“Atenção!” A voz do arcanjo Miguel cortou o silêncio celestial, ressonante e absoluta. Milhares de anjos pararam no meio do voo, suas formas etéreas se reunindo em fileiras disciplinadas. A extensão dourada acima deles crepitava com energia divina, os próprios céus prendendo a respiração.

Miguel estava à frente, sua nova espada reluzindo de forma opaca em sua mão — um substituto pobre para a lâmina original, mas letal do mesmo jeito. Suas asas, vastas e cegantes, se abriram atrás dele como estandartes de guerra.

“A batalha do Armagedom está próxima!” proclamou, sua voz trovejante. “Conto com as suas forças e habilidades para pôr fim a isso. Esmagaremos cada inseto, cada homem de barro, cada demônio. Meu irmão cairá em desgraça mais uma vez — ou perecerá pela eternidade. E, se isso exigir destruir a maior criação de meu Pai, que assim seja.”

Seu aperto se firmou ao redor do punho da espada. “Está escrito. Tudo foi predito pelo Criador. Se este é o comando Dele, então que a vontade Dele seja feita!”

O arcanjo ergueu sua espada bem alto, a lâmina captando a luz de incontáveis estrelas.

“Mestre… e quanto aos Winchesters?” um anjo ousou perguntar.

Miguel se virou, seu rosto frio e desprovido de compaixão. “Eles não serão um problema. Mas se qualquer Winchester — ou qualquer de seus aliados, alados ou não — se colocar em nosso caminho, eles serão punidos pelo que fizeram comigo. Com todos nós.”

Seus olhos ardiam com propósito. “Ao soar da sexta trombeta, nós avançaremos. Sessenta de vocês me acompanharão até Oregon — onde a batalha será decidida, onde o Juízo Final começará.”

Um rugido ensurdecedor de assentimento irrompeu da hoste angelical, ecoando interminavelmente pelos céus sem limites.


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“Gabriel?” A voz de Dean rompeu o silêncio tenso, quase sem acreditar.

O arcanjo sorriu ao adentrar a casa de Bobby, as tábuas gastas do assoalho rangendo suavemente sob seus pés.

“Mas que diabos?” murmurou Sam, aproximando-se do arcanjo, os olhos se estreitando com suspeita.

“Ah, qual é, Sammy,” Gabriel riu, abrindo os braços amplamente. “Vocês dois já morreram quantas vezes agora? E ainda assim, aqui estão, contando a história. Só estou aqui para contar a minha.”

Dean cruzou os braços, desconfiado. “Como?”

“Deus. O Pai me trouxe de volta, Dean.”

“Isso não prova que você é mesmo ele.”

Castiel avançou mais para dentro da sala, seu olhar se aguçando ao pousar na figura familiar à frente. "É ele. Eu posso sentir sua aura. Cada anjo tem uma única.”

Gabriel estalou os dedos, sorrindo. “Exatamente, Cass! Sentiu minha falta?”

Amelia congelou, prendendo a respiração ao encarar o homem à sua frente. Seu peito se apertou — o reconhecimento a atingindo como uma onda.

Ele se virou, oferecendo-lhe aquele mesmo sorriso irreverente. Sem pensar, Amelia avançou, as lágrimas se formando enquanto o envolvia com força nos braços.

“Não acredito que é realmente você!” sussurrou, afastando-se apenas o suficiente para acariciar o rosto dele com as mãos, estudando cada traço familiar como se temesse que pudesse se dissolver.

Gabriel pressionou um beijo gentil contra a palma dela. “Eu te disse que nunca te deixaria, não disse?”

Ele se moveu, passando um braço frouxamente por sobre os ombros dela, voltando-se para os outros. “Então... como estão os preparativos para a grande festa?”

O cômodo permaneceu pesado com pensamentos não ditos, mas nenhum ostentava expressões tão sombrias e conflituosas quanto as de Castiel. Seus olhos, geralmente calmos, cintilavam com algo bruto e perigoso. Por um breve segundo, Amelia viu: o desejo de atacar, de derramar sangue. Uma fúria fria direcionada diretamente a Gabriel.

Mas tão rápido quanto apareceu, desapareceu, os traços de Castiel retornando à sua habitual máscara estoica.

O grupo passou o restante do dia relatando seus preparativos para o iminente apocalipse, os esconderijos, as rotas de fuga, os aliados. As horas deslizaram despercebidas, até que a casa caiu em silêncio, exceto pelo rangido das vigas e o sussurro do vento lá fora.

Passava da uma da manhã quando a maioria se retirou para seus quartos. Exceto por Amelia e Gabriel, que permaneceram no sofá gasto da sala de estar mal iluminada, cercados pelo cheiro reconfortante de livros antigos e óleo de armas.

