The Blue Blood
15 #15
Notas iniciais
– Meu Deus, você está bem? – Lara se deparou com o rosto de Janna pairando sobre ela. A amiga observava, angustiada, enquanto tirava os cabelos colados na testa de Lara ensopada de suor. – Lara, diga alguma coisa. Por favor.
Janna apoiou a nuca dela com a mão. A cabeça de Lara pendeu para o lado e o rosto dela continuou imóvel e sem reação, embora Lara visse e identificasse o que estava acontecendo à sua volta. Ela estava consciente, mas não conseguia se mexer, piscar, falar ou controlar parte alguma do seu corpo. Nem mesmo seus pensamentos. A mente dela estava vazia, confusa e coberta uma densa névoa cinzenta. Tudo o que Lara conseguia sentir era dor. Seus olhos arregalados e imóveis estavam ficando secos e começaram a arder.
– Filha... – a voz de Anna soou carregada de preocupação e medo, vinda de algum ponto à direita. – Ela está bem? – A mãe de Lara indagou e tentou se aproximar, mas ainda estava muito fraca e teve de ficar sentada na cama.
– Ela está respirando... – Janna verificou a pulsação – E também tem pulso... Lara, por favor, está me ouvindo? Diga alguma coisa...
Nenhuma resposta. Lara estava vendo a amiga bem à sua frente, mas não conseguia dizer uma palavra ou soltar um único som que mostrasse que estava consciente. “Estou ouvindo, Janna. Estou bem.” Ela se esforçou ao máximo, mas não tinha controle sobre seu corpo. Aquilo era quase tão aterrorizante e assustador quanto suas visões. Lara tentou piscar, mas seus olhos não obedeceram.
– Acho que ela está ouvindo... – Janna aproximou-se um pouco mais – Talvez seja melhor colocá-la numa cama.
Ela se dirigiu a uma fada vestida com um lindo vestido amarelo claro, com cachos dourados e asas amarelas:
– Pode me ajudar? – Janna segurou a parte de cima do corpo inerte de Lara enquanto a fada segurou as pernas. As duas colocaram Lara num leito ao lado de John e começaram a verificar os reflexos dela com uma lâmpada de luz branca. Lara não mexia os olhos, embora a luz a incomodasse. A fada deu um beliscão em seu antebraço e Lara sentiu a dor, mas não conseguiu gritar ou se contrair.
– Está viva, mas sem reflexos. – A fada declarou.
Naquele instante, uma dúzia de magos liderada pelo mago vestido de roxo entrou na Sala de Cura e abriu caminho pela multidão até a cama de Lara.
– Com licença. – O mago afastou Janna dramaticamente com o braço e começou a murmurar algumas palavras. Segundos depois, a pedra roxa no topo de seu cajado começou a brilhar com mais e mais força, até que finalmente Lara não aguentou de dor nos olhos e soltou um grito.
Janna suspirou, cheia de alívio, e Anna soltou o ar com força e desabou na cama.
– Tudo bem? – Janna se aproximou dela com cuidado e Lara conseguiu assentir. Sua garganta ainda estava seca e áspera, o que dificultava a fala, mas pelo menos ela tinha controle sobre seu corpo novamente. Aquilo foi um tremendo alívio. Lara mexeu as mãos e os pés, se deliciando com a sensação de controlar seu corpo novamente e de não haver mais nada nem ninguém em sua cabeça para perturbá-la.
Por mais que não gostasse muito do mago roxo, ela teve de agradecê-lo por salvá-la.
– O-obrigada – Ela gaguejou baixo, quase como um sussurro.
– Oi? – o mago se inclinou e colocou a mão na orelha.
– Obrigada – Lara repetiu num tom mais alto e claro, levantando os olhos para o mago num leve ar de desafio. “Quer que eu repita de novo?”
– Ah, sim, não tem de quê. – O mago soltou um sorriso convencido. — Deviam ter me chamado antes, quando a mãe da garota foi possuída. – Ele olhou para as fadas na sala com desaprovação e algumas afastaram os olhares, incomodadas. – Eu sei que entraram em pânico, mas... Bem, algo grave podia ter acontecido.
“Algo grave podia ter acontecido? Algo grave aconteceu.”
– Hum- hum... – Lara limpou a garganta e engoliu em seco. – O que significa isso? – Ela disse numa voz áspera. – Kith agora pode possuir pessoas?
