The Anchor
31 Um encontro com Danny Zuko. — Parte II.
Notas iniciais
Capítulo 30.
Kendal’s Juice era, de longe, um dos locais mais aconchegantes de Chordwall. Era muito conhecido — não apenas pela cidade não ser tão grande —, e constantemente frequentado. E mesmo as batatas com queijo sendo as melhores e os milkshakes possuindo o céu como ingrediente principal, o lugar em si era agradável demais. A música que variava de acordo com a decoração, que mudava mensal ou semanalmente — o que eu achava muito legal. Por exemplo, vocês entrava numa lanchonete estilo anos 60 em um mês, e no outro a mesma virava uma caverna com garçonetes usando ossos artificiais como prendedor de cabelo. Infelizmente, a ideia da caverna ainda não tinha sido escolhida como decoração, o que era injusto, porque eu apoiava totalmente.
Como era relativamente nova na cidade, eu presenciei no máximo cinco decorações distintas, e o que mais me agradava — além do milkshake de morango — era como o ambiente mudava constantemente, mas não perdia sua essência — nem o cheiro de hambúrguer que vinha da cozinha.
Mas eu ainda não tinha visto aquele lugar naquele estado, principalmente naquele horário em que quase todos saíam de casa (tendo algo planejado ou não). Sem conter a surpresa, foi o que vi ao entrar com Victor ao meu lado, guardando a chave do carro no bolso do jeans.
O carro estava estacionado na calçada do outro lado da rua, e a ardência nos meus olhos do choro recente já era quase inexistente, assim como a do meu braço.
— Mas o quê…? — ergui as sobrancelhas, encarando os balcões que pareciam mesas escolares (colegial era claramente o tema semanal). Vazio. O lugar estava completamente vazio. Se não fosse por nós. Era impossível aquilo ali estar vazio, normalmente era difícil até mesmo se concentrar com tanta gente reunida. Impossível. — Será que não vimos a placa de fechado? — foi a única coisa que consegui pensar, olhando para o balcão ao ouvir a porta da cozinha se abrir, com um adesivo que a cobria e fazia parecer uma porta de sala de aula.
— Não estamos fechados — o atendente disse com um sorriso um pouco preguiçoso, passando as mãos pelo avental preso em si e encostando-se no balcão. Eu o conhecia apenas por conhecer, já que em todas as vezes que fui ali ele estava atrás daquele balcão. — Boa noite.
Victor respondeu com um aceno de cabeça e eu sorri por educação, confusa.
— Boa noite. Se não estão fechados, então… por que não tem ninguém aqui? — perguntei lentamente, tentando entender o que estava acontecendo e gesticulando, apontando ao redor.
Ele olhou para Victor, seu sorriso tornando-se… cúmplice. Franzi a testa, olhando de um para o outro. Victor estava aprontando alguma, na verdade, muito provavelmente já tinha aprontado.
— O que desejam? — o atendente perguntou, ignorando minha pergunta e voltando a me encarar com um sorriso inocente.
— Um milkshake. — Victor disse.
— Uma explicação. — eu disse.
Falamos ao mesmo tempo, fazendo o loiro ao meu lado erguer uma sobrancelha, com o sorriso repentinamente mais disposto.
— Querem um milkshake explicativo ou a explicação de um milkshake?
— Um segundinho, segura aí — afastei-me do balcão, puxando Victor de leve pela jaqueta, olhando-o completamente perdida na situação. — O que está acontecendo?
— Estou com fome — respondeu como se fosse óbvio, olhando-me como se eu não estivesse falando coisa com coisa.
Mas ele não iria conseguir me enganar, eu sabia que tinha dedo dele naquilo. A mão toda. Ou o braço todo.
— Não sobre o milkshake, e sim sobre isso. Onde estamos. Por que não tem ninguém aqui?
— Por que eu deveria saber disso? — cruzou os braços, fitando-me com curiosidade. — Sei lá, vai ver as pessoas não gostam mais daqui, abriu um lugar melhor, não sei. Tenho cara de dono do lugar? Não sou o Kendal.
— Kendal?
— Kendal’s Juice. — seu quase “dã” me fez querer me socar.
— Enfim, você estava olhando pro atendente. — foi minha vez de cruzar os braços.
— Eu olho pras pessoas todo tempo.
— Vocês trocaram olhares por mais de cinco segundos. Devo então parabenizar o casal ou esperar o anunciamento oficial? — aquele comentário o fez estalar a língua dentro da boca, soltar um riso pelo nariz e olhar rapidamente para os lados, antes de me encarar. — Fala sério.
— Não acho que eu e ele faríamos um belo casal, farm girl. Você sabe, ele é uns anos mais velho, tem o cabelo descolorido até a alma...
— Stonem, não tem ninguém aqui. — interrompi, persistindo na minha questão.
— Você está errada. — descruzou os braços em frente ao peito, um sorriso torto preso no canto de seus lábios — Nós dois estamos aqui. — aproximou-se de mim.
Naquele momento, eu tive certeza que aquilo era coisa dele. Por mais que parecesse loucura. Como diabos alguém esvaziaria um dos lugares mais populares da cidade? Era inacreditável. Eu não sabia como, ou se ele realmente tinha feito. Ou o porquê. Não teria feito apenas para ficar sozinho comigo, não mesmo, era a coisa mais improvável do mundo. Então…
— Gosta de ficar de pé? — perguntou ele, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha com um sorriso maldoso nos lábios.
Olhei ao redor, percebendo que estávamos em pé entre as mesas. Puxei uma cadeira, sentando e vendo-o fazer o mesmo. Como o tema era colegial, os lugares eram um ao lado do outro, logo Victor e eu parecíamos colegas de sala, ou parceiros de química. Aquilo me fez desejar que estudássemos na mesma turma em Blanchaster, simplesmente porque seria bom passar mais tempo com ele, por mais que provavelmente Lori cometesse suicídio e Mish revirasse os olhos de modo emburrado quinhentas vezes por dia.
— Me diz o que você fez. — o olhei, vendo-o ergueu uma sobrancelha e devolver o olhar com interesse — Sei que você fez algo. Qual é, Stonem.
— Deus do céu, como você é curiosa. — revirou os olhos, mas não estava irritado, na verdade parecia estar se divertindo com a situação.
O que não era novidade.
— Isso tudo — olhei ao redor, gesticulando — é no mínimo estranho.
— E você não pode simplesmente calar a boca e não questionar, não é?
— Acho que não.
Revirou os olhos mais uma vez, sentando de modo mais confortável na cadeira, enquanto eu apoiava meu queixo na mão, olhando-o e esperando-o começar a falar.
— Hey — chamou atenção do atendente, sem precisar falar alto, já que a música estava baixa e não havia mais ninguém ali (sério, como não achar estranho?) — Dois milkshakes.
— Eu quero de morango. — me pronunciei.
Ele pegou o cardápio em forma de caderno escolar, correndo os olhos pelas palavras.
— Um… Teorema de Thales, e um… ‘quê?! Ah, ‘tá, um Penso Logo Existo e também um… que porra é essa? ‘Tá, 1s2, 2s2, 2p6. Não, errei. — bufou — Puta que pariu! — largou o cardápio com raiva, olhando para o atendente — Um milkshake de morango, um milshake de baunilha, batata frita com queijo. Só isso. Obrigado.
