Amelia não via outra saída. Ela apoiou a cabeça no braço do sofá, os olhos se fechando lentamente. Parecia que tinham se passado apenas alguns minutos quando ela acordou novamente. Seu corpo se sentia ligeiramente mais forte, mas uma estranha desorientação persistia, como se seu descanso tivesse sido fragmentado e raso. Levantando-se devagar, ela notou o pesado silêncio da casa. A noite havia caído completamente, as sombras espessas contra a velha madeira das paredes de Bobby.

Nenhuma luz brilhava de nenhum dos cômodos; ela supôs que Sam e Dean finalmente haviam sucumbido ao tão necessário sono. Ela se moveu cuidadosamente sobre as tábuas rangentes do chão, seus passos instintivamente leves. O ar frio vindo da cozinha a atingiu quando ela abriu a geladeira e pegou uma jarra de água, bebendo profundamente para aliviar a dor ressecada em sua garganta.

Então, um movimento além da janela chamou sua atenção. Uma figura — imóvel, escura, familiar — silhuetada contra a luz da lua, no topo de uma das torres esqueléticas de metal enferrujado do ferro-velho.

Sem hesitar, ela saiu para o frio cortante. Reflexivamente, cruzou os braços sobre o peito, as mãos apertando os ombros para afastar os dedos impiedosos do vento noturno. Seu fôlego se espalhava em breves nuvens enquanto ela se movia em direção às pilhas de destroços.

Momentos depois, ela estava sobre a mesma pilha precária, suas botas raspando silenciosamente contra o aço corroído. Castiel estava sentado na borda do capô de um carro velho, seu sobretudo bege se agitando levemente na brisa. Seu olhar estava fixo na abóbada infinita de estrelas acima deles.

“Se importa se eu lhe fizer companhia?”, ela perguntou suavemente, ficando perto dele.

Ele inclinou a cabeça, o mais leve dos acenos, mas não desviou os olhos do cosmos. Ela se sentou ao lado dele, espelhando seu silêncio, olhando para as constelações como se as respostas para todas as perguntas pudessem estar espalhadas ali, entre a luz antiga.

“Obrigada...” Sua voz eventualmente rompeu o silêncio.

“Por quê?”, ele perguntou sem olhar para ela.

“Por me ajudar hoje... E ontem, com a Kali.”

“Você não precisa me agradecer.”

“Eu acho que preciso.” Sua voz agora era um pouco mais insistente, mais carregada de algo não dito. “Se eu apenas tivesse te escutado... Eu não teria atacado ela tão impulsivamente. Eu perdi o controle quando ela mencionou o Gabr—” Ela se interrompeu abruptamente, os lábios se fechando, os olhos voltando para o céu.

Aquele fragmento de um nome aguçou a atenção dele. Ele se virou para ela, seus olhos azuis se estreitando levemente.

“Por que o arcanjo te afeta tanto?”, ele perguntou, seu tom direto, mas não sem um traço de curiosidade. Ele se lembrava do que Sam havia dito a Bobby naquela manhã.

Ela exalou lentamente, deliberando. Então, com uma quieta resolução, respondeu: “É... complicado. Mas suponho que você mereça uma explicação.”

A noite respirava silenciosamente ao redor deles enquanto ela falava, sua voz se entrelaçando entre as relíquias enferrujadas do ferro-velho.

“Gabriel me salvou quando ninguém mais o fez. Nove anos atrás. Eu estava prestes a morrer — cercada por demônios, e nenhum anjo, ninguém do Céu, apareceu... exceto ele. Esse sempre foi seu maior defeito: compaixão. Ele amava a humanidade mais do que aos próprios irmãos. Ele amava como seu Pai amava.”

Sua voz vacilou momentaneamente, seus dedos se curvando no tecido gasto do jeans.

“Depois que ele me salvou, eu fiquei com ele. Eu achei que o amava. Eu queria que ele me amasse de volta. Mas ele sempre me viu apenas como... como uma irmã. Eventualmente, eu aceitei isso. Parei de tentar transformar aquilo em outra coisa. Ele dizia que eu era um pavio aceso... sempre pronta para explodir.” Ela sorriu levemente com a lembrança. “Mas ele confiava em mim mais do que em qualquer um.”

