The Anchor

29 Um dia um pouco diferente do habitual. — Parte II.


Notas iniciais
AMORESSSSSSSSSSSS!!! Essa é a segunda parte desse capítulo. Quero dizer uma coisinha. Quando postei The Anchor aqui no site, era exatamente dia 15/11/2014. E hoje é dia 15/11/2015. Queria postar o capítulo às 23:16, a hora em que postei a história, mas quero postar logo! UHDUIFHIAF, enfim, espero que gostem! TEM UMA MÚSICA NESSE CAPÍTULO, OUÇAM!!!!! pls xx

Capítulo 28.

Corri o mais rápido que minhas pernas conseguiam, esbarrei em tantas pessoas que já estava cansada de dizer "foi mal!" e ainda tive que subir aquela maldita escada, para finalmente chegar ao corredor em que a entrada do ginásio ficava.

Enquanto corria, eu me perguntei como tinha me distraído tanto com uma história que May tinha contado, a ponto de me atrasar para o treino.

Eu não me importaria se fosse um treino de qualquer outra coisa, ou até mesmo uma aula, mas Harmony pegava tanto no meu pé que conseguia ser pior que qualquer professora, até mesmo a senhora que chamou Josh de depravado.

Suspirei profundamente, preparando-me mentalmente para ouvi-la reclamar e encher meu saco, ao mesmo tempo que regulava minha respiração e as batidas do meu coração — graças à corrida.

Também arrumei meus cabelos e me abanei um pouco, já que mesmo com o ar-condicionado eu tinha transpirado — ao menos bebi água.

Graças a Deus não estava muito suada, porque do jeito que Harmony era, poderia reclamar até daquilo. Quando já estava mais calma e apresentável, sem parecer que participei de uma maratona, caminhei até o fim do corredor, virando-o sem hesitar e entrando no ginásio.

Olhei para o centro, onde todas as meninas — e Edward — estavam conversando de pé, ao mesmo tempo em que se alongavam. Menos Harmony, ela reclamava com algumas, andava de um lado para o outro e reclamava com mais garotas.

Quando ouviram meus passos, todas viraram. Caminhei até elas — e Edward —, olhando para a arquibancada rapidamente e vendo os jogadores de futebol sentados nos bancos, conversando. O que diabos eles estavam fazendo ali? Vi um garoto parecido com Victor — olá miopia —, que no segundo seguinte descobri ser ele, já que vestia as mesmas roupas que eu tinha visto mais cedo.

Ao lado dele estava Booker, e do outro lado mais um rosto conhecido. Aquele era o Yv?! Nossa, Yv nunca assistia os treinos das cheerleaders. Ele nem era do time de futebol.

— Atrasada, pra variar. — Harmony torceu o nariz quando me aproximei o suficiente. — Sorte sua que ainda estamos nos alongando.

Suspirei um pouco, tirando minha mochila dos ombros e jogando-a no chão, deixando perto da grade. Com o canto do olho pude ver todos os garotos nos olhando.

— Foi que eu... — comecei, apenas para ser miseravelmente interrompida:

— Me poupe de suas desculpas. — se afastou de mim com aquela expressão arrogante. Revirei os olhos, o que provavelmente ela não viu. — Chega de alongamento, meninas. Fique ao lado da Lauren, Geovana.

Assenti, sentindo uma vontade imensa de socar a cara daquela garota. Eu odiava que me chamassem de Geovana, e o tom de voz debochado que ela propositalmente usava deixava tudo pior.

Fui até Lori, suspirando um pouco e me colocando ao seu lado.

Ela me abraçou rapidamente e deu uma piscadela, me fazendo sorrir em resposta.

Todas as garotas ficaram em seus típicos lugares, o que não tinha importância ou diferença, porque Harmony sempre ficava no centro, entre Sophia e Edward — que realmente mereciam os cargos de segunda capitã e terceiro capitão, diferente de Harmony, a primeira capitã.

Harmony sabia dançar, eu precisava admitir, mas ela simplesmente era mecânica demais, além de ser uma péssima líder.

Dura e insuportável demais com todo mundo, e parecia ter uma implicância exclusiva comigo. Além de que ela não se importava com a nossa opinião, e não dançava por prazer, e sim para ser melhor que as garotas dos outros colégios. Até eu que era novata sabia daquilo.

— Hoje vamos ensaiar a torcida e coreografia do jogo. — anunciou ela, pondo-se em seu lugar.

Todas as garotas — e Edward — soltaram resmungos e gemidos em desagrado, inclusive eu. Não que não estivéssemos animadas com o jogo, nós estávamos, mas ele ainda estava longe (era depois do baile) e Harmony sempre ensaiava a mesma coisa. Sempre. Ninguém aguentava mais.

Já sabíamos os passos até de trás pra frente, e só variávamos quando a treinadora estava lá, o que infelizmente não acontecia muito. Ela era tia da Harmony, então quando ficava ausente (quase sempre, porque estava cuidando da mãe doente ou algo do tipo), deixava a Harmony no comando. Talvez ela fosse capitã por ser sobrinha da treinadora. Eu não sabia.

Sophia e Edward não podiam opinar nas escolhas da nossa querida capitã, o que era um saco.

— Harmony. — uma menina loira que estava ao lado de Lizzie, que reconheci como uma tal de Mackenzie, chamou.

Todos a olharam. Harmony se virou, já que a garota estava atrás dela. Franziu a testa.

— O que é?

— Eu estava pensando... sabe, sobre a coreografia... — era claro que Mackenzie estava meio hesitante, provavelmente com medo e já se arrependendo de ter aberto a boca — Acho que deveríamos mudar um pouco, acho que...

— Espera. — Harmony cortou, erguendo a mão. Mackenzie se calou como se tivesse recebido um tapa. — Não cometa o erro de continuar. Segura e guarda esse pensamento, talvez um dia eu me importe com ele o suficiente para te deixar prosseguir. Vamos lá, garotas!

Olhei incrédula para Harmony, e depois para Mackenzie, que assentiu e abaixou a cabeça, enquanto a outra agia como se nada tivesse acontecido.

Eu não era algo como a defensora dos oprimidos, mas aquilo não estava certo. Mackenzie apenas ia dizer o que todas nós queríamos e não tínhamos coragem, mas ela nem pôde continuar, pois Harmony lhe tirou essa oportunidade.

