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I don't know what you've done to me

But I know this much is true

I wanna do bad things with you

I wanna do real bad things with you(...)

– Me digam se existe coisa melhor nesse mundo do que ir para o colégio ouvindo Bad Things!? Hmm, me deixa até com vontade de assistir True Blood! — Disse Riley, do banco ao lado do motorista, enquanto cantarolava com seu namorado, Jared, a letra da música, que por sinal, mais pareciam uma versão mal feita de alguma dupla sertaneja amadora.

– Existe, não ter que ouvir vocês cantarem por 45 minutos de ida e volta às 7:00 da manhã. — Respondi agradecendo mentalmente por ter trazido meus fones de ouvido, que por sinal, vivia esquecendo! Ser distraída era realmente uma maldição em momentos como esse.

– Ui! Segurem essa garota que hoje ela está tão explosiva quanto um homem bomba! — Zombou Jared, sem tirar os olhos da estrada, para meu agradecimento e rindo histéricamente de sua prórpia piada com Riley.

– Christie!? Essa é ótima! Não mata nem uma mosca! — Retrucou Riley, rindo cada vez mais alto. Fitei-os boquiaberta! Que calúnia, não era verdade o que tinham dito, eu era tão calma! E se por acaso não havia matado nenhuma mosca até então, foi por pura preguiça e ausência de prática, até porque convenhamos que acertar um sapato em um inseto voador, praticamente microscópico não é lá a tarefa mais fácil desse mundo.

– Ei!! Eu estou aqui, ok? Estou ouvindo, caso tenham esquecido! Me digam uma coisa, colocaram o que na bebida de vocês além de alcool, ontem? Pelas barbas do profeta! — Revirei os olhos, bufando, enquanto escolhia alguma música para ouvir em meu Ipod.

– Shh, fica calminha gata, deixa de ser carente, hoje você vai ver seu namorado da patinha quebrada! — Disse Riley, encarando-me através do retrovisor do carro, enquanto penteava seus cabelos loiros que caíam em cascata.

– Isso tudo é saudades? Aaaaah, que gay! Vou até chorar com tanta fofura! Riley e eu seremos os padrinhos ok? — Jared disse, voltando a rir com a mesma intensidade de antes. Fuzilei-o com o olhar através do retrovisor.

– Falem o que quiserem, nem ligo. — Respondi, fitando a estrada pela janela, finalmente escolhendo Wonderwall — Oasis para ouvir, logo ajustando o volume no máximo. Eu mal havia pressionado ''play'' quando a música parou repentinamente, e um aviso surgiu na tela dizendo-me que a bateria havia se esgotado. Não! Berrei mentalmente. Qual era o meu problema com baterias afinal? — Droga, a bateria acabou! Esqueci de carregar. — Choraminguei, dando pequeno tapa na testa

– Ótimo! Então vamos cantar todos juntos! I don't know who you think you are, But before the night is through, I wanna do bad things with you. — Riley voltou a cantarolar, seguida por Jared.

– Ai socorro! — Choraminguei novamente, estirando-me totalmente no banco traseiro. — É, essa vai ser uma looonga manhã.



Senti minha cabeça latejar por algum tempo aquela manhã e mesmo sem ter nenhum espelho por perto, podia ter certeza que estava em um estado deplorável, resultante é claro, de uma bela noite mal dormida. Amaldiçoei a mim mesma, mentalmente, por ter ido à aquela festa, afinal, se não fosse por isso, não teria chegado tão tarde em casa e talvez até pudesse ter aproveitado o tempo que me restava e ter ido visitar Daniel. — Daniel! — Exclamei em choque. Eu havia me esquecido completamente de sua existência! Óh, péssima amiga que era, havia esquecido de telefonar para ele! Mas... Pensando bem, na noite passada eu estivera com a menor condição de segurar um telefone de tão exausta que estava! Aliás, como foi mesmo que nós haviamos entrado em casa?

Franzi o cenho de forma pensativa e uma pequena ruga se formou em minha testa. Comecei a me recordar de todos os acontecimentos da noite anterior e as lembranças paravam no carro de Jared. Riley! Ela havia dito algo, o que havia dito mesmo? Tentei fazer algum esforço, mas fora inválido. Era como se tudo tivesse acabado no carro de Jared.