Victor estava visivelmente transtornado com o cardápio modificado graças ao tema, mas eu e o atendente estávamos morrendo de rir. Na verdade, eu estava me controlando mais que ele (que não parecia estar tendo esse problema), mas estava bem difícil.
Quando o loiro se dirigiu à cozinha, eu ainda estava rindo, e fui parando aos poucos ao lembrar do que eu queria saber, e também porque Victor estava me encarando com aquela expressão de “não achei graça”.
— Saímos do colégio, mas o colégio não sai da gente — ele olhou ao redor, bufando de leve.
— É, mas no colégio tem mais gente que aqui — soltei, encarando-o apenas para vê-lo me olhar, com uma nova expressão de “você não esqueceu essa merda”.
— Depende do horário. Se formos agora, só vai ter o zelador e algum professor aleatório.
— Fala. — interrompi mais uma vez.
— Que seja. Você é chata pra caralho. — aquilo me fez sorrir, um sorriso que foi além da vitória e satisfação. Victor já me dissera aquilo uma vez, fazia tempo (tanto que na época não imaginei ter um encontro com ele), mas a lembrança me fez sorrir. — Um amigo meu trabalha aqui. Como funcionário favorito ou sei lá, só me importa que ele trabalha aqui. Quão informada é você?
Franzi a testa com a pergunta.
— Não muito.
— Não o suficiente — corrigiu — KJ não estava previsto para abrir hoje. Mas você não sabia disso, ou sabia?
— Não. — confessei — Por que não ia abrir?
— Não importa. O fato é que eu falei com esse meu amigo e ele disse que poderia pedir para abrirem por umas horas, pra mim. — deu de ombros — E pronto. Fim da história emocionante.
Eu estava surpresa. Certo, ele tinha contatos, e como meu pai dizia “contatos são tudo”, mas eu estava surpresa por aquilo. E sim, talvez, por ele ter ido falar com alguém pra pedir algo (fala sério, era o Victor), principalmente por… nós? Bom, eu e ele.
E eu não sabia se era a minha mente trabalhando demais, mas eu tinha achado aquilo muito romântico.
Sorri.
— Isso foi bem legal.
Ele não pareceu ver nada demais. Deu de ombros e encarou algumas coisas ao redor.
— Lugares muito movimentados me irritam, às vezes. Gosto de privacidade. — foi o que respondeu.
— Eu achei bem…
— Aqui, o pedido de vocês. — o atendente me interrompeu, entregando os dois milkshakes e as batatinhas numa bandeja, se afastando em seguida.
— Então, você está melhor? — Victor quis saber, e eu não sabia se ele estava mudando de assunto de propósito, mas resolvi seguir o fluxo daquela vez.
Senti um leve bolo na garganta e suguei o milkshake pelo canudo para disfarçar. Deuses do Olimpo, aquilo era realmente muito bom, quase me fez esquecer a pergunta de Victor. Quase.
— Sim. — assenti, esperando ser convicta o suficiente. Não que eu estivesse mentindo, eu estava bem, mas ter brigado com Jennifer não era algo bom de lembrar, principalmente pelo que gerou. — Não foi nada. Eu e Jennifer brigamos bastante.
— E ela costuma te arranhar sempre? — ele ergueu uma sobrancelha, pescando uma batata.
Por mais que houvesse uma pitada de sarcasmo ali, eu sabia que era o habitual dele e não tinha sido por maldade.
Eu ri de leve, dando de ombros, procurando descontrair.
— Temos nossos momentos. — foi o que respondi, sem mencionar que uma vez joguei um controle remoto na testa dela. Mas não era nada comparado ao quanto ela aprontava comigo quando éramos mais novas. — No geral, ela é a mais descontrolada mesmo. Irmãos mais velhos costumam ser um saco.
Só me toquei de ter dito aquilo à Victor depois de falar mesmo, e esperei que ele discordasse ou rebatesse por ser irmão mais velho também, mas não. Pareceu ponderar, então concordou com a cabeça.
— Qual é a da sua irmã? — era impressão, ou ele estava evitando dizer o nome dela, que ele sabia qual era?
— Uh?
— Ela é amiga da Cohan, certo? — travei um pouco, mas assenti. Aquele assunto. Talvez eu conseguisse arrancar algo de Victor, mas sabia que provavelmente não — E está no grupinho deles. — ele disse “grupinho” de um forma não muito agradável — Junto com o Harvesty, a Margareth e, enfim, você sabe quem são.
Mary era Margareth, e Josh era Harvesty. Sim. Eu sabia. Então, assenti.
— Qual o problema? — perguntei, contendo curiosidade nas palavras.
— Nenhum. Só achei surpreendente. Um grupo de veteranos abrir espaço pra ela. — com aquelas palavras, lembrei do que Josh tinha dito sobre os grupos.
Se Jennifer andava com eles, então também era popular? Eu não sabia, ultimamente não estava prestando muita atenção em algo além dos meus amigos e as aulas, na escola. As fofocas não estavam no meu radar.
— Sim. — soltei, percebendo que estive calada tempo demais — Sento com eles no almoço, às vezes. Por causa do Josh.
— Eu percebi.
— Eles são legais.
— Tudo depende do ponto de vista.
Eu parei. Bingo. Victor não parecia afetado, como provavelmente Cohan ficaria se eu falasse sobre aquilo com ela. Mas eu cheguei onde queria, ou melhor, onde minha curiosidade tinha me levado. Remexi o canudo na taça, olhando-o com as duas sobrancelhas erguidas.
— Você não gosta deles?
— Eu falava com a Mary no primeiro ano. Nunca fui próximo do Josh, mas não tenho nada contra ele. E agora, a sua irmã. — deu de ombros, deixando claro que não se importava.
— Então o problema é com a Cohan? — fui direta, mas fingindo que não sabia de nada.
Victor abriu um sorriso maldoso e riu, mais consigo mesmo. Era engraçado pensar que ele estava com aquele sorriso nos lábios, enquanto Cohan, se estivesse ali, estaria fervendo em ódio. Aquilo abriu algo na minha mente. Com certeza, Victor tinha aprontado algo com ela. Por isso, a situação era quase divertida para ele, e um tormento para ela.
— Ela me odeia. E o fato de que eu não penso nela o suficiente para odiá-la deve ser, no mínimo, irritante. — respondeu despreocupadamente.
— Por que ela te odeia?
— Eu não sei, farm girl.
Revirei os olhos. Eu sabia que ele não diria.
— Fala sério. — resmunguei.
— Se é pra falar sério… — bebeu mais do milkshake de baunilha, afastando-o um pouco — Devo comentar sobre a minha ansiedade pelo jogo. Ou melhor, pra ver você torcendo por mim.
Eu sabia que ele estava mudando de assunto na cara dura, mas também sabia que não conseguiria arrancar mais nada. Soltei uma risada, negando algumas vezes com a cabeça. Eu adorava o jeito que o sotaque dele se intensificava as vezes, sem nenhuma prévia.
