The Anchor

28 Um dia um pouco diferente do habitual. — Parte I.


Notas iniciais
OLÁ, OLÁ MEUS AMORES! Primeiro, desculpeeeeeeeeem por todo esse atraso. Mas, né, tá tudo bem diferente na minha vida, então não estou tendo muito tempo pra escrever, me perdoem! Esse capítulo é bem grandinho, então o dividi em duas partes. Próxima semana posto a outra, okay? E, ah, tem 7687263486 comentários que ainda não respondi, mas juro que vou responder! Beijão. sz

Capítulo 27.

Eu sempre gostei do número quinze. As pessoas achavam que eu tinha alguma espécie de conexão com o número, mas eu gostava dele porque um dos meus sonhos de infância era completar quinze anos e ter uma festa incrível — o que era algo típico de acontecer com as meninas brasileiras —, além de que eu achava que com quinze ficaria mais próxima da minha independência.

Quando completei quinze anos (um pouco antes de viajar para os Estados Unidos), não tive festa, mas me diverti bastante e fiquei feliz simplesmente por ter quinze anos. Me iludi por uns três dias achando que as coisas mudariam e eu me tornaria algo próximo de independente, o que definitivamente não aconteceu, e eu não entendia como anteriormente pude ter aquele pensamento.

Independente com quinze anos?! Por favor, por mim eu moraria com meus pais pra sempre, porque eu tinha preguiça até de viver.

A única coisa que mudou quando fiz quinze anos, foi que atingi a idade que anos antes meu pai superprotetor disse que eu precisava ter para poder namorar. Mas não me iludi, eu sabia que meu pai só me deixaria namorar com uns trinta anos, e olhe lá.

Meu gosto pelo número quinze era um pensamento aleatório para se ter numa terça-feira de manhã, mas era o que eu estava pensando no momento em que sai do ônibus e coloquei os pés no gramado da entrada de Blanchaster. Até que dei um passo e quase fui de cara no chão, então preferi deixar pra lá aqueles pensamentos e continuar andando como se nada tivesse acontecido.

Eu surpreendentemente cheguei mais cedo que o habitual, e consegui ver alguns alunos mais novos passando por mim. Aqueles que Bruce (meu novo amigo talvez-porteiro) tinha dito, que eu nunca tinha reparado antes.

Fui ao colégio sozinha, já que Jennifer no dia anterior acabou dormindo na casa de Cohan. Andei um pouco pelo gramado, olhando ao redor e procurando algum conhecido — ou tentando, já que ser míope não era fácil.

Não achei nenhum rosto conhecido, então fui na direção lateral do fim do gramado, onde ficava o estacionamento. Minha mochila estava um pouco mais pesada que o normal, já que eu estava carregando os dois casacos que Yv tinha me emprestado (o primeiro era um moletom, o que ele me emprestou no dia da educação física — e dia que conheci Victor. O segundo era um casaco xadrez que ele me emprestou no dia da festa de Booker, no gramado), que achei naquele dia enquanto pegava meu uniforme das cheerleaders no guarda-roupa.

O estacionamento estava um pouco vazio, o que não estranhei, já que a maioria dos alunos que já tinham chegado eram mais novos, então não podiam dirigir.

Mas, fora alguns carros, um em especial estava ali, que não demorei para reconhecer. Estava em uma das vagas que ficavam no centro, então não era longe de onde eu estava, mas também não era muito perto.

Eu podia ver o lugar do passageiro e do motorista, já que estava meio que na frente do carro (mesmo que estivesse mais do lado do motorista). Olhei para aquela parte e avistei Victor, que estava sozinho.

Ele estava de óculos escuros, com um braço encostado no vidro abaixado do carro, o outro meio fora da minha visão, parecendo estar em seu colo. Ele não olhava para fora, na realidade sua cabeça descansava um pouco no banco, o que dava a impressão de que ele olhava para cima.

Resolvi ir até ele. A última vez que nos falamos foi quando eu estava na casa do Josh (no momento em que mentimos sobre não estarmos sozinhos, e sobre um beijo meu com Ashton que nunca existiu. O Ashton e o beijo). Eu não tinha nada de importante para dizer, mas só queria cumprimentá-lo. Eu tinha aquela vontade idiota de simplesmente querer ouvir a voz dele.

Dei alguns passos na direção do carro, segurando a alça da minha mochila. A visão melhorava na medida em que eu me aproximava, e logo Victor ergueu a cabeça e pude perceber que ele estava com uma expressão meio estranha no rosto. Como se estivesse reprimindo algo, tentando disfarçar.

