The Blue Blood
13 #13
Notas iniciais
Janna estava alarmada e ofegante, nem houve tempo para que Lara lhe perguntasse para aonde estavam indo. Segurando-a pelo pulso, Janna correu com Lara no seu encalço até a Sala da Cura.
– Uma menina, a nova Iniciada... – Janna tomou fôlego.
– Deixe-me adivinhar... – Lara fez uma pausa dramática e arqueou as sobrancelhas – Clara?
Janna finalmente parou para fitar a amiga e disse:
– Como sabia? – Ela jogou os cabelos ruivos e cacheados para longe do rosto.
– Encontrei o guardião dela lá fora. Polimo, um centauro. Ele me contou sobre Clara.
– O guardião? – Janna pareceu preocupada – Bem, e onde ele está?
– Ele... Bem, ele está morto – Lara sentiu um aperto na boca do estômago. “Eu o vi morrendo e não pude ajudá-lo.”
– Nossa, é uma... Uma pena – Janna parecia abalada. – Até agora só sabemos de um guardião que ainda esteja vivo. Os outros seis acabaram mortos.
– De quem é o guardião que ainda está vivo? – De repente, Lara se perguntou por que ainda não questionara Janna e Lucas sobre seus guardiões. Será que era o guardião de Janna que ainda estava vivo? Ou o de Lucas? Ou seria ainda de outro Iniciado que Lara não conhecia?
Antes que pudesse obter uma resposta, Janna afundou pela Sala de Cura, o barulho dos sapatos ecoando pelo quarto silencioso, e se dirigiu a um leito na fileira da direita. Na quinta cama, uma garota estava largada, gemendo de dor, enquanto várias fadas trabalhavam entorno dela.
– Clara? – Janna se aproximou cuidadosamente, como se temesse que a menina entrasse em choque de repente. Talvez, pelo estado em que se encontrava, aquilo não nem fosse tão absurdo. – Como se sente? – Janna pôs a mão no braço da garota e esta virou o pescoço para encará-las. Clara tinha olhos escuros, pele morena e um cabelo todo encaracolado, que apesar de embaraçado no momento, ainda era de dar inveja. Lara, ao contrário de muitas garotas da sua idade, amava cabelos bem cacheados, e sempre quisera que seus cabelos fossem assim. Com o tempo, ela acabou se conformando com suas ondas negras e deixou de se importar com isso. Ainda sim, Clara devia ser uma moça bonita – quando não estava tão machucada – e também era jovem, na faixa dos quinze anos. Era pequena, baixinha e magra; de rosto, queixo, nariz e lábios bem finos. Infelizmente, todos esses traços estavam marcados por arranhões e hematomas. Lara se remexeu, pouco à vontade, quando os olhos de Clara grudaram nela.
– Você... – Ela tossiu e um fio de sangue saiu de sua boca.
– Tem certeza de que é uma boa hora? – Lara sussurrou para Janna, apreensiva – Ela parece mal, ainda precisa se recuperar.
Janna balançou a cabeça e comentou:
– Eu sei, não é uma boa hora, mas ela insistiu e disse que só deixaria as fadas aplicarem anestesia para curarem os ferimentos quando conversasse com você.
Lara franziu o cenho, a curiosidade já fazendo sua pele formigar. “O que essa menina quer comigo?”
– V- você... – Clara começou novamente, limpou a garganta, engoliu com dificuldade e prosseguiu – Você é a Lara? – Os olhos negros da menina se fixaram nos olhos azuis de Lara, e por um momento esta pensou ter visto certo alívio no rosto da menina. – Pr-reciso... Fa-falar – tosse – com... Com você.
– Ah, sim – Lara se aproximou e agachou-se ao lado da cama – Pode falar.
Uma fada toda vestida de vermelho aproximou-se e pôs a mão no ombro de Lara.
– Vamos sedá-la agora, Clara precisa tratar desses ferimentos. Vocês terão tempo de sobra para conversar depois.
– N-não – Clara tentou protestar, mas as fadas já haviam injetado anestesia nela e seus olhos começaram a se fechar...
