The Anchor

30 Um encontro com Danny Zuko. — Parte I.


Notas iniciais
MEUS AMORES!!! Sei que sumi, mil desculpas, eu tô cheia de coisas no momento! Voltei a estudar (pela tarde, ainda mais!), vou começar a trabalhar, e um monte de coisas mais. Esse capítulo já estava feito, só faltava ser finalizado, mas demorei porque tava doente. Ainda tô, mas tudo bem. Criei um RPG de The Anchor, pra quem ainda não viu! Expliquei tudinho no grupo (Fanfics da Little G), beijos, amo vocês ♥ xx

Típicas reuniões familiares não estavam nos costumes da minha família (na realidade, nós mal tínhamos costumes familiares), mas lá estávamos nós três-e-meio na sala de estar. Eu, Jennifer, minha mãe e meu pai via Skype no notebook em cima da mesa.

Jennifer estava jogada ao meu lado no sofá, lendo alguma coisa sobre Once Upon a Time e rindo consigo mesma. Eu estava simplesmente sentada, olhando para o rosto relaxado da minha mãe (mesmo com toda a postura admirável que ela tinha, como se fosse da realeza) e meu pai na webcam devorando uma coxa de frango. Cena linda.

Meus pais eram muito diferentes, fisicamente e na personalidade. Minha mãe era ariana, meio preguiçosa, uns trinta-e-pouco-quase-quarenta, muito branca, com cabelos escuros e longos, olhos castanhos (às vezes ela costumava usar lentes verdes), postura impecável e vaidade notável. Sua personalidade era bem confusa, na minha opinião. Ora feliz, ora triste, indecisa, reclamona, carinhosa, séria, estressada, descontraída, e por aí vai. Mas uma coisa era fixa na sua personalidade: o estresse e o hobbie de descontar praticamente tudo em mim. Mesmo que ela não admitisse, tinha certo favoritismo por Jen.

Já meu pai era baixinho, quase nos seus cinquenta, aquariano, possuía olhos castanhos, cabelo curto e escuro, pele morena clara (como a minha e de Jennifer), uma típica barriga de pai (por mais que ele fizesse exercício todo santo dia às cinco da manhã), um homem simples e se dava melhor comigo que com Jennifer — minha mãe dizia que ele me mimava, mas eu sabia que não. Tínhamos uma conexão. Ela não entenderia.

Ele era divertido, engraçado, extrovertido, bem disposto, gente boa. Mas era muito super protetor (especialmente comigo), acreditava sempre estar certo (como minha mãe, daí já dá pra ter noção do quanto eles brigavam), era meio hipócrita e mente fechada (adivinha? Como minha mãe também!). E mais outras mil coisas dos dois. Mas, né. Eles eram meus pais e eu os amava muito.

— Então…? — comecei, querendo logo saber qual era o motivo daquela repentina reunião, fazendo Jennifer largar o celular.

Deveria ser algo bem importante, porque minha mãe nunca — atenção, nunca mesmo — acordava naquele horário. Por nada.

Uma vez, tive uma apresentação no colégio às dez da manhã (qualquer ser consegue acordar nesse horário, por mais que não seja um costume!), mas minha mãe não foi, por não ter acordado a tempo. Mas era normal, meus pais não eram do tipo que iam nas minhas apresentações de escola — meu pai até foi uma ou duas vezes —, reuniões de pais, muito menos uma reunião em casa.

— Tudo bem. — minha mãe, senhora Cristina Rocha, começou em português. Então sorriu. — Vamos nos mudar!

Jennifer abriu a boca em um “O” maiúsculo, com um olhar que parecia gritar “É O QUÊ?!”. Já que olhares não podiam falar de verdade (só para poetas e romancistas, o que não era o caso), a mesma o fez.

— É O QUÊ?! — gritou, fazendo a coxa de frango que estava na mão do meu pai na webcam cair.

Eu estava em choque. Meus olhos estavam completamente arregalados. Aquilo não era sério, era? De novo, não. Minha mente viajou por segundos, várias pessoas aparecendo nela, cada um em cada milésimo. Josh. Yv. Mish. Lori. Sophia. Lizzie. Luke. Edward. May. Lea.

Victor. Victor. Victor.

E até pessoas que eu nem tinha tido a oportunidade de conhecer melhor, como Cohan, Mary, Booker, Kaya, Hector, Taissa, Edward, entre vários outros.

Não!

— COMO É QUE É, MINHA GENTE?

Teria sido hilário eu ter gritado aquilo em português, com sotaque baiano, enquanto meu pai procurava a maldita coxa de frango desaparecida, Jennifer fazia-se congelada no meio da sala e minha mãe entrava num estado confusão.

Mas não foi.

Por que estão agindo assim?! — minha mãe franziu o cenho, me repreendendo com o olhar por ter gritado. — Não gostariam de morar em uma casa maior?

Jennifer descongelou, perguntando ao mesmo tempo que eu:

— Casa maior?!

— Sim. Vamos mudar de casa.

O alívio me invadiu completamente, e um sorriso largo apareceu na minha cara.

Olhei para Jennifer. Jennifer olhou pra mim. Então começamos a rir feito duas retardadas, enquanto nos abraçávamos e pulávamos. Cena épica.

— Isso não se vê todo dia. — comentou meu pai, enquanto mastigava com a boca cheia e minha mãe revirava os olhos, como se estivesse se perguntando qual era o problema com aquela família.

Não demorou muito para que nossa mãe nos explicasse tudo, até porque precisávamos pegar o ônibus pro colégio. Nos mudariamos para uma outra casa bem mais espaçosa (e bonita), em outro bairro. Nossos pais não nos disseram bem o motivo, mas eu não insisti, claramente era algo deles dois — e, por pura experiência, eu sabia que deveria ignorar e não me meter.

Graças aos deuses, nossa futura casa era mais perto de Blanchaster que aquela, o que era realmente muito bom, porque não precisaríamos acordar tão cedo com medo de perder o ônibus.

Quando meu pai saiu para buscar mais coxas de frango, minha mãe nos contou que nos mudaríamos na quinta-feira (no dia seguinte), então precisávamos arrumar nossas coisas. Era extremamente em cima da hora, sim, mas ela disse que estava organizando há semanas, apenas não tinha nos contado ainda.

Eu estava acostumada com mudanças, e sabia que acabaria encontrando coisas na minha própria bagunça que nem sabia que tinha na hora de empacotar tudo, assim como acabaria morrendo de espirrar no meio de toda a poeira e perderia alguns objetos no meio de toda a confusão. Normal.

— Enfim, meninas, vocês precisam ir. — minha mãe consultou a hora no celular, erguendo-se, assim como eu e Jennifer. — Tenham um bom dia, e direto pra casa depois.

Jen assentiu, aproximando-se dela e recebendo um beijo na testa. Pediu a benção para nossos pais (meu pai já estava de volta, com mais coxas de frango, Jesus), pegando a mochila no sofá e indo em direção à porta.

— ‘Mainha, a senhora lembra que vou sair com os meus amigos hoje, ‘né? — perguntei quando já estava perto, baixo, para meu pai não ouvir.

Ela ergueu as sobrancelhas, estranhando.

— Vai?

— Vou! — revirei os olhos, suspirando. — Eu falei disso ontem quando cheguei.

Eu não estava surpresa. Minha mãe sempre esquecia de tudo que eu dizia à ela, principalmente coisas importantes como compromissos nossos ou apenas meus. Sim, a “saída com os meus amigos” era na verdade o meu encontro com Victor. Se minha mãe podia saber? Não. Nós não falávamos sobre aquelas coisas. Nunca. Ela me achava muito nova para tudo aquilo, não confiava em mim, sei lá. Eu já tinha tentado muitas vezes, mas nunca dava certo, e às vezes ela nem dava muita atenção mesmo. Já meu pai, era protetor ao extremo comigo e acreditava que eu sempre seria um bebê, nem privacidade ele me dava (sério), então também não iria rolar.

Claro que eu não gostava de mentir, mas sinceramente, não podia fazer nada.

Eu só queria sair com o garoto que eu gostava.

— Quem? Que horas? Volta como? Jennifer vai? — começou ela com o típico interrogatório.

— Do que vocês estão falando? — meu pai quis saber.

— Nada, ‘painho. — sorri. — Até depois, tenho que ir! Te amo. — mandei um beijo para o notebook.

— Também te amo, filha. — ergueu uma coxa de frango.

Virei-me novamente para minha mãe, dando-lhe um beijo na bochecha.

— Tenho que começar a gravar quando diga as coisas à senhora, ‘sérião. Enfim, preciso ir. Quando eu voltar da escola, explico tudo pela segunda vez, okay? — me afastei, vendo-a assentir.

— Geovana, Geovana… — começou, me olhando desconfiada.

Apenas peguei minha mochila e ri.

— Também te amo!

— Espera aí. O que é isso no seu pescoço? — ergueu as sobrancelhas, tocando o pingente de âncora, curiosa.

Como a bela atriz que eu conseguia ser na maior parte do tempo (especial e principalmente tratando-se dos meus pais, acho que pela pressão deles serem meus pais), dei um sorriso relaxado. Habitual.

— Eu ganhei do Yv, sabe? O meu amigo que a senhora conhece. — como eu sabia que ela com certeza não lembrava, continuei: — Óculos de grau. Cantor. Toca violino. Um príncipe.

Então sua expressão se iluminou, parecendo lembrar quem era. Minha mãe não era uma atriz tão boa, então provavelmente ela tinha lembrado mesmo. Yv já tinha ido na minha casa algumas vezes, por aquele motivo eles se conheciam.

— Sim, sim. É bonito, aliás. — soltou o pingente.

Eu não sabia se ela perguntaria ou não o motivo do presente, mas eu não queria estar ali para saber. Então, preferindo previnir a remediar, apressei-me em me despedir, mandando um beijo no ar.

— Até mais tarde. — e, assim, sai no mesmo momento em que Jennifer berrou “O ÔNIBUS ‘TÁ VINDO, CORRE!”.

