ele era capaz de transmitir. Ela quis estar ao lado de sua mãe, na cozinha, sentindo o cheiro familiar e denso de café que sempre preenchia a casa, toda tarde. Sentiu vontade de olhar para seu sorriso motivador que sempre ganhava quando estava triste ou se sentia incapaz de fazer algo. Pois naquele momento ela se sentia incapaz.

Ela estava se sentindo incompleta.

Ela estava se sentindo... dolorida?

— Amélie, está tudo bem? – a voz de Georgia parecia preocupada e um suave V se formava entre as suas sobrancelhas franzidas. Ela estava sobre Amélie com uma das mãos estendidas.

Amélie estava caída no chão, o pé direito preso em um galho.

Ela aceitou a mão da amiga e tomou um impulso para se levantar. Ondas latejantes de dor despontaram em seu tornozelo, que aparentemente estava torcido, e o lado de seu quadril também doía, provavelmente devido à pancada na queda.

— Sim, estou bem. – ela tentou dar um passo à frente, mas a dor se intensificou. Seu rosto se contraiu em uma careta. – Talvez não tanto. Ai!

— Talvez fosse melhor parar um pouco. Acho que já estamos longe o bastante, e de qualquer forma, duvido que alguém esteja atrás de nós. – disse Travis, as alcançando, ele tirou a mochila das costas e a deixou pender ao lado do corpo. Ela colidiu contra o chão com um baque abafado.

O terreno onde estavam era acidentado, e, Amélie não havia se dado conta antes, a floresta de pinheiros estava menos densa, as árvores eram mais espaçadas, o campo mais aberto, e outras espécies também se encontravam aqui ou ali. O chão era coberto por folhas e pequenos galhos. Algumas poças d’água se formavam devido à chuva recente, e em alguns lugares havia grandes rochas, algumas totalmente sólidas, outras fragmentadas.

— É, eu acho que sim. O que acha, Élie? Podemos nos abrigar para passar o resto da noite e voltar a andar ao amanhecer.

— Claro. Por mim tudo bem. – Amélie deu de ombros. Estava cansada, o sono havia chegado e seus músculos pediam um descanso. Isso sem falar no tornozelo que doía incessantemente.

— Vejam, nós podemos ficar ali. – Georgia apontava para uma pedra a poucos pés de distância. Ela era enorme e havia uma cratera em um de seus lados, como uma caverna, porém não muito funda. Mas ao menos, se voltasse a chover, eles teriam um abrigo. – Podemos acender uma fogueira e...

— Sem fogueira. – interrompeu Travis, gesticulando com as mãos. – A fumaça denunciaria nossa localização, além do mais, duvido que consiga fazer qualquer coisa pegar fogo nesse chão úmido.

— É verdade. – suspirou Georgia. – Ei, me ajude aqui. – ela aproximou-se de Amélie, tirou a mochila dos seus ombros e a lançou para Travis, então ficou ao seu lado direito da garota. – Venha, vou te ajudar.

Com uma das mãos ela passou o braço de Amélie sobre seu ombro, lhe fornecendo apoio, e juntas as duas caminharam devagar até a pedra. Georgia ajudou a amiga a se sentar, e depois fez o mesmo. O buraco na rocha era menos extenso do que pensara, mas era largo, então os três caberiam ali sem problemas.

— Élie, você acha que vamos conseguir voltar para casa?

Amélie encarou a amiga. Seus olhos estavam intensos, pareciam imersos. Talvez fosse tudo que havia acontecido até ali, ou a preocupação que agora chegava e se apoderava delas. Mas Amélie sentia que sim, nada daquilo seria atoa, elas iriam voltar.

— Sim, Gia. Nós vamos.

As duas trocaram um sorriso. Um sorriso descarregado de preocupações e cheio de esperança.

...

Travis caminhava devagar, carregando sua mochila em seu ombro e a de Amélie em uma das mãos. Estava mais pesada do que ele imaginou que pudesse estar.

Ele precisava de algum tempo sozinho, para analisar os últimos acontecimentos, para situar-se naquela confusão.