— Eu vou torcer pelo time. — corrigi, provocando-o — Que não é formado apenas por um jogador.
Ele sorriu torto, entregando com o olhar que gostara da minha resposta. Ou, muito provavelmente, do fato de que eu estava o provocando, como costumávamos fazer.
— Ah, c’mon — aproximou-se mais de mim, inclinando-se um pouco na mesa. Eu sustentei seu olhar, fitando-o de volta atentamente, como ele fazia. Mas Victor possuía aquela intensidade no olhar que não parecia real, que me deixava meio tonta e ao mesmo tempo com o coração mais acelerado que nunca. — Sabemos que está envolvido um favoritismo notável. — seu sorriso se alargou.
Por mais que estar tão próxima dele me deixasse fora do controle de tudo (inclusive eu mesma), estar acostumada com as provocações me ajudava no auto-controle. Mas o perfume dele estava mais forte, seu rosto estava mais perto, eu não parava de pensar na última vez em que nos beijamos, meu corpo estava mais quente, eu tinha esquecido completamente o que ia responder, e apenas lembrei quando ouvimos um prato quebrando na cozinha.
Tentei fingir que não tinha levado um susto do caralho, por estar em um transe segundos antes, mas até mesmo Victor pareceu um pouco desnorteado, por mais que não tivesse se afastado.
— Se você diz, vou deixar que se iluda — brinquei, retomando o controle da minha fala e puxando o milkshake, tomando-o para me acalmar e normalizar minha respiração.
Ele riu, voltando para sua posição inicial e tirando o boné, bagunçando os cabelos, do jeito que eu estava acostumada a ver. Mas ele ficava lindo de qualquer jeito, que ódio.
— Gentil. — deu uma piscadela.
Peguei uma batata frita, olhando-o por um tempo. Ficamos nos olhando num silêncio confortável. Eu gostava do jeito que ele me olhava, de verdade. E foi impossível disfarçar quando senti meu rosto esquentar um pouco e eu sorri, olhando rapidamente para baixo antes de fitá-lo.
— Você me disse que eu estava bonita hoje. No carro. — comentei, quebrando o silêncio — E eu esqueci de dizer que você também não está nada mal. — pisquei, brincando.
— Não. — ele negou com a cabeça, com uma seriedade repentina — Eu disse que você é linda. — corrigiu — Não é a mesma coisa.
Naquele momento, eu realmente senti a vergonha chegar como um soco na cara. Não soube como responder, porque eu simplesmente não sabia o que responder. E graças a Deus, não precisei. Ouvi um barulho vindo da minha bolsa, que eu sabia o que significava. Uma nova mensagem recebida no meu celular. Abri a bolsa, o peguei, e conferi.
Josh.
Ja ta no famigerado encontro???????
Dei um discreto sorriso.
SIM!!! Estamos no KJ ;)
— Mensagem? — perguntou Victor, erguendo as sobrancelhas enquanto sugava o milkshake pelo canudo.
— É o Josh — eu falei, por algum motivo desconsiderando mentir e dizer que era algum outro garoto, para a Operação Desconstruindo Victor.
Provavelmente, foi automático. Meu celular vibrou em minhas mãos.
Mt bom, mt bom. Seguinte, vou deixar vc prosseguir ai, mas antes, eu tenho uma perguntaaa
MANDA
— Só um segundo — falei, o que fez Victor dar de ombros.
Vc ainda vai dançar com o Booker no baile??? Pq serio, seria mt mara se vc e o Victor dançassem juntos. Super apoio!!!
Eu parei um pouco. Eu com certeza preferia dançar com Victor, mas não sabia se a professora de teatro iria gostar da mudança. Também não sabia se o próprio Booker gostaria. Na verdade, não sabia nem mesmo se Victor iria querer. E também não sabia como falar sobre aquilo com ele.
Vou ver se posso fazer alguma coisa!! xx
Guardei o celular na bolsa novamente. Por um segundo, a música parou, para dar lugar a outra. E quando ela começou, reconheci no primeiro toque. Eu amava aquela música. Num instinto, bati de leve os dedos na mesa, no ritmo lento. Victor notou minha mão movendo-se em cima da mesa, e deu um leve sorriso.
— Vamos — afastou a cadeira, que era parecida com a de Blanchaster (se não fossem as cores), levantando.
— ‘Quê? Pra onde?
— Dançar.
Eu ri, sentindo boa parte da vergonha indo embora, graças a brincadeira dele. Mas, vendo que ele apenas sorria de lado e me encarava, percebi que não era exatamente brincadeira. Era irônico e quase psíquico ele estar insinuando aquilo, após minha conversa com Josh. Franzi a testa.
— É sério?
— Eu não teria me dado ao trabalho de levantar se não fosse. Mas já que prefere um pedido mais formal e hoje estou me sentindo inspirado, farei um esforço — aproximou-se, estendendo a mão pra mim. — Me concede essa dança, farm girl?
Abri um sorriso largo, soltando uma risadinha meio sem graça. Quando percebi, já estava de pé, com a mão na de Victor e de frente para ele. Delicadamente, pousou minha mão em seu ombro, levando a sua própria para minha cintura. Eu não sabia realmente em qual modo de música lenta dançaríamos — prum lado e pro outro, pra frente e pra trás, ou apenas nos balançando —, mas tentaria acompanhá-lo. Minha experiência se resumia em fazer parte das meninas escolhidas para valsa em aniversários de quinze anos e na minha própria formatura da quarta série.
— Por que está se sentindo inspirado? — perguntei, olhando-o nos olhos e sem muita distância, levando minha outra mão para trás de seu pescoço, cruzando as duas ali e sentindo-o começar a mover-se, lentamente, no ritmo calmo da música — que não demorou a começar.
And I'd give up forever to touch you
(E eu desistiria da eternidade para te tocar)
'Cause I know that you feel me somehow
(Pois eu sei que você me sente de alguma maneira)
You're the closest to heaven that I'll ever be
(Você é o mais próximo de paraíso que sempre estarei)
And I don't want to go home right now
(E eu não quero ir para casa agora)
— Bom — deu um breve sorriso, acariciando minha cintura, antes de segurá-la mais firmemente — O clima não está quente, não tem quase ninguém aqui, do lugar que sentamos eu consigo ver se alguém tentar roubar o meu carro, você está de cabelo solto e ainda não pisou no meu pé. — contou, dando de ombros.
— Nós começamos a dançar agora — brinquei, dando um sorriso divertido, referindo-me a não ter pisado no pé dele... ainda.
And all I can taste is this moment
(E tudo que posso sentir é este momento)
And all I can breathe is your life
(E tudo que posso respirar é a sua vida)
And sooner or later it's over
(E mais cedo ou mais tarde se acaba)
I just don't want to miss you tonight
(Eu só não quero ficar sem você essa noite)
— Estou disposto a correr o risco. — cerrou um pouco os olhos, fitando-me daquele jeito que ia além de intenso — E você?
Sorri.
— Estou aqui, não estou?
— Ótimo.