Eu estava animada com a ideia de mudar de casa. Não que eu não gostasse daquela nossa casa, eu gostava, mas eu era o tipo de pessoa que adorava inovação, novidade, renovação. E eu estava mais animada ainda para conhecê-la. Mas, pelo que minha mãe falou ela era realmente incrível. Uma parte de mim acabou se perguntando como meus pais tinham conseguido tanto dinheiro (porque obviamente uma casa como a que ela descreveu não era barata), mas eu os conhecia o suficiente para saber que eles sempre davam um jeito em relação a qualquer coisa, e também para saber que eu nunca os conheceria totalmente. Então, meu pai poderia estar nadando em dinheiro no Brasil, sem eu nem fazer ideia. Não, mentira, ele me diria sim. Mas o fato é que preferi deixar aqueles detalhes de lado, como Jennifer sempre fazia, e simplesmente seguir o fluxo da coisa.

— Bom dia. — desejei para uma garota desconhecida, que acenou com a cabeça de volta.

Eu estava de bom humor. Toda a história da casa me deixara animada, mas eu já estava animada antes. Sim, graças ao meu encontro com Victor, que seria naquele dia. Eu nem mesmo sabia o que ia vestir, mas procurei não pensar naquilo de manhã, porque acabaria pirando no colégio mesmo. Eu era indecisa por natureza, nunca tinha tido um encontro de verdade (aquele parecia ser um. Ah, fala sério, era um encontro sim) — ainda era com o idiota do retardado do bolo, do qual eu gostava. Em outras palavras, eu estava fodidamente nervosa.

— Bom dia, Sunshine! — alguém brotou ao meu lado, enlaçando o braço no meu.

Sorri automaticamente ao olhar para Josh, enquanto caminhávamos pelo corredor principal. Ele estava vestindo algo que me chamou atenção: camiseta branca básica, uma gravata borboleta vermelha, uma calça justa também vermelha e sapatos escuros. Jesus, como eu amava o estilo daquele garoto! Ele poderia facilmente lançar uma marca de roupas — e ele mesmo seria o modelo, porque ficava maravilhoso nelas.

— Bom dia, Joshito! — brinquei.

— Jesus, que brega, deixa os apelidos comigo! — riu, cumprimentando um grupo de meninas que passou. — E esse sorriso na sua cara? Não é só porque está extremamente lisonjeada por poder estar diante da minha presença, é?!

Ri alto, olhando para o chão rapidamente antes de olhá-lo.

— Várias coisas. — fiz a misterioa.

— Conta tu-do! — parou — Mentira, só as partes interessantes, odeio falatório desnecessário.

— ‘Tá, ‘tá! — comecei — Mas antes, duas coisas. A primeira, essa roupa é incrível. Segunda, te mandei mil mensagens ontem, o que aconteceu?

— Primeiro, eu sei! — riu, mas um “obrigado” estava implícito ali, e também na piscadela que ele soltou depois. — Segundo, ahhhhhh, meu celular ficou maluco. Fez a Lohan e, pronto, pirou! Até o deixei em casa hoje.

Aquilo explicava muita coisa. Após chegar em casa, mandei cerca de trezentas mensagens à Josh, falando tudo sobre minha conversa com Victor. Mas, se ele não leu, ainda não sabia do encontro.

Franzi a testa.

— Lohan? Lindsay?

— É, criatura. Agora coooonta! — insistiu, o que me fez rir um pouco.

— Certo. Vou me mudar de casa! — anunciei alegremente, e antes que ele pudesse falar algo, acrescentei: — Para uma maior, mais bonita e perto do colégio!

Josh pareceu mais animado que eu, o que me surpreendeu.

— Opa! Quando vai ser a festa?

— Que festa?

Festa festa, ué. Não é por isso que está comemorando? — ergueu perfeitamente as sobrancelhas. — Casa grande é sinônimo de festa. Ainda mais casa nova, que é sinônimo do sinônimo! Eu nem sabia que a sua casa era pequena, mas quem liga? Eu não.

— Não vai ter festa nenhuma, criatura! — ri — Meus pais não deixariam nem ferrando. Eu ‘tô comemorando porque… sei lá, gosto dessas coisas. — dei de ombros. — Ajuda a gente na mudança?

— Ah, saquei. Você é retardada mesmo. E, sim, ajudo. — sorriu. — Estarei lá te dando apoio moral e gargalhando quando vir a Jennifer se matando para erguer um mísero banquinho!

Gargalhamos juntos, atraindo atenção de algumas pessoas. Só de pensar em Josh conosco lá na mudança eu tinha vontade de rir. Seria hilário.

— Minha mãe me trollou hoje quando falou que nos mudaríamos, achei que era de país. — suspirei, levando uma mão ao coração, para expressar o quanto surtei na hora.

— Menina, que maldade! — ele riu, mesmo provavelmente sabendo que ela não fez de propósito. Ou talvez não soubesse. — Só pensou no boy, ein? “Não acredito que vou embora sem pegar com vontade na ‘rola dele!”

Eu senti meu rosto esquentar.

— Nem foi, ‘tá?! — lhe dei um leve tapa no ombro. — E, se quer saber, eu já peguei. — arrebitei o nariz.

— Não, você sentiu, é diferente! Sentir é isso. — Josh roçou o corpo em mim, o que me fez gargalhar alto, tentando empurrá-lo. Se as pessoas ao redor não soubessem que ele era totalmente gay, achariam que ele estava me estuprando.

— Saaaaai! — continuei rindo.

— Isso aqui é pegar com vontade. — pegou minha mão, colocando-a em seu braço, fazendo-me pegá-lo com real vontade.

Por um segundo, achei que ele ia colocar minha mão em outro lugar.

‘Tá bom, você venceu! — recolhi a mão, ainda rindo um pouco.

— Relaxa, você ainda vai pegar com a boca também, cof cof. — forçou uma tosse, com direito a mão fechada na boca e tudo.

Arregalei os olhos, dando-lhe um tapa, corando, rindo e me sentindo incrédula. Tudo ao mesmo tempo. Ele apenas riu da minha cara.

— Cala a boca! — respirei fundo. — Enfim. A outra coisa é que… — fiz mistério.

— Para de bancar a gata mistério e fala logo!

— Ontem deu tudo certo. Eu fui pro ensaio das cheerleaders, dancei com o Victor, o que pareceu um pornô musical, depois veio tudo aquilo das mensagens. Aliás, bom trabalho! E agora, bem, eu tenho um encontro com o Victor! — quando acabei, já estava surtando.

— MENTIRA QUE ROLOU UM HIGH SCHOOL MUSICAL +18 E NINGUÉM ME CHAMOU?

— JOSH!

— Okay, okay! É sério isso?! — ele não estava mais falando da dança.

Assenti animadamente, mordendo meu lábio inferior, ansiosa. Eu não sabia qual reação esperar de Josh, mas eu temia não ser muito boa, já que tínhamos todo o plano em que eu tinha que me fazer de difícil às vezes. Eu não tinha esquecido do plano, claro que não.

Josh provavelmente percebeu o jeito que eu o olhava, com certa expectativa.

Então ele sorriu.

— Aproveite seu encontro com Danny Zuko.— brincou, citando o protagonista do filme Grease (que na realidade era bem estilo o Victor mesmo).

Abri um sorriso brilhante, realmente contente, apertando um pouco meu braço no dele.

— Yay! Você vai me ajudar com a roupa, viu?

— Claro que eu vou! — apoiou — Sem mim você iria ou parecendo uma drag queen, ou uma mendiga.

Eu estava a ponto de gargalhar e responder, quando uma pessoa se aproximou repentinamente de nós dois.

Hello from the outer side, bitches. — Lori sorriu — o que me fez sorrir de volta — bagunçando meu cabelo e arrumando a gravata de Josh. — Adorei, Harvesty. — elogiou.

Josh sorriu de modo convencido, no mesmo momento em que Lori passou um braço pelo dele, deixando-o no meio de nós duas.

— Do que a baleia — eu — estava prestes a rir quando eu cheguei? Ou melhor, do que estavam falando?

Eu estava meio hesitante em falar sobre o assunto, mas Josh não tinha a mesma preocupação.

— Victor Stonem.

A primeira coisa que Lori faz eu já esperava. Revirou os olhos.

— Ah, o idiota. Sabiam que até hoje ele me ameaça por ter dado uma joelhada no saco dele, lá na aula do Leon? — ela riu. Leon era o nosso professor de Educação Física, Peter Leon. Eu lembrava muito bem do fatídico dia. — Acho que o amiguinho dele ainda não está funcionando.

Ela riu, no exato momento em que Josh olhou significadamente pra mim. Eu sabia o que ele queria dizer com aquilo.

Acho que funciona muito bem, ein.

Tive vontade de gargalhar, mas dei apenas um sorrisinho divertido.

Inho? — Josh soltou, enquanto nós três subíamos uma escada. — Você já viu, Lori?

— Eu não, ugh. — fez uma careta — Mas deve ser pequeno. Garotos com o ego tão grande tem pau pequeno, comprovado pela ciência.

— É? — eu ri, ainda secretamente com pensamentos maliciosos — Segundo que laboratório?

— O meu! — ela me deu a língua, e nos três gargalhamos. — Ah, Geo, naquele dia você foi com ele para a enfermaria, não foi? No que deu?

Parei um pouco. Eu definitivamente não podia contar a verdade, e nem que o Victor com certeza não possuía um “inho”. Opa.

— Nada de interessante. — menti e dei de ombros, querendo logo mudar de assunto.

Josh percebeu, e resolveu ajudar.

— Lori, você deveria superar todo esse ódio sem motivo pelo Victor. — ele suspirou — ‘Tá, não sou o maior fã dele, mas se cada um ficasse no seu canto seria melhor, não, honey?

Assenti, concordando com ele.

