Notas iniciais
"O mundo é assim. Veja os governos só se aliam a países que tem algo para dar em troca. Empresas só contratam pessoas na qual elas empresas tem interesse. "

Não demorou muito para que James fosse o destaque da equipe nos torneios em que o colégio participava. Ele agora é reconhecido por toda escola, não só por fazer parte do time de futebol, mas também porque tinha entrado na equipe de basquete, equipe esta em que ele também era destaque. Coincidentemente, após ingressar na equipe de futebol, suas notas aumentaram de forma surpreendente, a ponto de serem as melhores da classe e da escola. James agora era considerado uma joia por toda a instituição. Todos o conheciam e o respeitavam, as garotas morriam de amor por ele e os garotos confiavam nele como representante do colégio nos torneios. Participava de festas, lanchava com os mais populares, era diariamente cercado de pessoas que queriam sua atenção e por consequência de tudo que lhe ocorria, agora não tinha mais tanto tempo como antes. Essa popularidade toda fez com que ele perdesse um pouco de contato com quem tinha lhe “empurrado” para o status que agora tinha.

- Oi James. – cumprimentou Anna.

- Oi. – respondeu.

- Faz tempo que não conversamos. Você parece ocupado ultimamente.

- Sim, mas isso é normal porque todos precisam de mim.

- É. Eu imagino que sim.

- Isso acontece porque sou bom.

- [...].

- Mas então, tenho que ir me encontrar com o pessoal do time e com as meninas da torcida na sorveteria. O que você queria?

- Bem, faz tempo que não conversamos, podíamos marcar na sorveteria também qualquer dia desses. – sugeriu Anna.

- É. Talvez. – respondeu James, sem muito interesse.

- Que dia pode ser então? Que tal na sexta? – perguntou a garota.

- Sexta eu não posso. Deixa que eu vou ver um dia e te aviso.

- Tudo bem. – aceitou Anna com uma voz mais triste.

James não tinha interesse em Anna, afinal ela não tinha nada que ele não tivesse – era assim que pensava. Ele também não sentia interesse nenhum nas outras pessoas, ele agora era superior. O único motivo que o levava a dar tempo para os outros, era para se exibir e ser elogiado. Aquilo o alegrava, inflava seu ego. James também tinha todas as garotas “a seus pés”, por que se importaria com uma “loirinha” que não tinha muito corpo e também não era muito alta e usava óculos? As outras garotas que evidentemente eram mais cobiçadas pelos garotos do colégio deixavam James mais interessado – ele queria superar todos em qualquer coisa, fazer as pessoas desejarem ser ele -, até porque as garotas tidas como as melhores gostavam dele. Aquelas características — cabelo claro e curto, pele branca, 1.88 de altura e corpo atlético – que antes não chamavam atenção de ninguém, agora era admirado por todas elas. Anna era bonita, mas não era tão desejada e cobiçada quanto às outras e isso fazia com que James a esquecesse.

Alguns dias depois, ao chegar em casa, encontrou Katerine ajudando Allan a estudar. Achou aquilo estranho, pois Allan era considerado um gênio – assim como ele era agora – e para ele aquilo não fazia sentido.

- O que Katerine está tentando fazer? Acha que tem algo que ela saiba e Allan não. – riu James.

Antes que Katerine pudesse falar, sua mãe a interrompeu.

- Allan está passando por um momento difícil desde que sua avó morreu, suas notas caíram drasticamente e ele tem provas importantes neste mês. Katerine está o ajudando. – explicou Kate.

- Pelo que vejo então, ele não era nenhum gênio. Um verdadeiro gênio não perderia sua genialidade por coisas assim. — disse James.

- Que coisa mais grosseira de se dizer James! Ele está com problemas e isso o atrapalha psicologicamente, o que você... – esbravejava Kate.

Naquele momento Kate foi interrompida por Allan.

- Tudo bem senhora Kate. Está tudo bem.

James então foi para seu quarto, tomou um banho e se arrumou.

- Vai sair James? — perguntava seu pai.

- Vou sim. – respondeu.

- Já está tarde, não demore.

- Ok.

James saiu naquela noite e só voltara no outro dia de manhã, com uma cara visivelmente assustada. Sua mãe estava preocupada com o seu sumiço durante a noite e sequer percebeu sua expressão.

- James, por onde você esteve? Por que não ligou? O que aconteceu?

- Estava com alguns amigos. Está tudo bem, mãe. Vou para o meu quarto e não irei ao colégio hoje. Não consegui ligar. Está tudo bem.

- Como assim não vai ao colégio? – esbravejou Kate.

Seu pai que até então observava se pronunciou.

- Deixe-o querida. Depois falarei com ele.

James foi para seu quarto sem se pronunciar e como havia alertado, não foi ao colégio aquele dia.

Horas depois, quando já havia acordado, recebeu um telefonema de Anna.

- James, está tudo bem? Você não veio à aula hoje.

- Está sim.

- Tem certeza? Você nunca faltou antes.

- Eu disse que está tudo bem, Anna.

- Ok. Desculpe então. É que havia sentido falta de sua presença na classe hoje.

- Tenho certeza que todos sentiram. Preciso desligar. Até outra hora.

- Até.

Após despedir-se de Anna, James vira seu pai entrar em seu quarto. Ele queria conversar.

- James, precisamos conversar.

James sentou-se, não queria dar atenção ao seu pai, mas tinha de fazê-lo.

- Fale.

- James, eu sei que muitas coisas aconteceram desde que nos mudamos e acredito que a mudança não aconteceu só no ambiente. Você por exemplo, era tão reservado e agora vem se destacando no colégio e nos esportes. Isso é muito bom, estou muito feliz e orgulhoso de você. Mas James, ser destaque e destacar-se não o faz diferente das outras pessoas e isso também não significa que você possa fazer o que quiser. – falava Richard de forma calma.

- Eu posso, pai. Eu tenho capacidade.

- Não é disso que estou falando, James. Você saiu e nos deixou preocupado, você foi insensível com Allan. O fato de você poder fazer coisas que o destacam em relação aos outros não lhe da o direito de se sentir superior.

- Pai, quando eu era desconhecido, as pessoas não me procuravam, pois eu não tinha nada que os interessasse. O mundo funciona desta maneira. Agora eu faço coisas que os interessam, por isso eles me procuram. O mundo é assim. Veja os governos só se aliam a países que tem algo para dar em troca. Empresas só contratam pessoas na qual elas empresas tem interesse. A humanidade é interesseira. O fato de eu ter algo que interesse eles, não me obriga a deixar ser usado. – James demonstrava completa arrogância.

- Filho, você está com visões distorcidas sobre o mundo e a humanidade. Deixe-me explicar uma coisa.

Neste momento, Kate entra no quarto e interrompe a conversa.

- James, tem um senhor procurando você lá embaixo. Disse que queria falar com você. – avisou a mãe.

- Quem é? – perguntou James.

- Ele disse ser pesquisador, físico e cientista. Seu nome é Dr. Faccini.

A expressão de James mudou completamente, seus olhos se arregalaram e um calafrio percorreu por toda sua espinha. James sabia quem ele era.