Cather

You’re my last bone of contention

That could break at any mention

You’re the last wall that will stand tall

‘Til the end of the world.

— Hypocrates, Marina & The Diamonds

Nossa mesa era ao lado da mesa da Anarquia. Era claro que ninguém gostava muito deles, e podia ter algo a ver com o fato de que alguns garotos estavam atirando batata frita em Matthew. Lembrando que a batata frita na verdade era o prêmio da cozinheira para a Democracia por terem ganhado a Caça À Bandeira. Então, hum, algumas pessoas não estavam lidando muito bem com o fato de o Rei estar sendo atingido por batata frita roubada.

— A gente não tem um calabouço nem nada, né? — ele sussurrou para mim. Apenas esbocei um sorriso em resposta e continuei comendo. — Tipo, sério.

— Não gosto disso — murmurei. — Desse pé de guerra que todo mundo está criando. A Monarquia Parlamentar parece ser a única que não aderiu a esse fanatismo.

Matthew apontou com o garfo para um dos senadores, um cara alto de pele escura que discutia em voz alta com a cozinheira por batata frita.

— Eu não ficaria tão certo disso se fosse você — ele sorriu. — Olha lá, o Presidente se levantou.

— Escuta, mano — Nathan encarou o outro, parecendo ignorar o fato de ser mais baixo e mais magro. — Batata frita é para vencedores. Boa sorte na próxima.

— Correção. Deveria ser para vencedores — Thomas corrigiu. — Mas vocês deixaram a Anarquia pegar, e eles estão usando as batatas para acertar os outros. Então me perdoe se eu quero a minha porra de porção de batata frita também.

— Thomas, cara, deixa quieto — Jake, da Democracia, encostou em seu ombro. — Não vale a pena.

— Ah, é cada um por si agora? — Thomas praticamente rosnou. — Bom saber, companheiro. Bom saber. Vai beijar a bunda do seu amado presidente, então. Sem problemas.

— Cara, você sabe que não é isso que eu…

— Ah, puta que pariu — uma garota da Anarquia murmurou ao meu lado. Eu a conhecera mais cedo no chalé, seu nome era Jade. Ela recrutou umas vinte batatas na mesa, inclusive do próprio prato, e se levantou, caminhando até a discussão que já estava subindo de tom. — Aqui. Batatas. — ela ergueu uma sobrancelha para o senador. — Resolvido?

Sem dizer nada, Thomas pegou o prato e se sentou junto à Monarquia Parlamentar. Jade encarou Nathan:

— Não te devo mais nada agora.

Ele sorriu.

— Você que pensa. Não vai me comprar com quinze batatas roubadas.

— Para o seu governo — ela franziu o cenho. — Eram dezenove.

— Sustento minha posição.

Ela bufou, empurrando-o sem muita vontade, e voltou à mesa da Anarquia.

Um chiado horrível ecoou pelo refeitório. Ele vinha do microfone de Jenna, a coordenadora de atividades.

— Boa noite! — ela sorriu, animada. — O que estão achando desse primeiro dia?

A maior animação veio da mesa da Democracia. O dia ainda não acabara? Eu já estava exausta.

—... Temos uma última surpresa para vocês... — Jenna sorriu. — Balada!

Suspirei.

— Não é obrigatório, é? — murmurei para Matthew.

Ele me fitou com os olhos azuis e esboçou um sorriso.

— Acho que é obrigatório para você, Majestade.

— Nem trouxe roupa para isso.

— Eu te empresto! — uma garota ao meu lado cujo nome eu desconhecia ofereceu.

— Eu... Hum... Está bem.

* * *

Até as garotas que não eram da Monarquia se ofereceram para ajudar. Bem... Nem todas.

— Sério mesmo? — Jade ergueu uma sobrancelha quando jogaram pelo menos uns dez vestidos na minha cama. — Sério mesmo?

Fitei os vestidos e escolhi um azul simples que parecia confortável. Insisti que minha maquiagem não fosse pesada; por fim concordamos em rímel, sombra leve e gloss. Prenderam minha franja para trás e colocaram a coroa de forma que não caísse facilmente. Eu não queria usá-la, mas aparentemente eu não tinha escolha. Não era muito boa em discussões, e elas eram incrivelmente insistentes.

Duas ou três me acompanharam até o salão, que não era grande coisa, na verdade, mas pelo menos não era apertado. A música alta demais me incomodava ligeiramente, mas tentei deixar isso pra lá, temerosa de que soasse como a atual rainha da Inglaterra. Não sabia que música era, mas quase não tinha vocais ou instrumentos, era basicamente só batidas feitas em computador. Mas era boa para dançar, suponho. Não que eu soubesse dançar, de qualquer forma.

Fiquei lá por um tempo, tentando entrar no ritmo em alguma rodinha de dança, mas meus esforços estavam perto de patéticos. A maioria das garotas tinha o tamanho do vestido inversamente proporcional à quantidade de maquiagem, e não eram exatamente excelentes dançarinas, mas sabiam se soltar, então pelo menos pareciam legais. Eu não sabia o que estava fazendo ali.

— Ei — ouvi uma voz grave atrás de mim. — Se divertindo, hein?

Virei-me para deparar-me com Matthew. Ele vestia uma camiseta preta lisa e calça jeans, mas ajeitara o cabelo, e estava muito bonito. Não usava a coroa, o que fez com que eu me sentisse mais patética. Aparentemente, ele não tinha sua própria versão dos ratinhos da Cinderela.