— Ele é um idiota… — ela suspirou. — Eu odeio os idiotas. Se ele fosse um idiota na dele, tudo bem! Mas ele é um idiota, ignorante, arrogante, egoísta, e ainda faz questão de tratar as pessoas mal. Você sabe muito bem disso, Josh. Digo, meu Deus, tem horas que eu…

— Tudo bem. — concordei, trincando o maxilar quase que naturalmente. — Nós já entendemos.

Ela apenas deu de ombros, sem notar minha recente irritação. Josh me olhou, sussurrando um “relaxa”, o que me fez assentir de leve. Às vezes eu realmente queria contar tudo pra Lori, mas naqueles momentos eu via que não daria certo. Ela surtaria, e poderíamos acabar brigando. Porque ela era do tipo dona da razão, e eu bem cabeça quente e impulsiva. Droga. Eu odiava ter que esconder aquele tipo de coisa.

— Olhem só. — Josh se pronunciou, afastando o clima meio tenso que pairou segundos antes, que eu mal tinha percebido, e com certeza Lori não reparou. Ele se soltou de nós, se aproximando de um grupo de garotas, interrompendo a conversa delas. — MENINAS! O Victor Stonem não é SUPER, SUPER, SUPER HOT?

Eu tive um susto com a atitude dele, mas o que me surpreendeu mais ainda foram os gritos das garotas que nós ouvimos na sequência. Depois, eu estava rindo. Eu nem sabia direito qual o motivo de estar gargalhando, mas eu estava, e Josh, que já tinha voltado, também, assim como Lori.

— Jesus. Elas são tão idiotas! — Lori soltou, ainda rindo, enquanto Josh voltava para seu lugar — entre nós duas.

O clima estava bem descontraído, então aproveitei para soltar um:

— Ah, Lori, tudo bem, mas fala sério. Que ele é muito gostoso, ele é!

Ela nem mesmo teve tempo para me responder, pois naquele momento bati de frente com alguém, não o suficiente para me fazer ir ao chão, até porque eu estava presa ao braço de Josh.

— Quem? Eu? — Victor deu um sorriso metidinho.

— Vai sonhando. — Lori revirou os olhos, fazendo-o olhá-la, enquanto discretamente passava a mão pela minha cintura, o que fez com que eu me arrepiasse e olhasse para Josh, querendo saber se ele tinha reparado.

— Sempre bom te ver, Prior. — deu uma piscadela.

Ela deu um sorriso claramente forçado.

— É? Pra mim não, mas obrigada.

Ele ignorou. Olhou para Josh, cumprimentando-o com um aceno leve de cabeça, antes de direcionar novamente sua atenção para mim. Eu estava nervosa mesmo sem querer, porque estava esperando que ele dissesse algo que acabasse fazendo com que Lori percebesse tudo entre nós, mas Victor apenas deu um sorriso torto, de canto.

— Rocha. — cumprimentou cordialmente.

— Stonem. — foi o que eu respondi, então ele passou por nós.

Soltei o ar que estava preso em meus pulmões discretamente, agradecendo a Deus por ele não ter feito nada que nos incriminasse. Eu e meus amigos voltamos a andar lentamente, com Lori já estava falando mal de Victor. Sem conseguir me controlar, acabei dando uma olhada para trás, vendo que ele não estava longe, e que se virou no mesmo momento que eu, ainda sorrindo.

E, não. O que aconteceu em seguida não foi coisa da minha miopia.

Ele piscou pra mim, e eu, como uma mortal com a carne fraca, hormônios a flor da pele, sentimentos confusos, (muitos) pecados e erros, não consegui não sorrir de volta.

***

Intervalo. Almoço. Hora do lanche, tanto faz. Dava na mesma: vários adolescentes famitos, correndo em desespero para encher a barriga, se esmurrando, se socando, se chutando, se matando na fila pra pegar a comida. Porque, no fim, o povo só ligava pra comida mesmo. Mas era a hora de comer (por mais que pra mim fosse toda hora), então fazia sentido.

Normalmente eu sentava no refeitório com a Lori, o Mish e às vezes o Luke (em alguns dias o Yv dava uma passada para falar com a gente também). Mas depois de um tempo a Lori começou a circular por todas as mesas, como eu costumava fazer no meu antigo colégio, não ficando apenas em uma. O Mish também quase não sentava mais comigo — ficava com os garotos, os amigos dele que também eram do primeiro ano. E Luke e eu não éramos tão próximos.

Então, meu mais novo companheiro de mesa era o Josh. Quase nunca ficávamos sozinhos, porque Josh era extremamente popular e praticamente amigo de todo mundo, então sempre alguém se juntava a nós, ou então ele me chamava para sentar com ele e o grupo dele (Cohan, Mary, Jennifer, às vezes Taissa e Hector. E num dia de sorte, Yv por alguns minutos). Como naquele dia.

Mary e Cohan estavam discutindo sobre questões sociais — racismo, homofobia, machismo, etc —, eu adorava conversar sobre aquilo e sempre tinha muito a falar, mas preferi ficar na minha por nenhum motivo em especial, apenas observando. Mary estava sentada ao lado de Jennifer, com um braço ao redor de seus ombros, e Cohan sentada na mesa, como Victor costumava fazer (algo me dizia que ela não gostaria muito da comparação). Elas eram muito inteligentes, eu percebi ao ouvir um pouco da conversa. E muito parecidas, também. Por mais que até mesmo conversando sobre aquilo Cohan era claramente mais direta, sem rodeios, de certa forma meio “bruta”, e Mary era mais calma, compreensiva e gentil. Ainda bem que elas tinham a mesma opinião, porque algo me dizia que se fosse o contrário, bem provável que brigariam feio (principalmente pelo temperamento de Cohan).

Jennifer estava rindo de alguma coisa que via no celular, mas opinava junto com as meninas, sem se envolver demais, porque sua atenção estava dividida. Taissa também estava ali, com seu meio metro (sério, ela era bem baixinha), estudando com Hector, que sugava sonoramente pelo canudo o resto do refrigerante de laranja que estava em seu copo.

Josh também estava ali, claro. Sentado ao meu lado, me encarando. Ou estava encarando algo atrás de mim?

— Que foi? — ergui as sobrancelhas, já que ainda não sabia erguer apenas uma.

— Nada, honey. — riu um pouco.

— Fala!

— Seu bad boy ‘tá toda hora olhando pra cá. — respondeu como quem não queria nada, mas que ao mesmo tempo insinuava tudo, dando um sorrisinho malicioso pra completar, enquanto bebia seu suco de uva.

Devia ser de uva. Era roxo.

Aquilo me deixou surpresa. Tentando ser o mais discreta possível, levei minha mão à nuca, mexendo no meu cabelo “distraidamente”, aproveitando então o momento para olhar para trás, onde a mesa central ficava. A mesa dos jogadores de futebol. A primeira pessoa que vi foi ele, sentado como sempre na mesa, não na cadeira. E, sim, ele estava me olhando. Sorriu e desviou o olhar para os garotos.

Sorri de volta, fraco. Desliguei por alguns segundos, segundos em que pensei que poderia ficar horas apenas observando-o rir das besteiras que Booker aparentemente dizia, assisti-lo bagunçar o cabelo, arrumar a jaqueta do time e bater no ombro de alguém frequentemente.

Graças ao olhar fervente de Josh na minha nuca, voltei a olhá-lo, que claramente estava se divertindo com algo.

Awn, que fofo, sweetie. — ele estava sendo sarcástico, claro. Eu ri, mostrando-lhe o dedo do meio. — Só cuidado, pra ninguém te ver secando o garoto. Que feio, ein.

— Vai se foder.

— Sempre.

Ri com ele, cutucando o meu sanduíche de frango, e acabei dando mais uma olhada para trás, mais curta e discreta que a anterior. Victor estava tomando algo em um copo escuro, diferente dos que eu já tinha visto no refeitório, que eram brancos e transparentes. Por que o dele era diferente? Não era grande coisa, apenas um copo, mas era curioso. Então, lembrei-me de algo. Alguns dos meus amigos do Brasil costumavam levar copos escuros para eventos em que havia bebida alcoólica, nos quais eles não podiam beber, por não terem 18. Os copos não eram transparentes, logo, disfarçava, já que ninguém podia ver a cor do líquido, tornando difícil saber se era suco, refrigerante ou qualquer outra coisa.

Será que Victor fazia aquilo? Não seria nenhuma surpresa para mim se ele fizesse também, na realidade era bem a cara dele, mas no colégio? Pela manhã?

Mas, no fim, não tinha como eu saber — como boa parte dos adultos que estavam nas festas em que meus amigos aprontavam com suas bebidas disfarçadas.

Victor olhou na minha direção, e provavelmente percebeu que eu olhava de modo curioso para o copo em sua mão, pois o ergueu com um sorriso, como uma saudação. Tudo ficou claro com aquele gesto + sua expressão. Ele não estava bebendo suco, ou água, ou café.

Apenas cerrei os olhos, negando várias vezes com a cabeça como se dissesse “você não existe, garoto”, o que o fez me presentear com um sorriso torto e dar um gole na bebida, por fim voltando a conversar com os garotos. Eu fiz o mesmo com os meus amigos.

Mas, eventualmente, eu podia sentir o olhar dele nas minhas costas.

***

Ser ou não ser? Eis a questão.

Primeira aula após o almoço. Ética e filosofia. Eu particularmente amava aquela matéria quando a estudava no Brasil, pois me fazia pensar sobre várias coisas. Normalmente eu parecia uma drogada quando estava perdida em pensamentos sobre quem éramos e quem seríamos, mas eu adorava de qualquer jeito. Eu já estava em Blanchaster há um tempo, então já havia tido aulas de filosofia. Mas, para mim, uma matéria como aquela precisava de um professor adequado. Alguém que não apenas ensinasse — mas que nos fizesse sentir a filosofia. A nossa professora se chamava Debrah Mozonski, que não ensinava mal, mas também não ensinava tão bem. Na realidade, ela parecia ser bem inexperiente, assim como parecia não ter ideia do que estava fazendo.