– Agora não, minha querida-e-inexperiente-nova-Iniciada. Meu Deus, Janna, não explicou nada a ela, não é? – O mago revirou os olhos roxos de um jeito teatral. – Ok, vamos lá. Kith sempre pôde possuir pessoas. Pelo menos desde que ela ficou tão... – ele fez uma pausa e estreitou os olhos – cruel, por assim dizer. Bem, tecnicamente ela deveria estar fraca no momento, mas como ela mesma disse por intermédio da sua mãe e como vocês mesmos viram, os poderes de Kith estão aumentando. Tivemos algumas batalhas nos últimos... hum... meses, e essas batalhas a deixaram mais fraca. Mas ela está recuperando sua força e poder para atacar de novo. E dessa vez... – Ele umedeceu os lábios. A expressão do mago mudou e ficou mais rígida e fria. – Dessa vez ela não vai falhar. Não vai deixar brechas ou chances para contra- atacarmos... Está acompanhando, senhorita...?
– Lara. E sim, estou acompanhando.
“Não sou assim tão lerdinha, obrigada.”
– Sim, Lara. – O mago brincou com o cajado, fingindo estar subitamente interessado em sua pedra roxa.
Então ela se lembrou de algo que devia perguntar.
– Senhor... mago? – Lara arqueou as sobrancelhas. “Até agora não sei o nome dele.”
– Meu nome é Stenne, criança.
– Sim, Stenne. Bem, antes das criaturas atacarem minha casa...
– Criaturas? – O mago franziu a testa. – Ah, sim, as criaturas das quais Janna e Lucas a salvaram, certo? – O mago olhou para Janna e esta assentiu. – Muito bem, o que houve antes?
– Acho... – Lara fez uma pausa e entrelaçou os dedos – Acho que Kith já tinha tentado possuir a minha mãe antes da fuga.
– Acha? – O mago estreitou os olhos e se aproximou um pouco. Algumas fadas haviam se afastado bastante, e até Janna parecia um pouco apreensiva. “Parece que têm medo dele...” Lara refletiu por um breve instante. “Esse mago deve ter muita autoridade e poder aqui dentro”.
– Eu tenho certeza. – Lara repetiu numa voz firme. Ela não tinha absoluta certeza, é claro, mas tudo indicava que o que acabara de acontecer com sua mãe ali na Sala da Cura fora o mesmo que acontecera no momento do ataque em sua casa. Anna tinha se comportado do mesmo jeito esquisito e tinha ficado com a mesma aparência abatida.
– Muito bem – O mago deu um sorriso torto e as contas roxas na sua grande barba branca reluziram com a luz. – E por que acha que isso aconteceu?
– Eu não acho que aconteceu, eu sei que foi isso...
– Ah, dê um tempo, garota. – O mago soltou o ar com força e sentou-se no pé da cama da Lara. Algumas fadas se remexeram, impacientes, como se esperassem o início de um sermão. O grupo de magos que entrara junto com Stenne minutos atrás formava um semicírculo em torno do seu líder. Todos eles usavam grandes túnicas largas e presas por cintos cravejados de pedras coloridas. Cada mago tinha sua respectiva cor para a roupa, os olhos, a pedra no cajado e as contas em suas barbas brancas que chegavam a cintura. Lara observou rapidamente cada um deles, registrando expressões em seus rostos. Nenhum dos magos parecia preocupado ou assustado; eles apenas pareciam indiferentes, como se murmurassem “Vamos logo, Stenne, temos coisas muito mais interessantes para fazer, tipo queimar cadáveres de gigantes...”
– Já entendi que você tem certeza de que a Kith possuiu sua mãe... – Stenne continuou – E aí? Vamos um pouquinho mais além, sei que consegue. Sua amiga aqui – Ela apontou para Janna – disse que você é esperta. Então vamos lá.
Lara revirou os olhos, impaciente. “Aonde ele quer chegar?”
– A questão é: por que ela fez isso? Qual o motivo para Kith agir dessa forma? O que você acha? – os lábios de Stenne se curvaram por baixo da barba cor de neve. “Ele está sorrindo?” As entranhas de Lara se reviraram de raiva. “Minha mãe é possuída, quase morre, aí eu sou possuída, quase perco o controle do meu corpo e é isso que ganho? Joguinhos para tentar adivinhar o que está acontecendo?”
