Ela acordou sem ter a menor ideia de onde estava. Tudo a sua volta parecia denso e cinza, frio e úmido. Lara não sentia os pés no chão; estava flutuando. Piscou várias vezes e tentou, em vão, enxergar além da névoa cinza e densa. “Onde estou?” Ela tentou andar, mexer as mãos, braços, pernas ou pescoço, mas era impossível. Seu corpo estava paralisado, pairando no vazio.

À frente, a névoa passou a se movimentar e formou um redemoinho, que foi ficando cada vez maior e lançando correntes de vento cada vez mais fortes. Lara tentou levar as mãos ao rosto para proteger os olhos antes de lembrar-se de que não conseguia se mexer. A névoa se dissipou e deu lugar a um rosto, um lindo rosto flutuando no mar de cinza pálido.

Kith.

Lara não podia negar, a mulher tinha mesmo uma elegância e um porte de rainha. Era bonita, de rosto esguio, lábios cheios, vermelhos e apertados numa linha reta e rígida. Os cabelos eram lindos, escuros e ondulados como os de Lara, mas era os olhos o que mais lhe impressionava. Olhos azuis tão profundos, duros e cruéis, mas ao mesmo tempo de um tom tão lindo, quase hipnotizante...

“Lara...” A voz profunda de Kith ecoou em sua mente. O rosto na névoa não moveu um único músculo da face para falar. “Vou lhe mostrar umas coisas, menina. Ainda tão inocente, e sabe tão pouco... É quase uma pena ter de fazer isso com você.” A voz oscilava, ficando mais baixa, mais alta, mais profunda... Como se estivesse fazendo um passeio pelo cérebro de Lara, pegando caminho por seus neurônios e fazendo-os estalar de confusão e pânico. Era como se Kith pudesse ver tudo o que tinha em sua mente, como se soubesse cada passo da vida ela, cada erro, cada medo, cada sonho, cada desejo... Lara sentiu-se totalmente vulnerável e exposta, como se Kith pudesse explorar toda a sua essência e extrair dela qualquer informação. Aquilo a deixou apavorada. Quando a névoa começou a mudar novamente, Lara descobriu que, de jeito nenhum, queria ver o que Kith lhe mostrasse. Seria algo horrível, ela podia sentir. Lara sabia que, se deixasse que Kith a dominasse como fizera com Anna, perderia a sanidade. Não é muito difícil enlouquecer sabendo que uma pessoa pode passear pela sua cabeça e ter acesso a todos os pensamentos, medos e fraquezas.

Imagens passaram por ela como um flash: Hana brincando, depois descobrindo que estava doente e indo para o hospital. Anna e John dizendo que, na verdade, não eram seus pais biológicos. Alex sorrindo e acariciando a barriga de Allice. Lara se afogando numa piscina enorme e sem fundo, se debatendo até seus pulmões arderem e finalmente se encherem de água...

“Já chega...” Lara tentou bloquear os pensamentos. Os flashes pararam, mas só por um segundo. Na visão seguinte ela pairava sobre uma Nova York devastada e em chamas. Gigantes de pedra lutavam, estraçalhavam prédios e tanques do exército como pecinhas de lego. A cidade que apareceu depois foi o Rio de Janeiro, inundada pela água do mar e atacada por mais criaturas grandes, negras, repletas de garras nas mãos e com vários olhos no rosto. Mais uma cidade, mais caos. Toronto, Xangai, Tokyo, São Paulo, Sidney, Veneza... Viaturas da polícia, tanques do exército, corpo de bombeiros, carros de sobreviventes da chacina, chamas, cinzas, gritos... Gritos cada vez mais altos e desesperados...

“Chega. Saia...”

“Seu planeta será destruído, querida”– A voz de Kith estava mais alta. A próxima visão foi de Janna com um ferimento horrível na barriga, morrendo nos braços de Lucas.

“Não!” – Lara queria gritar, sair dali, arrancar Kith de sua cabeça de uma vez por todas.

Anna e John estavam mortos. Clara estava caída no chão ao lado de um córrego, de onde dezenas de monstros emergiam para atacar mais uma cidade...

“Entendi, já entendi.” Ficava mais difícil respirar. As visões foram acabando e Lara se concentrou em não pensar em nada, ficar o mais quieta possível, tentar encontrar a razão e separar o que era real do que era imaginação.

***

E ela estava em casa. Estava tranquila em sua casa, sentada na cama com um livro nas mãos. Ela respirou fundo, aliviada. “Será que foi um sonho? Devo ter adormecido.” Mas fora tudo tão real...

– Lara. – Anna entrou no quarto.

– Ah, graças a Deus – Lara saltou da cama e envolveu o pescoço da mãe com os braços. – Que bom que está bem, mãe.

Anna deu tapinhas nas costas da filha, parecendo um pouco confusa.

– É, sim, estou ótima. O que houve, meu amor? – Anna se afastou e observou Lara com cuidado. – Tudo bem?