Não éramos uma turma fácil, eu sabia, e 90% da classe não se importava com filosofia, o que não facilitava muito. Precisávamos de um professor que soubesse pôr ordem, sem ser daqueles insuportáveis que tratavam os alunos como se estudassem num colégio militar — e a coitada da Debrah não conseguia fazê-lo, logo, lutava e não saia do canto, porque mal conseguia controlar os estudantes.

Infelizmente, eu não achava que pudesse existir um professor daqueles. Como em Sociedade dos Poetas Mortos. Que colocasse ordem, mas que permitisse que os alunos demonstrassem tudo que sentiam. Que não era apenas um professor, e sim um amigo. Que era respeitado, e não temido.

E, claro, amado.

— Geo, você precisa parar de viajar assim. — Luke comentou, puxando-me de volta à terra.

Lá estávamos nós. Luke sentado na carteira ao meu lado, eu sentada em uma das pernas de Mish na carteira do meio que era minha, May na carteira de trás, uma carteira vazia ao meu lado (a de Mish), e Lori na carteira na frente da minha, de costas para o quadro e de frente para nós.

Ri um pouco.

— Foi mal. Estava pensando na Debrah.

Lori ergueu uma sobrancelha maldosa.

— Não sabia que estava interessada na professora. Quando resolveu jogar no outro time, ou talvez nos dois?

Mish riu, e May fez uma cara de “não entendi”, enquanto cerrava as unhas com uma lixa. Era normal vindo dela. Não entender algo e cerrar as unhas antes de alguma aula começar.

— Ha ha ha. — forcei uma risada claramente irônica, dando-lhe um tapa na cabeça. — Não estava pensando nisso, retardada. E sim que ela está atrasada.

— Eu ainda acho que você estava pensando na professora fazendo parte da sua fantasia lésbica.

Aquele tipo de comentário era normal vindo da Lori.

— Você é uma pervertida. — ri.

— Não sou eu que estou sentada no colo do amiguinho. — piscou.

No mesmo momento, eu senti meu rosto esquentar completamente. Ela estava claramente se referindo a Mish e eu. E claro que todo mundo percebeu, até mesmo May, que abriu um sorriso malicioso. Meus amigos viviam insinuando que estava acontecendo algo entre Mish e eu, mas não estava!

— Lori, você a deixou vermelha. — Luke comentou mais uma vez, o que me fez ficar mais vermelha ainda.

Lori começou a rir, assim como May, e até mesmo Luke.

Guys, parem com isso... — a voz de Mish estava calma, acariciando a minha cintura.

Olhando rapidamente para trás de mim, pude ver que ele estava lutando para prender o riso. O que não funcionou.

— Mish! — lhe dei um tapa no braço quando ele soltou o começo de uma gargalhada.

Ele apertou os lábios, esforçando-se para não rir.

— Foi mal. É… sim, guys, já falamos trocentas vezes que somos apenas amigos.

— Isso aí. — apoiei, um pouco menos envergonhada por alguém estar me ajudando.

Mas, aparentemente, ninguém levou a sério.

— Se vocês dizem… — Lori, Luke e May soltaram ao mesmo tempo.

— Vou matar todos vocês. — murmurei, cruzando os braços. — Somos apenas amigos, que saco!

— ‘Tá, ‘tá. — May fez um gesto de indiferença com a mão, mas estava óbvio que ela não acreditava em mim. — Mas voltando a falar da professora, sabiam que ela saiu?

— Saiu? — ergui as sobrancelhas, surpresa.

— É. — Luke assentiu, aparentemente ele também sabia.

Olhando para os outros dois, percebi que todos sabiam, menos eu.

— Ela se demitiu. Acho que desistiu de tentar nos dar aula. — Mish deu de ombros, completando.

— Pois é. Ela era até bonitinha, ‘né gente? — Lori comentou aleatoriamente.

Todos nós rimos, menos May, que ainda lixava suas unhas, distraída. Ela soltou uma risadinha, mas foi meio interna, então ficou claro que estava rindo de algo que ela mesma estava imaginando.

— Sua real sexualidade é um mistério, Lauren. — eu ri.

— Tenho fetiche por professores. E isso aí é verdade. — ela ponderou, concordando. — Mas sério, agora que a Debrah foi embora, quem irá substitui-la? Por favor, meu Deus, alguém que não me faça dormir ou querer me matar nas aulas de uma das matérias que eu mais gosto. — juntou as mãos e olhou pra cima, como se estivesse rezando. — Ou melhor, costumava gostar. — corrigiu, ainda daquele jeito.

Eu ri, dando um tapa nas mãos dela, fazendo-a voltar ao normal.

— Eu concordo. No Brasil adorava filosofia, mas as aulas da Debrah… — nem precisei completar. — Mas espero que ela arranje um novo emprego rápido, é uma boa pessoa.

— Seria bem legal se entrasse no lugar dela um professor como o Anthony. — Luke suspirou.

— Lenda. — Mish sorriu, referindo-se ao tal Anthony.

Guys, quem é Anthony?

— A criatura não sabe de nada, ‘tadinha. — Lori fez beicinho e bateu de leve no topo da minha cabeça algumas vezes, como se eu fosse um cachorrinho.

Eles riram e eu dei um leve tapa na mão dela, rindo também.

— Pois é, não sei mesmo. Falem!

Ali percebi que o professor já deveria ter aparecido na classe. Nós não ficávamos tanto tempo conversando antes das aulas. Então naquele momento fez sentido o fato de que era um professor novo e desconhecido — provavelmente estava perdido no colégio.

— Anthony era simplesmente foda, De Geo. — Mish sorriu um pouco, como se estivesse lembrando de algo bom. — Era nosso professor de Ética e Filosofia…

— Só queria deixar claro que ninguém chama de “Ética e Filosofia”, chamamos só de “Filosofia”, mas claro que o Mish é o diferentão… — May soltou com humor, prestando repentinamente atenção.

— Cala a boca. — ele riu. — Enfim, ele era awesome. Não era apenas um professor, era mais que um professor. Até os dudes mais bagunceiros se comportavam na aula do Anthony. Ele não apenas ensinavam na aula dele, ele nos fazia sentir a filosofia. Ele não era temido, era respeitado e amado, sério...

Meu Deus.

Aquele era o meu professor dos sonhos. Ele era o meu John Keating!

E Mish era um bruxo, porque uma parte do que ele falou foi bem parecido com algo que eu tinha pensado antes de começar a conversar com meus amigos.

— Até por quem não gostava de filosofia. — Luke continuou. — Todo mundo aqui gostava dele. Não apenas aqui, em todas as classes. — acrescentou. E antes que eu pudesse perguntar onde diabos estava aquele deus, ele continuou: — Mas ele precisou sair, antes de você chegar no colégio. Foi pra San Diego, se não me engano. A noiva dele morava lá, eles mantinham um relacionamento a distância, então ele conseguiu uma ótima oportunidade de emprego e precisou ir.

— Ele nos prometeu que voltaria. — Lori continuou. — Mas não apareceu mais. Contrataram a Debrah e pronto. Mas nunca esquecemos dele, sério, Geo, ele era demais.

Nossa.

Ele parecia ser verdadeiramente incrível.

— Eu imagino. Na realidade... — quando eu estava prestes a continuar, alguém me interrompeu:

— Alguém aqui sabe onde fica o banheiro? — uma voz masculina foi ouvida, e no segundo seguinte eu não consegui entender nada, porque todo mundo começou a gritar.

Exatamente todos estavam gritando. Os quietos, os bagunceiros, os góticos, os nerds, os super nerds, as meninas do clube do batom (história antiga) e os meus amigos. Normalmente eu acompanharia a euforia sem hesitar, mas eu não sabia do que se tratava. Foi aí que eu o vi.

Um homem magro (bem magro), de cabelos castanhos e olhos que não consegui identificar a cor, mas eram escuros. O que mais se destacava nele eram três coisas. As roupas: que eram uma mistura de roupas típicas francesas (ao menos eram do estilo que eu via em fotos. Boina, casaco, cachecol, coisas do tipo), e as roupas de um mendigo mais arrumado. Bem no estilo "vesti a primeira coisa que vi, e estou com frio, mas não com tanto frio assim". Era estranho, mas parecia combinar com ele.

Praticamente todos os alunos se levantaram, a maioria abraçando-o com a maior felicidade do mundo, e o resto trocando tapinhas, ou apenas sorrisos.

Mas todos pareciam respeita-lo. Ele sorria, parecendo bem feliz também.

Eu era a única sentada, porque novatos ou veteranos, todos estavam de pé. Se até os novatos estavam o cumprimentando, com certeza eu não o conhecia porque cheguei atrasada no colégio.

Não demoraram muito na recepção, e logo foram se sentando, aos poucos. Quando Mish, Lori, Luke e May retornaram ao lugar deles, eu quis perguntar o que diabos estava acontecendo, mas também não pude. Ainda estava uma euforia na sala, tanto que eu não ouvia direito os meus amigos, todo mundo estava gritando, conversando, todos parecendo animados.

Aquilo fez com que eu levasse o segundo susto do dia:

O homem assobiou alto (inveja me definiu, porque eu nunca soube assobiar), fazendo com que todos se calassem.

— Vocês ficam bem melhor assim. — ele brincou, sorrindo. Andou até a mesa do professor, e ali depositou uma bolsa preta, daquelas pastas que sempre estavam cheias de papéis. Ele possuía uma ótima postura, pelo que notei. Se apoiou na mesa, nos olhando. — Também senti saudades, pessoal. Muitos aqui conheço há anos, outros tive o prazer de conhecer recentemente, porém infelizmente não pude criar um laço como com os outros, pela falta de tempo e pela rapidez com que as coisas aconteceram. — suspirou — E, claro, vários rostos que eu não me lembro bem na multidão. — silêncio — A multidão é aqui, pra quem não entendeu. — todos riram.

Ele pegou um piloto, batendo-o levemente na própria mão, como uma mania.

— Para vocês, novos alunos, é um prazer conhecê-los. Sou Anthony, sim, é o meu primeiro nome, e podem me chamar assim. Sem aquela formalidade toda. Sou seu novo-velho professor de Ética e Filosofia.