– Não sei, talvez ela só quisesse brincar comigo. – Os olhos azuis de Lara faiscaram – Como alguém está fazendo neste exato momento.
– Não estou brincando com você, garota. – O mago dirigiu à Lara um olhar severo – Se quer mesmo ser uma boa Iniciada, a primeira coisa que precisa desenvolver é o seu autocontrole. O autocontrole é tudo. Conhecer e controlar suas emoções e pensamentos impede que o inimigo tire vantagem das suas fraquezas. Muito bem, mais uma vez. Por que acha que ela fez isso? Por que sua mãe?
O primeiro pensamento que veio à mente de Lara foi: “Para me afetar.” Mas não podia ser só isso. É claro que deveria haver alguma coisa por trás, outro motivo para Kith usar sua mãe e bem no momento da fuga.... Talvez Kith quisesse impedi-los de escapar de suas criaturas. Ou talvez quisesse dar um recadinho para avisar que seus monstros estavam chegando. Mas por que Anna? Por que não John ou a própria Lara? Kith podia ter entrado em sua mente ali mesmo, impedido-a de escapar e capturando sua família. Por que havia deixado que eles chegassem até a Sede?
A menos que ela não tivesse deixado...
Uma ideia louca começava a se formar na mente de Lara, mas ela duvidava que fosse verdade. Era coerente, fazia sentido, mas ainda sim...
– Da primeira vez ela não conseguiu. – Lara colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha e umedeceu os lábios. – Ok, e por que agora ela conseguiu? – Ela levantou os olhos para o mago, implorando por uma resposta clara e direta.
– Hum... Acho que você sabe. – Os olhos roxos do mago brilharam (de satisfação, diversão ou repreensão, Lara não soube dizer) – Realmente acha que não tiveram uma ajudinha na sua fuga até aqui?
Lara olhou para Janna.
– Sei que tivemos ajuda. Janna e Lucas...
– Sobre o que estamos falando mesmo? – O mago começou a brincar com uma das contas em sua barba — Ah, sim – Ele levantou o indicador de forma debochada — sobre Kith não conseguir possuir sua mãe antes da fuga. Certo, perguntei se acha que não teve uma ajudinha com relação a isso.
“Ajuda?” Será que alguém realmente havia ajudado Anna a não ser possuída da primeira vez? Mas quem? E Por quê?
Seria Stenne? Talvez o mago tivesse ajudado, mesmo a distância; ele devia ter poderes suficientes para isso. Mas como sabia o memento em que casa de Lara seria atacada? Não, não se encaixava.
Talvez Janna e Lucas tivessem ajudado com isso também, mas por que não contariam para ela?
Ou talvez outro Iniciado, com seu poder, ajudara a mãe de Lara.
Havia mil respostas possíveis.
A cabeça de Lara já começava a latejar quando Stenne disse numa voz baixa:
– Vamos lá, quem não estava em sua casa e poderia ter feito isso?
“Por que ele simplesmente não me diz o que está acontecendo?” Lara ainda estava confusa pelas visões que tivera e tudo o que queria era descansar um pouco. Era muita informação para pouco tempo. Lara nem queria pensar nos planos e nos ataques de Kith e no que isso poderia causar para o planeta e para as pessoas que Lara mais amava. Ela não suportaria ver seus pais, seus amigos, Alex... Todos eles indo embora. Com um arrepio, lembrou-se das visões das cidades sendo atacadas pelas criaturas de Kith. Caos, fogo, correria, mortes... Ela fechou os olhos.
– Não sei, Stenne. – Lara abraçou os joelhos. – Pode me deixar em paz, por favor?
O rosto do mago foi tomado por uma súbita expressão de preocupação.
– O que ela mostrou a você? – Ele se aproximou e estreitou os olhos. As contas em sua barba tilintaram. Pela primeira vez, Stenne parecia realmente interessado no que Lara tinha a dizer.
– Nada – Ela mentiu. – Nada importante.
– Acredito – o mago soltou um sorriso rouco e seco – Ela te possuiu, mas não te mostrou nada de interessante? Muito, muito lógico. – Stenne se endireitou na cama e Janna foi até Lara.
– Por favor, podemos falar disso depois? – Ela pôs a mão no ombro da amiga. – Lara deve estar cansada.
