The Blue River Camp
4 Pés na Água
Notas iniciais
Lucy
“Wherever I go, whatever I do
I wonder where I am in my relationship with you
Wherever you go, wherever you are
I watch that pretty life play out in pictures from afar”
— In Your Atmosphere, John Mayer
Uma voz cortou o ar leve do acampamento, dizendo que todos os campistas deveriam ir para o ginásio imediatamente e que lá iria seriam dadas as informações seguintes. Eu queria poder agradecer a quem deu essa ordem, pois estava enjoada de escutar minhas amigas discutindo sobre quem é o mais fofo entre Harry Styles e Austin Mahone. Tipo, não vou ser hipócrita em dizer que eu não tenho uma queda por eles, mas convenhamos, o Ed é muito melhor.
Como eu chegara atrasada, Olivia, minha amiga que eu só via no acampamento, começou a contar a dinâmica de como tinham ficado as coisas, que era muito diferente do ano passado, onde os times tinha sido divididos por cores. Ela disse que estávamos em times diferentes, ela tinha ficado na Monarquia, já eu estava na Democracia.
Quando chegamos ao ginásio, tomamos caminhos diferentes. Olivia parou no primeiro amontoado de pessoas. Na ponta delas tinha um garoto e uma garota, ambos loiros, que pareciam ter saído de um conto de fadas, com os cabelos arrumados e a roupa muito bem escolhida para a ocasião.
Continuei a vagar pelo ginásio, cujo, percebi, havia sido reformado desde a última temporada. Construíram um vestuário nas bordas do ginásio, o chão fora pintado novamente e as telhas, que no ano anterior estavam caindo aos pedaços, haviam sido trocadas.
Esbarrei em alguém na minha frente e pedi desculpas automaticamente, nem reparei quem era. Quando olhei mais atentamente percebi que uma faixa escrita "Presidente" cortava o peito do garoto diante de mim.
— Lucy? — Seu tom era de surpresa, mas não pura surpresa. Havia algo a mais na entonação que não identifiquei, o que era uma situação comum quando se tratava daquele garoto.
— Nathan — O nome escapou de meus lábios. — Tudo bem com você? — cumprimentei, tentando soar casual. Fazia um ano que eu não conseguia falar com ele. Nathan fora a primeira pessoa a conversar comigo no acampamento e eu o considerava meu melhor amigo, mas aparentemente ele não me considerava tanto assim.
— Tudo... Olha, eu tenho que ir ver o que eles estão combinando. Depois a gente conversa. — Ele disse sem olhar em meus olhos e saiu mais apressado do que eu quando liberam a mesa do café.
Eu fui para trás do grupo e me sentei na arquibancada, esperando até o diretor de esportes dar as instruções seguintes da programação.
— Olá, campistas. — O diretor de atividades disse, depois de uns sete minutos de espera. — Com os times divididos e organizados, a primeira atividade vai começar. Ela é um caça à bandeira, mas uma interpretação diferente. Além de tentar capturar mais bandeiras do outro time, vocês devem proteger seus representantes. As bandeiras vão ser deixadas em pontos-base que serão escolhidos pelos membros da equipe. Há também uma bandeira principal, que valerá mais pontos. O time que estiver com seu governante a salvo e com o maior número de bandeiras vence. Vocês terão 30 minutos para escolher onde irão colocar as bandeiras e esconder o seu governante ou, no caso da Anarquia, a pessoa escolhida. Depois uma buzina vai ecoar pelo acampamento, isso significa que o jogo pode começar.
Os líderes dos times voltaram para seus lugares, exceto na Anarquia, como os gritos de discussão anunciaram.
— Caros eleitores, eu agradeço a chance que vocês me deram para governar essa grande e próspera nação. Próspera em muitos sentidos, sim! Inclusive — Ele fez uma pausa e piscou para uma garota que estava à sua direita. — Com uma abundância de garotas lindas que é motivo de orgulho, meus caros. Agora precisamos decidir o que fazer. Primeiro, onde será que a Excelência aqui deve ficar? — Ele estava com um sorriso de canto de boca quando terminou a frase.
— Acho que perto da parte de cima do rio, lá dá para observar o movimento que vem de baixo e essas coisas. Além de poder fugir pelo rio se quiser. — Um asiático com o cabelo pintado de azul sugeriu.
— Sim, concordo com você. Acho que já é melhor a gente ir subindo antes que outra equipe roube nosso lugar.
