The Blue Blood
16 #16
Notas iniciais
Lara abriu a boca para continuar a discussão, mas fechou-a um segundo depois, percebendo que aquilo era o melhor que conseguiria deles, pelo menos por hora.
– Sim, vamos arrumar um quarto descente para vocês – o rosto de Janna se iluminou – uma cama que não esteja na Sala de Cura. – Ela saiu rapidamente, acompanhada do ecoar de suas botas contra o chão azul, polido e brilhante. Cada vez que Lara olhava as superfícies do lugar – paredes, chão e teto – tinha de se convencer de que aquilo não era mesmo gelo. Era tão límpido e magnífico que às vezes era difícil absorver todo o requinte e esplendor do lugar. “É mágico” ela concluiu com um sorriso no rosto.
Àquela altura, as várias fadas que flutuavam pelo salão já voltavam aos seus afazeres. Um trio delas estava agrupado envolta de Clara, tratando dos ferimentos da menina com mãos hábeis e ágeis. Lara observou o talento delas com uma pontada de inveja. Como enfermeira, ela tinha certa prática em tratar de ferimentos e fazer curativos, mas as fadas tinham habilidade e graça surpreendentes. Os movimentos eram suaves e de uma leveza inacreditável. Lara piscou várias vezes antes de desviar olhar e perceber que Janna já voltara.
– Essa foi por pouco. – A amiga sentou na beirada da cama. Lara passou os dedos sobre o colchão do leito, macio e praticamente transparente. – Quase que seus pais levaram você pelos cabelos. – Janna sorriu.
– Ah, sim. – Lara se remexeu – Como vou contar para eles? Quer dizer, uma hora eles terão de saber por que não posso ir embora.
Janna desviou o olhar e pareceu um pouco incomodada. Aquilo não era bom sinal.
– Eu acho – Ela fez uma pausa e fitou as mãos. Começou a torcer os dedos.
– O que foi, Janna? – Lara se endireitou, a impaciência já subindo até a boca de seu estômago – O que houve?
– Eu acho que eles já sabem. – Ela soltou o ar com força.
Lara julgou não ter ouvido direito. “Meus pais... Como saberiam disso?” Se soubessem, teriam previsto o ataque das criaturas à casa, cooperado na fuga e não tentariam ir embora. “Se eles soubessem, teriam me contado. Não?”
Então ela se lembrou de que eles haviam mentido sobre serem seus pais biológicos até que ela completasse quinze anos. Não fora bem uma mentira, não de verdade. Eles apenas omitiram a verdade. Lara não tinha raiva nem ressentimentos quanto a isso; amava seus pais adotivos e nunca se preocupara em saber quem eram seus pais biológicos. John e Anna haviam criado-a e dado a ela tudo o que precisava – comida, uma boa casa, escola, roupas e o mais importante, um lar. Ok, talvez a curiosidade a incomodasse às vezes, mas ela não sentia aquela necessidade doentia de saber quem eram os pais. “Sou quem sou. Descobrir sobre meus pais biológicos não muda nada.”
Ela entendia que John e Anna haviam omitido a verdade para protegê-la. E se tivessem feito a mesma coisa com relação a Lara ser uma Iniciada? A ideia era coerente e fazia sentido, sentido até demais. De repente, memórias jorraram violentamente pela mente dela, como água vazando de uma mangueira da ata pressão: a expressão do pai quando compreendeu quem invadira sua casa; a preocupação dos pais quando Lara estava voltando do hospital, depois das visões; a apreensão deles durante todo o percurso até a Sede... Na hora, Lara achara tais atitudes compreensíveis e normais, coisas que qualquer pai ou mãe faria. Nunca atribuiu essas ações a um motivo em especial. Fazia sentido. Mais memórias apareceram, dessa fez da infância.
A primeira visão que Lara tivera foi um sonho, mas não menos perturbadora por isso. Ela se lembrava vagamente do rosto de Kith e do tremor que sentira quando era apenas uma criança de oito anos assustada e agarrada às cobertas, gritando pela mãe.
– Não se preocupe, filha – Anna sussurrara em seu ouvido depois de acalmá-la. – Não se assuste, estamos aqui. Vamos protegê-la sempre – e acariciara os cabelos da filha com ternura até que Lara pegasse no sono.
“Mãe.” Lara sentiu um aperto forte no peito.
– Ela sabia. Meu pai também. Por isso querem ir embora, não? Não querem que eu fique aqui para ajudar. Acham perigoso.
Janna assentiu calmamente.
– Você deve esperar um pouco para falar como eles. Vão entender, Lara. Não podem obrigá-la a ir embora. Você é uma de nós agora.
Você é uma de nós agora...