Gabriel inclinou a cabeça, estudando-a com uma diversão afetuosa. “Você não mudou nada. Bem… talvez um pouco mais velha.”

“Não ouse me chamar de velha!” Amelia riu, apertando a mão dele suavemente.

“Você também não mudou… Mas como conseguiu encontrar seu antigo receptáculo?”

Gabriel sorriu de canto, recostando-se. “Ah, aqui e ali. Sempre tive uma queda por esse. Me faz parecer sexy.”

Isso fez Amelia cair numa gargalhada irreprimível, o som ecoando vivamente pela casa, de outro modo sombria.

“Ah, Gabriel… Eu tinha esquecido o quanto você me fazia rir. Senti falta disso.”

O olhar dele suavizou. “E eu senti sua falta, minha querida. Te deixo sozinha por dois anos e olha o que acontece!”

Ela arqueou uma sobrancelha. “Você sempre soube que eu era um ímã para encrenca.”

“Ainda é,” murmurou, mas desta vez sua voz era uma dor oca, frágil sob a superfície, como se falasse através das ruínas de algo outrora sagrado. “Afinal... Você matou Kali… minha Kali.”

O ar entre eles se rompeu — o pouco calor que ousara surgir agora colapsou num vazio cru e sufocante.

Amelia ficou imóvel, sua respiração presa no meio do riso, sua expressão congelada como se tivesse sido atingida. A conexão frágil que acabavam de começar a reviver se quebrou silenciosamente entre eles. Seus dedos, que momentos antes haviam repousado sobre os dele, agora se encolheram em seu colo, como se buscassem se ancorar contra a vertigem súbita da acusação dele.

“Como…?” A palavra mal se formou, mas mesmo enquanto deixava seus lábios, a verdade irrompia dentro dela, inevitável e impiedosa.

Os olhos de Gabriel se afiaram, sem traço da habitual malícia ou afeição — apenas algo frio e implacável. “Não se faça de inocente,” sibilou, as palavras impregnadas de veneno e luto. “Você a matou. Eu a amava.”

Amelia inalou bruscamente, o som frágil como vidro. A culpa irrompeu como gelo através de suas veias, se enrolando apertada ao redor de suas costelas, cada respiração constrita pelo peso de uma escolha que nunca poderia desfazer. Imagens que tentara enterrar surgiram com clareza implacável: os olhos de Kali, a lâmina, o sangue — sua própria mão trêmula.

Sua voz, quando surgiu, era oca, frágil. “Você… você não devia ter deixado a espada com ela.”

A expressão de Gabriel escureceu, seus traços imersos em sombra. Ele se inclinou ligeiramente à frente, sua voz baixa, mas afiada como aço amargo. “Eu não podia dar a você.” Seus olhos buscaram os dela, como se caçando por algo — arrependimento, justificativa, talvez até humanidade. “Mas por que você a matou? Você me traiu.” Ele expirou pesadamente, como se a admissão lhe custasse algo que jamais poderia recuperar. “Você sabe que nunca vou te perdoar por isso.”

As palavras feriram mais profundamente do que qualquer lâmina.

A garganta de Amelia se apertou, seu pulso martelando nos ouvidos. Sua mente gritava para que se defendesse, explicasse — mas que explicação poderia desfazer o que foi feito? Nenhuma. Apenas fantasmas e razões vazias.

“Me desculpe, Gabriel…” Sua voz se partiu, quebrando sob o peso de tudo que ficou por dizer. “Eu tinha meus motivos…”

Ele desviou o olhar então, seu olhar caindo nos recessos escuros do cômodo, onde o fogo havia minguado até brasas resignadas. Seu maxilar se contraiu, o canto da boca tremulando como se pretendesse falar, mas as palavras recusassem se formar.

“Motivos ou não…” Ele deixou a frase inacabada, uma ferida deliberada, antes de inspirar profundamente, soando como rendição. “Ainda te amo... Mas nunca vou te perdoar.”

Essa sentença final a atingiu mais forte do que toda a fúria que ele poderia ter liberado.

Por um momento, Amelia apenas o encarou, seu coração se debatendo violentamente contra a prisão de suas costelas. Queria dizer algo — exigir, suplicar — mas que direito ela tinha? Nenhum.

Sua mão escorregou da dele, fria agora, inerte, enquanto se levantava abruptamente. O movimento pareceu mecânico, desprovido de vontade, como se seu corpo entendesse, antes de sua mente, que não havia mais nada a que se agarrar ali.

A dor das palavras dele — não, a verdade por trás delas — cortou mais fundo do que ela jamais antecipara.

Mas ela não o odiava por dizê-las.

Não… ela se odiava.