Todos do grupo começaram a sair pela lateral esquerda do ginásio. A subida era um pouco longa, entao corri para a frente da equipe para ver se eu conseguia falar com meu amigo. Quando cheguei ao lado dele, esperei ele começar a conversa, mas não aconteceu.
— Então, o que você tem feito esse ano? — Eu apenas queria saber a razão de ele não ter respondido minhas mensagens ou atendido minhas ligações; até minhas fotos do Instagram ele parara de curtir.
— Estudando muito, sabe, sem tempo para vida. Quero conseguir uma boa bolsa para a faculdade... E você? — Ele continuou a andar e nem olhou nos meus olhos. Parecia que ele estava querendo esconder alguma coisa. Toda a confiança dele sumia ao falar comigo.
— Bem, tirando o fato de você ter me ignorado o ano passado interio. — Eu tentei me controlar, mas as palavras saíram da minha boca.
— Você lembra o que aconteceu ano passado, não lembra? — Seu tom demonstrava embaraço. — Ei, pessoal, chegamos! — Ele gritou se virando para trás quando chegamos ao ponto destinado.
— Depois a gente conversa sobre isso. — Foi a unica coisa que eu consegui dizer, antes que aquele asiatico esquisito e mais algumas pessoas fossem falar com Nathan. Eu fui caminhando até a borda do rio, tirei meus sapatos e mergulhei meus pés na agua.
— Se eu fosse você não faria isso. — disse um garoto parado perto de mim. Eu não o havia notado. Era meio alto, magro, com a pele bem clara e cabelos bem escuros. Usava um óculos estilo aviador. Ele se sentou ao meu lado.
— Por quê? — Perguntei, confusa.
— Você não viu a menina encharcada?
— Não. Eu cheguei atrasada ao acampamento, depois da divisão dos times. Sabe, minha mãe achou que o onibus saia às dez horas, mas na verdade saía às 9:30. Sendo assim, eu perdi o ônibus, e depois de ficar na estrada por uma hora e meia, minha mãe reconheceu que estávamos perdidas, então ela pediu informação num posto, só que o frentista deu informações erradas. — Tomei uma pausa para respirar. — Então a gente ficou mais meia hora tentando procurar a tal entrada que ele tinha passado. Resumindo: no final a gente parou em um posto, comemos e olhamos o mapa que tinha naquele lugar que ficam os descontos.
— Parabéns, sua semana já começou uma beleza. — Ele disse sorrindo. — Prazer, Jake.
— Olá, Jake, eu sou Lucy. — Eu respondi com a voz mais fã de One Direction que eu consegui. — Então, o que o trouxe para esse lugar e quantos anos você tem?
Ele ergueu uma sobrancelha, intrigado.
— Respondendo à primeira pergunta, minha mãe meio que me obrigou a vir aqui para criar novas amizades, porque ela meio que acha que eu sou aquele adolescente a la Daria, conhece a Daria, né? Aquela animação da MTV. — Eu balancei a minha cabeça como resposta. — E respondendo à pergunta dois. — Ele continuou. — Tenho 17 anos.
— Legal, eu também. Consequentemente, esse é o nosso ultimo acampamento. Então vamos brincar do jogo de perguntas, enquanto eles decidem o que devemos fazer.
— Uma cidade? — Eu comecei.
— Hmmm... — ele pensou por um momento. — Sydney.
— Por quê?
— Porque... Por que não? Porque sim.
— Me surprendeu, parece que alguem gosta de golfinhos ou de loiras surfistas. Sua vez.
— Um reality show?
— É sério isso?
— É incrivelmente sério.
— The Voice, porque Adam diva, né. Agora, uma banda?
— American Authors.
— Só conheço Best Day Of My Life.
Ele fingiu estar magoado.
— Nossa, não fala mais comigo... Se estivesse presa numa ilha...
— Lá vem.
— Companhia ou um copo d'água?
— Acho que companhia, porque a gente poderia procurar água e se eu estivesse morrendo de sede eu beberia o mijo dela. E se fosse extremo eu colocaria Demi Lovato para tocar enquanto eu corto os pulsos dela e bebo o sangue.
— Isso foi tão errado em tantos níveis diferentes.
Revirei os olhos.
— É ativista do Greenpeace, por acaso? Se a gente for pensar, tudo é meio errado. Ok, agora a próxima pergunta: 5 Seconds Of Summer ou The Vamps? Antes de falar alguma coisa, eu decorei os nomes de tanto escutar minhas amigas falarem, ok?