As palavras de Janna ecoaram em sua cabeça. A verdade era que, por mais que Lara achasse a Sede um lugar fascinante e por mais que quisesse descobrir tudo a respeito dos incríveis habitantes de Millions, ela sentia medo. Uma guerra estava por vir e Lara não estava preparada. Janna e Lucas estavam acostumados àquilo, provavelmente já subiam lutar e dominar suas habilidades. Ela, por sua vez, acabara de conhecer aquele lugar e aqueles seres. Não estava pronta.
Sua mente foi tomada por um pensamento tranquilo e doce: ela estava em casa, assistindo televisão com os pais e com a irmãzinha, Hana. Depois saiu e foi comer um lanche com os amigos. E então se encontrou com Alex e eles foram ao cinema. Tudo perfeito, comum e normal. Sem magia. Era assim que sua vida fora, e assim deveria continuar.
– Janna, eu não posso ajudar. – As palavras queimaram sua boca como ácido – Sinto muito.
Lara abaixou a cabeça e sentiu os ombros pesando. A tensão e adrenalina das últimas horas foram se dissipando e finalmente a exaustão tomou conta dela.
– Por quê? – O tom de Janna era triste – Olha, sei que está confusa. Acabou de chegar. Mas não ponha tudo a perder, Lara – ela se aproximou da amiga. Janna tinha olhos calorosos e amigáveis, era risonha e divertida. Qualquer um que a tivesse como melhor amiga levantaria as mãos para o céu. Lara sentiu a garganta secando só de pensar em deixá-la na mão. “Ela nunca me abandonou quando precisei”, pensou melancólica.
– Aliás, se não ajudar, não pense que poderá voltar para casa tranquilamente e continuar com sua vida. Kith vai atacar, você sabe, e logo as batalhas e os ataques vão estourar pelas cidades... Não há como fugir do que vai acontecer. Sua sorte –A expressão de Janna ficou séria e seus olhos perderam o brilho – é que você está sabendo disso antes. A maioria das pessoas só saberá o que está havendo quando o ataque começar de fato.
– Está dizendo que não há nada que possamos fazer para impedir os ataques? Então por que estamos aqui? – Lara sentia-se muito irritada. “De que adianta tudo isso se não podemos evitar o desastre eminente?”
– Não podemos impedir os ataques, mas podemos minimizá-los. Lutar contra as criaturas da Kith e ajudar os humanos.
Ajudar os humanos. E como era estranho falar dos humanos em terceira pessoa, como se elas fossem uma aberração mutante ou coisa do gênero...
– Sim, ajudar os humanos – Lara repetiu baixinho. Os humanos... Seus pais... Alex... Hana... De repente, ela se deu conta de como estava cansada.
– Janna, acha que posso me deitar um pouco? – Lara massageou as têmporas – Estou cansada. Preciso de um tempo para abstrair tudo isso.
– Ah. – Ela se levantou, e pareceu decepcionada – Tudo bem, então. Mas achei que você gostaria de conversar um pouco, sabe. – Janna apertou os lábios – sobre a Sede ou... Coisas do tipo.
Havia muito o que descobrir, inclusive o motivo pelo qual a nova Iniciada, Clara, desejava tanto falar com Lara. Mas a novata ainda estava na cirurgia e várias fadas trabalhavam entorno dela, sem uma previsão de término para o serviço. Além disso, provavelmente obrigariam Clara a descansar após os cuidados médicos até que ela se recuperasse e estivesse mais forte. Lara não queria esperar, já que a informação que a menina trazia parecia ser importante, mas decidiu que ficar acordada e angustiada enquanto Clara permanecia inconsciente não ajudaria em nada.
– Só um pouco de descanso, Janna – ela sorriu para a amiga – depois farei tantas perguntas que você vai implorar para que eu volte a dormir – Lara deu um empurrão no braço de Janna e saltou da cama. Ambas começaram a caminhar pelo chão liso e frio, indo em direção à porta da Sala da Cura.
– Ah! – os olhos de Janna estalaram – Quase me esqueci... Está com o meu comunicador aí? – ela estendeu a mão.
A mente de Lara vagava em suas visões e demorou um pouco para sintonizar e processar o que Janna estava dizendo.
– Comunicador? – Então ela se lembrou do pequeno objeto que a amiga lhe emprestara para fazer ligações. Lara se perguntou onde Alex estaria no momento e porque ele não atendera nenhuma de suas chamadas. “Me pede para ligar assim que possível, e então desliga o telefone.” Ela revirou os olhos.
– Hum- hum – Janna pigarreou – Não conseguiu falar com ele, não foi? – O rosto dela tinha uma expressão divertida, como se dissesse “Viu só, sabia que ele não atenderia.”
– Ah, dê um tempo – Lara retirou o comunicador do bolso e entregou-o a Janna.