Castiel inclinou a cabeça, estudando-a. “Mas não o suficiente para deixar a espada com você.”

“Não...” Um sorriso irônico e triste surgiu em seus lábios. “Ele tinha seus motivos. Ele sabia que eu era instável. Tinha medo de que eu pudesse ter uma recaída e entregá-la às mãos erradas. Eu não o culpo.”

O olhar de Castiel permaneceu em seu perfil. “Então... você não o ama mais?”

“Não desse jeito,” ela sussurrou. “Acho que na verdade nunca amei.”

Eles ficaram novamente em silêncio. Ela arriscou olhar de lado e percebeu, com um leve sobressalto, o quão diferente ele era de Gabriel. A presença de Castiel era mais fria, mais pesada... e ainda assim, inegavelmente mais humana de um modo que Gabriel jamais fora.

“Você é diferente dos outros anjos,” ela disse calmamente, seus olhos cruzando com os dele. “Até de Gabriel. Você é... mais humano.”

Ele não negou. “Os outros também achavam isso. Por isso me expulsaram.”

“Sinto muito,” ela disse sinceramente. “Deve ter sido... difícil.”

“Você me avisou que isso aconteceria.”

Ela deu um sorriso melancólico. “Não fez com que fosse menos doloroso, no entanto. Eu sinto muito.”

“Eu vou sobreviver,” ele disse, a voz estável, mas não indiferente. “Já passei por isso antes.”

“E quando tudo isso acabar... você vai voltar?” Sua voz era suave, incerta.

Ele hesitou, a testa se franzindo levemente. “O certo seria voltar. Mas... eu não consigo mais me ver lá. Me apeguei demais... a este mundo. Ao seu caos, à sua fragilidade. Eu até... aprendi a mentir.” Um fantasma de sorriso tocou seus lábios. “Me embriaguei uma vez também.”

Ela riu suavemente. “Esse é o estilo Dean Winchester. Mentiras, bebidas, mulheres... nunca realmente satisfeito.”

“Você tem pena dele?”

“Tenho…” Ela se virou completamente para ele agora. “Mas não precisa ser assim. Você só viu o jeito deles viverem. Há mais.”

Ele franziu a testa. “Mais?”

“Sim,” ela disse firmemente, inclinando-se mais. “Emoções. De verdade. Não só reações.” Ela olhou além dele, para o vasto céu. “Você ainda não entende as emoções, Castiel. Não de verdade.”

“Eu acho que entendo.”

“Não...” ela balançou a cabeça lentamente. “Você as reconhece. Mas não sabe como elas são. Como elas te dominam. Como te retorcem.”

Ela ficou em silêncio por um momento, então se levantou abruptamente, esfregando as mãos para se aquecer. Sem esperar por ele, começou a descer, voltando em direção à casa.

Castiel a seguiu.

Lá dentro, a casa estava imóvel, o tipo de silêncio que se instala fundo nos ossos. Amelia se moveu instintivamente, atraída para o canto mais afastado do cômodo, onde um velho piano vertical permanecia, há muito intocado.

Sem pensar, ela se sentou, levantando a tampa para expor as teclas, seu marfim gasto e desbotado. Seus dedos pairaram por um momento, então pressionaram suavemente.

Uma nota pairou no ar.

Castiel observou, incerto.

“Você disse que não entende emoções,” ela murmurou, sem olhar para ele. “Deixe-me te mostrar.”

Seus dedos tocaram as teclas suavemente no começo, depois com mais intenção. Uma melodia delicada e melancólica se desenrolou no quarto escuro. Não era feliz — mas também não desesperançada. Era frágil, incerta... muito parecida com o espaço entre eles.

Ela começou a tocar, não uma música que conhecia, mas algo nascido do momento — melancólico, frágil e em busca de algo. As notas flutuaram pela casa como fantasmas, preenchendo os espaços vazios com uma dor agridoce.

Castiel ficou imóvel, então finalmente se moveu para sentar ao lado dela, as mãos repousando desajeitadamente no colo, como se tivesse medo de perturbar a coisa frágil que ela estava construindo.

Ela continuou tocando — acordes menores que se dissolviam em arpejos delicados e doloridos. Não havia alegria na melodia, mas havia anseio, e ternura, e uma tristeza velha demais para ser nomeada.