Sem saber muito bem o que eu estava fazendo, acenei.

— Hey! — cumprimentei alto, chamando sua atenção.

Victor olhou na minha direção, e teve uma reação que eu definitivamente não esperei. Eu já estava próxima o suficiente para vê-lo bem.

Seu rosto pareceu perder a cor, como se tivesse visto uma assombração. Sua postura, antes relaxada, mudou drasticamente.

Ele estava de óculos escuros, mas desconfiei que seus olhos estivessem arregalados por baixo.

Parei de andar, franzindo a testa. Meu cabelo estava pegando fogo ou o quê?! O que estava acontecendo? Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, algo mais estranho ainda aconteceu. Uma garota morena apareceu no banco do passageiro.

Simplesmente apareceu. Mas eu consegui ver como ela foi parar ali. Era óbvio que antes ela estava abaixada em algum lugar entre os dois bancos, dando a impressão que ninguém estava no carro.

Eu estava extremamente confusa, e nada mudou quando a menina bateu os olhos em mim e teve uma reação parecida com a de Victor, porém não tão desesperada como ele. Olhei para ele, tentando entender qualquer coisa.

Victor olhou para a garota, então depois para mim.

Dá pra alguém me explicar que porra está acontecendo?

Olhando mais atentamente para a garota, pude perceber que ela possuía cabelos longos e escuros (que estavam bem bagunçados), pele bronzeada. Talvez seus olhos fossem escuros. Ela era um pouco parecida com alguém.

Pele morena... olhos aparentemente escuros... magra...

Comigo.

Ela era parecida comigo, mesmo que seu cabelo não fosse pintado. Não era algo do tipo irmã gêmea perdida, mas éramos meio parecidas sim. As características eram parecidas. Ao menos de onde eu estava a vendo.

A garota-talvez-meio-parecida-comigo passou as costas da mão na boca e abriu a porta do carro, no mesmo momento em que Victor pareceu mexer em algo abaixo da barriga, onde eu não podia ver.

Então tudo se clareou na minha cabeça, e a sensação de ter desvendado aquele curto quebra-cabeça foi como levar um soco no estômago.

1- Ela antes estava abaixada, de modo que ninguém na direção que eu estava conseguiria vê-la, e Victor parecia estar tentando disfarçar alguma coisa.

2- Eu não consegui ver uma de suas mãos, e ele simplesmente entrou em choque quando me viu.

3- Ela subitamente apareceu ao seu lado, com o cabelo bagunçado.

4- Ela limpou a boca e saiu do carro.

5- Ele arrumou "algo" abaixo da cintura.

Qualquer idiota entenderia o que estava acontecendo ali — ou o que tinha acontecido —, mas eu não sabia como qualquer outra pessoa agiria diante daquela situação.

Talvez sair andando rapidamente para fora dali fosse o mais sensato, ou não. Mas, bem, foi o que eu fiz.

Ouvi Victor me chamando, mas não me virei ou parei.

Eu estava perplexa, impactada e, sim, com nojo. Não de Victor, ou da garota, mas da situação em si. Caramba, eles não podiam fazer aquilo em um lugar que não fosse público?! Eu também estava irritada, sem saber muito bem por que. Ciúmes? Provavelmente. Não que eu quisesse estar fazendo um oral nele em um estacionamento, mas vê-lo fazendo aquilo com alguém (ou melhor, alguém fazendo nele) não era nada legal.

Sem pensar duas vezes, e tentando não esbarrar em alguém, corri para a entrada de Blanchaster e voltei a andar normalmente apenas quando cheguei lá, sem saber muito bem para onde ir. Virei alguns corredores, subi algumas escadas e parei em um que estava vazio.

Eu estava me sentindo meio tonta. Na realidade, eu estava impactada e com vontade de vomitar. O que estava acontecendo comigo?!

Estava meio ofegante por ter ido parar ali tão rápido, mas não me importei. Eu me sentia meio asfixiada, como se todo aquele ar não fosse o suficiente. Encostei-me em um dos armários do corredor, suspirando profundamente e procurando me acalmar.

Eu sabia que Victor acabaria aparecendo ali, já que ele estava me seguindo e eu estava desnorteada/chocada/sei lá/talvez/morrendo demais para me esconder de verdade, e ele realmente estava me procurando para sabe-se lá o quê.

Com certeza ele percebeu que eu tinha ligado os malditos pontos.

Como uma puta ironia do desgraçado do destino, eu ouvi uma voz não muito longe.

— Geo, espera!