Mal conhecia Amélie, pensara ele, ela era apenas a pequena garota que estava sempre ao lado de sua namorada, e embora as duas tivessem exatamente a mesma idade, davam a impressão de ter anos de distância. Amélie aparentava ser uma garota completamente inocente e indefesa, mas ali estava Travis agora, fugira do internato, algo que ele sequer havia imaginado que fosse capaz de fazer, e tudo graças à ajuda de Amélie que planejou a fuga.

Talvez ele tivesse julgado as coisas antes da hora. O fato era que nada disso importava mais. Depois de cinco anos preso àquele lugar, Travis finalmente estava livre.

Ele havia sido mandado para o internato pouco tempo depois de sua mãe falecer, pouco tempo depois de as coisas começarem a ficar estranhas. Foi quando seu pai se cansou de ter que tentar lidar com o garoto e suas aberrações e decidiu se livrar dele, o enviando para aquela escola.

Antes de tudo isso a vida sempre fora calma e alegre. Travis vivia com os pais numa cidade no interior da Inglaterra e levava uma vida normal.

Até a morte de sua mãe.

O pai afirmava que o abalo por ter de lidar tão cedo com a perda fizera o garoto começar a ver coisas, ter pesadelos e surtos, mas aos poucos o rapaz começou a entender.

Não fora o trauma da perca de sua mãe. Era algo que havia nascido com ele.

Travis podia ver pessoas mortas. Se comunicar com elas. E aquilo era unanimemente um fardo.

Algumas vezes beirara a loucura, mas com o tempo conseguiu se acostumar.

É claro que a Sra. Crhistell, diretora do internato sabia dos “dons” do rapaz. Ele não fora o primeiro com habilidades especiais a chegar àquela instituição de ensino, tampouco seria o último. Amélie e Georgia também tinham poderes, e fora isso que as motivara a fugir. No IWR eles eram tratados como num circo de horrores.

Os pais dessas crianças especiais as enviavam até lá por dois motivos: eles prometiam que ajudariam seus filhos a lidar com os problemas, ou era apenas um modo de os próprios pais lidarem com isso da melhor maneira, afastando-os, mantendo distância dos filhos. O Internato de Westminster ficava nos arredores da cidade, próximo a Londres, mas ainda assim, a uma distância considerável.

Mas ali havia também crianças normais, e a maioria desconhecia os segredos do lugar. Muitas voltavam para casa em datas comemorativas, mas os outros, assim como Travis, que fora deixado ali, esquecido, aprendiam a lidar com a rejeição. E ele podia assegurar, não era difícil.

A alguns passos de distância Georgia acenava para ele, ela estava sentada na pedra que apontara, minutos antes. Amélie, escorada em uma das paredes da rocha parecia dormir, mas sua mão segurava firme a de Georgia. As duas eram tão parecidas, pensara ele, podiam quase ser consideradas irmãs.

A passos lentos ele se aproximou, enquanto a garota acordada escrutinava seu rosto com um sorriso nos lábios, um sorriso tão intenso que aplacava de maneira geral seu semblante cansado e até mesmo as leves olheiras que começavam a se formar abaixo de seus olhos.

— Élie dormiu. – ela disse, olhando a amiga, um olhar fraterno carregado de zelo. Então voltou a observar Travis, mas ele pôde perceber uma leve mudança em seus olhos. – Eu imagino o quanto ela deve estar cansada.

Sua mão livre subiu até o rosto de Amélie e afastou uma pequena mecha dos cabelos ruivos que caía no rosto da menina, prendendo-o atrás da orelha com delicadeza. Tanta delicadeza quanto a menina exalava ali, dormindo. Parecia despreocupada, os lábios formando uma linha tênue, levemente curvada nos cantos. A luz da lua lhe trazia uma aparência angelical, a pele clara parecia transluzir sob as várias sardas em seu rosto.