And I don't want the world to see me
(E eu não quero que o mundo me veja)
'Cause I don't think that they'd understand
(Porque eu não acho que eles entenderiam)
Antes que eu pudesse dizer ou fazer qualquer outra coisa, Victor me empurrou delicadamente, porém com agilidade, afastando-me de si, apenas para puxar-me firmemente pela mão e me prender pela cintura, fazendo meu corpo sofrer um impacto caloroso contra o seu. Foi aí que eu perdi boa parte do ar em meus pulmões. Não pelo movimento, mas pelo encontro de nossos corpos. Pela aproximação. Nossos olhos se prenderam, e pela décima vez eu guardei mentalmente a visão dos olhos profundos e escuros de Victor. E o quanto eles mexiam comigo.
When everything's made to be broken
(Quando tudo é feito para ser quebrado)
I just want to you know who I am
(Eu só quero que você saiba quem sou eu)
Ele prosseguiu com a dança no ritmo da música, mas estava completamente diferente, até porque o próprio ritmo mudou. Uma de suas mãos estava na minha, e a outra permanecia em minha cintura, diferente da minha, que estava em seu ombro. Algo mais formal, intenso, aquele tipo de dança que se vê em cenas românticas de filmes. É preciso conexão física e sentimental entre os dois, assim como um pouco de prática. E sabe-se Deus como, eu estava conseguindo acompanhá-lo.
And you can't fight the tears that ain't coming
(E você não pode lutar contra as lágrimas que não virão)
Or the moment of truth in your lies
(Ou o momento de verdade em suas mentiras)
Deslizávamos pela área distante das cadeiras e mesas, e eu simplesmente não sabia como estava naquela espécie de transe, presa aos seus olhos e os movimentos de seu corpo. E também não sabia como ele podia dançar tão bem, com tanta presença, de modo tão envolvente.
When everything feels like the movies
(Quando tudo se parece como nos filmes)
Yeah, you bleed just to know you're alive
(É, você sangra apenas para saber que está vivo)
Naquele momento, eu sorri. Aquela parte da música se encaixava perfeitamente em tudo que estava acontecendo comigo desde que conheci Victor. Quando tudo se parece como nos filmes.
And I don't want the world to see me
(E eu não quero que o mundo me veja)
'Cause I don't think that they'd understand
(Porque eu não acho que eles entenderiam)
Novamente, o refrão. Victor me girou pelo salão, e eu não pude deixar de soltar uma risada que praticamente pulou para fora de mim, com toda a sinceridade do mundo. Puxando-me de volta para ele, eu quase pude ver um sorriso no canto de seus lábios. O sorriso que seus olhos não prenderam. Eles brilharam.
When everything's made to be broken
(Quando tudo é feito para ser quebrado)
I just want to you know who I am
(Eu só quero que você saiba quem sou eu)
And I don't want the world to see me
(E eu não quero que o mundo me veja)
'Cause I don't think that they'd understand
(Porque eu não acho que eles entenderiam)
Com uma rápida olhada para os lados durante mais um giro, eu pude ver o atendente sorrindo para nós. Me senti um pouco envergonhada, afinal, estávamos sendo assistidos, mas ao me encontrar olhando novamente o garoto na minha frente, qualquer sentimento que não estivesse envolvido no nosso momento, se dissipou. Não importava se estávamos sendo assistidos. Para mim, havia apenas nós dois. Ali e no mundo todo.
When everything's made to be broken
(Quando tudo é feito para ser quebrado)
I just want to you know who I am
(Eu só quero que você saiba quem sou eu)
Eu não sabia se era possível perceber que eu gostava mais de Victor do que eu já sabia, mas naquele momento percebi que, sim, era. Porque, naquele momento, eu senti que meu peito se preencheu mais ainda com aqueles sentimentos que não eram mais tão confusos — na verdade, estavam bem claros. Naquele momento, eu soube que eu sentia realmente muitas coisas por ele, coisas que eram maiores que eu mesma. Definitivamente. E eu não sentia mais medo delas. Não as temia. Eu as aceitava de braços abertos.
I just want to you know who I am
(Eu só quero que você saiba quem sou eu)
Desacelerando o ritmo, Victor escorregou as mãos até minha cintura, enviando um choque por todo meu corpo, sendo ocupado por um calor reconfortante, abraçando-a. Seus dedos roçaram em meu braço no processo, acariciando minha pele. Meus dedos se entrelaçaram ao redor de seu pescoço, e eu fechei os olhos ao senti-lo encostar nossas testas.
I just want to you know who I am
(Eu só quero que você saiba quem sou eu)
Nos movemos lentamente para um lado e o outro, como no começo de tudo, sentindo o fim da música. Eu sentia sua respiração próxima, contra o meu rosto, e sabia que a minha estava levemente falha. A dança não me cansou, mas estar tão próxima dele simplesmente me deixava daquele modo. Coração pulando no peito. Respiração difícil. Consciência nula. Sanidade inexistente.
— Você sabe quem sou eu. — ele sussurrou, quase inaudível, quase como um pensamento que escapuliu.
Prendi um sorriso, deslizando meus dedos por seu pescoço e abrindo meus olhos. No mesmo momento em que ele o fez, fitando-me daquele jeito que eu provavelmente nunca me acostumaria a ponto de não me sentir envergonhada, mas que eu adorava.
— Você realmente dança muito bem. — elogiei baixo, olhando-o enquanto minhas mãos caiam devagar ao lado do meu corpo.
Os dedos de Victor apertaram de leve a minha cintura, num toque suave. Ele cerrou um pouco os olhos, como costumava fazer. Abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo som de várias palmas animadas.
Olhamos para o atendente, que sorria, ao lado do cozinheiro mais velho, que possuía uma touca na cabeça e um pano de prato no ombro. Ambos estavam aplaudindo. O cozinheiro bem mais animado, até um pouco… emocionado?
— Isso foi emocionante. — o cozinheiro sorriu embargado — Amor jovial é inspirador. Vou até indicar pro chefe algo como… baile romântico. Vocês gostaram? Eu gostei. Baile romântico como próximo tema daqui. Parece bom. Foi uma dança digna de High School Musical.
— High School Musical, Bill? Francamente. — o garoto loiro revirou os olhos, encostado no balcão que era semelhante a uma das mesas da secretaria de Blanchaster.
— É um clássico. Você odeia porque não tem vocação para ser um Troy.
— Você não tem comida pra fazer, não?
— Só temos dois clientes.
— Então vai lavar os pratos.
— Sabe, eu amo o meu emprego. Mas eu odeio você. — assim, Bill passou pela porta que levava a cozinha, voltando ao seu local de trabalho, e o atendente parou de prestar atenção em Victor e eu, focando em seu celular — enquanto provavelmente esperava um de nós o chamar, já que éramos os únicos ali.
Eu soltei uma risada curta com todo aquele diálogo, desviando a atenção do balcão e voltando para Victor.
— O que você acha disso, Troy?
Ele torceu o nariz, mas o canto de seus lábios denunciava que internamente, ele estava rindo. Ou algo próximo disso. Achando graça, no mínimo.
— Não espere que eu comece a cantar sobre sentimentos e um monte de gente apareça aqui pra fortalecer o número musical. Não tive tempo de contratar as pessoas. — piscou.