Diferente de Mackenzie, quando eu não tinha uma oportunidade, eu criava uma.

— Acredito que Mackenzie... — comecei, quando Harmony já estava pronta para começar. Atrai a atenção de todos para mim, o que só me fez erguer o rosto e colocar as mãos na cintura, decidida a não hesitar. — Quis dizer que poderíamos variar. Caramba, nós deveríamos nos divertir fazendo isso, mas não é o que acontece. Nós nem dançamos! Só pulamos e movemos os braços. E, foi mal, mas você é mecânica demais. — a última parte acrescentei porque quis mesmo.

Era verdade, e naquele momento senti que estava dizendo o que muitas ali — e Edward — não tinham dito ainda por falta de coragem. Harmony agia como se todas nós fôssemos robôs, e parecia que fazer aquilo era uma obrigação, o que tirava toda a diversão que deveria estar envolvida. Nós praticamente éramos animadoras de torcida sem nenhuma animação, mas ninguém poderia nos culpar.

— Está dizendo que dança melhor que eu? — ela cerrou os olhos.

Eu sentia que todos estavam nos olhando, mas não me importei, apenas continuei a encarando.

— Não foi isso que eu disse. — me defendi.

— E espero que não diga mais nada. — foi o que respondeu, empinando o nariz e voltando para sua posição. — Vamos.
Suspirei profundamente, controlando minha vontade de matá-la ali mesmo.

Capitã das líderes de torcida clichê bem filha da puta? Confere.

— Ao menos você tentou. — Lori tentou me confortar, o que me surpreendeu, porque ela era meio barraqueira (então esperei que ela fosse voar no pescoço da Harmony ou qualquer outra coisa, quem saberia?).

Harmony começou a cantar o nosso grito de guerra, ou sei lá como chamavam aquilo. Começou a mover pompons invisíveis, e claro que tivemos que acompanhá-la. A única voz que era realmente ouvida era a dela, porque ninguém estava animado para fazer aquilo. Fiasco total. As outras cheerleaders iriam acabar com a gente, com certeza.

Quando Harmony estava pronta para repetir o típico "Nós vamos ganhar, nosso time é de arrasar!", foi interrompida:

— Okay, eu preciso interromper isso. — a voz de Victor foi ouvida, o que a fez se calar. Nós nem precisamos fazer esforço, porque enquanto ela gritava "Nós vamos ganhar, nosso time é de arrasar!", nós murmurávamos o verso, e quem ouvisse bem de perto poderia jurar que Lizzie estava murmurando “queria estar morta agora”. — Que porra é essa?

— Algum problema? — ela colocou as mãos na cintura.

Victor bufou.

— Fala sério, isso parece um velório! Se vocês forem animar assim no jogo, já sabemos que não iremos vencer. E, Lizzie, eu também queria estar morto agora.

Ele estava certo. Eu quase sempre esquecia que o objetivo daquilo, além da competição anual de cheerleaders (tinha uma nome, mas eu não lembrava), era torcer para eles (jogadores de futebol) ganharem. E mais alguém tinha ouvido as lamentações de Lizzie (ao menos não era meu subconsciente usando a voz da minha amiga para expressar o que eu sentia).

— Não pode nos culpar. — murmurei, o que foi um pensamento que acabou escapulindo.

— Tudo bem. — Harmony olhou para todas as meninas (e Edward), certamente não ouvindo o que soltei, ou simplesmente me ignorando. Não. Ela era barraqueiramente insuportável (porque tinham as barraqueiras legais, como a Lori), então não conseguiria ignorar. — Vamos fazer a pirâmide.

Pronto. Ia dar merda na certa. Eu ainda não sabia fazer a pirâmide.

Sinceramente eu não sabia nem dar uma cambalhota de verdade.

— Sinceramente, Harmony, não acho que a pirâmide irá mudar alguma coisa. — Edward se pronunciou, fazendo todos olharem para ele, de modo até sincronizado. Assustador. — Vamos ouvir o que Mackenzie ia dizer.

Harmony bufou, cruzando os braços. Olhou para Mackenzie, assim como eu e todos os outros. A garota olhou para mim, então sorriu.

— Acho que a Geo tem algo melhor a dizer.

Parei, vendo todas aquelas cabeças virarem novamente em minha direção. Sorri para Mackenzie, agradecida. Se ela não queria falar, eu falaria por ela. E por todas — e Edward, claro.

Respirei fundo, olhando diretamente para Harmony, sem nenhum medo dela ou do que ela poderia fazer se não gostasse do que eu diria — o que definitivamente aconteceria.

— Nós treinamos muito. — comecei, me surpreendendo com meu tom calmo. — E eu gosto disso, sério. Não estou dizendo que isso tem que mudar, até porque quando cada garota...

— E eu. — Edward interrompeu, então murmurou um "foi mal, continua".

— Quando cada garota aqui, e o Edward... — acrescentei, dando uma piscadela na direção dele. — fez o teste, sabia que teria que se comprometer, e que ser cheerleader não é muito fácil. Mas, Harmony, você age como se nós fôssemos robôs-escravos, ou sei lá! — ela abriu a boca, ofendida e incrédula, mas não me abalei. — Eu sei que você é a capitã, mas não age como uma líder. Você apenas manda, manda e manda. Temos que dançar o que você quer, na hora que você quer, e ninguém pode opinar. Tipo, nunca! — fiz uma pausa, olhando para todos ali. Inclusive os meninos na arquibancada, e era impressão, coisa da minha miopia ou Victor estava realmente sorrindo? — Até Ed e Soph, que também são capitães, precisam ficar calados e aceitar tudo. Nós já sabemos a coreografia do jogo, todos nós! Fazemos até de trás pra frente, se você quiser. Mas a competição de cheerleaders está longe e já está tudo pronto pro jogo, então por que diabos nós não podemos nos divertir um pouco, nem que seja só uma vez?

Fui surpreendida por uma onda de palmas animadas, e até alguns gritinhos e frases de apoio.

— Arrasou, garota! — reconheci a voz de Yv, e no mesmo momento comecei a rir, erguendo os polegares na direção da arquibancada, onde ele e os outros garotos estavam.