Ela parecia incrivelmente bem e tranquila, o que fez Lara relaxar e quase acreditar que tudo fora um sonho. Nada de Iniciados, criaturas mágicas, gigantes, magos... Então a expressão de Anna endureceu e ela disse:

– Alex está lá embaixo. Desça e vá vê-lo. – E saiu.

Lara não sabia o que fazer. Até que ponto o que ela vivera havia sido ilusão? Será que parte da gravidez de Allice havia sido um sonho também? Uma centelha de esperança aqueceu o coração de Lara o fez bater mais forte. Ela checou o cabelo no espelho, arrumou as roupas e desceu com um sorriso nos lábios.

– Oi – Alex disse timidamente quando ela chegou à sala. Ele estava sentando no sofá, de cabeça baixa, e não disse uma palavra enquanto Lara se aproximava. “É verdade” Ela compreendeu com o coração murchando. “A gravidez da Allice é real.” Lara suspirou e fechou os olhos.

– Tudo bem? – Alex levantou os olhos para ela. Algo estranho faiscava no olhar dele.

– S-sim – Lara gaguejou e se sentou ao lado dele. – Quer... hum... – ela mexeu as mãos e desviou o olhar. – Quer falar sobre...

– Lara, tem certeza de que está bem? – Ele inclinou o rosto para tentar olhar nos olhos dela e se aproximou um pouco. A aproximação dele fez Lara ficar um tanto nervosa, mas Alex parecia bem à vontade e nem um pouco embaraçado. Na verdade, parecia até indiferente. Lara colocou uma mexa de cabelo atrás da orelha, ousou encará-lo e disse na voz mais firme que conseguiu:

– Você e a Allice...

O rosto de Alex se iluminou com um sorriso apaixonado.

– Ah, sim. – Ele abaixou os olhos e soltou um riso sedutor que a fez derreter. – Estamos bem, obrigado por perguntar.

“Ele não está falando sério.” Lara piscou e encarou-o com um ar perplexo. Quase pediu para ele repetir, porque ela julgava que não ouvira direito. Mas Alex não disse nada, não pareceu confuso, embaraçado, culpado, em conflito... Nada. Ele parecia normal, tranquilo e seguro do que estava dizendo.

– Alex, o que você... – Lara uniu as sobrancelhas – Sério? Você e a Allice estão bem?

Ele assentiu.

A raiva tomou conta das entranhas de Lara, subindo uma onda vermelha e deixando seu rosto todo corado.

– O que você está dizendo, Alex? – o tom dela era despretensioso e cheio de indignação. Ele parecia confuso.

– Tudo... Tudo bem entre mim e a Allice, não foi isso que perguntou?

“Mas é muito sínico.”

– Então decidiu ter pena dela por que Allice está grávida, é isso? – Os olhos de Lara arderam e ela sentiu um aperto no peito. “Ele não está negando... Por que não está negando?”

– Pena? – Alex franziu a testa – Não tenho pena dela. Aceitamos cuidar desse bebê desde o começo. Além do mais, sei que pode ser difícil, mas nos amamos muito e...

Lara parou de ouvir. Era tudo tão absurdo e tão ridículo que ela começou a rir.

– Desde quando ama a Allice? – Lara se remexeu e aumentou o tom de voz. – E... – Ela sentiu aas lágrimas vindo e tentou controlá-las. “Não vou deixar que ele me veja assim. Nada de choro. Não aqui, não agora.”

– Eu sempre a amei, você sabe disso, Lara.

Ela engoliu em seco e respirou fundo. “Não surta, não surta, mantenha a calma...” Mas os olhos dele brilharam. Os olhos dele brilharam, apaixonados, quando ele falou da Allice. As lágrimas escaparam dos olhos de Lara e sem permissão começaram a rolar pelo seu rosto. “Não, você não a ama, não é verdade...” – Não... Não faça isso. – Ela disse numa voz fraca.

Alex estava totalmente sem jeito.

– Ei, tudo bem, olha...

– Por favor. – Lara levantou os olhos para ele. – Não...

Então ela se aproximou para beijá-lo. Lara estava brava com Alex dias atrás e por causa da gravidez de Allice eles haviam brigado... Ela se lembrava muito bem disso, por que ele estava se fazendo de desentendido?

Alex desviou o rosto. Ele parecia confuso e um pouco ofendido.

– Olha, só vim devolver isso. – Mostrou o livro que estava na mesinha de centro. – Eu...

– E nós? – Lara disparou, a raiva e o ressentimento a consumindo por dentro.

Alex franziu a testa.

– Nós? – Ele arqueou as sobrancelhas.

“Isso não está acontecendo. Não pode ser real...”

“Não é real.”

Lara se levantou do sofá num pulo.

– Saia. – sua voz nunca tinha soado tão firme e persuasiva. Ela apontou para a porta – Saia. Agora.

Alex se levantou.

– Olha, não sei o que houve com você em nem porque está me expulsando da sua casa...

– Não você. A Kith.

A visão se desfez e Lara se viu deitada no chão transparente da Sala da Cura, cercada de olhares apreensivos.

Notas finais
Aviso: minhas aulas estão voltando e a frequência de postagem vai cair :( mas pretendo continuar com a história, só que com intervalos maiores entre os capítulos