– Viu só? – Ela continuou provocando – Eu disse que ele não era seu tipo. Agora você já chegou ao estágio “ser ignorada”.
– Janna, por favor. Já estou bem irritada com ele.
Janna enrolou a ponta de sua trança ruiva no indicador e fez uma pausa antes de retrucar:
– Não, você só está chateada por pensar que ele está confortando a Allice e não procurou sequer saber se está tudo bem. Você não está brava, não de verdade. – o canto dos lábios dela se curvou – dá para ver nos seus olhos que está decepcionada, e não zangada.
Sim, era a mais pura e simples verdade. Lara tentava, de todas as formas, entender a situação complicada na qual Alex se encontrava. Ele não pensara muito no que estava fazendo, mas isso não o livrava das consequências com as quais teria de lidar. Quanto a Allice, Lara nunca fora sua amiga; a menina era fútil, uma patricinha rica, mimada e popular, que sempre conseguia tudo o que queria. Imaginar aquela garota grávida levava à mente de Lara dois quadros: ou ela ficaria arrasada e sua vida desmoronaria, ou ela ficaria ainda mais nojenta e mimada – supondo que ela aceitasse o bebê. Mas não era o que estava para acontecer. Segundo Alex, ambos estavam pensando no aborto, e os pais de Allice também. Ela não conseguia explicar o porquê, mas sentia um comichão e um aperto no peito quando mulheres falavam em abortar seus bebês. Talvez por que parecesse cruel, imoral e uma solução fácil para a criança não planejada. Tantas pessoas planejando um filho, e tantas outras abortando. A própria Anna, depois de sete anos de casamento, finalmente adotara Lara porque não conseguia engravidar. Anos depois, Anna descobriu que estava grávida e foi uma verdadeira festa. Lara sempre pensou na chegada de bebês como motivo de alegria e comemoração, não como motivo de discórdia. Não sabia explicar exatamente o que a levava a pensar assim, mas ela não queria que Allice abortasse. Não só por parecer perigoso, arriscado e ilegal, mas sim pela criança, que tinha a chance e o direito de viver, crescer e se tornar alguém. Muitas das pessoas que faziam parte de sua vida poderiam não existir se seus respectivos pais tivessem optado pelo aborto. “Minha mãe biológica me entregou a adoção.” O pensamento a atingiu em cheio “Ela não queria me criar. E se tivesse feito um aborto? Eu não estaria aqui hoje.” A ideia fez um arrepio frio correr pela sua pele.
Enquanto isso, outra parte de sua mente gritava. “Mas isso é loucura, a menina tem só dezesseis anos...” Ela sabia que no fundo era loucura, que uma adolescente, principalmente como Allice, não poderia criar um filho. E o Alex... Bem, será que Lara aceitaria as visitas de Allice e as conversas entre os dois quando um fosse levar a criança à casa do outro? Aceitaria os dois dividindo momentos tão especiais, mesmo que não estivessem juntos?
Lara percebeu que seu estômago estava dando cambalhotas e roncando de fome.
– Você está bem? – Janna parou de anda a meio caminho da Praça Central e dirigiu um olhar cauteloso a Lara – Ei?
Lara assentiu devagar, sem levantar os olhos.
– Acho que um lanchinho antes de dormir vai bem, não? — Ela olhou para Janna e indicou a praça com um aceno de cabeça – A comida desse lugar parece boa.
– Você se surpreenderia com o gosto dessas bebidas e canapés coloridos. – Janna fez uma careta – E não seria uma surpresa agradável.
– Está brincando – Lara riu – Esse lugar parece um espetáculo, vai me dizer que essa comida toda é ruim? Olha só para aquelas fadas ali no canto, devorando aquela tortinha – Lara dirigiu o olhar na direção de um grupo pequeno de fadas que se deliciavam em frente à mesa de comida. – Parece que toda a comida é coberta de glacê colorido.
– Acredite – Janna segurou a amiga pelo braço arrastou-a na direção oposta à mesa de petiscos. – Não se parece nem um pouquinho com glacê.
– Mas você não vai nem me deixar experimentar? – Lara falou com voz de criança – Você é má, Janna.
– Ainda vai me agradecer – Janna revirou os olhos e sorriu – Acha que estou exagerando? Temos uma cozinha só para os Iniciados, onde fazemos nossa comida e comemos como gente normal. Comida alienígena não é uma boa ideia.
Ponderando aquilo de um ponto de vista racional, fazia todo sentido. Lara até se surpreendeu com facilidade com que perdera a cautela, a desconfiança e quase se esquecera da magnitude da situação: ela estava em uma Sede de seres alienígenas.
– Ok, pode não ser uma boa ideia, mas que parece gostoso, parece.
– Talvez um dia eu perca o juízo e deixe você experimentar um. Nesse momento, saiba que deixei de ser sua amiga.
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