Mas, como minha felicidade sempre durava pouco, Harmony bufou alto e veio em minha direção, parando na minha frente. Ela estava com tanta raiva que eu achei que lasers sairiam de seus olhos. Mas não saíram, graças a Deus.

— Escuta aqui, Rocha. — ela praticamente rosnou meu sobrenome, começando a andar pra frente, o que automaticamente me fez recuar. Era engraçado o jeito que ela pronunciava o meu sobrenome, de jeito embolado, mas eu não ri por motivos óbvios. — Como você bem disse, eu sou a capitã. Eu mando depois da treinadora, que, adivinha? Agora só vem pro colégio duas vezes por semana! Então eu quero deixar bem claro que você não é NINGUÉM aqui. — ela cerrou os olhos. — Eu só não te tiro da equipe porque não posso, mas, acredite, se eu pudesse... ah, você nem estaria mais aqui, sua bisc...

— Harmony. Chega. — alguém se intrometeu, interrompendo-a, e eu nem precisei olhar na direção da voz para saber quem era.

Uma parte de mim — a parte que queria evitar uma briga — agradeceu mentalmente por Victor interromper a fala de Harmony.

Outra parte de mim — a parte barraqueira — queria ouvir o que ela tinha a dizer, apenas para voar no pescoço daquela garota e mostrar a ela quem era "biscate".

Fui obrigada a desviar o olhar do rosto dela, vendo que Victor tinha se levantado. Harmony me mandou um último olhar ameaçador, antes de se virar na direção da arquibancada, ainda próxima de mim.

— Como é? — seu olhar para Victor era idêntico ao que antes estava cravado em mim.

— Você não é surda. — foi o que ele respondeu. — Chega. Ela apenas falou a verdade, o que claramente você não sabe ouvir. E ela foi muito corajosa, aliás. — olhou diretamente para mim, antes de voltar a fitá-la.

— Por que está se metendo, garoto? — sua voz estava carregada de desprezo. — Não tem nada a ver com isso! Nem sabe o que está dizendo, Stonem.

Victor simplesmente riu, aparentemente adorando vê-la tão irritada.

— Por que eu estou me metendo?! — repetiu a pergunta dela, estalando a língua e negando algumas vezes com a cabeça, prendendo o riso. — Porque simplesmente sou quem precisa de estímulo no dia do jogo, se quisermos ganhar e não passar por uma humilhação na frente dos babacas da Carmel — o outro colégio, que aparentemente era rival de Blanchaster em tudo, então a maioria dos estudantes dos dois colégios não se gostavam muito (se odiavam, no caso dos jogadores e das cheerleaders). Juliet, Alex, Andrew, Diana e outras pessoas que eu conhecia estudavam lá. — Preciso de uma boa torcida. O que definitivamente você não sabe fazer. — debochou, fazendo Harmony cerrar os punhos. — Mas ela sabe. — apontou para mim, que estava atônita demais para fazer qualquer coisa. — Todos eles sabem. Melhor que a própria capitã. Que irônico, não? — aproximou-se da grade, encostando-se nela.

— Cala a boca, seu imbecil... — ela rosnou.

— Ou o quê? Harmony, se toca, você e eu somos mais parecidos do que gostaríamos. — antes que ela pudesse interrompê-lo, Victor continuou: — Eu sou o quarterback, e você a capitã das cheerleaders. Eu me responsabilizo pelos meus dudes. — apontou para os rapazes. — E você pelas suas garotas.

— E Edward! — Edward acrescentou.

— E o Edward. — Victor assentiu. — Nós dois temos equipes, e os dois somos os líderes. Mas acontece que eu ao menos tento ser um líder, você não. — ele deu de ombros — Então, darling, você vai me ouvir. Você pode ser a sobrinha da treinadora, ou até do presidente, mas se eu fizer isso... — ele estalou os dedos. — Sua fantasia de ser rainha do ensino médio acaba. Bye bye reputação. E sabemos que você não quer isso.

Silêncio total. Victor e Harmony se encaravam com tanta intensidade, que parecia que estavam discutindo apenas com olhares. Ela parecia enfurecida, mas ele estava extremamente calmo.

— Geovana. — ele chamou, fazendo com que eu o olhasse quase automaticamente, já que eu estava no meio daquela situação toda, atenta a qualquer movimento. — Provavelmente Harmony está se perguntando se eu sei todos os podres dela, o que eu definitivamente sei, então acho que esse é um bom momento para você continuar, ou simplesmente começar novamente. — ele se sentou.

Fiquei um tempo parada, pensando no que fazer. Eu nem lembrava onde tinha parado, porque aquela discussão toda foi o suficiente para me fazer esquecer qualquer outra coisa. Quando eu já estava prestes a dizer que não lembrava o que ia falar, tive uma ideia, e um sorriso apareceu em meu rosto.

— Prefiro mostrar. — decidi, indo até o centro da quadra/ginásio e prendendo meu rabo de cavalo de modo mais firme, pensando em como faria aquilo direito.

— Nem pensar! — Harmony se pronunciou, me fazendo revirar os olhos.

— Pelo amor de Deus, cala a boca! — Booker gritou, o que me fez rir, e surpreendentemente ela se calou, mas não sem bufar antes. — É, minha filha, você perdeu pra garota novata. Clichê, mas é isso aí.

Sorri de modo agradecido para Booker, vendo-o trocar um high five com Victor.

— Todos aqui já foram a uma festa, certo? — comecei a falar, já sabendo tudo que ia dizer e fazer.

— Claro que já fomos numa festa. — Harmony resmungou, revirando os olhos e cruzando os braços. — Quantos anos você acha que nós temos?!

— Eles eu não sei, mas você... — fingi pensar, tocando no meu queixo. — Eu chutaria cinco na mentalidade e cinquenta na cara, fofa. — sorri brilhantemente, colocando muito sarcasmo e falsidade no "fofa".

Ouch! — Chris, o mascote do time e aparentemente paixonite de Jennifer, soltou.

Harmony, pela segunda vez, se calou. Todos caíram na gargalhada, inclusive eu. Aquele dia definitivamente não estava sendo normal, e algo me dizia que seria daquele jeito até o fim.

— O ponto é que, — virei de frente para as cheerleaders, de costas para a arquibancada. — numa festa todos dançam como querem, descontraídos. Sem sincronização, sem ensaios antes. Apenas diversão. Acho que seria legal se fizéssemos isso, só hoje mesmo.