— The Vamps, porque o vocalista parece ser gente boa.
— Pra escutar numa ilha deserta?
— Hmmm... Aí não. Aí é mancada. Aí é falta de Jesus no coração.
Soltei um riso baixo.
— E se a terceira opção for o suicídio?
— É uma opção muito subestimada.
— Levanta a bunda daí, vamos ver o que eles estão fazendo. — Eu disse, tirando os pés da água e pegando meus Vans. Pus-me em pé e marchei até meu ex-melhor amigo, eu achava. Entrei no círculo fechado e fiquei encarando o mapa que o asiático estava segurando. Tinham alguns círculos marcados de azul, que eu deduzi serem nossas bandeiras e um círculo amarelo onde nós estávamos, mas estava faltando colocar a bandeira grande.
— Ei, vocês não decidiram tudo ainda? — Eu perguntei sem encarar Nathan, o que era difícil, já que as garotas da nossa equipe podiam fazer um calendário sem roupa que arrecadariam dinheiro até para comprar iPhones para crianças da África. Já os caras... Se eles fossem os últimos homens do mundo as mulheres virariam lésbicas. Para ter uma ideia, o asiático de cabelo azul era o melhorzinho, então o nível de beleza era extremamente horrível, tirando Nathan e alguns caras que pareciam morar na academia.
— Só falta determinar onde será a localização da bandeira maior. — Um cara de óculos boca de garrafa falou. Pelo jeito aquele lugar era totalmente da escola, parecia que os nerds mandavam.
— Deveríamos por numa árvore alta — Nathan sugeriu.
— Não, cara — O asiático balançou a cabeça. — Fica fácil de ver, e além do mais, um monte de gente guardando caixão em volta de árvores chamaria um pouco de atenção, não acha?
— Não — O presidente retrucou. — Acho que é nossa melhor opção.
Houve algum burburinho dividido, e eu resolvi me pronunciar:
— Mas aqui não é uma democracia? — argumentei. — Deveríamos votar.
Nathan ergueu uma sobrancelha para mim, um pouco frio.
— Vocês já votaram quando me elegeram presidente. Agora façam o que estou dizendo, é o melhor.
Não consegui juntar argumentos para combatê-lo. Uma parte de mim estava simplesmente chocada demais com a aspereza, e acho que meu semblante expressava isso. Eu voltei para onde estava, tentando esconder a minha expressão de surpresa e raiva. Percebi que Jake estava ao meu lado, mas não disse nada. Tirei meus sapatos e mergulhei de volta, meus pés, no rio. Fiquei encarando meu reflexo, reparando em algumas espinhas na minha testa.
Demorou uma eternidade, a meu ver, esperar a buzinar tocar. Quando ela tocou eu não sabia se queria continuar ali, com a água nos pés e sem nenhum pesamento na cabeça, ou levantar e ver para onde eu deveria ir. Bem, eu não precisei decidir, já que meu querido asiático do cabelo azul veio e disse que eu e Jake deveríamos ficar ali para a proteção do nosso presidente. Nós dividiríamos essa função com os ratos de academia, então supus que seríamos os estrategistas e eles os peões.
— Então. — Eu disse me aproximando dos meus colegas. — Nós temos duas opções: deixar o Nathan aqui ou escondê-lo em algum lugar.
— Quem é Nathan? — O cara do meio que estava com uma regata de academia verde com um símbolo que eu acho que era de uma marca de proteinas.
— Nathan é ele. — Jake disse apontando para Nathan, que estava do outro lado da campina. — Em minha opinião, acho melhor deixar ele à vista, como se estivesse sozinho, assim quando e se alguém vier a gente empurra ele para o rio.
Eu o encarei com minha melhor cara de essa é sua melhor ideia?
— Discordo. Acho que deveríamos ficar eu e você conversando como se não tivesse nada aqui e o Nathan e vocês três poderiam ficar escondidos protegendo nosso presidente.
Eles balançaram a cabeça em concordância à minha ideia e foram fazendo o que eu dissera sem nenhum questionamento. Quando estávamos todos em nossas posições, vimos uma garota de estatura média e um garoto alto, ambos magros. Estavam longe, tudo o que eu conseguia identificar eram cabelos escuros e passos rápidos. Não pareciam ter um destino. A menina resmungava alto, como se não se importasse de ser percebida.
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