Mesmo sabendo quem era, me virei. Como desconfiei, ele já estava bem próximo de mim. Victor parou na minha frente, meio ofegante. Abriu a boca para dizer algo, mas um grupo de garotas passou ao lado dele, todas sorrindo. Ele, mesmo meio ofegante, coçou um pouco a nuca e sorriu para elas, dando uma piscadela.

Revirei os olhos discretamente, depois que elas saíram, e pigarreei quando percebi que ele seguia uma delas com o olhar.

Tentei não me incomodar com aquilo, o que foi impossível, então minha voz saiu mais arrogante que o normal quando me pronunciei:

— O que foi?

Eu sinceramente não sabia que expressão estava em meu rosto, mas quando ele me olhou eu consegui decifrar a que estava no dele. O que não foi muito difícil, já que Victor passou a mão no cabelo e me olhou enquanto mordia o lábio inferior.

Quando cumprimentou as garotas e perseguiu a outra com o olhar pareceu o mesmo cafajeste de sempre, mas ali era como se ele tivesse se lembrado do que aconteceu no carro.

Aquela situação era tensa e constrangedora, e, por Deus, eu só queria não ter visto o que eu vi. Ou melhor, o que eu não vi.

— Em relação ao que você viu... — começou de modo meio embaraçado.

Olhando atentamente para Victor, pude ver como ele estava absurdamente adorável daquele jeito. Nós sempre nos falávamos bem de perto, então era normal pra mim reparar nos detalhes do seu rosto. O rosto estava um pouco corado, talvez pela situação ou pelo calor que fazia lá fora. Seus lábios estavam avermelhados, porque claro que ele tinha beijado aquela garota. Claro.

Eu estava com ciúmes de tudo aquilo, mas não iria demonstrar de jeito nenhum. Eu sabia que era idiota, porque nós não estávamos juntos, mas era inevitável.

Merda de sentimentos estúpidos!

Ergui as mãos em sinal de rendição.

— Não vi nada. — respondi simplesmente, querendo internamente encerrar o assunto por ali.

— Você viu sim. E mando que não conte a ninguém, porque acho que ela tem namorado. — cruzou os braços, parecendo voltar à pose de sempre, o que não me deixou surpresa.

Suspirei um pouco, me encostando no armário ao meu lado, que eu nem sabia a quem pertencia. Então a garota tinha namorado?! Meu Deus do céu, o pessoal ali adorava uma confusão. Incrível. Também não me surpreendi com o fato de que Victor ficou — e recebeu um belo "presente" — com uma garota comprometida. Sinceramente, eu não me surpreendia com mais nada vindo dele.

A menos que ele me contasse que na realidade era pobre, e que todo o dinheiro que tinha ele roubava de mendigos. Eu definitivamente me surpreenderia com aquilo.

Franzi a testa ao notar algo na frase dele.

— Você manda? — questionei, frisando a palavra.

— Eu... peço? — corrigiu, parecendo meio perdido. Sério que ele estava tão acostumado com a própria arrogância que não sabia pedir?! Quando Victor percebeu minha expressão incrédula, apressou-se em completar: — É. Eu peço.

Eu não perderia a chance de provocá-lo. Se bem que aquilo estava se tornando meio que um hábito, já era normal trocar farpas com Victor. Eu já estava acostumada.

— Deixando sua canalhice de lado, — comecei, vendo-o cerrar os olhos quando indiretamente (ou não) o chamei de canalha. — Está com medo de apanhar do namorado dela, é? — provoquei.

Ele soltou uma risada de escárnio, jogando de leve a cabeça para trás.

Nope, farm girl. — negou um pouco com a cabeça, estalando a língua. — Só não quero que a garota fique chorando no meu ouvido, caso ele termine com ela. — encostou-se no armário que estava ao lado do meu.

Também cruzei os braços, olhando-o do jeito que ele me olhava, enquanto lutava internamente para esconder meu ciúme.

— Está preocupado com ela? — merda! Cala a boca!

— Estou preocupado comigo e com meu ouvido. — deu de ombros e descruzou os braços, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta do time de futebol.

— Gosta dela? — porra, Geovana! Para! Fecha a boca!

— Não. — respondeu normalmente, e mesmo que me olhasse de um jeito mais intenso que o normal, parecia que ele não estava notando o quanto eu estava incomodada, e como eu me repreendia mentalmente por cada coisa que dizia.

Descruzei os braços.

— Quer ficar com ela novamente? — chega! Por que ele não me manda calar a boca?! Eu preciso calar a boca!