— Claro que não! — Harmony protestou.

— Nós achamos que é uma boa ideia. — Sophia cortou, apontando para si mesma e Edward, que estava ao seu lado.

As meninas — e Edward — sorriram pra mim (menos Harmony), e rapidamente concordaram com a ideia. Sorri, contente, vendo Harmony revirar os olhos e aparentemente desistir de encher o saco. Me aproximei de Edward, percebendo que todos me olhavam com curiosidade.

— Eddy, pode fazer um favor pra mim? — sussurrei em seu ouvido.

Ele assentiu prontamente.

— O quê?

— Por favor, coloca pra tocar a música London Bridge, da Fergie?

Afastei-me dele, sorrindo e voltando para o centro, só que virada para a arquibancada. Com o canto do olho, vi Edward se aproximar do notebook, digitando algumas coisas.

Respirei fundo, clareando minha mente para lembrar da coreografia. Não era nada que eu tinha visto na internet, e sim que eu mesma criei. Eu gostava dela, era divertida, um pouco difícil e sensual. Olhei para os garotos, então suspirei e voltei a olhar para baixo. Eu estava nervosa. Pessoas me olhando. Muitas pessoas.

Você consegue pensei, esperando a música começar.

E então começou.

Oh shit, Oh shit, Oh shit

They ain't ready for this?

Oh shit

Oh

It's me, Fergie Ferg

The Pen!

Polo!

Fergie Ferg, what's up baby?

When I come to the club, step aside.

Part the seas, don't be havin me in the line.

V.I.P. cause you know I gotta shine.

I'm Fergie Ferg and give me love you long time

Comecei a dançar de modo lento, movendo meus quadris de um lado para o outro, e assim novamente. Meus amigos costumavam dizer que, para eles, eu dançava tão bem principalmente porque eu sentia a música. Eu não dançava, apenas. Eu me envolvia.

All my girls get down on the floor,

Back to back, drop it down real low.

Meus braços estavam movendo-se lentamente, seguindo o ritmo do meu corpo. Eu estava olhando para todos os lugares, mas não prestava atenção em ninguém. Apenas em mim, e nos meus movimentos. Na minha dança.

I'm such a lady, but I'm dancin' like a ho,

Cause you know I don't give a fuck so here we go

Naquele momento a coreografia mudou para movimentos rápidos, usando todo meu corpo, não apenas meus quadris. Era uma mistura de hip hop e twerk, algo do tipo. Mas eu gostava, e percebi que todos (menos Harmony) estavam gostando também.

How come every time you come around,

My London, London bridge, wanna go down, like

London, London, London, wanna go down, like

London, London, London, be going down, like

Ouvi alguns gritinhos animados de alguns dos meninos quando rebolei em cada “London, London, London”, o que me fez rir, e pelo canto do olho pude ver uma garota desconhecida entrar no ginásio. Ela se posicionou ao lado de Harmony, dando-lhe um selinho nos lábios — desfazendo então o bico emburrado que ali estava formado. Provavelmente era a tal da Laura, namorada da Harmony.

How come every time you come around,

My London, London bridge, wanna go down, like

London, London, London, wanna go down, like

London, London, London, be going down, like

Eu sabia que o jeito que eu dançava era uma surpresa para eles. Porque, bem, eu estava misturando alguns ritmos brasileiros na dança. Na verdade o que predominava era o funk, que eu não ouvia muito, mas sabia dançar e nas festas acabava curtindo com meus amigos. E todo mundo ali desconhecia aquele ritmo. O fato era que eu sabia que rebolava muito bem, e estava explorando aquilo com todo tipo de movimento possível.

Now as the drinks start pouring,

And my speech start slurring,

Everybody start looking real good. Oh shit!

A garota que eu achava ser Laura me olhava atentamente, prestando atenção. Então simplesmente pegou a mão de Harmony e a puxou para perto de onde eu estava, começando a dançar. Aquilo me surpreendeu, mas foi maravilhoso, porque logo após Lori fez o mesmo, assim como Sophia (com Edward). Elas (e Edward) não estavam tentando me seguir na coreografia, estavam dançando do seu próprio e exclusivo jeito.

Grey goose got your girl feeling loose.

Now I'm wishing that I didn't wear these shoes.

It's like every time I get up on the dude,

Paparazzi put my business in the news.

As meninas sorriram pra mim, o que me fez rir e sorrir de volta, sem parar de dançar. Sophia dançava com Edward de jeito meio sensual, porém descontraído e divertido. Lori estava sozinha. Laura estava se esforçando para fazer Harmony ceder, pois a mesma se recusava a dançar. O que definitivamente não me surpreendeu.

And I'm like get up out my face, (oh shit)

Before I turn around and spray your ass with mace. (oh shit)

My lips make you want to have a taste. (oh shit)

You got that...

I got the bass.

Em questão de segundos a quadra se transformou em uma verdadeira festa. Todas as cheerleaders estavam dançando (até mesmo Lizzie) e se divertindo de uma forma que nunca vi antes. E elas não estavam tão perto de mim, porque na realidade pareciam estar ao meu redor. Ninguém estava tentando ser melhor que ninguém, ninguém estava competindo. Só estavam rindo, dançando como loucas (e louco, no caso, Edward) e cantando de modo que provavelmente apenas faziam em casa. E, sim, até mesmo Harmony Forbes estava dançando.

How come every time you come around,

My London, London bridge, wanna go down like

Uma coisa mais inesperada ainda aconteceu no momento do refrão. Christian, aparentemente o crush da Jennifer, desceu com pressa a arquibancada. Ele não passou pelo pequeno portão de ferro como uma pessoa normal que gostaria de chegar à quadra, e sim pulou e foda-se o mundo. Eu não sabia o que ele estava fazendo, e foi rápido demais, mas ele simplesmente parou na minha frente, pegou a minha mão e me girou. E mais rápido que a forma que ele chegou ali, nós já estávamos dançando. Não nos conhecíamos muito bem, verdade, mas aquilo não importava. Não dançavamos de modo provocante e sensual, e sim como Sophia e Eddy dançavam. Brincando, rindo, nos divertindo. Chris me girava tanto que eu estava quase tonta.

