The Blue River Camp
3 O Caiaque Que Vira
Notas iniciais
Miles
I say fuck authority
Silent majority
Raised by the system
Now it's time to rise against them
We're sick of your treason
Sick of your lies
Fuck no, we won't listen
We're gonna open your eyes!
— Fuck Authority, Pennywise
Eu tinha três irmãos e uma irmã. Estava acostumado com o barulho, por isso não fiquei muito surpreso quando a ordem de Jenna de "Fiquem aqui um pouco enquanto o diretor Tony não vem" não foi obedecida. Talvez ela devesse ter ordenado antes de nos nomear a Anarquia.
Havia adolescentes gritando, adolescentes subindo em árvores, adolescentes descendo de árvores, adolescentes conversando alto, adolescentes se pegando (como eles se conheceram tanto tão rápido?), e havia eu, que no caso também estava em cima de uma árvore, mas não pela adrenalina.
Eu não era muito do tipo que fazia as coisas pela adrenalina. Porém, do topo da árvore eu podia ver a concentração da Monarquia, onde estava havendo a coroação dos monarcas. Quando chamaram a garota loura como rainha — Cather era seu nome —, os outros finalmente a perceberam. Eu já a havia notado na divisão dos quartos, e talvez tivesse subido na árvore para vê-la.
— Ei — ouvi uma voz feminina sob a árvore. — Ei!
Olhei para baixo e percebi que era a garota que chegara ao refeitório atrasada e molhada. Seu cabelo escuro ainda não havia secado, e ela o prendera num rabo de cavalo meio solto.
— Hum, oi — acenei.
— Vista legal aí de cima?
— É, acho que esse é o propósito. Dá para ver a Monarquia daqui. Você deveria ver, é muito mais interessante. Acho que o rei vai ser coroado agora.
— Legal — disse ela, já subindo na árvore. Ela o fez surpreendentemente rápido, e logo estava no galho ao lado do meu. — Ah, eu conheço aquela garota loura
— Conhece?
— Está no meu quarto. Um pouco irritante, se quer saber. — Eu ri. — Qual é a graça?
— Deixa para lá.
Ela suspirou.
— Às vezes, eu odeio as pessoas.
— Só às vezes? — zombei. — Então você está no lucro.
Ela riu também.
— Eles estão causando lá embaixo e nós estamos observando a disciplina da Monarquia.
— É, acho que isso nos torna traidores.
— Bem, eles não podem nos punir, já que somos todos iguais, e tal... Certo? Quero dizer, não é como se estivéssemos quebrando alguma lei, porque... não tem leis.
Dei de ombros.
— Eles ainda podem socar a minha cara — estendi uma mão. — Miles Hampton.
Ela a apertou.
— Jade Bannister.
— Estão todos libertos, porra. Podem fazer tudo o que estiver em suas mentes, mas depois arquem com as consequências — a voz ecoou pelo acampamento.
Depois daquilo, o caos começou, e eu dei graças a Deus por estar em cima de uma árvore. A Monarquia conseguiu ser mais caótica que a Anarquia depois de uma simples dispensa. Eles vieram correndo, e os anarquistas jogaram alguns deles no lago, e outros se penduravam nas árvores e caíam no chão, e puta que pariu, no que eu fora me meter?
Quando todos eles passaram, Jade murmurou:
— Acho que a gente pode descer agora.
— É, suponho que sim.
Fizemos isso. Ela se afastou, dizendo que ia fazer um merecido tour, seja lá o que isso significava, e eu comecei a andar sem rumo até os chalés.
— Ei! Hampton! — percebi que Nathan, que estava sentado na varanda de nosso chalé, me chamava. Ele balançou seu chapéu fedora para chamar atenção. — Ah, olá, Aquagirl!
Jade, que ainda estava meio encharcada, virou-se para mostrar o dedo do meio a ele.
— Ela tem um nome — defendi.
— Ela se recusa a me dizer qual é.
— Bem, nesse caso... — dei de ombros e sentei-me ao lado dele. E então percebi que Nathan usava uma faixa atravessando seu peito. — Não. Sem chance.
— Ah, sim — ele abriu um sorriso presunçoso. — Presidente Nathan Parker. E você?
Em resposta, apenas mostrei-lhe meu distintivo com um A contornado por um círculo. Ele riu.
— Boa sorte com isso. Ei, mano, tenho uma ideia para alegrar o teu dia.
— O quê?
— A gente vai andar de caiaque.
— E como diabos isso alegraria meu dia?