Sem confiar em sua voz, sem sequer ousar olhar para trás, ela se virou para as escadas e subiu, cada degrau rangente puxando-a mais para dentro de uma solidão que conhecia bem demais, as paredes se fechando, as sombras se alongando em seu rastro.

Gabriel permaneceu sentado, sozinho agora no silêncio abafado e sombrio do cômodo, o fogo moribundo lançando luz âmbar fragmentada sobre as paredes desbotadas. Ele não se virou, não precisava — a mudança no ar lhe dizia tudo.

“Castiel… tsc tsc tsc" chamou suavemente, quase como se falasse à própria escuridão. “Castiel… Espionar é falta de educação, sabia?”

Um leve farfalhar precedeu o som de passos medidos. Das sombras mais profundas próximas à porta, o outro anjo emergiu, sua postura tão contida como sempre, as mãos enfiadas com precisão habitual nos bolsos do sobretudo bege. Sua presença, embora silenciosa, pesava no cômodo, como uma lâmina mantida apenas fora de vista.

O sorriso de Gabriel surgiu, astuto e afiado como uma faca. “Está me seguindo agora?” Sua voz se elevou, provocante, mas impregnada de algo mais — algo frágil e consciente.

Castiel permaneceu imóvel, seus olhos ilegíveis sob a luz tênue. Quando finalmente falou, sua voz foi baixa, mas com fio de aço. “Não tenho razão para te seguir.”

Gabriel riu baixo, quase com pena, então se recostou na cadeira com uma facilidade exagerada, embora a tensão ao redor dos olhos traísse a vacuidade do gesto. “Ah… mas você está seguindo ela.” Seu olhar se voltou para cima, pairando sobre o teto como se fosse transparente, como se pudesse ver diretamente até onde Amelia agora repousava inquieta e sozinha, seu coração machucado e se desfazendo. “Quem diria que você se afeiçoaria a ela… e a uma Nefilim, nada menos.”

A acusação, embora leve no tom, pairou pesadamente no ar entre eles.

O maxilar de Castiel se enrijeceu, um leve pulso latejando sob a superfície. Sua voz, quando veio, foi contida, controlada. “Isso não é da sua conta.”

O sorriso de Gabriel se aprofundou, mas já não continha a habitual malícia — estava mais escuro agora, tocado por algo quase melancólico, quase perigoso. “Não é?” Ele exalou suavemente, quase como um suspiro. “Você usa bem essa máscara… mas nós dois sabemos o que há por baixo dela.”

Os olhos de Castiel se estreitaram, mas ele não disse nada. O silêncio se estendeu tenso, nenhum anjo disposto a ceder.

A voz de Gabriel caiu ainda mais, mais baixa, mas não menos cortante. “Você ainda nem sabe, sabe?” Inclinou a cabeça, estudando-o como um velho enigma insolúvel. “O afeto… como se infiltrou, centímetro por centímetro. Você já está fundo demais.”

Castiel não vacilou, mas houve o menor dos tremores em sua expressão — uma mudança, uma hesitação breve demais para a maioria notar. Mas não para Gabriel.

Ele sorriu mais amplo, sentindo a fratura sob a estoicidade. “Cuidado, irmãozinho… esse afeto é uma coisa perigosa.”

A resposta de Castiel foi medida, mas sua voz estava mais fria agora, afiada por algo não dito. “Fique longe dela.”

Gabriel deu uma risada suave e oca, passando o polegar ociosamente pela borda desgastada do braço da cadeira. “Ah… então é isso.” Inclinou-se ligeiramente à frente, seus olhos brilhando com algo como triunfo. “Nem sabe o que sente… mas já está pronto para protegê-la.”

Castiel se moveu um fração mais perto, o ar ao redor dele distorcendo-se sutilmente, carregado com graça mal contida. “Estou avisando.”

A diversão de Gabriel azedou, as sombras se aprofundando mais nos sulcos de seu rosto. “Do que você tem tanto medo?” perguntou suavemente, quase com gentileza. “Do seu próprio coração… ou do dela?”

Por um momento, o cômodo ficou em silêncio, exceto pelo suave crepitar da última brasa colapsando na lareira.

Então a voz de Castiel veio, baixa e final: “Você já causou dano suficiente por uma noite.”

Sem outra palavra, ele desapareceu num sussurro de asas, o ar ondulando suavemente em sua esteira.

Gabriel permaneceu onde estava, encarando o espaço vazio onde o irmão estivera, seu sorriso lentamente se desfazendo em algo mais frio, mais antigo. Seus olhos castanhos quentes escureceram grau a grau, sangrando até um vermelho fundido e malévolo. E então, o mais tênue sorriso retornou — oco, inumano — enquanto deixava a cabeça recostar contra a cadeira, sozinho novamente no cômodo sombrio e assombrado.