— Sou tão grata a você. – um sorriso se formou no rosto de Georgia, que sussurrou as palavras para Amélie de maneira tão branda que nem Travis conseguiu ouvir. Mas Amélie ouviu, pois Gia podia de certa forma, monitorar o sonho que rodava na cabeça da menina.

— Por que não aproveita e dorme também? O dia não vai demorar a raiar e então teremos que partir novamente. – começou Travis. – Eu vou continuar acordado, para o caso de algo acontecer.

— Tudo bem. Cuidado. – a voz da menina assumiu um tom levemente preocupado. – Por favor, tenha cuidado. Nos acorde se algo acontecer.

— Não se preocupe, durma tranquilamente, Georgia. Boa noite.

— Boa noite Travis.

E trocando um último sorriso, Georgia deixou que a cabeça pendesse até o ombro da amiga a seu lado, enquanto Travis se virava e saía caminhando com a mochila nas costas. Nos últimos segundos em que manteve os olhos abertos a menina observou o garoto se afastando, até que sua silhueta se confundiu ao resto da noite, e se tornou um borrão inidentificável quando ela fechou os olhos e caiu num sono pesado e profundo.

Travis parou alguns metros de distância da pedra onde as garotas dormiam, abaixou-se e se sentou nas raízes de uma árvore. Se qualquer coisa se aproximasse ele veria antes que pudesse se aproximar de Georgia e Amélie. Mas ele acreditava que nada chegaria até eles.

Estava quase inteiramente convencido de que ninguém os encontraria.

Exceto por uma pequena parte de si que martelava para que ele se mantivesse atento.

Uma de suas mãos deslizou até a mochila a seus pés, e abriu o zíper num ruído arrastado. Um reflexo da luz prateada da lua atingiu seus olhos quase de imediato. Ali estava uma faca de lâmina reluzente.

Mesmo que alguém os encontrasse, ele acreditava estar preparado.

...

Uma imagem começou a se formar na cabeça de Georgia enquanto ela dormia. Um sonho.

Haviam pés, caminhando na escuridão, os passos apressados pisando em folhas amassadas e quebrando pequenos galhos sob suas solas no chão. Um barulho feroz, aparentemente um rosnado, escapando de uma fileira de dentes pontiagudos, esse então se juntou a outro, e mais outro. Um metal brilhando à luz da lua, então, um estouro ensurdecedor, de tão próximo.

Seguido pelo mais completo silêncio.

E então sangue.

Muito sangue.

Georgia acordou sobressaltada. Ainda estava noite, Amélie, a seu lado, ainda dormia, o corpo miúdo encolhido. Antes de mais nada Georgia checou o tornozelo da amiga. Estava inchado.

Uma de suas mãos ainda segurava a da garota dormindo, notou Georgia quando puxou o braço. O relógio no pulso de Amélie ficou visível, o que fez Georgia parar para conferir as horas.

4:27 a.m.

Ela havia dormido pouco mais que alguns minutos.

Era impossível respirar pelo nariz, as vias respiratórias estavam congestionadas, a respiração saindo de sua boca formava densas nuvenzinhas de fumaça. A temperatura havia baixado ainda mais.

Neve.

Havia nevado enquanto ela dormiu. Por mais que tivesse sido pouco tempo, a paisagem ao redor estava coberta de branco, principalmente as árvores, o chão parecia não ter sido tão afetado.

Georgia buscou Travis com o olhar, e embora a luz que a lua lançava ao redor fosse o suficiente para iluminar as proximidades, ele não estava visível por ali. Provavelmente estava longe, talvez atrás de uma árvore, supôs Georgia.

Puxando a gola de seu casaco contra o rosto, ela se encolheu mais, os músculos estavam tensos devido ao frio cortante, e a rocha onde ela recostou as costas parecia ainda mais gelada, mas ali ela permaneceu.

Os olhos atentos observaram ao redor com cuidado e atenção, mas a imagem voltava a se formar, nítida em sua cabeça, como se ela houvesse presenciado.

Pelo resto da noite não conseguiria dormir, não enquanto o sangue vermelho continuasse vibrando em sua mente.

...