Ele fechou os olhos.

A música se infiltrou nele como água através da pedra, lenta e implacável. E, naqueles momentos silenciosos e indefinidos, ele percebeu que não era em Deus que ele estava pensando.

Era nela.

Ele abriu os olhos e a viu, viu-a de verdade — seus dedos se movendo com um propósito silencioso, o cabelo caindo solto sobre os ombros, os lábios ligeiramente entreabertos enquanto ela se perdia na canção.

Seus olhos se encontraram no silêncio que se seguiu à melodia, nenhum dos dois falando, o ambiente carregado de algo frágil e sem nome. Amelia mal respirava, percebendo o peso do olhar dele pairando sobre seus lábios, sobre seu rosto — como se ele estivesse tentando memorizá-la, ou talvez entender algo que não conseguia compreender completamente.

Sem pensar, ele se inclinou uma fração, e ela espelhou o movimento. Seus rostos tão próximos agora que ela podia sentir o calor de seu fôlego contra a bochecha, fraco mas inconfundível.

Então — hesitantes, quase como se tivessem cruzado algum limite proibido — seus lábios se roçaram. Não foi um beijo, não completamente. Foi uma pergunta. Uma possibilidade. Seus lábios eram mais macios do que ela havia imaginado, frios no começo, depois quentes conforme ele permanecia ali apenas um segundo além do necessário, como se testando a sensação.

O coração de Amelia martelava em seu peito; o mundo lá fora encolheu até o espaço entre eles, até o gosto de algo tão sutil e ainda assim tão avassalador. Ela sentiu o mais leve tremor no toque dele quando ele levantou uma mão, quase segurando seu queixo, mas parou no último momento.

O contato se rompeu tão repentinamente quanto começara — ele se afastou, a expressão contida, estoica como sempre. Mas seus olhos... eles o traíram: um lampejo de algo bruto, algo que ele ainda não sabia nomear.

Amelia permaneceu imóvel, os lábios ainda formigando com o fantasma do contato, a mente girando, a respiração rasa. Castiel já estava de pé, distante novamente, como se nada tivesse acontecido.

“Me perdoe,” ele disse bruscamente, se levantando de repente. “Me chame... quando tiver novidades.”

Antes que ela pudesse responder, antes que pudesse sequer processar o turbilhão que rugia dentro dela, houve o som inconfundível — o bater de asas — e ele se foi.

Amelia ficou imóvel, olhando para o espaço que ele havia ocupado, seu coração martelando contra as costelas. Ela levou os dedos aos lábios, traçando o fantasma do beijo, sem acreditar.

Não foi apenas um beijo.

Foi uma fratura — pequena, mas inegável — nas muralhas que ambos haviam passado vidas construindo.

E, pela primeira vez, ela percebeu... que não queria reconstruir a dela.


|•|


Chuck expirou bruscamente e apertou a tecla de deletar, segurando-a até que todo o parágrafo na tela desaparecesse no nada.

Adeus, idiota…” murmurou, imitando a voz de Dean com desdém. “Isso é uma porcaria,” sibilou, recostando-se na cadeira, passando a mão pelos cabelos despenteados. Estendeu a mão para o copo na mesa, inclinando-o até a última gota de uísque e fazendo uma careta quando a ardência sumiu rápido demais.

“Por que a bebida sempre acaba?” resmungou para o quarto vazio, batendo o copo na mesa.

Como se fosse de propósito, o telefone ao lado do laptop começou a tocar. Chuck o pegou sem verificar o identificador de chamadas.

“Quem é?” disparou.

“Uau. Você me odeia tanto assim?”

A voz de Dean estalou pelo alto-falante, carregada de sarcasmo.

“Dean… Não, desculpa, cara. As coisas têm estado complicadas ultimamente.”

“Você tá tendo visões de novo? Tem alguém aqui que quer falar com você…”

Uma pausa, então outra voz deslizou pela linha, mais suave, mas inconfundível.

“Oi, Chuck.”

“Amelia?” Chuck se endireitou na cadeira, a tensão nos ombros disparando. “Você… você tá bem?”

“Acho que sim.” Havia um leve sorriso na voz dela. “Escrevendo muito sobre mim ultimamente?”