– Não temos tempo. – O mago levantou-se bruscamente e apertou a haste do cajado até os nós de seus dedos enrugados ficarem brancos. As fadas recuaram e os outros magos, pela primeira vez, reagiram.
– Stenne... – Uma dos magos, o de veste laranja, aproximou-se com cautela, segurando firmemente o cajado – Isso não é necessário.
Os olhos de Stenne faiscaram de ódio.
– Eu sei o que é ou não necessário. É a única forma de descobrir o que Kith mostrou à garota, já que esta não quer falar.
“Mas o que ele está pensando...”
Houve um estalo estridente. Em seguia, os olhos de Stenne foram afundando num denso tom de roxo, que foi escurecendo, escurecendo e escurecendo até ficar negro.
“Lamento ter de fazer isso...” Lara ouviu a voz fria do mago ecoando em sua cabeça. À sua volta, as imagens de pessoas se aproximando para deter Stenne se tronaram um borrão.
Lara não podia acreditar. Stenne estava entrando em sua cabeça, como Kith fizera há minutos atrás. A raiva era tanta que, se Lara estivesse totalmente consciente, teria dado um soco no rosto enrugado e flácido do mago.
“Não acredito.” As memórias começaram a voltar, lentamente, e as visões foram reaparecendo cada vez mais nítidas. Todas as visões que Lara já tivera estavam ali, abertas, expostas e claras, para que Stenne pudesse explorar e analisar tudo com seus olhos sábios.
“Nada de interessante?” O mago disse num tom debochado. As memórias de Lara corriam por sua mente como um filme acelerado, mostrando os momentos mais importantes e marcantes de sua vida. Sua infância, a doença de Hana, as primeiras visões, o momento em que Anna e John lhe contaram que eram seus pais adotivos, a manhã em que Alex revelara que podia ser pai do filho de Alice...
“Já chega, isso não te interessa.”
“Interessa sim.” A voz do mago retrucou, ecoando em todo o seu crânio. Lara podia sentir que sua cabeça era muito maior, mais densa e mais complicada por dentro do que por fora. Era como se a voz de Stenne vagasse por um imenso labirinto, se escondendo em cantos sombrios ou emergindo de buracos inexplorados que a própria Lara desconhecia. Fosse como fosse, ter alguém passeando em sua mente era, na melhor das hipóteses, bem desconfortável. Na pior, podia levar uma pessoa à loucura em segundos. Ela conseguiu, em meio ao caos de suas memórias, fazer uma nota: A primeira coisa que tinha de aprender, como Iniciada, era impedir que pessoas entrassem em sua mente a torto e direito.
Stenne continuava vagando pela mente dela, agora mais focado e concentrado nas visões.
“Por que ninguém me contou esses detalhes?” Ele reclamava. “Hum... Isso parece interessante...” O mago tomava notas fazia breves comentários enquanto avaliava as visões, uma a uma, ora com um ar levemente impressionado ora com ar de tédio. Lara podia sentir as reações do mago, uma vez que ele estava dentro de sua mente. A voz sussurrante de Stenne somada aos flashes das visões faziam a cabeça de Lara latejar e seu peito se encher de pânico. “Isso não está certo, não é normal, tenho que sair daqui...” Mas era sua própria mente. Seu próprio corpo. E ela não podia sair.
“Está tudo dentro de mim...”
Ela não podia controlar os próprios pensamentos, tinha alguém vagando dentro de sua cabeça e estava consciente disso. Mesmo assim, não conseguia parar. Não conseguia parar as visões, nem a voz de Stenne, nem a presença ameaçadora dele que fazia cada neurônio do seu cérebro estalar em sobrecarga elétrica.
Parecia que sua mente estava entrando em curto.
Lara queria afundar no escuro, e por um segundo conseguiu se imaginar num mar denso e negro, mas no instante seguinte ela estava de novo nas costas do gigante, olhando para o imponente castelo de pedra envolto pelo céu laranja e pelo lago de fogo... E o cavaleiro cinzento estava lá. Ele não tinha rosto, a pele era toda cinza e esticada sobre o crânio, fazendo-o parecer uma criatura horrenda. A mão do cavaleiro estava próxima, próxima demais, pronta para apertar o coração de Lara.
“Não é real, concentre-se.” A voz de Stenne soou vaga e distante.
“Ele ainda está aqui? Ainda está na minha mente?” Ela pensou debilmente enquanto o cavaleiro cinzento levantava as mãos repletas de garras e estendia em sua direção...