Os três cachorros de porte grande moviam-se com rapidez e puxavam com violência as coleiras que o homem baixinho custava com toda a força para segurar entre os dedos gorduchos.

Dois eram cinza, o outro, negro. Três cachorros ferozes avançando pelo caminho.

A neve caía aos poucos, branda. O chão ainda era visível, mas a tempestade de neve ganhava intensidade aos poucos, o vento começava a soprar com cada vez mais força, e estava se tornando difícil enxergar mais do que poucos palmos à frente do nariz.

— Vamos, rápido. Ou iremos perdê-los. Vamos, antes que o rastro seja encoberto pela neve. – a mulher à frente vociferava, parecia capaz de estar ainda mais raivosa que os cachorros, e nem eram necessários dentes parecidos com navalhas para que ela parecesse ameaçadora.

Sra. Christell. Nada mais. Era assim que todos a conheciam.

Era uma mulher alta e magra. Os cabelos intensamente negros estavam sempre penteados para trás e presos em um coque baixo, mas nos últimos tempos, alguns reflexos de fios brancos se misturavam à massa escura. Os lábios sempre vermelhos sustentavam um sorriso cínico e arrogante. E os olhos verdes, pareciam esmeraldas, porém esmeraldas pontiagudas, capazes de cortar ou ferir qualquer coisa sem qualquer esforço.

Christell era uma mulher séria e rígida. Alguns dos alunos mais velhos gostavam de acrescentar megera e tirana à sua bela descrição, outros ainda ousavam dizer que a mulher era uma lâmina, sempre pronta para destruir qualquer pequeno sinal de alegria que surgisse em seu caminho. Alguns até ousavam espalhar que a mulher não tinha alma.

Sua presença era elegante, sempre e em qualquer lugar que ia. Mesmo ali, agora, com os pés quase afundando em lodo e neve.

— Consegue ver algo? Algum sinal? Alguma movimentação? – as mãos, com as unhas intensamente vermelhas e pontudas tampando os olhos por causa da neve. Mas era difícil enxergar qualquer coisa. A lua agora ousava se esconder atrás de espessas nuvens passageiras.

— Não senhora, a tempestade está piorando e...

— Quieto. – ela parou com um braço estendido, detendo o homem que vinha logo atrás. Um dos dedos pálidos se ergueu no ar, um sinal para que ele se mantivesse em silêncio.

Poucos metros à frente algo se mexeu. Saiu de trás do tronco de uma árvore, jogou algo nas costas e começou a caminhar na direção oposta à que os dois estavam.

— Acabei de encontrar.

...

Travis resolveu se levantar e voltar até a pequena caverna onde as meninas dormiam para se abrigar. A tempestade de neve se intensificava cada vez mais, e a lua aparecia com menos frequência, várias nuvens espreitavam no céu.

Estava difícil andar por ali, a única coisa que conseguia distinguir eram os troncos das árvores à sua frente, o que possibilitava que ele caminhasse sem trombar em nada.

Nem mesmo o silêncio que retumbava ali antes estava presente, agora os assovios altos do vento enchiam os ouvidos do rapaz.

Talvez tenha sido isso que impossibilitou Travis de perceber que algo se aproximava sorrateiramente dele.

...

Os olhos de Georgia procuravam ao redor. A essa altura já estava cada vez mais preocupada.

Estava ficando mais escuro, mais frio, e nenhum sinal de Travis.

Amélie ainda dormia calmamente ao seu lado, completamente alheia das preocupações da amiga ou do que estava acontecendo. Jamais imaginaria ou veria em seus sonhos Travis se aproximando ao longe com um andar, apesar da tempestade de neve ao redor, calmo e despreocupado. E muito menos enxergaria as várias figuras se aproximando dele, sem que ele pudesse perceber.

Mas Georgia via tudo aquilo. Um grito se avolumou dentro de si e escapou sem ela ao menos se dar conta.

A figura mais próxima, Travis, parou alarmada por alguns segundos, e se virou para olhar atrás de si.

Mas um dos três cachorros já havia escapado e corria em sua direção.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.