– Bom dia, metade! — Ouvi a voz de minha melhor amiga, Danna, e me virei prontamente. Nós háviamos apelidado uma a outra de "metade" pois como tínhamos muito em comum, dizíamos que éramos as almas gêmeas uma da outra, logo, éramos a metade.

– Danna! Danna!! Que saudades suas! — Eu berrei, indo até ela para lhe dar um abraço.

– Discrição é seu nome do meio, metade! — Ela berrou também, a essa altura, fazendo metade dos estudantes do Glorian High School, pararem o que estavam fazendo para olhar com espanto as duas estéricas que estavam dando vexame em pleno pátio à aquela hora da manhã.

– Aprendi com a melhor! — Eu disse, rindo feito uma boba junto com minha amiga. — Não acredito que você voltou de viagem! Como foi em Paris? E seus pais, estão bem!? — Eu perguntei a ela, enquanto subíamos por uma das enormes escadarias em forma de espiral do Glorian, seguidas por centenas de alunos abarrotados em vários cantos do colégio.

– Ai quantas perguntas para se fazer a essa hora da manhã! Credo. — Disse ela, batendo os pés teatricalmente e jogando os cabelos ruivos recém cortados na altura dos ombros para trás, de forma que só ela sabia fazer. — Foi tudo perfeito! Meu irmão continua o mesmo cretino e sem vergonha de sempre, se acha, claro. — Ela revirou os olhos. — Meus pais estão ótimos, disseram para nós duas irmos juntas da próxima vez, acredita!? Vai ser incrível... Mas nenhuma dessas coisas foram la cerise sur le gâteau.

– Quê isso!? — Perguntei boquiaberta.

– A cereja do bolo, metade burra. Ai ai. — Ela respondeu, rindo e sacudindo a cabeleira novamente.

– Shh, desculpe se não sou a cara da riqueza igual a você! Mas pare de me enrolar e me conte isso direito, mulher!

– Ai, apressada, tsc tsc. Apressado come cru, sabia!? — Disse ela, rindo mais ainda e então, girou-me pelo cotovelo e se aproximou para sussurrar algo. — A cereja do bolo se chama, Erick! — Ela falou, por fim, dando uma piscadela no final.

– Erick!? Quem é esse!? — Eu perguntei.

– Essa pergunta é algo que é impossível de ser respondida em alguns minutos! — Respondeu ela, apontando para o enorme relógio preso no topo da parede, ao fim do corredor.

– Isso é tão injusto! Você acabou de chegar, temos que por as conversas em dia. — Eu reclamei em um muchocho.

– Quieta! Temos a mesma aula no último tempo, Educação Física! Aquele professor novo já está tão decrépto que não encherga um palmo a sua frente! Mal vai notar nossa ausência! E aí!? Topa!? — Ela perguntou, com uma das mãos apoiada na cintura.

– Ai, não sei... E se der problema? Temos mesmo que faltar? — Perguntei, mordendo o lábio em um gesto de nervosismo.

– Confia em mim, sei o que estou fazendo. Alguma vez já te coloquei em alguma furada!? — Perguntou ela, batendo o pé.

– Bom... — Eu pisquei tentando me lembrar de alguma vez que pudéssemos ter entrado em alguma fria, mas nada me veio em mente. — Ainda não, mas... -

– Mas nada, agora vá! Ou iremos nos atrasar! — Ela disse, já seguindo em disparada para a direção contrária do corredor, dando-me apenas um breve aceno com as mãos.

Bufei, inconformada e comecei a caminhar, fitando o piso em formas quadriculadas de preto e branco que mais pareciam um enorme tabuleiro de xadrez, os lustres de cristal que se espalhavam pelo teto, depois alguns feixes de luz que adentravam através dos vitrais das janelas e se esforçavam para iluminar aquele corredor sombrio, assim como toda o Glorian era. A arquitetura gótica da escola faziam parecer que estávamos todos encenando algum tipo de trama mal feita do Drácula em plenos século XXI. Permaneci andando sem nenhuma pressa em direção à sala. Era quase impossível negar algum pedido de Danna e só quem a conhecia poderia dizer. Não que eu fosse o tipo de pessoa quase impossível de ceder a uma proposta, bom... Na verdade eu até era, mas não quando se tratava de alguém que eu amasse. Acho que esse era o meu ponto fraco, não saber dizer não, ter medo de decepcionar, de magoar, de perder... Era estranho tentar ser perfeita com as pessoas quando se é a pessoa imperfeita da face da terra. Certas vezes, eu tinha impressão de que não importava quanto tempo eu vivesse, seria mais fácil tentar desvendar o triângulo das bermudas à mim mesma. Soltei um suspiro pesado ao parar em frente à sala em que seria minha primeira aula e me preparei para mais um dia incrívelmente tedioso.