– Acho melhor vocês irem. A propósito, senhorita Lara, aqueles são seus pais? – A fada vermelha apontou para duas camas no lado oposto da sala, onde Anna e John descansavam sobre seus respectivos leitos.
– Ah, sim. – Lara piscou algumas vezes e hesitou. – Posso? Eles já estão bem?
– Estão – A fada sorriu a balançou as asas brilhantes num movimento gracioso. Lara ficou simplesmente encantada com aquilo, embora parecesse, para as outras pessoas na sala, algo normal e corriqueiro. “Fadas balançando suas asas magníficas... O que há de estranho nisso?”
Lara correu para os pais e se colocou num vãozinho entre as camas deles.
– Mãe? – Ela chamou, calmamente e numa voz suave, torcendo para ver os olhos luminosos de Anna se abrirem e para ela soltar seu sorriso caloroso de “Não se preocupe, está tudo bem, filhinha.”
A mãe de Lara foi abrindo os olhos bem devagar e, como o esperado, ela sorriu.
– Nossa, olha só para você, parece bem melhor – Lara analisou o corpo da mãe, admirada com o trabalho curativo que as fadas haviam feito nela. O rosto, braços e pernas, antes cobertos de arranhões, tinham sido curados e agora só restavam umas poucas e pequenas cicatrizes. O rosto também estava limpo e curado, praticamente sem marcas. Se Lara não tivesse visto os monstros a atacando, jamais diria que ela estivera tão ferida há algumas horas.
O pai de Lara, John, também parecia bem melhor. A perna ferida estava enfaixada, mas fora isso Lara não viu sinal de sangue, hematomas e nenhum ferimento sério.
_ Que bom que estão bem – ela disse baixinho, mais para si do que para os pais.
– Ah, filha, esse lugar... – Anna tentou se sentar e Lara foi ajudá-la. – Que lugar...?
– Tudo bem, mãe. — Lara achava que não era uma boa hora para explicar o que descobrira aos seus pais. Em algum momento, provavelmente, eles teriam que saber a verdade sobre Lara ser uma Iniciada, mas nem a própria Lara sabia muito a respeito e não estava segura quanto a essa situação. O que ela deveria fazer? Teria de se juntar aos outros e aprender a lutar? Teria que ficar em seu quarto apenas tendo visões e mais visões para alertar os outros sobre os planos do inimigo? Teria que dominar sua habilidade ou descobrir novas? Ou os dois? Ela não sabia o que viria a seguir, e aquilo a deixava um tanto apavorada.
“Estamos seguros aqui.” Ela concluiu. “Por enquanto”.
Na cama ao lado, John começou a se mexer e murmurar. Abriu os olhos, olhou para Anna e Lara e abriu um sorriso.
– É, a dor na perna passou mesmo – Ele mexeu a perna, dobrou o joelho e flexionou o tornozelo – nem parece que fui ferido... Essa gente tem dom para cura, não? – Ele se sentou. – Então... Quando acham que podemos voltar para casa?
Anna arregalou os olhos.
– Não pode estar falando sério, John. – A mãe de Lara pareceu desconfortável – Como vamos voltar com aquelas coisas lá fora?
– As criaturas já morreram, não? Uma hora teremos de voltar. Além do mais, Hana está nos esperando. Ela quer ir para casa.
“Minha irmãzinha...” Lara sentiu um aperto na garganta. E se eles não voltassem mais para casa? E se ela não tivesse outra chance de ver Hana?
– Ah, meu Deus. Hana. Como será que ela está? Precisamos ligar para ela... – Anna já estava se levantando quando Lara a segurou pelo braço.
– Já liguei. Ela está bem, não se preocupe. Disse que está com saudade de vocês. – Lara sorriu e a expressão de preocupação de Anna suavizou um pouco.
– Bem, nesse caso... Podemos sair e ficar na casa da minha mãe, meu amor. – John se dirigiu a Anna.
Subitamente, a mãe de Lara ficou muito, muito pálida. Ela engoliu em seco, como se tentasse dizer alguma coisa. Lara se lembrou, de repente, do que havia acontecido com sua mãe antes da fuga...