— Eu não acho que isso seja da sua conta, purple. — se atreveu a esticar uma das mãos e tocar meu cabelo, como se quisesse que eu soubesse que "purple" seria um dos meus apelidos até eu pintar o cabelo e o roxo ir embora.

Isso. Toma. Essa você mereceu.

Victor não estava usando um tom de voz rude, na realidade ele estava sorrindo de lado, de modo meio sexy e suspeito. Perguntei-me mentalmente se ele sabia que eu estava sentindo ciúmes. Bem, se ele tinha percebido, estava adorando. Claro. Típico dele.

A resposta dele foi como um soco na minha cara, seguido de um "turn down for what", mas não demonstrei nada.

Pigarreei um pouco, assumindo minha expressão provocativa de quase sempre e afastando a mão dele, o que o fez sorrir mais.

Babaca. Com um sorriso lindo, mas ainda um babaca!

— Foi mal. — falou de repente, aquele sorriso maldoso sumindo.

Franzi a testa. No fundo eu estava aliviada por ele ter dito algo primeiro, porque depois daquela cena nada legal eu não sabia bem o que dizer.

— Por quê?

— Por ter visto aquilo. Não deveria ter visto.

Tentei analisar seu rosto, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. Victor estava impassível.

— Por quê? — repeti como um robô.

Então ele sorriu novamente, mas foi um sorriso leve e agradável.

— A gente se vê por aí. — não me respondeu propositalmente, e também não se afastou.

— Hum, okay.

— Okay.

— Beleza.

— Beleza.

— 'Tá'.

— 'Tá'.

— Victor, seu merda, você... — uma terceira e masculina voz foi ouvida, interrompendo nosso incrível diálogo. Olhei para o lado, vendo que Booker nos encarava, meio surpreso. — Oh. Oooooi. — abriu um sorrisinho malicioso, prolongando o "oi" também com malícia.

Olhei rapidamente para Victor, antes de olhar para Booker novamente e abrir um sorriso simpático. Eu sabia que ele me conhecia mais do que eu o conhecia, já que Victor falou de mim no celular. E, claro, ele sabia que eu e Victor tínhamos ficado. Aquele sorriso malicioso tinha motivo.

— Olá. — respondi. — Booker, certo?

Olhando para ele, percebi algo que eu por algum motivo não tinha notado antes. Booker usava um alargador preto em uma das orelhas, e no canto do lábio inferior ele tinha um piercing também preto.

Mesmo ele usando a jaqueta do time de futebol, e uma camiseta de gola alta por baixo, consegui ver a ponta de um desenho no seu pescoço. Tatuagem. Definitivamente sexy.

— Isso aí. — ele assentiu. — E eu já sei muito bem quem você é. Na realidade, eu sei tão bem que...

Ele não pôde completar, já que Victor lhe deu uma cotovelada no estômago, sorrindo inocentemente. Prendi o riso ao ver a careta de dor que se formou no rosto de Booker.

— Já estou indo, dude. Pode ir na frente. — Victor falou, empurrando um pouco Booker.

Ri, acenando um pouco para Booker e vendo-o xingar Victor baixo, mas ele sorriu um pouco pra mim e saiu.

— Bem, é isso. A gente se vê. — falei, quando já estávamos sozinhos novamente. — E... sobre aquilo, vamos apenas fingir que não aconteceu.

— Só mais uma coisa. — Victor olhou ao redor, aparentemente verificando algo. Eu não sabia se era o que ele queria ver, mas o corredor estava meio deserto, se não fosse por nós. — Você me perguntou se eu queria ficar novamente com ela... — se aproximou mais de mim, tocando meu ombro e empurrando-o um pouco, fazendo minhas costas baterem contra o armário. No segundo seguinte ele estava com o corpo colado ao meu, eu não tive qualquer reação, porque simplesmente foi rápido demais. — Mas talvez ela não seja a garota que eu quero ficar de novo, farm girl. — tocou meu queixo, sorrindo um pouco e se afastando. — Até mais.

E então ele saiu, me deixando com cara de idiota, respiração meio ofegante e corpo faiscando. Suspirei profundamente, xingando-o mentalmente de todos os nomes possíveis.

Por que ele tinha que ficar fazendo aquelas coisas comigo?! E parecia que a cada vez o efeito que causava em mim era mais intenso, logo, pior.

Passei a mão por meus cabelos, afastando-me do armário e caminhando pelo corredor, até que o virei e dei de cara com um conhecido.

— Geo! Eu estava te procurando! — Yv abriu o maior sorriso do mundo, então parou um pouco. — Nossa. Você 'tá' toda vermelha.
Toquei meu rosto, meio envergonhada por ele ter reparado, e por perceber que realmente estava vermelha, já que nem eu tinha reparado.