Ri de verdade, e aí nos afastamos. Por mais que eu preferisse estar próxima dele, e realmente percebesse a diferença ao estar distante, mesmo que pouco, eu não falei nada.
— Seria bom demais pra ser verdade. — brinquei. — Mas anote como uma dica pra próxima.
Nos sentamos à mesa, terminando de comer. Meu milkshake continuava igualmente gelado, o que era inesperado, então terminá-lo foi tão bom como quando comecei a tomá-lo.
— Vamos sair daqui? — eu me surpreendi quando percebi que eu tinha dito aquilo, não ele.
Aparentemente, Victor também. Eu conseguia ser bem aleatória às vezes, e não era que não estava gostando de estar ali (francamente, qualquer lugar com ele era bom), apenas tive vontade de fazer uma coisa. Ou melhor, outra coisa.
— Tem algo em mente, farm girl?
— Poderíamos ir no parque. Sabe, aquele abandonado. Do piquenique. — no qual ficamos a primeira vez.
Minhas lembranças daquele dia permaneciam quentes. Em todos os sentidos.
— Reviver aquele dia seria uma boa ideia. — ele disse aquilo olhando diretamente para mim, para me fazer ter certeza de que não estava se referindo a beleza do parque, do piquenique, o contato com a natureza ou a tranquilidade. Estava falando da nossa sessão de amassos mesmo. — Mas não é mais tão abandonado assim. Não hoje.
— O que tem hoje? — ignorei o rubor diante de seu olhar e insinuação.
— Festas de igreja.
Ergui as sobrancelhas, por um momento surpresa por Victor saber daquele tipo de coisa. No segundo seguinte, percebi que talvez todos soubessem, provavelmente não era o tipo de informação discreta ou sei lá. Porém, aquilo me fez pensar sobre um tópico fora de hora, mas que era interessante. Qual seria a religião dele? Eu não conseguia imaginá-lo visitando igrejas, definitivamente. Eu era espírita (ou quase isso, por conta da minha mãe). Yv era evangélico. Booker, através de uma conversa que ouvi, descobri ser ateu. E Victor?
— Ah.
Pela segunda vez, ele levantou e afastou a cadeira, mas sua comida já havia acabado.
— Vamos.
— Pra onde?
— Qualquer lugar. O atendente está me deprimindo.
Olhei na direção do garoto loiro. E precisei concordar. Ele estava bocejando, provavelmente pela décima quinta vez, olhando entediado ao redor, vez ou outra mexendo no celular com a mesma empolgação. Provavelmente estava odiando o fato de precisar trabalhar quando deveria estar de folga, ainda mais sozinho, e desejando que eu e Victor fóssemos embora logo, por mais que um tempo antes parecesse até empolgado.
Levantei, sem questionar, comendo a última batatinha frita solitária da bandeja.
Victor pagou a conta — por mais que ele pagar ou não, não fazia diferença para mim, eu não insisti mais de duas vezes para dividirmos. Se ele tinha (mais) dinheiro e realmente não se importava em gastá-lo, quem seria eu para impedir?
Saímos do Kendal’s Juice, e graças ao vento do lado de fora, eu apertei a jaqueta contra meu corpo. Eu não estava mais com um pingo de fome, e um sorriso dançava em meus lábios, sem nenhum motivo em especial. Acho que eu estava sorrindo só por estar com ele mesmo.
— Podemos dar uma volta — dei a ideia, olhando-o. Victor olhou rapidamente para o carro, brincando com a chave na mão, mas eu acrescentei: — A pé.
Ele direcionou sua atenção para meu rosto durante uma pausa, e aí se aproximou de mim.
— Quer andar do meu lado para ser vista com um cara maravilhoso, ou para nossas mãos se tocarem numa cena unicamente clichê e romântica? — perguntou, um brilho diferente em seus olhos, divertido, e um sorriso irônico preso no canto de seus lábios.
Eu ri.
— Descobriu meus planos. Talvez os dois. Quem sabe? — brinquei, puxando de leve a chave de sua mão, o que, graças ao aperto frouxo, a fez cair em frente aos meus pés.
Antes que eu pudesse me abaixar para pegá-la, Victor o fez, no exato momento em que uma senhora estava passando na nossa frente. Ela ofegou.
— Oh, meu Deus! — soltou ela, levando as mãos à boca e tudo. Eu franzi a testa, vendo que Victor ainda estava abaixado, mas já com a chave em mãos. — Diga que aceita, querida!
Eu demorei mais alguns segundos para entender o que ela estava insinuando, mas não pude fazer muita coisa. O garoto na minha frente encostou uma perna no chão, erguendo o corpo e pegando minha mão, em uma pose perfeita. Olhando em seus olhos, percebi que ele estava se divertindo com aquilo. Eu provavelmente estava corando, mas no fundo queria rir. Foi tudo muito de repente, e pra minha surpresa minha mente trabalhou rápido.
— Adelaide Mortícia, você aceita se casar comigo?
Fiz a melhor expressão surpresa que consegui.
— Oh, meu amor! Que surpresa! Thomas Beckett, eu aceito!
Victor beijou minha mão, enquanto a senhora parecia prestes a ter um surto de felicidade. Senti uma leve corrente elétrica se espalhar pelo meu corpo com o contato, mas não foi nada comparado ao que eu senti no segundo seguinte. Ele se ergueu, e num gesto rápido, depositou um beijo em meus lábios. Um selinho. O que foi o suficiente para me deixar sem reação e atordoada, pela normalidade dele ao fazê-lo, e pelas lembranças de quando nós ficamos que me invadiram. Quando senti a maciez de seus lábios, o toque de sua língua, suas mãos no meu corpo, sua respiração em meu pescoço. Antes que eu pudesse me impedir, senti também meu corpo quente. Bem quente.
— Thomas Beckett? — perguntou ele, erguendo uma sobrancelha.
Me esforcei para voltar à terra e soltar uma risada curta, rezando para não ter ficado aqueles segundos com cara de idiota. Olhei ao redor, vendo que a senhora ainda estava ali, assistindo.
— Eu gosto de Castle. — respondi, dando um sorriso de lado. Era uma das minhas séries favoritas. — Adelaide Mortícia?
Antes que sua resposta viesse, fomos interrompidos.
— Espero que sejam muito felizes, meus queridos! Reconheço um casal apaixonado quando vejo um. Vejo um futuro próspero para vocês! — ela sorriu, rindo feliz. Não pude deixar de acompanhá-la. Era adorável. — Mas, meu querido, tire isso da cabeça. Não é bonito. — ela deu um peteleco no boné de Victor, o que me fez segurar uma gargalhada, principalmente depois do sorriso forçado que ele deu. Ele estava constrangido, ou apenas um pouco irritado?
Dando um último sorriso, ela se afastou em passos lentos, cantarolando alguma música que eu não conhecia. Mas, uma vez, meu pai estava ouvindo em seu carro. Música antiga.
— Apreciei o pedido, mas acho que senti falta de um anel de noivado — brinquei, piscando para ele.
Ele sorriu, tocando no colar que eu carregava em meu pescoço com um pouco de… satisfação? Provavelmente porque foi um presente dele mesmo, e eu estava usando. Ele demorou um pouco ao olhar meu decote, quando seus olhos escaparam para lá.