London, London, London, wanna go down like

London, London, London, be going down like

Então, como as cheerleaders fizeram, todos os garotos que estavam na arquibancada desceram, cada um puxando uma menina para dançar. Vi Lori puxando Yv, tentando fazê-lo dançar, mas o mesmo insistia, dizendo que não sabia. Como eu conhecia minha amiga, sabia que ela estava nem aí, e que conseguiria fazê-lo se soltar. Ela conseguiu. Senhoras e senhores, ele realmente ESTAVA DANÇANDO. Meio (bem) desengonçado e perdido, mas foi se soltando mais até parecer que estava em uma rave. Também pude ver Booker indo até Lizzie, mas eles não dançaram. Simplesmente foram até um canto no ginásio e começaram a conversar.

Eu estava dançando de frente para Chris, até que alguém colocou a mão no meu braço.

Aah, da, da, da, da, do, do, do, do

Me like a bullet type, you know they comin' right

Fergie lovin' 'em long time

My girls support right?

Não fui puxada com força, mas com firmeza. A pessoa que fez aquilo não me fez virar de frente para si, e sim de costas. Prendi a respiração com o movimento rápido, sentindo um par de mãos no meu quadril, movimentando-o de um lado para o outro no ritmo da música. Só que muito mais sensual, assim como aquela respiração contra o meu pescoço. Apenas não me afastei porque eu sabia quem era, apesar do susto. E, sem mais nada, eu simplesmente me deixei levar.

Aah, da, da, da, da, do, do, do, do

Me like a bullet type you know they comin' right

Fergie lovin' 'em long time

My girls support right?

Another A-T-L, Call callabo... Fergie and Polo

Eu sentia o quadril de Victor contra o meu, e ele rebolava junto comigo, apertando meu quadril, subindo para minha cintura, me tocando em todos os cantos que eram acessíveis. Pude perceber que surpreendentemente ninguém prestava atenção em nós, todos estavam ocupados com seus parceiros. Todo aquele contato com Victor estava tão bom que relaxei e fechei os olhos, levando minhas mãos para trás, tocando seus cabelos e puxando-os, soltando o ar com força pelo nariz. Automaticamente todas as lembranças da nossa tarde juntos no parque me invadiram.

When I come to the club, step aside.

Part the seas, don't be havin me in the line.

V.I.P. cause you know I gotta shine.

I'm Fergie Ferg and give me love you long time

Virei de frente para Victor, passando meus braços por seu pescoço, encostando minha testa na dele. Nós dançamos como se ninguém estivesse ali, em uma conexão inacreditável. Meus olhos já estavam abertos, fitando profundamente os dele. A sensação de ter suas mãos me tocando, me fazendo dançar e rebolar, era maravilhosa. Naquele momento, nada mais importava.

All my girls get down on the floor,

Back to back, drop it down real low.

I'm such a lady, but I'm dancin' like a ho,

Cause you know I don't give a fuck so here we go

Ele levou uma das mãos para minha nuca, puxando de leve meu cabelo, fazendo-me inclinar um pouco a cabeça para trás e fechar os olhos por alguns segundos, soltando o ar lentamente pela boca. Victor me deu leves beijos no pescoço, por cima dos chupões que ele mesmo tinha dado naquela mesma semana.

How come every time you come around,

My London, London bridge, wanna go down like

London, London, London, wanna go down like

London, London, London, be going down like

Voltei à posição que estava antes, no mesmo momento que ele apertou a minha bunda. Eu ri de leve, e ele deu um sorriso sacana. Agarrei sua jaqueta do time de futebol, e então fiz algo que até me surpreendeu (lembrando que estávamos em público). Desci lentamente até o chão, rebolando devagar, passando as mãos por todo seu corpo e olhando diretamente para os olhos dele. O provocando. E, bem, eu estava conseguindo, porque ele me olhava como se quisesse tirar minha roupa naquele exato momento.

How come every time you come around,

My London, London bridge, wanna go down like

London, London, London, wanna go down like

London, London, London, be going down like

Subi na mesma velocidade em que desci, passando novamente minhas mãos pelo seu corpo. Josh teria adorado aquilo. Dei um sorrisinho de lado, safado, o que fez Victor cerrar os olhos, como se soubesse de tudo que eu pretendia. A música já estava no fim, e ele também sabia daquilo, mas não se afastou de mim. Pelo contrário.

Shittin on the world

Yeah, fuck you bitches

Eu estava tão ofegante que poderia ter um ataque ali mesmo, algumas mechas do meu cabelo estavam grudadas no meu rosto e corpo pelo suor, em geral eu provavelmente estava horrível, mas meus olhos estavam cravados em Victor, que estava tão perto de mim. E, claro, eu estava com um sorriso nos lábios. Um sorriso especial.

Vitorioso? Talvez.

Orgulhoso? Sim.

Provocativo? Com certeza.

Respirei fundo algumas vezes, conseguindo fazer minha respiração normalizar.

— Bom trabalho, farm girl. — ele murmurou, espelhando meu sorriso e alternando entre olhar para meus olhos e para minha boca.

— Digo o mesmo, Stonem. — dei uma piscadela. — E obrigada pela ajuda com a Harmony. — sussurrei em seu ouvido, num tom levado.

E, totalmente sem pensar, toquei nos meus próprios lábios, atraindo ainda mais a atenção dele para eles. Beijei dois dedos delicadamente, afastando-os da minha boca e encostando-os nos lábios de Victor, com um sorriso ainda maior que antes. Como se estivéssemos nos beijando indiretamente.

Eu precisava confessar. Naquele momento eu adorei vê-lo desconcertado com meu gesto.

Então era daquele jeito que ele se sentia quando fazia aquelas coisas comigo e eu ficava com cara de idiota?

Sem esforço, tirei os braços dele da minha cintura e me afastei, olhando para todos ali e agradecendo mentalmente por estarem ocupados demais rindo e se abanando para repararem no quanto eu e ele estávamos próximos antes.

— Pessoal, — chamei a atenção deles, prendendo meu cabelo novamente com o elástico que estava no meu pulso, tentando aliviar aquele calor. — Isso foi incrível!

Todos eles bateram palmas e concordaram com gritos, o que me fez rir. Olhei para Harmony, vendo que até mesmo ela estava aplaudindo, sendo praticamente forçada por Laura.

— Foi mesmo. — Yv concordou, sorrindo largamente e abraçando Lori de lado.