Dei de ombros, sorrindo.

— Alergia. — inventei uma desculpa, porque com certeza não falaria sobre o ocorrido com Victor. Antes que Yv pudesse perguntar "alergia a quê?" e me forçasse a aprofundar no assunto da falsa alergia, me apressei: — Eu também estava te procurando.

Eu não estava literalmente procurando Yv, mas queria falar com ele sim.

— Opa! Fala primeiro. — ele sorriu, arrumando os óculos de grau no rosto.

— Queria te devolver isso. — tirei minha mochila dos ombros, abrindo-a e pegando os dois casacos dele. Estiquei em sua direção. — Estavam lá em casa.

— Caramba! — ele riu, pegando da minha mão enquanto eu fechava a mochila e a colocava novamente nas minhas costas. — Eu nem lembrava mais. E você lavou! Valeu.

A máquina de lavar que merece seus agradecimentos, não eu.

Pensei com um sorriso brincalhão.

— Eu que agradeço. — sorri de lado, vendo que alguns alunos já estavam circulando por ali, então conclui mentalmente que estava perto de começar a primeira aula. — E você? O que queria falar comigo?

Yv cumprimentou alguns garotos e garotas que passaram por nós, então voltou a me olhar.

— É que a audição pro coral está chegando. — lembrou, mas eu já sabia. Tínhamos ensaiado várias vezes, ele me ajudou bastante e a música também já estava escolhida. — E eu já coloquei seu nome lá.

— Ah, tudo bem. Obrigada.

— De nada. Agora tenho que ir, boa aula. — segurou meus ombros delicadamente e me deu um beijo carinhoso na testa, saindo na direção contrária e virando o corredor.

Aproveitando que já estava ali, procurei por meu armário que ficava naquele corredor e troquei alguns livros (depois do dia em que perdi meu material, aprendi a guardá-lo no armário do colégio).

Encontrei Mish por ali, e ficamos conversando até o sinal tocar e irmos juntos para a classe.

— Você. Não. Vai. Acreditar. No. Que. Aconteceu! — falei pausadamente, puxando Josh para a mesa que eu costumava sentar na hora do almoço, tomando o cuidado para não fazê-lo derrubar a comida que estava na bandeja.

Refeitório lotado, como sempre. Pessoas gritando, conversando, comendo e aproveitando os longos minutos longe das salas de aula.

— Se você contar, talvez eu acredite. — disse ele, sentando na minha frente (com a mesa entre nós) e pegando seu hambúrguer, dando uma olhada nele antes de abocanhá-lo.

Eu estava com um pouco de fome, mas a hora do almoço tinha acabado de começar, logo a fila para pegar e colocar a comida estava grande demais, e eu com preguiça demais. Esperaria um pouco, já que a fila praticamente desaparecia uns vinte minutos depois do toque.

— Presenciei uma cena que não pode ser excluída da memória. — falei, meio misteriosa e toda dramática.

— Jennifer dançando até o chão? Sei como é. — deu de ombros.

Neguei com a cabeça e ri, assim como ele.

— Não, mas adivinha o que eu vi?! — nem esperei que ele respondesse, apenas continuei: — Isso. — fiz um gesto obsceno com a mão e a boca, indicando sexo oral.

Josh arregalou os olhos, largando o hambúrguer no prato como se fosse nada, parecendo realmente curioso e entusiasmado. Eu tinha dito a Victor para esquecermos o acontecimento, mas eu não esqueceria nem ferrando.

— Opa! Agora ficou interessante. — decidiu ele, tomando um gole de seu refrigerante, ainda me olhando. — Quase me engasguei aqui. Engasgar... — parou um pouco. — Engasgar. Boquete. Sacou a piadinha?

Ri pelo nariz, meio incrédula. Ele tinha mesmo dito aquilo?!

Mas se Josh era idiota o suficiente para fazer uma piada como aquelas, eu era idiota o suficiente para rir, porque achei graça.

— Josh, essa foi terrível.

— Foi mal. É a recente convivência com você. — deu de ombros. Eu não me incomodava com aquelas coisas que ele dizia, porque eu sabia que Josh não estava me ofendendo de verdade. Era até divertido. Jennifer também era daquele jeito, e Lori às vezes. — Mas antes quero saber de uma coisa. Foi um oral gay ou hétero? — pegou novamente o hambúrguer, varrendo com a mão um pouco de farelo de pão do suéter de vários tons de azul que vestia.