— Vamos. — disse, puxando-me pela mão em direção a esquina da rua, na intenção de virá-la.
Eu sabia onde sairíamos, por mais que não entendesse bem o que ele pretendia. Não iria me dar um anel de noivado de verdade, certo? Eu ainda não conhecia todos os cantos de Chordwall, mas sabia que o bairro do Kendal’s Juice era uma parte bem central da cidade, o que significava lojas e mais lojas.
Quando viramos a esquina, tive a confirmação. Uma fonte d’água no centro da grande rua, que era puxada por todos os lados para levar a outras, me conhecendo eu poderia me perder se estivesse sozinha. A fonte era muito bonita, e eu já tinha visto, com um anjo no centro, jatos d’água jorrando de suas vestes e mãos estendidas. Não havia muitas pessoas ali, mas também não estava completamente vazio. Era agradável, sem todo o barulho que eu esperava encontrar.
Victor me puxou pela mão novamente.
— Você não vai me comprar um anel, vai? — perguntei.
— Eu sei que seu amor por mim é incontrolável e impulsivo, mas está muito cedo para isso, não acha, farm girl? — deu um sorriso malicioso, daquele jeito superior, presunçoso, e mais trezentas coisas.
Revirei os olhos teatralmente, empurrando-o de leve, nossas mãos não mais juntas.
— Então por que me trouxe aqui?
— Estávamos procurando um lugar para ir.
Franzi a testa.
— E aí você escolheu aqui? — um pouco confusa, sim. — Um monte de lojas?
— Não exatamente. Mas antes de seguirmos para o destino certo, olhe ao redor. Vê algo que gosta? Além de mim, claro.
Meus olhos correram por algumas vitrines, ainda sem entender muito bem. Minha visão não era das melhores, verdade, mas meus olhos pararam em um corpete preto em um manequim.
— Ali.
— Aquela blusa?
— É um corpete.
— Você espera que eu saiba a diferença?
Ele marchou até a loja, e foi impressão minha, ou ele estava tentando não rir? Não entendi o motivo. Fui atrás dele, parando em frente ao manequim e analisando o corpete. Era realmente muito bonito. Talvez eu falasse com minha mãe sobre, e se ela estivesse de bom humor, poderia comprar pra mim. Victor entrou na loja, e eu o segui.
No momento em que passei da porta, um perfume forte e até mesmo sensual pairava no ar.
Uma moça caminhou até nós, com um sorriso de algumas-intenções-a-mais no rosto fino.
— Sejam bem vindos. Estão procurando uma diversão em especial?
Uma diversão em especial?
Olhei ao redor, e percebi umas coisas um pouco estranhas. Algumas fantasias estavam em uma parte da loja, mas na verdade havia uma falta de tecido em todas elas. Do outro lado, alguns objetos que eu não consegui ver direito, em formatos variados. Mas, no balcão, estavam várias caixinhas, de várias cores e possivelmente sabores. Porque eram preservativos.
Oh. Meu. Deus.
Olhei para Victor, vendo que ele tinha percebido antes de mim, e estava me encarando maliciosamente, mas tentando não rir. Estávamos numa sex shop.
Como confirmação, senti meu rosto esquentar furiosamente.
— Na verdade… uh, é que… nós… nós somos…
A atendente ergueu as sobrancelhas, e eu respirei fundo aquele perfume exagerado.
— Somos irmãos. — falei.
— Primos. — disse Victor.
Olhei para ele, querendo matá-lo. Como se parentescos diferentes vindo de cada um não fosse ruim o bastante, nós dois falamos ao mesmo tempo.
A atendente, que graças ao nome em sua blusa percebi se chamar… Hajah, pareceu surpresa por um momento. Então, sua expressão voltou a que nos recebeu quando chegamos.
— Tudo bem, aqui nós não julgamos ninguém! Não vou mentir, incesto não é um dos meus maiores interesses, mas não estamos falando de mim. — implantou um sorriso largo.
Eu queria me matar.
— Na verdade… — cerrei um pouco os olhos, vendo que o nome bordado no tecido escuro de sua blusa não era Hajah, e sim, Hannah. Meu Deus. Eu precisava de óculos de grau urgentemente. — Hannah. Viemos aqui por acidente.
Victor aproximou-se sorrateiramente de mim, passando o braço firmemente pela minha cintura.
— Relaxa, amor. Ela já disse que não tem preconceito com o nosso tipo de relação.
Eu queria matá-lo novamente.
Ele continuou:
— Somos irmãos, mas nos beijamos. E outras coisas. Então, não somos irmãos. Certo, Hannah?
O olhei mortalmente, percebendo todo aquele brilho divertido no fundo de seus olhos.
Hannah sorriu e concordou com a cabeça.
— Não, de verdade, viemos aqui por acidente. E já estamos indo.
— Não querem ver as calcinhas comestíveis?
— Por Deus, não.
Antes que ela pudesse prosseguir com o catálogo furtivo da loja, eu mesma sai praticamente correndo dali, esquecendo até mesmo o corpete. Victor estava logo atrás de mim, e assim que saímos, ele começou a rir. Me virei, encarando-o ameaçadoramente.
— Qual é o seu problema?! — soltei, mas me surpreendi ao perceber que os cantos da minha boca estavam quase se curvando.
— Você precisa admitir, isso foi ótimo. — disse ele.
Antes que eu pudesse me impedir, me entreguei as risadas, assim como ele.
— Eu não sei como não percebi que era uma sex shop! E você sabia de tudo. Eu vou te matar.
— Eu seria um estraga prazeres se não te deixasse ir.
— Literalmente. — eu ri — Mas quem põe uma sex shop atrás de uma estátua de um anjo?
— Por que não? — sua risada foi diminuindo, assim como a minha, e ele acrescentou: — Aliás, como assim você resolveu dizer que somos irmãos? Não temos nada a ver. Começando pelo tom de pele.
Era verdade. Victor era branco, muito branco, e eu negra. Por mais que minha mãe definisse como morena clara, pra mim era negra do mesmo jeito. Por mais que em algumas fotos em saísse meio branca, segundo meus amigos. Pela iluminação, e por não levar muito sol.
Era estranho.
— Sei lá. Eu estava sem saber o que dizer. Mas você quem confirmou que éramos irmãos. — “Somos irmãos, mas nos beijamos. E outras coisas. Então, não somos irmãos.“ — Gênio.
— Quis me divertir um pouco mais. Mas primos cairia melhor, você sabe.
Eu sabia que ele estava certo, mas eu não sabia agir sob pressão.
— De qualquer modo, você é maluco.
— Por você, sim.
Revirei os olhos, não levando a sério suas palavras, mas senti algo se remexer dentro de mim.
Olhei ao redor para disfarçar.
— Depois desse momento épico e constrangedor, o que vamos fazer agora? — quis saber.
Ele levou as mãos ao bolsos do jeans, e aí passou um tempo me olhando.
— Ao nosso destino real. — resolveu responder, acenando com a cabeça em direção a uma rua mais estreita e vazia que as outras. — Vamos? — estendeu a mão.