Senti um misto de alegria e nervosismo ao ouvir o som do último alarme tocando naquele dia. Me levantei em um pulo e comecei a arrumar minhas coisas rapidamente, coisa que eu raramente conseguia fazer em tão pouco tempo, pois sempre vinha algum curioso à minha mesa me perguntar coisas como "Como vai a sua irmã?" ou "Quando vai ser a próxima festa?", "Ai, eu quero ir!", "Sua irmã é uma delícia" — eca- e, enfim, coisas similares. Mas para minha felicidade e alívio, dessa vez não havia ninguém muito conhecido nessa penúltima aula, então pude seguir meu caminho em paz. Atravessei a sala rapidamente e segui em disparada pelo corredor, quando uma voz feminina, que mais se parecia com a de uma criança de 12 anos, me chamou atenção.

– Christine Rydell? — Perguntou ela e me virei prontamente, dando de cara com uma loira minúscula, de bochechas coradas, cuja os olhos verdes eram de dar inveja.

– Meu nome é Theresa Budrosk, mas você pode me chamar de Tess — Ela deu de ombros, arrumando os óculos de grau e sorriu timidamente. — Nós temos aula de Biologia juntas e bom... Não conheço ninguém por aqui e você meio que me pareceu legal, sabe? -

– Ahn, Oi... ... Como sabia o meu nome? — Eu perguntei confusa.

– Ah, é que eu meio que dei... Uma olhada na ficha dos alunos, sabe? — Ela respondeu mordendo o lábio inferior e passou a fitar o chão. — Tá... Eu entrei na sala do diretor, ainda nas férias, quando minha meus pais vieram me matricular sabe? Ai eu aproveitei enquanto conversavam na sala de reuniões e roubei só um pouquinho, mas eu juro que devolvi tudo!

– Você meio que roubou!? Caramba! Tá ficando maluca? Esses arquivos são confidenciais, se descobrirem isso, você pode até ser expulsa! Eles são muito rígidos aqui. — Respondi, boquiaberta pelo que havia acabado de escutar e logo me arrependi ao ver as feições de desapontamento da menina.

– Eu não sabia... — Murmurou ela baixinho.

– Tudo bem, quem se importa. — Eu dei de ombros, revirando os olhos. — Só tente não se meter em problemas, sim?

– Promessa feita! — Disse ela, prontamente. — Ei, aonde você vai!?

– Eu vou... Bem, para a aula! Claro. Para aonde mais eu iria!? — Respondi, tentando não transparecer nenhum resquício de mentira em minha voz.

– Eu posso ir com você? Sabe... Não conheço mais ninguém aqui e é ruim demais ficar sozinha. — Ela perguntou em uma pequena careta.

Eu deveria ter dito que não na mesma hora, mas algo dentro de mim parecia berrar para que eu não o fizesse, então...

– Claro, vamos! Mas antes eu preciso ir pegar algo no meu armário. Você me espera aqui? — Perguntei.

– Sim! Muito obrigada, Christie! É como a chamam, não!? — Disse ela, abrindo um sorriso que poderia até mesmo acender todos os lustres quebrados do Glorian. — Enfim, tenho certeza que vamos ser boas amigas! — Disse ela em voz alta, enquanto eu já caminhava em disparada pelos corredores. Subi algumas escadas e continuei a andar depressa até encontrar o corredor aonde se encontrava a sala com a enorme fileira de armários antigos. O lugar estava vazio, afinal, todos os alunos estavam em suas salas e os demais, na educação física. Um arrepio percorreu minha espinha ao lembrar que pela primeira vez em minha vida, iria matar aula.