“Mais do que deveria, honestamente… Mas eu não estava esperando essa ligação.”

“É, bem… mudança de planos. A terceira trombeta acabou de soar. Não temos a menor ideia de onde vai acontecer a próxima batalha.”

“Eles estão tentando apagar os rastros,” murmurou Chuck, esfregando as têmporas. “Por causa do Sam e do Dean. E você… A sua presença complica tudo… A batalha será no Oregon.”

“Oregon… certo.” Amelia engoliu em seco. “Você sabe quando deve partir?”

“O Diabo estará lá ao som da quinta trombeta. Mas Amelia… É melhor se você—”

“Ok, obrigada!”

“Amelia, espera!” Mas a linha ficou muda. Chuck encarou o telefone, seu reflexo distorcido na tela preta, e então o arremessou sobre a mesa, frustrado.

“Você não pode ficar aí, Amelia…” murmurou no silêncio, enterrando o rosto nas mãos, embora soubesse que aquelas palavras agora eram inúteis.


|•|


Amelia encerrou a ligação com um clique suave e mecânico, seu polegar permanecendo sobre a tela como se pudesse, de alguma forma, apagar a conversa da existência. Ela devolveu o telefone para Dean sem dizer uma palavra.

Ele o pegou, erguendo uma sobrancelha para ela, sua expressão meio divertida, meio desconfiada.

“Você desligou na cara dele?”

Ela ergueu o olhar, fingindo indiferença.

“Não… Por que você pensaria isso?”

Dean arqueou um leve sorriso.

“Talvez por causa daquele “Amelia, espera!”?”

Ela desviou o olhar rapidamente, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, como se aquele simples movimento pudesse protegê-la do que não queria admitir.

“Eu não ouvi isso” murmurou.

Mas ela tinha. Claro que tinha.

Limpando a garganta, forçou a voz a se manter firme.

“Enfim. A batalha está marcada para Oregon. Na floresta. Partimos quando a quinta trombeta soar.”

Bobby soltou um assobio baixo, coçando a nuca.

“A quinta? Droga. Como se não bastasse eles terem destruído metade da China…”

Amelia deu de ombros, cruzando os braços sobre o peito — uma postura defensiva que ela nem tinha percebido ter adotado até sentir a tensão mordendo seus próprios ombros.

Ao lado dela, Sam já rolava a tela do celular.

“Devíamos ligar para o Cas” disse ele, discando. “Já faz dois dias. Nenhuma notícia.

Ele encostou o telefone à orelha, mas antes que a ligação pudesse sequer conectar, o ar mudou — denso, elétrico — e num piscar de olhos, Castiel estava ali.

Dean se jogou de volta no sofá, os braços abertos preguiçosamente.

“Finalmente. Achei que você tinha caído da face da Terra.”

A resposta de Castiel foi tão seca quanto sem emoção:

“Eu estive… ocupado.”

Dean revirou os olhos.

“É, imagino.”

“Então, o que sabemos?” perguntou o anjo.

Sam gesticulou na direção de Amelia.

“Ela deveria te contar.”

A mudança na atmosfera foi imediata. O ritmo casual da conversa se quebrou sob uma nova tensão, mais silenciosa. Amelia sentiu — sentiu ele — como uma pressão logo abaixo da pele.

Seu pulso acelerou, um tremor sutil que ela rezou não ser visível.

“Hm…” limpou a garganta, mas sua voz ainda saiu mais fraca do que gostaria. “O Chuck disse que vai acontecer em Oregon. Quinta trombeta. Nós… nós precisamos estar prontos.”

Castiel apenas assentiu, impassível. Mas ela podia sentir o olhar dele, podia quase saborear as palavras não ditas, presas entre eles, espessas e imóveis.

“Você tá bem, garota?” perguntou Bobby, estreitando os olhos para ela. “Tá meio… corada.”

“Eu?” Amelia riu alto demais, rápido demais. Sua mão voou até a bochecha, sentindo-a quente ao toque. “Deve ser o calor…”

Não era o calor. Deus, como ela queria que fosse o calor.

Dean a observou com o mesmo olhar cético que tinha dado a ela momentos antes, com o telefone, mas não insistiu.

“Eu… eu vou pegar um pouco de água” anunciou de repente, girando nos calcanhares e praticamente fugindo da sala.