Uma das coisas que eu mais gostava em Josh, era que ele tinha estilo. Fazia pouco tempo que nos conhecíamos, mas eu já tinha percebido aquilo.

— Hétero. — respondi prontamente.

Fez uma leve careta, largando novamente o hambúrguer no prato (senti até pena do coitado, não tinha culpa).

— Que droga. — comentou, parecendo entediado. — Agora ficou desinteresse de novo. — pegou o copo de refrigerante, mordendo o canudo distraidamente. — Mas você parece bem animadinha com isso, então ou você chupou alguém, ou se animou e participou da brincadeirinha. — disse normalmente. — Oh, meu Deus! Rolou ménage?! — se animou, com um brilho nos olhos.

— Não participei de brincadeira nenhuma, muito menos de um ménage! — joguei na cara dele uma bolinha de papel que estava na mesa, vendo-o suspirar e murmurar um "broxei total", desviando da bolinha. O ignorei e sorri, sabendo que ele gostaria da notícia: — Victor. Vi uma garota fazendo sexo oral nele. Bem, eu não vi exatamente, na realmente eu...

— EITA CARALHO! — fui interrompida pelo berro de Josh, que graças a Deus não foi ouvido pelo refeitório todo porque no mesmo momento vários garotos caíram na gargalhada por um motivo qualquer, o que abafou o grito dele.

No momento em que ele gritou, uma senhora que estava passando por nossa mesa parou, olhando-o com pura desaprovação.

Ela era uma professora, mas eu não lembrava seu nome. Era chata pra caralho, sinceramente. Mish dormia em todas as aulas dela, o que me impedia de dormir, porque sempre que um dormia o outro precisava ficar acordado — para acordar o primeiro em momentos críticos, como quando o professor chamava seu nome.

Josh, ciente de que ela o olhava daquele jeito, ergueu o olhar, afastou o canudo mordido dos lábios e sorriu brilhantemente, o que me fez querer rir.

— Cinco palavras para você, meu filho. — ela ergueu um dedo, como se falasse com uma criança que adorava aprontar. — Você. É. Um. Menino. Depravado.

— Cinco palavras para a senhora. Sou. Sim. Graças. A. Deus. — rebateu, acenando de modo falso e simpático para ela, quando a senhora se afastou reclamando sobre a juventude depravada. Tive vontade de gargalhar daquela cena. — Vai, continua. Agora quero saber. Onde? Quando?

Deixando pra lá o que tinha acontecido com a professora, sorri como ele, sendo contagiada por seu entusiasmo.

— No estacionamento. Hoje.

— Detalhes. Trabalho apenas com detalhes. — pegou o hambúrguer uma terceira vez, comendo-o.

— Eu estava chegando, ele estava lá no carro dele, aparentemente sozinho. Do nada uma garota brotou ao lado dele, limpou a boca e essas coisas. Ficou na cara! — bati na mesa, o que fez Josh tomar um susto, mas não disse nada.

— Continua.

— Eu meio que saí correndo, e ele veio atrás. — prossegui, tentando resumir tudo. — Conversamos um pouco e eu meio que tive um pouquinho de ciúmes...

— Um pouquinho? — terminou o sanduíche e ergueu as sobrancelhas, debochado.

— Talvez muito. — confessei. — Eu acabei falando merda, e perguntei se ele queria ficar com ela novamente.

— Não acredito que você fez isso.

Abaixei a cabeça ao lembrar do que fiz, encostando a testa na mesa (eu estava tentando fazer um buraco na mesa, apenas para poder afundar a cabeça nele), derrotada.

— Sim. Eu fiz. — gemi de frustração, então ergui a cabeça, olhando-o com um bico. — Aí ele disse que não era da minha conta. Aí eu fiquei sem saber o que falar, só faltou tocar Turn Down For What no fundo. Aí ele me encostou no armário e disse todo sensual "talvez ela não seja a garota que eu quero ficar de novo"... — tentei imitar a voz de Victor, o que não deu certo. — E simplesmente saiu, me deixando com cara de bosta. — afundei o rosto na mesa novamente, batendo minha testa repetidas vezes ali, totalmente frustrada. — Por que fico sempre com cara de bosta quando ele faz essas coisas? Isso é um saco.

— Primeiro, vai machucar a testa, criatura. — Josh começou, o que me fez erguer a cabeça e massagear um pouco minha testa levemente dolorida. — Segundo, adoro esse apelido que ele te deu. Super tendência. Terceiro, ele deu uma indireta super direta. Quarto, eu estou aqui pra você não ficar mais com cara de bosta. Ao menos não mais do que a que você já tem. — acariciou a minha mão, sorrindo de lado.