— Blá blá blá... — Harmony murmurou, revirando os olhos. Laura lançou um olhar mortal para ela, fazendo-a suspirar e resmungar um: — Foi... legalzinho.

Todos riram, inclusive eu, me aproximando do som e desligando-o. Olhei para um relógio que estava naquela parede, vendo que já deveria estar indo pra casa. Ainda teria que pegar o maldito ônibus sozinha, porque com certeza Jennifer já estava em casa. Que maravilha.

***

Arrumei a mochila nas minhas costas, passando-a melhor por um dos meus ombros e voltando a andar pelo gramado da entrada. Já tinha anoitecido, mas os postes na rua e as luzes do colégio deixavam tudo bem iluminado.

Depois da calçada, na rua entre a entrada de Blanchaster e a praça (que tinha uns brinquedos legais) que ficava na frente do colégio, vi um carro conhecido, com um cara bem conhecido encostado nele, mexendo no celular.

Me aproximei de Victor, percebendo que ele nem tinha reparado que eu estava ali, já que estava bem distraído com seu celular.

— Hey. — cumprimentei, parando na frente dele.

Ele ergueu o olhar automaticamente, ainda digitando algumas.

Então sorriu, bloqueando a tela e guardando-o no bolso da jaqueta do time.

— Olha só, se não é a minha garota favorita que deu um show hoje. — cruzou os braços, ainda sorrindo. — O que deseja com um mero mortal como eu, farm majestade girl?

Ri de modo bem humorado e dei de ombros, já que eu não tinha ido falar com ele por algum motivo especial. Sorri de leve, gostando da primeira frase dele.

— Só estava passando por aqui e, você sabe, não quis ser mal educada. — brinquei. — Não quer me dar uma carona, aliás?

Eu estava meio brincando, meio falando sério. Eu não queria ter que pegar o ônibus sozinha de noite, mas também não queria incomodar ninguém.

— Hoje não vai dar, vou resolver umas coisas daqui a pouco e não posso me atrasar. — respondeu, descruzando e esticando o braço, tocando no meu rabo de cavalo, de modo distraído e natural.

— Está com medo de pegar o ônibus sozinha? — provocou.

Com certeza, pensei, mas apenas mordi a língua e sorri.

— Que nada. — dei de ombros novamente, afastando a mão atrevida dele do meu cabelo, fazendo-o dar um sorriso torto. — Só estou com preguiça. E não esquenta, sem problemas.

Victor cruzou os braços mais uma vez, parecendo pensar em alguma coisa e analisando meu rosto.

— Como foi sua festinha ontem com Josh Harvesty? — pareceu interessado em saber.

No Brasil eu mal sabia os sobrenomes dos meus próprios amigos, e ali nos Estados Unidos parecia que todos sabiam os sobrenomes de todos (além de não chamarem os professores pelo primeiro nome, mas daquilo eu já sabia), inclusive de pessoas que não eram seus amigos.

— Foi legal. — respondi, dando um sorriso largo e convincente. Victor achava que eu e Josh tínhamos passado o dia inteiro nos pegando com outras pessoas e provavelmente bebendo, mas aquilo definitivamente não tinha acontecido. Porém, ele não precisava saber. — Foi bem legal.

Ele ia dizer algo, mas meu celular apitou. Ergui o dedo, pedindo silenciosamente para ele esperar, e peguei o aparelho na minha mochila. Normalmente eu ignoraria, mas poderia ser minha mãe perguntando se eu, sei lá, estava viva.

Quando desbloqueei a tela e vi qual era a nova mensagem recebida, minha testa se franziu. Era de Josh, e ali estava algo que eu não esperava.

Tô vendo vocês dois. Tô atrás da lixeira, na entrada do estacionamento. Vamos colocar o plano em ação.

Eu definitivamente estava surpresa. Josh já devia estar em casa, então por que diabos ainda estava no colégio? E de que lixeira ele estava falando?

Discretamente, olhei pra entrada do estacionamento, que era meio longe de onde eu e Victor estávamos. Vi a tal lixeira, bem grande e escura, mas era praticamente impossível ver se alguém estava por trás dela ou não.

Olhei para Victor, que me fitava com curiosidade, e talvez um pouco de impaciência. Dei um sorriso amarelo e sem graça.

— Espera um pouquinho, é rápido! — falei, voltando minha atenção para o celular e começando a digitar minha resposta. — Minha mãe falando comigo. — menti.

— Beleza.

Victor começou a assobiar distraidamente. O que não foi legal, porque me fez lembrar que eu miseravelmente não sabia assobiar. Okay, pensamento totalmente aleatório e fora de hora.

QUE PLANO??? QUE AÇÃO?? EU TO CONFUSA, VOCÊ REALMENTE TÁ ATRÁS DA LIXEIRA? to assustada

Enviei tudo em maiúsculo mesmo, para causar um impacto maior.

A resposta foi rápida, então com certeza ele estava atento e com o celular na mão, assim como eu.

Não grita comigo sua vadia obesa. Sim, eu tô, e não é nada legal. Vou te ligar.

Nem tive tempo de começar a responder, porque meu celular começou a tocar. Parcialmente esquecendo que Victor estava ali, deslizei o dedo pela tela e atendi, levando o aparelho ao ouvido.

— Presta atenção, — Josh começou do outro lado da linha, falando de modo bem claro. — finja que eu sou um gostosão amigo da sua prima, que você já pegou uma vez e adoraria pegar de novo. Viajei por um bom tempo e só voltei agora. Meu nome é Brant.

Eu era meio lenta para entender as coisas, sim, mas entendi o que Josh estava querendo.

Eu só não sabia se daria certo.

Olhei para Victor discretamente, agradecendo aos deuses por ele estar distraído demais com algo em seu próprio celular (que ele já tinha pego de volta, provavelmente por ter se entediado enquanto me esperava).

— Brant?! — fiz uma expressão surpresa, entrando no joguinho de Josh. — É você?

Josh pigarreou do outro lado, e eu tive vontade de gargalhar quando ele me respondeu com uma voz bem mais grave:

— Sim, gata. — mais um pigarro. — Cheguei de viagem hoje. Precisei te ligar, porque eu só pensei em você durante todo esse tempo fora...