Ela empurrou a porta do escritório até a cozinha, fechando-a atrás de si com mais força do que o necessário, depois segurou o balcão para se equilibrar.

Seu peito arfou uma vez. Duas.

“Se controla” sussurrou, pegando um copo no armário e enchendo-o até a borda, a água fria derramando sobre os nós dos dedos.

Ela bebeu profundamente, como se a água pudesse, de alguma forma, extinguir o calor que se acumulava em seu ventre — o calor que não tinha nada a ver com temperatura e tudo a ver com o jeito que os olhos de Castiel haviam passado por ela, contidos, indecifráveis, mas inegavelmente… afetados.

“Droga” murmurou, colocando o copo na pia com um baque abafado.

Amelia apoiou as palmas contra a borda da pia, encarando seu próprio reflexo na janela escurecida acima dela.

Por que ele a beijou? E por que… por que ele fugiu logo depois, como se tocá-la o tivesse queimado?

Ela balançou a cabeça, tentando reprimir o nó de confusão e algo perigosamente próximo à dor que se enrolava em seu peito.

O rangido suave do chão atrás dela fez seu pulso disparar. Ela não precisava se virar para saber que era ele.

“Castiel…” ela expirou o nome dele, não exatamente uma pergunta, não exatamente uma afirmação.

Ele estava ali, silencioso como sempre, a postura rígida, os braços ao lado do corpo — como se não confiasse em si mesmo para se mover.

Por um longo e doloroso momento, nenhum dos dois falou.

Finalmente, ela se virou, sua voz carregando um tom calmo, mas quebradiço e irônico.

“Sobre a outra noite…” começou, mas vacilou.

Os olhos de Castiel se ergueram para encontrar os dela — um lampejo de algo cru, vulnerável — mas ele engoliu aquilo tão rapidamente que quase pareceu imaginação.

“Por que…?” Ela nem sabia qual era a pergunta, de fato.

A mandíbula dele se contraiu levemente, como se estivesse reprimindo a resposta.

Ela balançou a cabeça, rindo baixinho, amargamente.

“Você nem sabe, né?”

“Não há nada a dizer” disse ele, baixinho, mas sua voz carecia de convicção.

Amelia soltou uma risada suave, sem humor.

“Claro. É claro. Só… esquece.”

“Eu não devia ter…” ele começou, mas parou, olhando para as próprias mãos como se as visse pela primeira vez.

“Não” ela concordou rapidamente, contornando-o, criando um espaço que nenhum dos dois realmente queria, mas que ambos desesperadamente precisavam. “Não devia.”

Ela fez menção de passar por ele, mas sua mão se estendeu instintivamente, segurando de leve o pulso dela — não com força, apenas o suficiente para detê-la.

“Amelia…” A voz dele quebrou quase imperceptivelmente.

Ela congelou, encarando onde os dedos dele mal tocavam sua pele, o contato leve como uma pluma, mas suficiente para fazer seu coração falhar uma batida.

Mas quando ele não disse mais nada, não explicou, não se moveu, ela lentamente puxou a mão, sua expressão indecifrável.

“Não se preocupe” disse suavemente, quase com gentileza —, eu já esqueci.

Ela caminhou até a porta, os dedos se fechando ao redor da maçaneta, pausando apenas uma vez para sussurrar:

“A gente devia… voltar.”

Castiel não se moveu, apenas observou enquanto ela desaparecia pelo corredor.

Quando ambos voltaram à sala de estar, a tensão entre eles já havia sido empacotada, mascarada sob camadas de silêncio e uma normalidade fingida.

Mas Bobby e Sam já estavam de pé, armas em punho. Dean estava perto da porta, arma levantada.

E então, uma voz — arrogante, irritantemente familiar:

“Ora, ora, vejam só quem finalmente chegou à festa!”

A respiração de Amelia prendeu quando seus olhos pousaram na figura no batente da porta — alto, loiro, sorrindo como o próprio pecado.

Não.

Não podia ser.

“Gabriel?” A voz de Amelia era uma mistura de descrença e exasperação.

O arcanjo apenas sorriu mais largamente, entrando.

“Isso mesmo. Sentiram minha falta?”

Notas finais
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