Ri um pouco da tentativa dele de me fazer rir, já que era óbvio que mesmo com tantas brincadeiras, estar naquela situação não era a melhor coisa do mundo — em relação a ter sentimentos por Victor.

Vê-lo com outras garotas infelizmente me machucava, e me sentir tão vulnerável perto dele era uma merda. Eu sentia que ele poderia fazer o que quisesse comigo, porque eu parecia perder o controle dos meus atos quando estava com ele.

Não era nada bom. Sinceramente, nenhuma garota gostaria de ter sentimentos por um cara que simplesmente flerta e fica com todas, e que ainda sabe o que fazer para deixá-la sem reação. Mas Josh conseguia me animar e me dar determinação para mudar o jogo, ou melhor, jogar o jogo de Victor.

— Obrigada. — falei sinceramente. Josh era simplesmente incrível, eu definitivamente deveria ter me aproximado dele antes. — Eu não sei se foi uma indireta. Sei lá, Victor adora brincar comigo. — suspirei.

— Não esquenta com isso, com a OPV — Operação Desconstruindo Victor — nós saberemos, e é pessoal agora, porque eu 'tô' louco pra saber onde isso vai dar.

Me estiquei sobre a mesa e roubei o refrigerante dele, então acabamos rindo juntos.

— Olha ali. — ele apontou discretamente para o centro do refeitório, me fazendo olhar pra lá. Victor estava conversando com Johnny, sentado na mesa, não no banco (como sempre). — Não quer cumprimentá-lo? — incentivou.

— Ele está com o Johnny.

Ele deu de ombros.
— Ignore o filho do prefeito. É o que eu faço desde sempre. — riu. Josh deve ter percebido minha expressão surpresa, pois acrescentou: — É. Johnny é filho do prefeito.

— Nossa. — então parei, percebendo algo. — Obviamente ele tem dinheiro, então por que não estuda num colégio particular?

Lembrei que Victor também tinha muito dinheiro, assim como Booker. Por que eles estavam em um colégio público, afinal?

Vou me lembrar de perguntar isso a ele.

Josh afastou a bandeja um pouco, apoiando os cotovelos na mesa.

— É meio óbvio. Na minha opinião, o pai dele finge que é "do povo", — fez aspas com os dedos — meu pai diz que ele é tudo de ruim, mas um bom ator. Deve ter colocado Johnny aqui para se passar de humilde. — assenti, entendendo. Fazia sentido, afinal. — Seu amiguinho loiro 'tá' vindo pra cá.

Olhei para o lado, vendo que Mish se aproximava da nossa mesa. Sorri, acenando de leve. Ele parou ao meu lado e beijou o topo da minha cabeça, cumprimentando Josh com um movimento de cabeça e recebendo um leve sorriso de volta.

— Senta aí. — falei, e foi o que ele fez, enquanto eu continuava: — Josh, esse é o Mish. Mish, esse é Josh.

— Já nos conhecemos. — Mish sorriu de lado. — Ele é bem popular.

Josh deu um sorriso convencido, o que me fez rir. Seu celular começou a tocar e ele fez sinal para que esperássemos, atendendo.

— Já comeu? — Mish questionou, colocando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha.

Fiz uma pequena careta com um bico, o que o fez rir. Merda. Eu estava com fome.

— Esqueci. — lamentei.

— Não acredito que esqueceu de comer. — negou um pouco com a cabeça — Pra você é tipo esquecer de respirar.

Fiz uma falsa expressão ofendida, batendo em seu braço.

— 'Tá' me chamando de gorda, seu oxigenado?

Mish caiu na gargalhada, apertando minhas bochechas e me fazendo rir junto. Eu o chamava daquele jeito só para fazer graça, porque eu sabia que o loiro do cabelo dele era natural.

— Você está até bonitinha hoje. — provocou, dando um sorriso petulante. — Parece gente.

— Muito engraçadinho. — mostrei a língua. Abri um sorriso brilhante, piscando os olhos inocentemente. — Pega comida pra mim, seu lindo?

Ele cerrou os olhos azuis, negando algumas vezes com a cabeça, descrente, e rindo.

— Jogo sujo. Não tem como dizer não pra você assim. — se levantou. Bati algumas palmas animadas, feliz da vida. Iria comer e nem precisaria ir atrás da comida, alguém precisava dar a Mish um prêmio. — Mas vai ficar me devendo um favor.

Assenti três vezes, erguendo os polegares em sinal de positivo.

— Faço o que você quiser.

— Qualquer coisa? — franziu a testa.