Dei uma risadinha, do jeito mais sensual que consegui. Aquilo atraiu a atenção de Victor. Aproveitando que uma mecha do meu cabelo tinha escapado do rabo de cavalo, a enrolei no indicador e mordi meu lábio inferior, fazendo uma pose perfeita de garota-flertando-ao-telefone.

— Quer que eu saia? — Victor franziu a testa, parecendo estar um pouco incomodado, esquecendo do próprio celular por alguns segundos.

Aquilo só me deu mais vontade de continuar.

— Não, pode ficar aí. — respondi distraidamente, como se ele não fosse nem um pouco relevante. — Não, Brant, não falei isso pra você. — voz mais aveludada que o normal e mais uma mordida no lábio. — Sério? Porque eu também pensei muito em você... — fiz uma pausa, sussurrando: — Principalmente quando estava sozinha.

Quando eu falei aquilo, nem acreditei. Definitivamente não era algo que eu diria para alguém (ou não), especialmente em público.

Victor voltou a mexer no celular, mas percebi que ele estava prestando atenção na minha conversa com "Brant", vulgo Josh.

— Caralho, Geo! — Josh soltou, praticamente se segurando para não surtar. — Até fiquei de pau duro. Mentira, não fiquei, mas isso foi maravilhoso. — quis agradecer, mas sabia que não podia, então fiquei quieta, com um sorriso safado nos lábios, como se estivéssemos falando muita sacanagem. — Okay, vamos continuar. Hum... gata, adoraria se você me mostrasse o que fazia quando estava sozinha pensando em mim. Ou você poderia me dizer agora.

— Safado. — sussurrei e ri de modo malicioso. — Não estou sozinha agora, mas depois posso te mostrar tudo que você quiser. E mais um pouco.

Victor pigarreou, mas ainda olhava para o celular. Seus dedos não se movimentavam mais como antes, e ele parecia estar apenas com o olhar fixo na tela. Percebi que seu maxilar estava trincado, também.

Ou alguém queria muito ir ao banheiro, ou estava bem incomodado.

— Essa é a minha gostosa. — Josh, em sua versão Brant, riu maldosamente. — Tudo bem, te ligo mais tarde. Beijos, delícia.

Parei de mexer com meu cabelo e abri um largo sorriso nada inocente. Eu sentia que, sim, estava sendo muito convincente.

— A gente deixa os beijos e todo o resto pra depois, gatinho. — soltei, fazendo Josh rir, claramente se segurando para não gargalhar.

— Não me canso de te fazer minha na cama. — ele disse, ainda com aquela voz totalmente diferente da sua normal. — Agora vou desligar, porque preciso ir embora. Finaliza. Beijos.

Eu quis me despedir de Josh em si, mas claro que não podia.

Vamos ao grande final, pensei.

— E eu não me canso de ser sua na cama, no chão, no balcão, na banheira, onde você quiser... — pausa para risinho safado. — Tchauzinho.

Victor engasgou, talvez pela minha fala nada discreta, ou por outra coisa. Mas ele não me olhou, apenas continuou olhando pro celular, com o maxilar trincado.

Então afastei o celular do meu ouvido e encerrei a chamada, guardando-o na mochila novamente, cantarolando um pouquinho.

Quando voltei a olhar o garoto na minha frente, eu já estava com um sorriso gigante na cara. Provavelmente Victor achava que era pela conversinha que tive com "Brant", e até que era, mas não pelos motivos que ele achava serem os certos. Eu estava apenas orgulhosa de mim, por ter conseguido improvisar tão bem.

— Desculpe te deixar esperando. — comecei — Mas tive que atender.

— 'Tá'. — respondeu, com uma expressão nada legal no rosto.

Percebi que ele estava se esforçando para parecer naturalmente despreocupado, mas era óbvio que estava muito incomodado com alguma coisa. Eu não estava tão segura a ponto de ter certeza de que ele tinha ficado com ciúmes ou apenas bastante incomodado, mas era o que parecia.

Momento de silêncio. Eu estava quieta na minha, esperando Victor se pronunciar, mas ele parecia que estava no mundo da lua. Definitivamente estava perdido em pensamentos, como eu ficava quase sempre.

— Então... — coloquei as mãos na cintura, atraindo a atenção dele.

— Você não tem um compromisso ou sei lá?

Victor deu um sorriso. Na realidade, foi um dos típicos sorrisos dele. Uma pequena curva no canto dos lábios, e só. Cruzou os braços, com a expressão de sempre no rosto.

Ele tinha voltado ao normal.

— Tenho. — confirmou, me encarando. — Mas antes quero perguntar uma coisa. Está livre amanhã?

Franzi a testa quase que completamente, retirando as mãos da minha cintura sem nem perceber direito, graças à surpresa. Mas respondi sinceramente, o que soou mais como uma pergunta:

— Sim...?

— Te pego às oito em ponto. Esteja pronta. — um "porque não gosto de esperar" estava ilícito ali.

Victor se desencostou do carro, dando a volta e abrindo a porta do motorista. Pareci sair de um transe, finalmente percebendo o que tinha acabado de acontecer. Quê? Ele tinha me chamado pra sair?!

— Espera! — falei rapidamente, deixando claro que estava confusa. Então soltei, como uma completa retardada: — Ahn?

Ele revirou os olhos, encostando-se na porta aberta.

— Se sua lerdeza não fosse tão sexy, eu já teria desistido de você. — deu de ombros, normalmente. — E esteja com o cabelo solto. Agradeço. — deu uma piscadela, entrando no carro e fechando a porta.

O carro foi ligado. Então o vidro que estava do lado do passageiro automaticamente desceu, e pude vê-lo me olhando, ainda com aquele insistente meio sorriso.

— Boa noite, farm girl.

O vidro foi novamente fechado, e em questão de segundos o carro escuro saiu cantando pneu, sumindo na esquina.

— Sim, Victor, aceito sair com você. — resmunguei para o nada, irônica. — Oito horas? Ah, sim, oito está bom pra mim.

Mas ri um pouco, negando algumas vezes com a cabeça e murmurando um "grande idiota", mas, sim, eu estava sorrindo.

Valeu, Brant! pensei, e ri do meu próprio pensamento, olhando ao redor para ver se estava realmente sozinha.

Na parte do gramado eu estava, mas alguém estava no parquinho do outro lado da rua (onde eu costumava ficar conversando com Mish).