Foi aí que caiu a ficha. Era ele, o tal super professor que todos amavam. Fazia total sentido. E sim, ele parecia muito legal, além disso, eu sabia que ele era legal. Nunca vi um professor ser recepcionado daquele jeito por todos. E, finalmente, eu teria o meu John Keating.

Alguém levantou a mão. Uma garota loira que sentava lá na frente.

Veterana. Eu não tinha certeza do nome dela, mas achava que era Kiara.

— Sim, Srta. Mills?

— Professor, o senhor prometeu que voltaria logo, mas demorou bastante. O que aconteceu?

— Bem, Kiara... — ele parou um pouco — Tive algumas tarefas a cumprir, entende? Mas não pude ficar longe de vocês, porque...

Toc toc toc.

Alguém estava batendo na porta da sala. Anthony foi até lá, abrindo-a, e eu quase engasguei quando vi quem era.

— Sr. Stonem. — o professor deu um pequeno sorriso, com um tom de voz levemente surpreso.

— Professor. — Victor sorriu daquele jeito que ficava entre provocador e irônico.

— Então é verdade. Você voltou.

— Ora, as pessoas já estão falando de mim? Sou tão famoso assim? — Anthony soltou, divertido.

— É, digamos que sim. — Victor respondeu, sem muito interesse, empurrando um pouco a porta e olhando pra mim.

Ergui as sobrancelhas, vendo-o olhar novamente para Anthony.

— Sua sala não é do outro lado? Ou você resolveu voltar ao primeiro ano?

— Anthony perguntou, mas ficou claro que já sabia que Victor estava ali porque queria algo.

— Sempre hilário, professor. — ele estalou a língua, cruzando os braços — Na verdade, eu vim pedir uma coisa.

— Sim?

— Geo. — olhou pra mim. — Pode vir aqui fora? É rápido.

Ai, Jesus.

Todos olharam pra mim, e eu tinha certeza que estava vermelha pra caralho, ou roxa, ou verde. E apenas piorou quando todos soltaram "uuuuuh", acompanhado de risadinhas e sorrisinhos maliciosos. Lori revirou os olhos, Mish ergueu uma sobrancelha, May abanou-se, como se estivesse com muito calor, e Luke riu da reação dela.

Me levantei, sabendo que eu seria zoada até o século seguinte por todo mundo ali. Passei pelas fileiras, ouvindo os burburinhos, e quando olhei para Victor, ele sorria torto, parecendo orgulhoso de seu feito, encostado na porta.

Parei na frente do professor.

— Então você, aparentemente, é a Geo. — Anthony olhou de canto para Victor. Dei um sorrisinho. — Vá. Mas não demore.

Apenas assenti rapidamente, quase batendo continência, então sai e Anthony fechou a porta.

Eu estava de frente a Victor, olhando-o com curiosidade, e ele estava em silêncio, me olhando com interesse. E ficamos assim.

Por um tempo.

Eu estava esperando ele dizer alguma coisa, mas por que ele não falava nada? Ele parecia desligado do que estava ao redor dele.

— Então...? — franzi a testa.

— Ah, sim. — voltou à terra, descruzando os braços. — O que foi?

— Eu que pergunto. — ele estava bêbado ou o quê? — Você que veio me chamar, esqueceu?

— Ah, é. — lembrou. — Vim saber se... hoje ainda está de pé. É, isso.

Por que ele estava olhando pra mim daquele jeito, e parecendo tão desnorteado?

— Bem, sim. — sorri de lado. — Quero ir ao Kendal's Juice.

— Mandona.

— Eu não sou mandona. — dei-lhe um leve soco no braço. — Mas lá é legal, vai.

Ele revirou os olhos, mas não discordou. Achei que iria insistir em ir contra mim, por pura implicância ou porque gostaria de ir a outro lugar, mas Victor apenas assentiu.

Porque gostava muito do lugar, ou porque ele estava estranho mesmo.

Alright.

— Você está bem?

— Estou ótimo.

— Okay... preciso ir.

— Espera. — ele se aproximou de mim e colocou a mão na minha cintura.

— O que foi? — o olhei com curiosidade, sem demonstrar que tinha gostado do toque.

Ele não me respondeu. Só ficou ali, mais uma vez apenas me olhando, em completo silêncio. Senti seus dedos apertando de leve minha cintura, deslizando para debaixo da blusa do uniforme das cheerleaders e acariciando diretamente minha pele. Me arrepiei completamente — os dedos dele estavam frios, como sempre, mas eu gostava.

Novamente, ele parecia estar no mundo da lua, e acabou me levando com ele.

Victor não parava de me olhar, nem de me tocar. Seu olhar desceu à minha boca, subindo para meus olhos novamente.

— Victor. — murmurei.

Eu queria saber o que ele estava pensando. O que estava acontecendo. E se ele queria me beijar tanto quanto eu queria beijá-lo.

— Hum?

Como um puxão de volta à terra, ouvimos a porta abrir. Tomei um susto, sentindo a mão dele longe da minha cintura no segundo seguinte. Dei um passo para longe dele, já que estávamos bem próximos.

Anthony nos encarava como quem estava assistindo algo muito interessante, com um sorrisinho provocador nos lábios e um brilho nos olhos que descobri que eram castanhos.

Ele não abriu a porta totalmente, na verdade, não chegou nem na metade.

De modo que apenas ele podia nos ver. Quando percebi aquilo, um lado da minha mente achou que ele poderia saber que eu e Victor talvez estivéssemos fazendo algo que não gostaríamos que todos vissem. O outro lado da minha mente mandou o primeiro calar a boca e parar de viajar.

Meus dedos estavam formigando, e eu fiz o máximo para disfarçar minha cara de culpada e minha vergonha. Como eu era uma boa atriz, e conseguia ser bem convincente quando me concentrava, acreditava ter convencido o professor.

— Então, já acabaram a conversa importante?

— Já. — Victor respondeu por mim e por ele. Olhou para mim. — Boa aula. — sorriu de canto, aproximando-se, acariciando meu braço e dando um beijo na minha bochecha.

Sorri de volta, afastando-me dele. Anthony deu espaço para eu entrar na sala, olhando-me como se soubesse de tudo. E ficou sorrindo daquele jeito divertido, gentil e ao mesmo tempo esperto. Como quem não queria nada. Se Victor era irônico, Anthony era bem sarcástico. Quando entrei, olhou-me então como se dissesse "claro, você pode entrar na aula, safadinha". Ri do meu próprio pensamento, olhando para trás.

— Você não deveria estar na classe, Victor? — perguntou como se dissesse "sei qual é a sua".

— Aula livre.

— Aham, claro.

Victor apenas riu, saindo. E assim Anthony fechou a porta, e eu aproveitei para voltar à minha carteira, ignorando os comentários dos meus colegas de sala.

— O que ele queria? — Lori perguntou, quando me sentei.

— Nada de importante. Veio dar um recado da minha irmã. — eles nem eram amigos, na verdade Jennifer não gostava dele, mas eram da mesma sala, então não foi tão sem sentido o que falei.

— Hum. — foi o que ela respondeu, prestando atenção em algo que o professor estava escrevendo no quadro.

Suspirei, agradecendo por ela não ter dito mais nada. Quando olhei para Mish, vi que ele me olhava com certa curiosidade. Mas desviou o olhar, sem me perguntar nada, e eu agradeci mentalmente por aquilo também.

***

As pessoas nunca deveriam pedir para librianos tomarem decisões. Bem, ninguém estava me pedindo nada, e querendo ou não as decisões faziam parte da vida de todos, mas eu deveria ser uma das pessoas mais indecisas da face da terra. O meu mais recente problema? Decidir que roupa eu usaria para meu encontro com Victor. Encontro. Eu nunca tive um encontro, aquilo me deixava nervosa e animada ao mesmo tempo. Eu não estava procurando uma roupa para agradar Victor. Eu estava procurando algo que me fizesse sentir bonita.

Mas aparentemente nada estava dando certo, porque eu já tinha trocado de roupa treze vezes quando me joguei na cama, cansada e completamente frustrada. Eu tinha roupas bonitas, mas quando precisava de uma para um evento específico, sempre passava por aquilo em cima da hora, a menos que tivesse procurado tudo antes.

Olhei para meu celular, puxando-o e vendo a hora. Okay, ainda não estava em cima da hora.

Eu e Victor marcamos às 20:00. Eram 19:00. Eu ainda tinha uma hora, e estava sendo bondosa comigo mesma ao pensar que não estava em cima da hora, porque no fundo pra mim estava sim.

Ao menos eu já estava quase pronta. Meu cabelo estava preso, já que eu estava trocando de roupa várias vezes e ele iria acabar atrapalhando. Preparei minha pele e fiz uma maquiagem escura nos olhos — sombra preta levemente brilhosa, delineador não muito grosso (passei vinte minutos tentando não borrar aquela merda, e eu achava que ainda estava meio desigual, mas tudo bem, dava pro gasto), lápis de olho na parte de baixo, e passei bastante rímel, o que fez com que parecesse que eu estava com cílios postiços), que modéstia à parte, ficou demais, ainda mais em combinação com o resto. Eu não costumava usar blush, mas pra dar uma corzinha resolvi passar um pouco. Não daqueles que ficavam bem chamativos em mim (rosa), mas sim um de cor mais escura.

Nos lábios, batom vermelho matte, eu odiava os cremosos. Sempre.

Eu gostei da maquiagem, era própria para uma saída a noite, escura e ainda por cima sexy. Se Dan estivesse ali, ele me chamaria de Vampira Prostituta.

Ri do meu pensamento, suspirando tristemente ao lembrar que não sabia que roupa iria vestir.

Resolvi levantar da cama e continuar a procura. Meu objetivo era vestir uma roupa como a que usei no desfile de Juliet, mas ao abrir meu armário lembrei que salto alto não era a minha praia, e aquela roupa no fim não foi das mais confortáveis.