– Mãe? – Lara pôs a mão no ombro dela e a encostou contra o travesseiro. – O que houve?
Anna parecia exausta e gotas de suor brotavam de sua testa. Os olhos estavam fixos, vidrados, e ela estava numa quietude tensa e rígida, como se lutasse silenciosamente contra algo dentro dela. “Está acontecendo de novo.” Lara compreendeu, com uma rajada de pânico inundando seu corpo. O que quer que tenha acontecido com Anna no momento da fuga, estava se repetindo.
–Ei, alguém ajude aqui! – Lara gritou para as fadas que estavam na sala.
Quando uma fada toda vestida de roxo apareceu, Lara desatou a falar, ainda segurando as costas de sua mãe:
– Alguma coisa está acontecendo com ela... Estava tudo bem há alguns segundos...
John permaneceu sentado em seu leito, as costas rígidas e os olhos arregalados de pavor.
– Ela vai ficar bem? Façam alguma coisa! – ele disse.
A fada estava paralisada. Seu lindo rosto, quase angelical, estava petrificado e pálido. Ela praticamente mão moveu os lábios levemente roxos quando disse:
– Ei, vocês têm que ver isso...
Lara se remexeu, impaciente. “O que ela está esperando para fazer alguma coisa?”
Outras fadas, que não estavam ocupadas cuidando da Clara, começaram a se aproximar. Criaturas que estavam nos outros leitos esticaram os pescoços para ver o que estava acontecendo. Alguns magos que passavam pela Sala de Cura estacaram na porta, observando a mãe de Lara com um olhar angustiado.
– O que está havendo? – Lara indagou. Anna fechou os olhos, se curvou para frente, depois jogou a cabeça para trás num movimento brusco e subiu as pálpebras bem devagar...
Os olhos dela estavam completamente pretos. Anna parou de se mexer e as fadas que estavam ao redor do seu leito recuaram imediatamente com olhos arregalados e brilhantes de terror. Anna soltou um grunhido gutural; sua voz, embora ainda feminina, saiu bem mais grave, profunda e ameaçadora. “A voz na minha visão...” Lara compreendeu “A voz da Kith”. A espinha dela gelou e, num impulso, ela também se afastou de Anna.
– Mas o que...? – John começou a falar e se mover em direção à mulher, mas Lara o barrou com o braço.
– Saudações, amigos – Disse a voz vinda de dentro de Anna. – Surpresos? Meus poderes estão aumentando, não? Infelizmente... – Anna virou a cabeça num ângulo medonho e piscou os olhos inteiramente pretos como obsidiana. Ver que outra pessoa estava controlando o corpo de sua mãe de dentro dela fez o coração de Lara disparar feito louco. Tudo o que queria era que aquela coisa deixasse o corpo de sua mãe...
– Humanos são muito fáceis de possuir – A voz de Kith saia baixa e sibilante, como o sussurro de um fantasma – Então não tenho tanto mérito assim. – “Anna” deu de ombros. As fadas continuavam paralisadas de terror. Janna havia chegado mais perto da aglomeração, mas não teve coragem de ir até Lara.
– O que... – Lara reuniu toda a coragem que tinha para terminar a frase. Um segundo depois de abrir a boca, sentiu-se ridícula. Tentaria argumentar com a rainha dos inimigos? Diversas pessoas estavam presenciando a cena e nenhuma delas havia dito uma palavra, talvez porque tivessem muito medo da Kith ou pensassem que era a coisa mais sensata a fazer. Além do mais, a mulher estava usando o corpo de Anna. Ninguém tentaria atacá-la ou matá-la; ninguém poderia se defender sem machucar Anna. Todas as cabeças se viraram para encarar Lara, algumas com olhares de reprovação e outras com olhares do tipo “Coitada, não sabe o que está fazendo”. Ela continuou:
– O que quer aqui, Kith? – Lara pareceu mais confiante e corajosa do que realmente estava.
“Anna” estreitou os olhos. Num segundo, Lara se viu afundando na escuridão.
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