Nathan abriu um sorriso travesso, com um toque de malícia, que parecia ser seu sorriso habitual. Eu o conhecia havia algumas horas, mas ele parecia ser do tipo que desenvolve intimidade rapidamente. Porque para mim ele parecia um desconhecido me chamando pra andar de caiaque. Mas quais eram minhas opções, realmente? Passar o dia em cima de uma árvore observando uma garota que nem sabia que eu existia?
Assim, acabei por acompanhar o Presidente do Blue River Camp até o lago dos caiaques.
O monitor abriu um leve sorriso para mim. Um cara alto, bronzeado, com pinta de quem acordava que nem série da CW.
— Esse aí é o caiaque que vira.
Maravilha. Então entrei no Caiaque que Vira. Peguei o remo e percebi que não sabia direito o que fazer, então fiz o que todo mundo deveria fazer numa situação dessas: copiar o asiático mais próximo de você.
Enquanto eu fazia isso, Nathan me passou rapidamente, acenando. Pela primeira vez, estava sem o chapéu. Claro que ele sabia remar. Claro. Aparentemente, eu era o único retardado ali.
Não me leve a mal, eu era bom em algumas coisas, como citar A Arte da Guerra e jogar Call Of Duty. E, aparentemente, subir em árvores.
Enquanto eu tentava virar (pateticamente remando de um lado só), Nathan já dera uma volta completa e resolveu bater no meu caiaque com o dele.
— Isso não é carrinho de bate-bate, porra! — resmunguei, e ele apenas riu.
— É assim que você fala com o Presidente da República?
Apenas revirei os olhos em resposta. Uma voz aguda ao meu lado, de pé na beira do lago, disse:
— Vai deixar ele falar assim? Cadê seu espírito anarquista, pô? — Jade cruzou os braços em desapontamento.
— Não consegue ficar longe, é? — Nathan aproximou seu caiaque, sorrindo. — E ordeno que responda.
— Eis o que acho da sua ordem — e fez um sinal bonito com um dos dedos da mão direita.
— Vai começar a cantar Green Day em protesto também?
Ela apenas bufou.
— Eu, hum, acho que eu já brinquei o suficiente de caiaque por hoje, eu vou... Hum... — murmurei.
Como explicar que eu queria dar o fora dali antes que os dois tentassem se matar e acabassem me derrubando no lago?
Por um milagre, consegui voltar ao ponto onde os caiaques eram... Bem... Estacionados? Não importava. Eu estava até pensando que aquele era um dia bom enquanto saía do caiaque.
Até que desequilibrei. E o caiaque virou.
Eu bati com o peito na beira do lago e caí na água, ouvindo um baque surdo e vendo água jorrar para a borda e para os outros caiaques.
Depois de me debater por alguns segundos, voltei à superfície. O monitor apenas sorriu e disse:
— Eu avisei que esse é o caiaque que vira.
* * *
Eu saí resmungando sozinho pelo acampamento, tentando fazer minha camiseta parar de pingar. Era de algodão grosso, não secaria rápido. Achei uma varanda perto dos chalés e tirei a camisa, torcendo-a com força e raiva.
Pareceu funcionar, então entrei no chalé, encostando a porta, e fui fazer a mesma coisa com a bermuda. Tirei-a e a torci, sem me importar com o fato de estar molhando o chão do dormitório. Até que uma rajada de vento me desconcertou, e meu cérebro tentou processar de onde ela vinha. E então percebi que o vento havia aberto a porta.
Passando pela porta, fingindo não ter notado minha existência, estava Cather. Bela, loira, Rainha Cather. Eu soltei um palavrão e vesti a bermuda por cima de minha samba-canção rapidamente.
— Eu... Hum... — até meus dedos dos pés deviam estar ruborizados.
— Eu sinto muito, eu não queria... — sua voz doce era baixa, e parecia tão desconcertada quanto a minha.
— Não. Eu é que... O vento abriu a porta, e eu...
— Tudo bem. Tudo... Tudo bem.
O silêncio pairou por um minuto e eu vesti a camisa também. Decidi que já estava na merda mesmo, então me aproximei dela:
— Parabéns, falando nisso.
Ela franziu o cenho.
— Quê?
— Pela... Pela coroa. Parabéns.
— Ah — ela tirou a coroa da cabeça, como se tivesse se esquecido dela até eu mencioná-la. — Suponho que... Bem, obrigada.
Estendi a mão.
— Eu sou Miles.
Ela a apertou.
— Cather.
— Desculpe por eu ser um desastre.
Ela sorriu, e todo o dia cagado pareceu valer a pena.
— Sem problemas. Te vejo por aí, Miles?
Espero que sim, pensei, mas o que saiu da minha boca estava mais perto de:
— Uh. Hã... Eu... Eu também... Digo... Hmmm... Sim.
Ela acenou e eu a observei se afastar, afastando a vontade de bater com a cabeça na parede.
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