Naquele momento percebi o porquê de não ter achado nada que me agradasse realmente — porque eu estava procurando uma roupa daquele jeito.

E aquele não era o meu estilo realmente. Se fosse uma festa, eu procuraria e provavelmente acharia, mas não era. Era uma saída com Victor, e se eu me sentia confortável com ele, por que não me vestir como eu mesma?

Estava na hora dele ver como era a verdadeira Geo. Sem salto alto, sem uniforme de cheerleader, sem vestido chique. Eu estava um pouco nervosa, sim, mas não significava que eu tinha que me vestir como uma princesa ou como quem ia para a entrega do Oscar — se não era daquele jeito que eu me sentia verdadeiramente confortável, muito menos para aquela noite.

Okay. É um encontro. Mas trate isso como uma coisa normal. Não exagere.

Comecei a vasculhar entre as minhas coisas, e não demorei muito para achar algo que gostei. Era um cropped vermelho, com um zíper no centro.

Joguei na cama. Voltando à procura, joguei várias roupas no chão (uma bagunça total), pensando em algo para combinar com ele. E, por fim, achei.

Peguei um par de coturnos pretos (de Jennifer), minha meia calça e mais algumas coisas. Então, comecei a terminar de me arrumar.

Quando acabei, eu não sabia que horas eram, mas sabia que ainda não eram 20:00. Eu estava de pé, encarando meu reflexo no espelho e sorrindo, já com o cabelo solto e liso, preferi deixar sem ondulações.

Estava usando o cropped vermelho, com uma jaqueta de couro preta aberta por cima. Uma saia curta de cintura alta preta, que deixava um pouco da minha barriga a mostra, era apertada na cintura e soltinha no quadril. Meia calça preta lisa, e os coturnos pretos de Jennifer nos pés. Os acessórios eram o colar de âncora, uma gargantilha preta com uma pedrinha azul, uma pulseira de couro grossa e outras fininhas, e alguns anéis escuros sem enfeites, nem nada.

Tirei uma foto com o celular, enviando-a por sms para Josh.

Pra mim estava ótimo. O cropped era o diferencial no visual praticamente completamente preto, além de possuir um decote (o zíper que desci um pouco) que deixava meus seios lindos, e a saia marcava minha cintura e deixava-a mais bem ondulada do que era.

Meu celular apitou, avisando a chegada de uma nova mensagem.

Josh.

MeninaaaAaAaAaA, arrasou!!!!! Nem precisei te ajudar. Ta linda gostosa maravilhosa, boa sorte xx

Suspirei, jogando meu cabelo para o outro lado, me aproximando do espelho e retocando o batom.

Pelo espelho, vi Jennifer entrar no meu quarto, já que a porta estava apenas escorada.

— O que foi? — perguntei, olhando-a apenas pelo reflexo.

— Você parece uma prostituta.

Revirei os olhos.

— Que bom, 'né?

— Brincadeirinha. — ela sorriu de lado, provocativa. — Posso saber onde vai?

— Sair.

— Não diga!

Espelhei o sorriso provocativo dela, limpando o canto da minha boca, que acabei borrando.

— Vou sair com uns amigos. Já falei com a mamãe. — respondi.

Pelo espelho, pude vê-la passar os dedos pela minha cama, aparentemente decidindo se sentava ou não. Aquilo não parecia ser bom. Com certeza ela queria algo. Ela sentou.

— Amigos. Sei. — ela não tinha engolido aquela e deixou claro — Você está usando meus sapatos.

Ri de leve, olhando rapidamente para meus pés.

— É. Amigos. E os sapatos ficaram demais com essa roupa, valeu.

— Não lembro de você ter pedido emprestado.

— É porque eu não pedi. — guardei o batom, virando-me para ela. Jennifer revirou os olhos, mas aparentemente resolveu não discutir. — O que quer?

— Por que não diz logo que vai sair com alguém?

Eu parei. Como diabos ela sabia? Por um segundo eu devo ter parecido completamente surpresa e culpada, mas no segundo seguinte virei de costas e fui em direção ao armário, fingindo procurar algo.

Tentei pensar. Ou ela realmente sabia de algo, ou estava falando aquilo para que eu me entregasse sem querer, ou estava visível na minha roupa que eu tinha um encontro.

Não. Eu sempre me vesti assim.

Ou será que eu estava com uma cara parecida com a daqueles personagens de filmes quando iam sair com quem gostavam? Que ficavam sorrindo como retardados, cantarolando e todas as outras coisas? Eu não estava cantarolando, mas não sabia sobre o resto.

— 'Tá maluca? — fingi incredulidade, afastando um pouco a porta do guarda-roupa e olhando pra Jennifer, para ela não dizer que eu estava tentando me esconder ou fugir.

— Estou completamente sã. — respondeu com tédio, como se o meu fingimento não funcionasse com ela.

Mas sempre tinha funcionado. O problema era que ela sabia que eu estava mentindo sobre a saída com meus amigos. Se fosse em outra situação, eu teria a convencido.

— Não parece. — voltei a fingir procurar algo no guarda-roupa.

— Sério?! Porque está escrito na sua cara. — aquilo fez com que eu a olhasse novamente, tocando então minha testa, depois minhas bochechas.

Jennifer deu um tapa na própria testa. — Não literalmente, sua anta. Quem é o garoto? Ah, é o loirinho?! — subitamente ela pareceu animada.

Mais uma pro fã clube Mish.

Foi o que pensei, perguntando-me qual era o problema das pessoas. Que saco, nós éramos apenas amigos!

— Jesus! Por que todo mundo acha que temos algo?! Não temos! — fechei a porta do guarda-roupa, indo até o armário e pegando meu perfume.

Tirei a jaqueta, já que estava com um pouco de calor. Eu poderia ter mentido e dito que era ele sim, para Jennifer sair do meu pé. Ela acreditaria e pronto. Mas infelizmente, não tive aquela ideia a tempo.

— Não é ele? Ah. — sua expressão voltou ao normal, mas de repente pareceu decepcionada. Por quê? Ela nem conhecia ele direito! — Espera. Quem é, então?

Suspirei profundamente.

— Ninguém, criatura. Me deixa em paz, vai.

— Não, eu quero saber.

— Não é ninguém!

— Dá pra saber que você tem um encontro até pelo perfume que você 'tá usando, Geovana.

— Eu sou cheirosa naturalmente mesmo, ainda não passei o perfume.

— Fala.

— Não é...

— Fala!

— N...

— FALA!

— E…

— FALA!

— É um garoto aí! Argh! — bati o pé no chão, frustrada.

Por que caralhos eu tinha dito?! Qual era a porra do meu problema?! Eu sabia que ela não iria desistir, mas eu poderia ter aguentado até o final, e não ter aberto a droga da boca.

Achei que Jennifer iria ficar satisfeita consigo mesma, comemoraria por ter ganhado a resposta que queria (uma parte dela), mas não. Sua expressão se tornou impassível. Ela deveria estar melhor, mas estava... pior.

E o tom de voz que ela usou na pergunta que me fez em seguida foi bem esclarecedor. Ela parecia não estar nem um pouco feliz, como se a cada passo aquilo piorasse. Como se, sei lá, ela estivesse esperando ou temendo algo.

Aquilo me deixou com um nó na garganta.

— Qual o nome dele? — ela parecia querer parecer indiferente, mas era óbvio que não estava.

— Você não conhece. — virei-me de costas, passando perfume nos pulsos e pescoço.

— É? — riu de leve, sem humor. — Pois eu acho que conheço sim.

— É? Então quem é, Srta. Sabe Tudo? — ri, descrente.

— Eu não preciso dizer.

— Corrigindo, você não sabe quem é e pronto.

— Victor Stonem.

Foi naquele momento que eu congelei. Não era possível que ela soubesse, pelo amor de Deus. Eu sabia que Jennifer não era burra, mas... existia uma esperança dentro de mim, que a todo momento me fazia pensar que ela não descobriria. Naquele momento, a esperança morreu. E eu tinha quase certeza de que estava ferrada.

— Ahn? — a única coisa que consegui foi me fazer de idiota. A partir dali, retomei os sentidos. Bem, mais ou menos. — Do que você 'tá fazendo?

— Fazendo?

— Falando. Eu quis dizer falando. — apertei os olhos, agradecendo que estava de costas para ela e forçando-me a racionar.

Pus novamente o perfume no armário delicadamente, com medo de pôr força demais e acabar quebrando.

— Não se faça de idiota, porque eu não sou idiota. — eu quase podia vê-la revirando os olhos, como sempre fazia. — Eu sei que é ele.

Forcei uma risada. Soou um pouco forçada até pra mim, mas depois se tornou mais natural.

— Besteira.

Virei-me, encarando-a.

— Ah, jura?! — bufou — Até um cego perceberia que vocês ficaram se olhando durante todo o almoço. E eu soube que ele foi na sua sala, também.

Abri a boca, sem emitir som algum. Eu estava chocada. Logo após, veio a indignação.

— Você é o que?! O FBI?!

Ela ignorou, suspirando. Parecia um pouco irritada, e bem impaciente.

— É sério, Geovana. — argh. —Você sabe que ele não presta, não sei o porquê de continuar com isso!

Aquele foi o momento em que comecei a ficar puta.

— Isso o quê?! Pelo amor de Deus, eu não estou fazendo nada! — fui penteadeira.

— Está sim. Está prestes a sair com ele, e provavelmente gosta dele.

Suspirei profundamente e olhei diretamente pra Jennifer. Eu estava de saco cheio. Saco cheio de se meterem na minha vida, de opinarem sem permissão, de quererem me dizer o que era certo e o que era errado, de me tratarem como uma criança, ou uma doente mental.

— É, eu vou sair com ele. — antes que eu pudesse me parar, eu já tinha falado. E não me arrependi. Cansei. Senti um enorme peso saindo dos meus ombros. — É, eu gosto dele. Satisfeita?

— Estarei quando você esquecer aquele completo imbecil. — ela não pareceu surpresa com a minha revelação, e era porque não estava mesmo.