Pela primeira vez, ele me perguntou aquilo, não afirmou.
Eu não sabia bem o que ele estava planejando, e mesmo que aquela rua não fosse muito convidativa, eu confiava nele. Assenti, pegando sua mão, e sentindo um calor confortável em meu corpo quando nossos dedos entrelaçaram.
Nos aproximamos da rua, Victor um pouco a minha frente, já que eu não sabia onde estávamos indo. Enquanto caminhávamos por ali, notei algumas coisas. Era realmente mais vazia, com pouca iluminação também. Além de eu nunca ter ido ali. Na verdade, nunca tinha notado aquela rua. Desde o momento que pisamos no começo dela, eu não vi nenhuma casa, apenas muros das casas das ruas vizinhas. Na escuridão, eu não podia ver direito qual expressão estava no rosto de Victor. Passou pela minha mente que poderíamos ser assaltados, ou algo do tipo, mas o toque de sua mão na minha me acalmava.
Chegamos ao fim da rua, e ele parou. Com um único poste iluminando a calçada da direita, eu vi o que provavelmente era o nosso destino. Era um prédio não tão largo quanto os que eu via na parte mais central da cidade, mas era bem alto e claramente antigo. Simplesmente não combinava com aquela rua mais estreita e solitária que as outras. Era como se ele tivesse brotado ali.
— Você mora aqui? — perguntei, por mais que soubesse a resposta.
Eu duvidava bastante que ele morasse ali. Na verdade, eu duvidava que alguém morasse ali.
Victor soltou a minha mão para coçar a própria nuca, provavelmente sem perceber. Negou com a cabeça.
— É um prédio abandonado. Não era assim até dois anos atrás. — acenou com a cabeça na direção da entrada, indo até lá, e eu o segui de perto.
Realmente, o lugar estava completamente abandonado. Pude sentir o cheiro da poeira assim que entramos, o que não agradou a minha rinite, mas me controlei para não começar uma série interminável de espirros. Estava escuro lá dentro, para combinar com o blackout da rua, mas pela luz que entrava por uma janela, do único poste na calçada, eu vi algumas coisas. Um balcão, onde o recepcionista provavelmente ficava dois anos atrás. Até mesmo o sino para anunciar a chegada de um hóspede estava ali. Alguns quadros antigos nas paredes um pouco sujas, um tapete logo a nossa frente.
— Por que que se tornou abandonado? — perguntei, olhando ao redor e notando outras coisas sob a luz fraca.
Como mais algumas janelas, papéis espalhados pelo chão, uma poltrona velha, um cinzeiro sobre uma mesinha. Percebi que estava falando mais baixo, como se alguém pudesse ouvir.
— Ele foi vendido. — contou, sem muito entusiasmo, fechando a porta atrás de si. — Ia se tornar um prédio menor, uma lanchonete, um salão, sei lá, nunca foi divulgado.
— Então por que não se tornou?
— Isso também nunca foi divulgado.
Franzi a testa. Quem, em sã consciência, pagaria pelo domínio de um lugar na expectativa de reformar, mas desistia?
Victor deslizou até o balcão, passando por ele e indo até uma porta que eu não vi antes. Seguindo-o, a fechei atrás de mim, e dei de cara com vários degraus de uma longa escada de ferro. Victor me colocou em sua frente e me incentivou a subir. Sabendo que provavelmente era nosso destino, eu fui degrau por degrau com ele, tomando cuidado para não cair. Sempre que meu sapato fazia algum barulho contra o ferro e a poeira, ameaçando escorregar, eu sentia as mãos de Victor em minha cintura. Ele estava realmente muito perto de mim, o que me deu segurança e outras coisinhas a mais passeando livremente pelo meu corpo.
Eu não sabia como não tinha caído ainda, porque não era possível ver muito, mas a medida que subíamos eu notava que havia uma luz amarela lá no fim. Quando finalmente chegamos ao topo, eu me surpreendi por não estar tão ofegante, e foi aí que perdi o fôlego todo de vez.
A luz amarela na verdade eram luzes, de postes, mas não daquele poste lá da calçada, e sim de vários deles. Estávamos bem, bem alto, com uma vista que eu nunca achei que teria o prazer de conquistar em Chordwall. Porque, na verdade, eu nem mesmo sabia da existência dela.
O vento veio forte, mas suave, jogando meus cabelos soltos para trás e fazendo um arrepio percorrer meu corpo, enquanto eu admirava tudo aquilo a minha frente. Estávamos no terraço.
Eu podia ver provavelmente todas as casas e apartamentos da cidade, em todas as direções. O mar ao longe, o que deveria ser a minha escola, os parques, os postes iluminando as ruas, as pessoas caminhando, os carros e ônibus passando, tudo. A maioria das coisas era um grande borrão para mim, graças a minha miopia, mas era lindo do mesmo jeito.
— Isso é incrível. — foi o que eu consegui dizer, andando sobre o terraço, tomando cuidado para não me aproximar tanto da borda.
Mesmo de costas para Victor, o senti sorrindo um pouco.
— É legal. — concordou do seu modo.
— Você sempre vem aqui?
Obviamente eu sabia que não era a primeira vez. Eu não sabia se era como um lugar secreto para ele, ou se tinha mostrado a outras pessoas, mas de qualquer modo eu me senti lisonjeada. Era muito bonito, e sendo a primeira e única ou não, ele resolveu compartilhar aquilo comigo. Eu dava importância.
— Sozinho, sim. — quando eu ouvi aquilo, controlei o sorriso largo que quis escapar. Aquilo me deixou melhor ainda. Então, eu era mesmo uma das únicas pessoas a ir ali com ele. Talvez... a única garota? Ok, eu estava esperançosa demais. — É bom para compor. E pensar. E fugir de policiais.
Eu esperava que fosse brincadeira.
— Você está certo. — concordei, olhando ao redor e sentando no chão. Ele me acompanhou, sentando ao meu lado, com os braços nos joelhos e os pés no chão. Tirou o boné, bagunçando o cabelo. Não eram apenas os postes. A lua também fazia sua parte na iluminação fraca, e seu prateado era lindo, assim como sua luz — refletida na pele e cabelo de Victor, era mais linda ainda. — Parece um bom lugar para se isolar do mundo.
— Ou fugir da polícia — ele lembrou. O olhei, e ele me olhou de volta, dando um sorriso torto. — Apenas brincando.
— Sei — cerrei os olhos, mas ri. — Obrigada por me trazer aqui. Eu adorei.
Ele deu de ombros, voltando a olhar para a frente, os olhos atentos nos movimentos distantes de nós.
— Você vai mesmo se mudar? — a pergunta dele me pegou de surpresa, e seu tom e expressão estavam indecifráveis.
Franzi a testa, direcionando minha atenção totalmente a ele.
— Como você sabe disso?
Eu ainda não tinha contado.
— As pessoas comentam. Vai ou não?
— De casa, sim.
— De cidade.
— Não.
— Ok.
Eu sabia que não estava louca. O rosto dele realmente suavizou, mas eu não ia comentar sobre isso com ele. Seria negação atrás de negação, até a morte.
— Quer ajudar na mudança? — eu tinha a pergunta pronta, pois era algo que já planejava.