Peguei a chave dentro da mochila e destranquei o cadeado. As coisas estavam exatamente como eu havia deixado antes das férias. Minhas fotos com Danna, Daniel e Riley coladas no pequeno espelho redondo, meu caderno de anotações e alguns livros. Retirei meu cardigan que estava amontoado em meio aos livros e o coloquei por cima do ombro, enquanto trancava o armário novamente.

Então, algo mais parecido com um vulto, passou rapidamente por mim. O lugar pareceu ficar mais frio do que o habitual e me perguntei se eles haviam ligado o ar condicionado. Pisquei algumas vezes e respirei fundo e olhei em direção à porta, me arrependendo de tê-la feito no mesmo instante. Estava aberta, ou melhor... Escancarada. E eu tinha certeza de tê-la fechado, assim que adentrei. Meus lábios se entreabriram em espanto e por um instante, me senti paralizada, como se estivesse presa ao chão. Senti um tremor por todo meu corpo e me vi incapaz de realizar qualquer movimento.

De repente, as luzes começaram a piscar de forma estranha, como se estivessem falhando gradativamente, então ouvi um ruído, seguido de outro longo silêncio. As luzes da última fileira de armários começaram a se apagar... Uma por uma. Depois as da segunda fileira... E da terceira... E a escuridão começou a se prolongar, até chegar aonde eu estava. Não houve tempo para correr ou esboçar qualquer reação. Quando dei por mim, estava no escuro, não enchergava um palmo a minha frente.

– Quem está aí!? — Perguntei em pânico, mas não houve resposta. A não ser, os passos que eram rudemente dados em minha direção e ficando cada vez mais próximos.

Não sei de onde tirei forças, talvez meu subconsciente tivesse me dado alguma espécie de tapa que tenha me feito acordar para a "realidade" e ter me feito perceber o risco da situação e quando vi, estava correndo e gritando em plenos pulmões até chegar ao corredor oposto a sala. Olhei para trás algumas vezes e não ouve nenhum sinal de perseguição.

Olhei, ofegante para o enorme relógio na parede e me espantei ao ver que era tão tarde. Comecei a acelerar o passo e escorreguei no piso molhado. — Droga, Alguém deve ter derramado àgua no chão. — Murmurei irritada.

Mas não era àgua que haviam derramado. Era sangue. Meu sangue. Olhei para o ferimento em meu braço, não era nada de muito grave, na verdade o ferimento era marcado por quatro riscos que mais se pareciam com arranhões e agora ardiam e escorriam pelo meu braço por não ter tido o devido cuidado.

– O corredor para deficientes visuais é lá em baixo, Rydell. — Ouvi uma voz familiar vinda de trás, seguida por uma risadinha feminina. Brandon, é claro. E sua fiel prostituta, porque de escudeira ela não tinha nada.

– É mesmo!? Não me diga? Vou me lembrar disso da próxima vez. — Respondi irônicamente.

– Eca, olha só o braço dela. Além de cega é problemática e retardada! Aposto que está se cortando por ter levado um fora de algum cara que obviamente não deu a mínima para isso... Coitada. — Debochou a loira sem nome, que agora ria como se estivesse diante da cena mais cômica de sua vida.

– Engraçado... — Disse calmamente, enquanto me levantava. — Devo ter alzheimer, porque não me lembro de ter pedido sua opinião. — Respondi, sorrindo triunfante ao ver a mesma formar um "O" com os lábios. — E você!? O que faz aqui? — Perguntei fitando o senhor deboche.

– Quer saber mesmo? — Ele respondeu, em um sorriso torto e fez um leve movimento com a cabeça, para jogar os cabelos negros que caíam sobre seus olhos azuis, cobrindo uma pequena parte dos mesmos. — Eu estudo aqui. — Respondeu por fim, em um sorriso de dentes perfeitos que daria inveja à qualquer um.

– Desde quando!? — Perguntei arqueando uma sombrancelha.

– Desde hoje. — Respondeu ele, alargando ainda mais seu sorriso. — Ainda vamos nos encontrar muito por esses corredores, Rydell. Pode apostar. — Ele disse, fitando-me diretamente nos olhos, como se sua intensidade pudesse queimá-los ao fazê-lo. — Isso é... Se eu não estiver ocupado. — Disse ele, dando uma piscadela para a loira ao seu lado, que só faltou desmontar inteira ao ouvir aquilo.