Trinquei o maxilar, cruzando os braços. Aquilo me irritou mais ainda.

— Você não o conhece, não o chame assim. — meu tom era claro.

— E você conhece, não é mesmo? — riu, debochada.

— Sim, Jennifer, eu conheço. — eu não sabia como conseguia manter minha voz calma. Principalmente porque se tratava de mim, que era super histérica e explosiva. — Talvez não muito, mas mais que você. — suspirei. — Se você ao menos tentasse se aproximar dele, saberia que ele não é um completo babaca.

Ele é bem legal, na realidade.

Ela bateu palmas irônicas, levantando-se da cama.

— Você está chamando um babaca de "bem legal", que maravilha.

— Não o chame assim. — disparei, dando um passo na direção dela.

— Agora você está o defendendo. De novo. — ela parecia verdadeiramente indignada.

— Sim, eu estou! E eu posso fazer de novo, de novo e de novo! — meu tom de voz já estava mais alto. Adeus querida calma. — Eu não me incomodo em defendê-lo. Se alguém quer chamá-lo de completo imbecil ou babaca, que seja alguém que o conhece, alguém que ao menos já falou com ele!

Ela se calou. Por um segundo, um segundinho, eu achei que ela iria desistir — ou perceber que estava sendo injusta comigo, e também por estar julgando alguém que nem conhecia. Mas, não.

Ela não percebeu nada.

— Não saia com ele. Se afaste, enquanto ainda não ficou com ele.

Automaticamente olhei pra baixo e descruzei os braços. De certo modo, não consegui encarar a minha irmã naquele momento.

— Não acredito que você ficou. — eu sabia que ela estava verdadeiramente surpresa.

Ergui o olhar, respirando fundo e respondendo firmemente:

— Sim, eu fiquei. E você está sendo completamente ridícula. — ela abriu a boca para responder, mas interrompi: — Quer saber? Não sou obrigada a ouvir isso. Nada disso.

Fui rapidamente até a cama, pegando minha jaqueta de couro e meu celular. Antes que ela pudesse se jogar na porta e me impedir, sai em passos rápidos. Ela veio atrás.

— Volta aqui! — gritou.

Olhei para meu celular, desbloqueando-o. 19:51. Corri até a escada. Logo Victor estaria ali. E nem que eu ficasse dando voltas no quarteirão para espera-lo, eu precisava acabar aquela discussão com Jennifer.

— O que você quer mais?! — gritei, vendo-a se aproximar de mim. Desci os primeiros degraus, olhando para trás. — Eu já admiti que vou sair com ele, e que gosto dele. — impulsivamente, tentando melhorar a situação, acrescentei:

— E, se quer saber, há uma chance dele gostar de mim também!

— Ele não gosta de você! — ela estava tão convicta que me assustou.

Desci mais alguns degraus, chegando ao meio da escada.

— Talvez eu possa fazê-lo gostar.

Então ela segurou meu braço, impedindo-me de completar a descida.

Olhei para seu rosto, cerrando os olhos. Eu estava muito irritada. Tentei puxar meu braço, mas ela não deixou.

— Como você pode ser tão ingênua?! — seu tom de voz me surpreendeu. Era frio, quase cruel. E parecia sincero, mas não era verdade. Nada daquilo que ela estava dizendo. Parecia sincero porque era o que ela achava, não porque era um fato. — Isso não é um filme! Vocês NÃO PODEM ficar juntos! Não vai rolar! — ela gritou o "não podem", me irritando mais ainda. — Seus mundos são diferentes, tudo é diferente! Ele só quer diversão com você.

— Se eu também quiser, não vejo problema. — quase rosnei.

— Argh! Você não entende.

— É, não entendo. Não entendo mesmo! — novamente, tentei puxar meu braço. Ela não estava me machucando, mas seu aperto era firme. — Todos vocês falam como se ele fosse um monstro ou um estuprador maluco, sendo que ele não é! Ele é só um garoto!

— Eu me importo com você. Só isso. — a raiva dela abriu lugar para tristeza.

Eu sabia que ela se importava. Eu sabia que não fazia por mal. Mas era a minha vida. Se fosse um erro, que fosse! Era o meu erro. Eu estava disposta a correr o risco. E aquilo não dizia respeito a ela, nem a ninguém. Será que não dava pra entender?

Calma. 1, 2, 3.

Eu estava procurando me acalmar. Me estressar com aquilo apenas pioraria tudo.

— Jennifer, eu amo você, e sei que você me ama, mas você nunca se meteu na minha vida. Vamos apenas continuar assim. — suspirei profundamente, sentindo-me mais calma. Seu aperto ainda me incomodava, mas não tanto. — Presta bem atenção, okay? Sei que você é amiga da Cohan, e sei que ela odeia o Victor mais que tudo, mas você não tem nada a ver com isso! Não precisa odiá-lo só porque ela odeia! — sim, eu estava tentando conscientiza-la.

Eu não esperava que ela de repente começasse a gostar dele. Eu apenas queria que ela não falasse o que não sabia, e parasse de se meter em tudo aquilo que não a dizia respeito. Ou, se quisesse saber o que estava acontecendo, que viesse e falasse comigo como uma pessoa normal e procurasse saber da história toda.

Jennifer surpreendeu-se.

— Como diabos você sabe disso?!

É, a parte da conscientização não tinha funcionado, até porque seria meio difícil levando em conta que ela nem prestou atenção.

Eu parei.

Droga. Falei demais.

Eu não podia dizer que o Josh me contou aquelas coisas. As meninas talvez acabariam não confiando mais nele (mesmo ele não me contando nada demais), e eu não queria e nem podia metê-lo nos meus problemas com a minha irmã. E a última coisa que eu queria era colocá-lo em problemas, também.

— Todos sabem que eles se odeiam. — foi a minha resposta.

Ou foi bem convincente, ou Jennifer estava focada demais em se intrometer na minha vida amorosa para perceber que era mentira. Sim, todos sabiam, mas eu não soube daquele modo.

Ela suspirou.

— Cohan está certa. Ele não presta e fim de história. — apertei meu punho. Eu odiava aquele tom autoritário, odiava o aperto em meu braço e odiava o modo que ela falava de Victor. — Só vai te usar e iludir... — toda a raiva que eu tinha sentido antes estava voltando. Talvez nem tivesse ido embora de verdade. — E quando ele não quiser mais e enjoar de você, pode dizer adeus a...

— Chega.

— ...essa besteira de...

— Para, Jennifer. Chega.

— ...essa fantasia idiota que...

— CHEGA!

Eu gritei. Ela se calou, surpresa. Eu estava ofegando de ódio. Limite. Eu não estava mais no meu limite. Eu já tinha passado dele.

— O que você disse? — ela cerrou os olhos, apertando o meu braço com mais força.

Ela não era a minha mãe.

— O que você ouviu. Eu estou cansada de toda essa merda, sabia? CANSADA! — puxei meu braço com força, e senti uma ardência. Não sabia se tinham sido as unhas dela, mas aquilo me deixou mais puta ainda. — Por que as pessoas não podem me deixar viver em paz? POR QUÊ?

— Geovana, cala a b...

— OU O QUÊ? Vai me bater? Sinceramente, eu estou pouco me fodendo pra você agora. Chega. Acabou. Eu não aguento mais. Você, Lori, e todos os outros que eu sei que só não se dão ao trabalho de falar mal de Victor porque não têm intimidade comigo. — meu braço estava ardendo de verdade. Minhas unhas quase estavam perfurando minha pele, pela força que elas estavam cravadas na palma, apenas de uma mão. A outra mão apertava com força minha jaqueta. — Sei que ele é um idiota, caralho! Mas eu gosto dele mesmo assim. — minha respiração estava muito pesada. Jennifer estava com uma expressão indecifrável no rosto. — Eu... eu gosto de como ele me faz sentir, e não vou me afastar dele, a menos que seja uma decisão minha! Ninguém vai mudar isso. Ninguém. Você entendeu? — eu não queria que ela respondesse. Eu não me importava se ela entendia ou não. — Uma vez eu me deixei influenciar por vocês e acabei dizendo uma coisa que não devia, o que foi um dos piores erros que já cometi.

Automaticamente lembrei do dia em que eu e Victor dormimos naquele Motel, após o desfile de Juliet. Eu estava me referindo ao que falei com Lori no celular, e Victor ouviu. Foi um erro. E eu não iria comete-lo novamente.

Então ouvi uma buzina. Olhei para Jennifer, no exato momento em que ela olhou pra mim. Sem pensar duas vezes, a empurrei a desci os últimos degraus correndo. Eu sabia que ela estava logo atrás de mim, até porque gritava meu nome e pisava fortemente no chão. Eu não ligava pro fato de que poderia cair, só queria e precisava chegar até a porta antes de Jennifer. Então, pulei os últimos degraus, atravessei a sala tão rápido quanto o Barry Allen, e segurei na maçaneta. Infelizmente, Jennifer também, e sua mão ficou por cima da minha, apertando-a e impedindo-me de abrir.

Dirigi um olhar raivoso à ela.

— Abre.

Ela ignorou.

— Não vá. Isso não vai dar certo. Estou tentando poupar você, não quero que sofra, Geo.

Suspirei.

— Por que não daria certo? — ela se calou. — Vamos, diga!

— Ele não gosta de você, e nem vai gostar. — foi o que ela respondeu.

— Por quê?! Eu quero uma resposta de verdade.

— Eu não...

— Vamos, diga! Se você me der uma resposta que me convença que você está certa, eu não vou. Eu desisto dele.

— Ele... ele não gosta de você, e nunca vai...

— POR QUÊ?!

— PORQUE UM GAROTO COMO ELE NUNCA GOSTARIA DE UMA GAROTA COMO VOCÊ!

Eu senti claramente como se tivesse levado um soco no rosto, ou no estômago. Aquilo machucou, doeu de verdade. Tanto que me fez congelar, perder a fala e sentir meus olhos marejados. Era aquilo que as pessoas pensavam, então? Aquele deveria ser o pensamento de Cohan, também. Como de Mary. Até porque Jennifer não o conhecia. Deveria ser o pensamento de todo mundo.