O coração de Lara disparou feito louco e a pressão do ar aumentou...
“Vou morrer” Ela pensou. A visão parecia cada vez mais real. Lara sentia os cheiros, ouvia os sons e podia apalpar a densa energia maligna que pairava pelo céu do lugar. O poder que vinha do enorme castelo, os reflexos vermelhos na pedra negra que banhavam a construção em sangue escuro... Tudo parecia tão, tão real.
“É real” Lara compreendeu com um surto de pânico. “Preciso sair daqui!”
Ela não conseguia se mexer.
“Não é real.” Uma voz ecoou em sua cabeça. Lara piscou.
“Stenne? Ainda está aí?”
Ele não respondeu. Ou talvez tivesse respondido, mas a mente de Lara estava tão confusa que ela não teria o escutado.
Ela não sabia mais o que era real e o que era ilusão. A vida se resumia a um borrão desconexo, um amontoado de memórias, visões e uma distorção perturbadora da realidade.
Lara nem se lembrava de que Stenne estava em sua mente, não se lembrava de onde estivera antes nem de quem realmente fizera parte da sua vida...
Uma mão a puxou do oceano de confusão.
– Está tentando morrer, garota?
***
Demorou um pouco para que o mundo voltasse a fazer sentido. Lara estava sentada na cama, a cabeça cuidadosamente pousada num travesseiro fofo. Janna olhava para ela aflita, depois balançou a cabeça e começou a gritar:
– Você podia tê-la matado! – As mãos dela se agitaram na direção de Stenne. O mago estava a alguns centímetros do rosto de Lara, analisando-a.
– Não era a intenção deixá-la perdida dentro da própria cabeça. – O mago fungou. Seus lindos e brilhantes olhos roxos estavam normais, nem um pouco ameaçadores ou questionadores. Ele fitava Lara com atenção, como se tentasse decifrar um enigma.
– Da próxima vez que tentar expulsar alguém de sua mente, trate de manter o mínimo de sanidade. – Stenne se endireitou. Todos na sala estavam num silêncio carregado e podia-se sentir a tensão crepitando entre os corpos. Algumas fadas balançavam as asas, aflitas, enquanto observavam Stenne com olhos arregalados.
– O que? – O mago abriu os braços – A menina está bem, graças a mim.
Lara escutava a conversa vagamente, num tom baixo e abafado. Sua visão ainda estava turva, mas ela sabia o que estava acontecendo. Teve vontade de levantar da cama e bater em Stenne. “Isso é culpa sua, seu mago idiota. Você tentou me possuir, como a Kith. Não é melhor do que ela.”
– Isso – Lara engoliu em seco e limpou a garganta para aumentar o tom de voz – Isso é culpa sua, Stenne. – Ela ficou feliz e um tanto surpresa em ouvir claramente o som da sua voz e constatar que podia controlar suas palavras de novo.
– Culpa minha? – o mago pareceu ofendido – Eu estava coletando informações. Se você não tivesse dado uma de espertinha manipulando os pensamentos para se livrar de mim...
– Não manipulei – a voz de Lara falhou – Não... – a raiva a fazia engasgar. “Sínico.”
– Ah, sim, sim – Stenne se pôs em marcha, indo em direção à porta ornamentada que levava de volta ao corredor. Ele fez um aceno com a mão, chamando os outros magos. Num rodopio de vestes coloridas, eles deixaram a sala em silêncio.
Lara fechou os olhos com força.
– Ele não podia ter feito...
– Lara, fique calma – Janna ajoelhou-se ao lado dela – Robert saberá disso, e não vai gostar nem um pouco.
As fadas na sala se remexeram e começaram a murmurar baixinho entre si. Anna perguntou num tom cauteloso:
– Quem é esse tal de Robert?
– Esse tal de Robert – respondeu uma das fadas – é só o representante da Rainha. Ele responde pela Sede. Em outras palavras – as pulseiras ornamentadas dela tilintavam suavemente enquanto a fada gesticulava — ele controla quem entra e quem sai da Sede, quem fica e quem vai embora; ele manda nesse lugar – A fada cruzou os braços.
“Então Stenne não manda nesse lugar?” Lara deu um sorrisinho. “Muito arrogante para um subordinado.”