— Claro — menti, mas a música estava tão alta que o único jeito de ele ter entendido era lendo meus lábios.

— Cê cabe na Katy? — foi o que eu li, mas depois me toquei que era uma negação em ler lábios.

— Quê?!

— Cê sabe da Katy? — agora sim.

— Quem é Katy?

— Uma morena da Monarquia. Sabe?

— Vou procurar — usei a ideia de desculpa para sair dali. Talvez eu tivesse mesmo a alma da rainha da Inglaterra.

Saí do salão, ignorando os protestos das meninas, e comecei a andar por ali, por fim me sentando num banco a uma distância segura (que não estouraria meus tímpanos).

— Ei! — ouvi uma voz feminina perto de mim. — Tudo bem aí?

— Oi — acenei para uma menina sentada num banco próximo. — Só não sou muito fã de festas.

— Te entendo — ela deu de ombros, tirando um dos fones de ouvido. — Meu nome é Lucy. Curte Arctic Monkeys?

— Cather. O que é isso?

Ela pareceu estar seriamente considerando retirar a oferta quando eu disse isso, mas mesmo assim fez uma menção para que eu me aproximasse e me entregou um fone de ouvido.

— É uma banda de indie rock britânico — ela disse.

A batida era legal. Comecei a prestar atenção na letra.

And there's the truth that they can't see

They'd probably like to throw a punch at me

And if you could only see them, then you would agree

Agree that there ain't no romance around there

— Gostei — falei. — É verdade. Digo, é só ver todas aquelas pessoas se esfregando lá dentro.

— É... Às vezes você faz coisas sem pensar e acaba se arrependendo disso — sua mente estava longe dali. — E perdendo grandes amizades.

— É... — concordei, apesar de não estar acompanhando direito. — Vou dar uma volta. Prometi que procuraria uma pessoa.

— Está bem. Até depois.

— Até.

Saí andando pelos arredores. Ouvi uns barulhos esquisitos atrás do salão e fui checar, apenas para me deparar com Katy beijando uma menina da Monarquia cujo nome eu achava ser Holly. Saí de lá. Estava chegando ao salão quando fui de encontro com Matthew.

— Oi — ele abriu um leve sorriso. — Já achei que tinha sido capturada por um urso.

— É... Não fui.

— Encontrou a Katy? Preciso falar com ela. É meio que importante, mas não sei direito como vou fazer — ele me fitou por um minuto e me puxou até um banco próximo. — Posso te perguntar uma coisa?

Dei de ombros.

— Claro.

— Como faço uma garota gostar de mim.

— Acho que depende da garota.

Ele ponderou o que eu dissera.

— Se fosse você, por exemplo.

Só continue olhando para mim desse jeito, pensei.

— Hã...

— Certo, isso é estranho. Eu sei que mal te conheço, mas... já gostou muito de alguém, tipo, do nada? Só de olhar para a pessoa e pensar “eu quero saber seus planos para o futuro, e sobre o que você pensa quando não consegue adormecer, seus maiores sonhos” e essas merdas?

—... Claro — menti, porque parecia estar virando rotina já.

Seus olhos brilhavam.

— Foi tipo assim com a Katy. Eu a vi... e foi como se só existisse ela no mundo, sabe? — ele desviou o olhar. — Deus. Eu pareço um protagonista de comédia romântica ruim. Me desculpe. Eu não costumo fazer isso. Merda. Esqueça que eu disse qualquer coisa. Você sabe onde ela está?

—... Não. Acho que ela não veio para cá.

O rosto dele murchou.

— Ah... Bem, acho que posso fazer isso amanhã. Pelo menos tenho tempo para achar minhas bolas, porque depois dessa conversa acho que elas fugiram. E valeu por me ouvir, Cather, foi legal da sua parte.

— É... Disponha.

Ele me lançou um último sorriso e voltou para a festa.

Comecei a caminhar por uma trilha perto da floresta, até começar a ouvir uns barulhos.

— Olá? Tem alguém aí? — chamei.

Estupidamente, uma parte de mim se lembrou do que Matthew dissera sobre ursos, mas a parte racional de mim venceu e eu não pirei.

— Jade, é a Cather, a Cather é legal, você pode...

— Shhhhh! Não pode sair contando nossos planos malignos para qualquer um. Deus, Hampton, você não entende nada de planos malignos?

— Na verdade, não, minha experiência é consideravelmente limitada, Bannister.

Miles, então, saiu do meio da floresta e caminhou até mim. Vestia blusa e calça preta, além de uma touca. Ergui uma sobrancelha.

— O que vocês estão fazendo?

— Merda, Miles! — Jade desceu de uma árvore, bufando. Vestia-se de modo similar.

— Não é nada de mais, Cather — ele corou um pouco, tentando conter Jade.

— Sim, só vamos chutar a bunda daquele Presidente bastardo.

— Nathan?! — Lucy, a garota dos fones de ouvido, correu até nós. — O que vão fazer com Nathan?

Jade e Miles se entreolharam.

— Miles, lembra do Plano C sobre o qual conversamos? — Miles assentiu. — Agora é uma excelente hora. Conduza o sinal.

Esperamos por dois segundos. Eu por curiosidade, Lucy por estupefação. E então Miles gritou:

— COOOOOOOOOOOOOORRE!

E eles correram para o meio da floresta.