Que eu não era boa o suficiente pra ele, e que nunca ele gostaria de uma garota como eu.

Eu não estava mais com raiva.

Eu só queria sair dali.

Reunindo toda a força que consegui, respondi ironicamente, claramente magoada:

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— Era o que eu precisava ouvir. Obrigada.

Jennifer ergueu as sobrancelhas, como se não esperasse aquela reação. Então arregalou os olhos e abriu e fechou a boca, repetindo o ato algumas vezes, como se não soubesse o que falar.

— O quê...? Espera, não foi o que eu quis dizer!

Mais uma buzinada. Senti alguém mexendo na maçaneta da porta do lado de fora, então a soltei, assim como Jennifer. A porta abriu, revelando minha mãe. Ela nos olhou com curiosidade. Talvez houvesse uma tensão pairando no ar, eu não sabia, e nem ligava.

— Geo, seu amigo está lá fora. — olhou para meu rosto, mudando a expressão curiosa para preocupada. — Você está bem, querida?

Engoli em seco, olhando rapidamente para baixo e limpando uma lágrima que escorreu sem que eu notasse. Quando voltei a olhá-la, forcei um sorriso.

— Estou sim, mãe. Vou indo.

Eu precisava sair dali.

— Geo, espera... — Jennifer tentou tocar meu braço, mas eu o puxei antes, ignorando-a.

Abracei minha mãe, aproveitando o carinho dela por alguns segundos. Não me permiti ficar muito tempo daquele modo. Eu estava atrasada, e a vontade de chorar estava quase incontrolável.

— Vocês duas brigaram? — minha mãe sussurrou, acariciando minhas costas.

Forçando-me a não deixar minha voz vacilar, simplesmente respondi baixinho:

— Coisa boba. — afastei-me dela. — Voltarei cedo, não se preocupe. Qualquer coisa, me ligue.

Forcei um leve sorriso. Sem olhar para Jennifer, sai e fechei a porta.

Não olhei para trás.

Apenas foquei naquele carro estacionado na calçada em frente a minha casa. Eu queria chorar. Eu queria fodidamente chorar. Mas eu não podia.

Sabendo que era ele, respirei fundo e abri a porta do passageiro, entrando e fechando-a em seguida.

Farm girl. — cumprimentou.

Eu mordi meu lábio, tentando não transparecer o que estava sentindo, mesmo que o que eu mais queria naquele momento era um abraço de Victor.

Eu nem sabia o que pensar sobre o que Jennifer tinha dito. Eu não sabia se ela estava certa ou não, mas eu estava disposta a correr o risco e descobrir se ela e todos os outros estavam certos, ou se eu e Josh que estávamos. Naquele momento, olhando para meu reflexo no retrovisor do carro, eu simplesmente não me importei se as pessoas pensavam que Victor era "demais pra mim".

Que um cara como ele nunca ficaria com alguém como eu.

Eu não me importei. Porque ali eu via uma garota bonita, com os olhos um pouco marejados, mas bonita. E eu sabia que não era uma má pessoa. Por que eu não o mereceria?

Talvez por que eu não era popular como ele? Ou por que não tinha dinheiro como ele? Aquilo não fazia sentido pra mim. As pessoas eram tão superficiais daquele jeito, para acharem que alguém "não merece" alguém por dinheiro ou popularidade? E eu sabia que os motivos eram físicos ou sociais, porque Jennifer e as amigas dela o consideravam um babaca.

O olhei. Victor estava com um braço apoiado na janela e o outro no volante, sorrindo de lado pra mim. Ele estava lindo. Usava um perfume diferente, que não reconheci, mas era bom.

Eu nunca o vi usando boné, mas ele estava usando um de aba reta, virado para trás.

— Sete minutos atrasada, mas vou deixar pra lá, porque você está de cabelo solto. — ele deu um sorriso torto, tocando numa mecha do meu cabelo.

Ri fracamente.

— Desculpe.

Virei o rosto, evitando olhá-lo e apertando os olhos um pouco.

Eu não queria arruinar aquela noite, não queria arruinar nosso encontro.

Não queria despejar os meus problemas nele, muito menos explicar o porquê da discussão com Jennifer — o que estava fora de cogitação.

As últimas palavras de Jennifer me afetaram. As últimas. As outras eu estava pouco me fodendo, eu não ligava, mas as últimas foram cruéis demais.

Ao menos naquele sentido.

Ela realmente queria ter dito em outro sentido? Haveria outro?

— Hey... — Victor tocou no meu queixo, puxando-o de leve, fazendo-me olhá-lo. Sua expressão não era mais divertida, nem maliciosa. Ele parecia estar entre a preocupação e a confusão. — O que aconteceu?

Suspirei, olhando pra baixo rapidamente, para então voltar a olhá-lo. Seus olhos brilhavam com sinceridade. Seus dedos ainda estavam no meu queixo, provavelmente na intenção de me impedir de virar o rosto.

— Briguei com a minha irmã. — respondi baixinho.

Ele franziu a testa.

— Por quê?

Desceu os dedos lentamente, passando-os no meu ombro, dando leves voltas na minha pele, como se estivesse brincando.

— Foi besteira. — ele foi descendo a mão — Eu só... — parei, sentindo repentinamente uma ardência no braço, puxando-o num reflexo.

Sem que eu percebesse, Victor tinha chegado ao meu braço. A ardência que senti foram os dedos dele tocando no machucado provocado pela unha de Jennifer — que eu nem tinha visto ainda.
Victor puxou meu braço de volta, posicionando-o mais próximo da luz.

— O que é isso?

Eu também olhei. Era um corte, não era muito extenso, nem muito profundo, mas sangrava. E ardia. Pra caralho.

— Eu...

— Foi a sua irmã quem fez isso com você? — não respondi. Eu estava travada. Meu braço ardia, Victor me fitava seriamente e eu me concentrava pra não chorar. — Responde, Geovana!

— Não... quer dizer, foi... mas foi sem querer! Ela não fez por mal...

— Como assim ela não fez por mal?! — repentinamente, ele ficou irritado. Ainda segurava meu braço, mas surpreendentemente não era um aperto forte. — Me explica isso.

— Foi a unha dela. — minha voz quase não saiu. — Foi sem querer. Ela pegou no braço, e eu... puxei.

Ele cerrou os olhos. Pareceu que aquilo era para saber se eu estava mentindo. Mas eu não estava. Soltou meu braço delicadamente.

— Espera. — seu tom de voz estava mais suave, mais calmo. Abriu o porta-luvas, com os dedos sujos com um pouco de sangue, que não era o suficiente para manchar o carro. — Isso deve resolver, por enquanto... — pegou uma garrafinha d'água e uma caixinha de lenços descartáveis. Umedeceu um dos lenços, passando com cuidado no corte. Mordi o lábio e me encolhi, o que fez com que ele me olhasse. — Calma. Quer entrar na sua casa e cuidar melhor disso?

— Não! — minha resposta foi automática. Eu não queria voltar pra casa naquele momento, ainda mais depois de tanto esforço que fiz para sair. E eu não fazia ideia do que Jennifer faria quando visse Victor, se fóssemos pra minha casa. — Pode continuar. Não foi nada sério.

— Certo. — continuou com a limpeza.

Ele não demorou muito. Limpou bastante, depois passou um lenço seco por cima, pedindo para que eu pressionasse por um tempo. Guardou as coisas e suspirou.

— Pronto. Vai me dizer por que brigaram?

— Obrigada. Não foi nada.

— Não acredito em você.

O olhei, ainda apertando meu braço.

— Não sabia que você usava boné.

Sorriu de lado, como se dissesse "boa tentativa".

— Tenho meus momentos. Mas, não. Você não vai conseguir mudar de assunto. — aquilo me fez lamentar por dentro.

Ele esticou a mão e tocou minha bochecha, acariciando-a. Fiquei um tempo parada e calada, o encarando, aproveitando seu toque. Mesmo sem querer, acabei lembrando das palavras de Jennifer. Aquilo me deu um nó na garganta.

— Victor.

— Diga.

— Você se incomodaria se eu te pedisse um abraço?

Aquilo definitivamente o pegou de surpresa.

— Sim. — respondeu, fazendo-me piscar algumas vezes. — Porque eu deveria fazer isso sem você pedir.

Então eu fui pega de surpresa.

Ele se inclinou mais um pouco, afastando o cabelo da frente do meu rosto. Envolveu seus braços ao meu redor e me puxou de leve para si, abraçando-me. Soltei o lenço que estava no meu braço, abraçando-o de volta, encostando minha cabeça em seu peito e suspirando ao sentir seu cheiro. Sabendo que ele não me via, deixei uma lágrima silenciosa escorrer.

Senti seus dedos em meus cabelos, e seu queixo no topo da minha cabeça.

— Eu não sei o que aconteceu, e sei que você não quer falar, mas saiba que está tudo bem agora. — sussurrou. — E eu não tive a oportunidade de dizer, mas você está linda, farm girl. Você é linda. Na realidade, você é incrível. E eu não sei bem por que estou dizendo isso agora, mas você é.

Apertei meus olhos, fungando e deixando que mais lágrimas escapassem.

Ele já sabia que eu estava chorando, mas eu não me importei.

Naquele momento, permitindo-me finalmente chorar e sentindo os braços de Victor me apertando confortavelmente, percebi uma coisa.

Não existia aquilo de que um garoto como ele nunca ficaria com uma garota como eu.

Porque não havia problema algum em quem eu era.

Notas finais
YAYYYYY!!!! O que acharam? Estão ansiosas pro encontro? O que será que vai rolar, ein? Estão com raiva da Jennifer? E o novo professor, Anthony? As meninas vão mudar de casa!!! Quem tá animada pra essa mudança? Comentem, comentem!!! Amo conversar com vocês e estava morrendo de saudades. Até o próximo, meus amores sz xx