Eu não conseguia ver direito, mas a pessoa estava sentada no balanço, de cabeça baixa e se balançando bem devagar.

Cerrei os olhos, tentando fazer minha miopia cooperar, e graças ao leve balanço, pude ver cabelos se mexendo. E a silhueta era magra e não muito grande. Uma garota, com certeza.

Não tive medo ou vontade de sair correndo, assim como não pensei duas vezes quando decidi me aproximar. Talvez eu a conhecesse, ou talvez fosse uma desconhecida que precisava de ajuda ou sei lá, vai saber.

Passei a rua e me aproximei do balanço com certa cautela e hesitação, porque eu sabia que poderia ser qualquer tipo de pessoa.

Mas algo dentro de mim me disse para não ter medo, o que de certo modo me confortou.

Apenas quando eu já estava próxima, reconheci a garota. Sim, eu a conhecia. Eu reconheceria aqueles cabelos cor de ferrugem (de uma forma boa), ou água de salsicha (como meu pai dizia) em qualquer lugar. Lizzie.

Quando ela percebeu que não estava mais sozinha e ergueu a cabeça, tive a confirmação. Mas ela parecia tão... abatida. Triste. O que tinha acontecido? E onde estava Sophia? Elas meio que eram inseparáveis.

Lizzie franziu a testa, claramente surpresa por me ver ali. Não fiquei tão surpresa, porque eu já tinha percebido antes que era ela.

— Hey. — sorri, o que a fez sorrir também. — O que você está fazendo aqui, Lizzie?

Ela apontou para o balanço ao seu lado, o que me fez aproximar dele e sentar, segurando nas cordas e movendo os pés bem de leve.

— Sendo depressiva. — ela brincou e riu. — Mentira. Quero dizer, mais ou menos. Estava pensando. Estou esperando meu pai.

Assenti, lembrando que às vezes o pai dela se atrasava na hora de buscá-la. Quase sempre acontecia depois dos treinos.

— Você está triste, Liz. — notei, o que a fez suspirar e olhar para baixo. — O que aconteceu?

Lizzie mordeu o lábio inferior, provavelmente pensando no que responder. Claro que eu já tinha reparado que ela andava estranha, o que estava acontecendo há tempos, mas ainda não tínhamos conversado sozinhas sobre o possível problema.

Porque, como todos sabiam, ela e Sophia eram inseparáveis.

— Coisa boba. É só um garoto. — ela respondeu, dando de ombros e olhando para o outro lado.

Um garoto?! Tive vontade de gritar "O QUÊ?!" e arregalar os olhos, mas eu sabia que Lizzie me socaria até eu ficar inconsciente ou perder todos os dentes.

Eu apenas estava chocada porque Lizzie nunca tinha dito nada sobre estar interessada em alguém. Nunca. Eu sabia que ela tinha tido um lance, rolo ou sei lá o quê com Johnny, o que segundo ela foi o pior erro de sua vida.

Não que eu achasse que era obrigatório as pessoas terem interesse em outras ou falarem sobre isso, claro que não (Lori era um exemplo. Ela não tinha real interesse em ninguém, ao menos não que eu soubesse), mas Lizzie era muito fechada. Ela não falava sobre sentimentos, nem nada do tipo. Quando as garotas achavam algum cara bonito, ela só dizia algo como "é, talvez". Então, para mim, era uma grande surpresa saber que era aquilo que estava a deixando pra baixo.

Mas também fiquei preocupada. A maioria dos garotos (ao menos os que eu conhecia) enchiam o saco dela e a zoavam por "parecer um garoto". Não, ela não parecia um. Na realidade, Lizzie era linda. Mas ficavam falando aquelas coisas por causa do modo que ela se vestia, e ela sempre procurava ignorar os comentários deles.

Mas e se o tal garoto fosse um deles? Ah, droga.

— É por isso que você estava estranha todo esse tempo, não é? — chutei.

Ela me olhou e assentiu fracamente.

— É.

Suspirei, me sentindo um cocô e um pouco culpada.

— Desculpe, Liz, eu sou uma péssima amiga. Deveria ter conversado com você, insistido em saber.
Lizzie negou algumas vezes com a cabeça, me dando um sorriso leve.

— Você não é uma péssima amiga. E eu não queria falar com ninguém sobre isso, mesmo.

— Mas eu deveria ter tentado...

— Você respeitou o meu momento. — ela me interrompeu, afastando do rosto umas mechas que escaparam do rabo de cavalo.

— Obrigada por isso.

Parei um pouco, então assenti, entendendo. Eu ainda sentia que poderia ter conversado com ela e tentado ajudar, ou algo do tipo, mas sabia que ela estava certa.

Eu já tinha tentado conversar com ela antes, mas sempre desistia porque pensava coisas como "não vou encher o saco. Quando ela se sentir a vontade, ela me conta".

Sorri, olhando-a, e me senti agradecida por ela ter me confidenciado aquilo.

— De nada. Quem é o garoto?

Eu queria muito ajudá-la com aquilo. Por ainda sentir que não fui o suficiente, e porque ela era minha amiga.

Lizzie abriu a boca para me responder, mas uma buzina interrompeu a fala que estava por vir.

Nós duas olhamos para a frente, e ali estava um carro cinza.

O carro do pai dela.

— Tenho que ir! — ela levantou apressadamente e inclinou-se, beijando minha bochecha rapidamente.

— Vamos, Lizzie! — o pai dela gritou, parecendo bem apressado.

— Eu tô indo! — gritou de volta, se distanciando de mim. — Geo, ficarei uns dias sem vir ao colégio e sem internet, porque vou viajar. E o garoto é o TB. — ela disse aquilo alto, me olhando de forma significativa, olhando então de lado para o pai dela da mesma forma.

Como se quisesse que eu desvendasse algo, percebesse, sei lá.

E era claro que o pai dela não sabia ou não podia saber. Ela correu até a calçada e abriu a porta de trás do carro, acenando antes de entrar.

TB? Quem porra era TB?

Notas finais
YAYYYYYYYYYYYY!!!!!!!!!!!! O QUE CÊS ACHARAM, AMOREXXXXX???? COMENTEM, CONVERSEM COMIGO, ME AMEM! SZ Amo vocês! xx