Ele deu de ombros.
— Sem problemas.
— Ótimo.
— Perfeito.
— Hey.
— Hm?
— Foi bom dançar com você hoje.
Novamente, sua atenção foi direcionada para mim, mas eu já estava o olhando. Ele sustentou o olhar, e um arrepio percorreu minha espinha.
— Vindo da melhor líder de torcida de Blanchaster High School, é uma honra ouvir isso.
Eu ri, negando com a cabeça e sabendo que ele só podia estar brincando.
— Não sou a melhor.
— É uma das. — pausa — Harmony não vai durar muito como capitã.
Espero.
Não era como se eu quisesse tomar o lugar da Harmony ou algo do tipo, mas eu realmente não gostava dela. Qualquer uma das meninas (ou Edward) tomando seu lugar, estava ótimo.
— Obrigada.
Ficamos em um silêncio agradável por um bom tempo. Eu podia ouvir sua respiração lenta e calma, e até mesmo a minha, enquanto eu desfrutava de estar ali com ele, aproveitando a inspiração e tranquilidade que a vista transmitia.
Novamente, meus olhos foram em direção ao que eu acreditava ser a nossa escola.
— Você gosta da escola? — me vi perguntando.
Meu Deus, eu conseguia ser muito aleatória quando queria.
Victor fez uma breve pausa, levando os braços para trás das costas para se apoiar no chão e esticando as pernas. Deu de ombros.
— Acredito que 90% por cento dos americanos odeiam a escola — respondeu.
— Inclua os brasileiros nisso — segurei uma risada, recebendo a sombra de um sorriso de canto.
— Mas — continuou ele — Eu não sou americano, então pra mim tanto faz. Não é como se fosse um pesadelo.
Eu quase conseguia ouvir a voz de Cohan na minha cabeça, dizendo claro que não é um pesadelo pra você, senhor perfeitinho. Não que eu já tivesse cometido o erro (e tentativa de suicídio) de falar de Victor com ela, mas o ódio de Cohan por ele era tão claro que era sentido por quilômetros de distância. Tão sólido que eu quase conseguia tocá-lo. Eu a conhecia bem o suficiente pra saber que provavelmente diria aquilo com um tom irônico, expressão cínica e olhar que assustava qualquer um.
— Como é lá? Onde você morava. — me senti curiosa sobre.
Porque na verdade, eu não sabia nada sobre o passado dele.
— Bristol. — corrigiu. Sua expressão despreocupada me fez perceber que não estava pisando em terreno perigoso, graças a Deus. Novamente, o sotaque dele ficou mais forte ao citar sua antiga cidade na Inglaterra. — Não muito diferente daqui, mas faz um tempo que me mudei.
— Por que se mudou?
— Meus pais.
— O que aconteceu com eles?
— Na verdade, o emprego deles.
— No que eles trabalham?
Ele me olhou. Não parecia irritado, na verdade parecia estar se divertindo internamente.
— Farm girl, isso é um interrogatório?
— Não. — respondi na defensiva, encarando-o.
— Tenho consciência que você é altamente curiosa ao natural, mas isso se assemelha a um interrogatório.
— Não é um.
— Lembra um.
— Não é um interrogatório, meu Deus!
Em questão de segundos, eu já estava estressada, e queria me matar por isso. Victor ficou um tempo em silêncio, o brilho divertido e maldoso insistindo em seus olhos. Ele soltou o ar pelo nariz, junto com uma leve risada.
— Você parece quase inofensiva quando está vermelha assim.
Se eu já estava vermelha, piorei completamente. Olhei a vista, evitando olhá-lo, sentindo a irritação dar lugar a uma quase-raiva e vergonha. Minha expressão estava fechada.
— Não estou vermelha. — murmurei.
— Ah, está sim.
— Deve ser porque você me irrita.
— É só isso que eu causo em você?
Eu parei, respirando fundo lentamente. Eu não sabia como alguém conseguia despertar sentimentos distintos em mim ao mesmo tempo. Mas, bem, era o dom de Victor. Eu queria atacá-lo com um tapa na cara, porém, ao mesmo tempo, queria puxá-lo para mais perto e beijá-lo. Estremeci com a ideia. Não foi um temor ruim. Seria uma ideia ruim?
Virei o rosto e o fitei firmemente, vendo aquele sorriso provocativo no canto de seus lábios, ameaçando tomá-los por completo. Eu sabia que aquele sorriso estava sendo espelhado nos meus olhos, quando soltei:
— Unicamente isso.
Ele não se aproximou, mas eu senti sua presença mais forte, como se algo estivesse exalando dele, direcionado a mim. Não era algo ruim. Era quase como desejo. Era o que acontecia quando nos provocávamos, e eu sentia que ele gostava. Eu sabia que eu também.
— Tem certeza? Não há mais nada?
— Não.
— Nada mal resolvido entre nós?
Onde ele queria chegar?
— Temos uma tensão, talvez. — resolvi jogar seu jogo e ser tão cínica quanto ele.
Me fiz de idiota e desinteressada, olhando ao redor e dando de ombros.
— Uma tensão sexual? — perguntou, o que me fez parar meus olhos nele.
— Talvez. — repeti.
— Parece mais como tesão pra mim.
Eu me calei, sentindo cada parte do meu corpo se arrepiar ao ouvir aquilo. Ele nem mesmo piscou. O contato visual intenso definitivamente estava cooperando para minha perda de fala, os arrepios passeando livremente por minha pele, e a mordida que dei em meu lábio inferior.
Eu sabia que ele tinha percebido, mas mesmo assim, não desgrudou os olhos dos meus.
Quando eu abri a boca fiz a maior merda que alguém poderia fazer.
— Deve ser porque é. Deve ser porque eu estou apaixonada por você, e eu quero você, e eu não consigo ficar perto de você sem pensar em te agarrar. Isso me dá ódio. Caralho. Deve ser por isso. Essa merda. — foi o que eu disse, sem controle, e até me senti mais leve.
Victor ergueu as sobrancelhas, levemente confuso. Ele teria entendido tudo aquilo, e sua reação provavelmente seria outra, se eu não tivesse dito cada palavra propositalmente em português.
— O que foi isso? — perguntou — O que você disse?
Fabriquei um leve sorriso, mas no fundo estava sorrindo mais. Era bom vê-lo vulnerável uma vez na vida. Ele ficava confuso, como qualquer outro garoto. E curioso também.
— Que já está um pouco tarde, e deveríamos ir.
Eu não queria ir embora, mas eu conhecia minha mãe, e sabia que eu chegar tarde em casa não estava na lista de coisas favoritas dela. Ainda eu tendo discutido com Jennifer, por conta do meu encontro com Victor. Ela deveria estar colocando coisas na cabeça da nossa mãe naquele momento. Só de pensar, senti uma chama de irritação lá no fundo da minha cabeça.
A expressão de Victor dizia que ele não estava acreditando naquela desculpa, mas aceitou e se levantou, ajudando-me a fazer o mesmo.
— Vou aprender a falar português. — decidiu.
— Boa sorte. — ri, sendo a primeira a ir em direção a saída do terraço.
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