– E quando vamos falar com esse... – John começou a falar, mas se deteve sobre o olhar de advertência que Janna lhe lançou – Com o Robert, quero dizer. Podemos ir agora?
_ Não é tão simples assim, senhor John – Janna mordeu o lábio. – Robert e um homem muito ocupado.
– Sim, sim, mas esse é um assunto urgente, não? – Anna contrapôs – Devemos falar com ele o quanto antes. Também precisamos saber se já é seguro voltarmos... Bem, voltarmos para casa. – Anna esticou o braço para segurar a mão do marido. Os dois trocaram um olhar cúmplice.
– Mãe – Lara começou — Não podemos voltar, você mesma disse, é perigoso.
– Uma hora teremos de voltar, querida. Esse lugar sim é perigoso.
– Perdão, senhora – uma das fadas ajeitou nervosamente uma mecha de cabelo azul atrás da orelha – Esse lugar não é perigoso. Na verdade, é um dos lugares mais seguros para Iniciados. As coisas ficaram fora de ordem depois que vocês chegaram.
– Estou vendo – John disse com sarcasmo – Vi como aquele mago entrou na mente da minha filha – Ele se levantou – Não me venha dizer que esse lugar é seguro. Não vamos ficar.
– As criaturas estão lá fora, senhor John – Janna começou, mas foi bruscamente interrompida.
– NÃO ME IMPORTA! – ele esbravejou – já ficamos muito, muito tempo nesse lugar. Vamos embora.
– Pai – Lara tentou protestar, mas sua cabeça ainda latejava e ela tinha dificuldade para por as palavras em ordem. “Esse é o pior momento para explicar para ele por que não posso ir. Como conto para eles que sou uma Iniciada?” Lara conhecia o lugar há pouco tempo, mas não queria ir embora. Aquilo já fazia parte de sua vida e ela estava envolvida demais para partir e fingir que nada acontecera. “Kith pretende atacar o planeta.” Ela recordou-se das visões com um arrepio. – Não posso ir, pai. Sinto muito. Se você a mamãe quiserem voltar para casa...
– Você está se esquecendo de quem decide, mocinha – O pescoço de John estava vermelho e os olhos dele brilhavam de raiva – Só quero a segurança da nossa família. Não dei opções, disse que vamos embora. E ponto.
– Não – Lara disse no tom mais firme que conseguiu. “Não posso, pai, eu tenho de ficar com eles, ainda tenho tantas coisas para descobrir...”
– NÃO? – John inclinou-se na direção dela e apontou um dedo para Lara. A fúria excessiva do pai já estava deixando-a preocupada. “Por que ele está tão ansioso para sair daqui?” – VOCÊ VAI E PONTO!
– John – Anna se levantou a caminhou até o marido – Se acalme. – ela colocou a mão no ombro de John, mas foi brutamente afastada.
– Você foi possuída, Anna. Eu vi com os meus olhos enquanto você era... Aquela coisa – ele engasgou – E depois a minha filha, a nossa filha...
– Pai, fica calmo. – Lara tentou se levantar, mas Janna a manteve deitada. – Esse lugar é o melhor para nós agora – Lara continuou, torcendo para que sua voz não soasse trêmula demais. – Se ficarmos lá fora, sem a proteção dessas criaturas, pode ser muito pior.
John pareceu considerar a ideia por um segundo. Anna pôs o braço na cintura do marido e sussurrou para ele suavemente:
– Podemos ficar mais um pouco. – Ela fechou os olhos – Talvez Lara tenha razão.
A expressão no rosto de John foi indecifrável, mas Lara julgava que ele estava perplexo. Num segundo Anna estava apoiando-o, e agora dava razão à filha. “Afinal, ela quer ir ou quer ficar?” Lara entendia a preocupação dos seus pais, porém sentia que lá fora a situação seria muito pior. Por mais assustadoras que as coisas tivessem sido nas últimas horas, Lara tinha certeza de que a Sede era o lugar mais seguro para ela e sua família, pelo menos no momento. “Clara quase morreu tentando chegar até aqui, com certeza esse lugar é seguro.” A imagem de Polimo desfalecendo na grama e dando seu último suspiro invadiu a mente de Lara sem aviso. “E isso é só o começo.” Estremeceu.
– Tudo – John fez uma pausa e retribuiu o abraço da mulher – Tudo bem, ficamos mais um pouco. Mas só mais um pouco. Quando o sol nascer, vamos embora.
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