— Qualquer coisa. — confirmei.

Mish abriu um sorriso e se aproximou mais de mim.

— Bom saber. — disse, dando um beijo no meu pescoço (o que me deixou arrepiada) e saindo.

Ao menos ele beijou do outro lado, não do lado marcado por Victor. Olhei para Josh, que não estava mais no celular e me olhava como se alguém tivesse contado a ele que eu tinha participado de um ménage.

— Ele 'tá' que-ren-do. — disse, fazendo pausas curtas para dizer "querendo".

— O quê?

— Você.

Ergui as sobrancelhas. Josh estava maluco ou o quê? Certo, eu e Mish éramos muito próximos, mas ele não gostava de mim e nem queria ficar comigo.

— Acho que não, Josh.

Josh murmurou um "se você acha...", mas eu sabia que ele realmente estava colocando fé naquilo.

— Ele estava olhando pros seus peitos. — comentou, como quemnão queria nada.

Engasguei com a saliva, tossindo algumas vezes. Josh riu da minha cara, e ainda mais quando arregalei os olhos.

— Não ri de mim! — adverti, pigarreando um pouco. — Não estava, não.

— Estava sim. — afirmou, convicto. — Fala sério, Geo. Todo mundo olha. Até eu dei uma olhadinha, e olha que o uniforme das cheerleaders nem tem tanto decote assim. — apontou para a minha blusa do uniforme. — Mas você tem peitos lindos.

Arregalei os olhos mais uma vez, procurando qualquer coisa parar jogar nele. Ele estava falando a verdade em relação a todos olharem?! Eu nem tinha percebido! No Brasil minhas amigas realmente elogiavam meus seios, e eu percebia às vezes meus amigos olhando disfarçadamente, mas sempre achei que era brincadeira deles ou sei lá. Victor tinha elogiado aquela parte em especial do meu corpo, mas, por favor, era o Victor.

— Ahn... obrigada? — perguntei meio incerta, já desistindo de atacá-lo com alguma coisa.

— Por nada. Mas, sério, você tem um corpo muito bonito.

Sorri de lado, meio sem jeito, mas agradecida. Era bom ser elogiada daquele jeito, porque só eu sabia dos meus dramas com celulites, estrias e mais mil coisas que eu odiava ter. Como qualquer garota normal, porque nunca conheci uma que gostasse daquelas coisas.

— Obrigada, Josh.

— Voltando ao assunto Mish... — começou, me fazendo enviá-lo um olhar de "sério mesmo?!", que obviamente ele ignorou. — Ele é gato. E gostoso. Pena que é dois anos mais novo que eu. — lamentou.

— E hétero. — lembrei.

— Isso é o de menos. Não duvide das minhas técnicas de persuasão.

Caímos na gargalhada, e foi minha vez de ver alguém se aproximando da mesa.

Olhei para o lado rapidamente e vi uma garota morena se aproximar de nós, quando já estava bem perto, percebi que era Cohan. Ela parou ao lado de Josh, olhando rapidamente para mim, mas parecendo um pouco confusa. Eu já tinha percebido que Cohan era uma garota legal, mas parecia ser meio durona.

Se não a conhecesse, talvez eu achasse que ela era uma valentona. Mas não seguia o padrão físico das valentonas. Fala sério, ela era bem bonita, e do tipo mulherão, diferente da maioria das meninas.

— Por que não está na nossa mesa? — perguntou a ele.

— Pensei em variar hoje. — Josh respondeu com um sorriso de lado.

— Essa é a minha mais nova vadia, a Geo.

— É. Sou a vadia dele. — brinquei.

— Ah, sim. A irmã da Jen. — sorriu de lado, de repente completamente simpática.

Agradeci mentalmente por Cohan não parecer lembrar que eu era "íntima" de Victor (já que ela tinha dito para Jennifer que eu deveria ficar longe dele e me viu no carro dele, provavelmente tinha chegado àquela conclusão), porque segundo Josh ela odiava muito ele, e o que eu menos queria era mais alguém falando mal dele pra mim — já bastava a Lori.

Não que eu fosse defendê-lo, mas não era muito legal. Enchia o saco.

— Geo, essa é a Cohan. — Josh apresentou. — Cohan, Geo.

— Eu já conheço. — sorri, lembrando do acontecimento com o vaso na festa do Booker. — Senta com a gente, Cohan.

Ela assentiu, dando de ombros e sentando no banco que antes Mish estava. Josh viu um garoto de calça justa passando e pareceu distraído observando a bunda dele, então Cohan meio que aproveitou a chance para sussurrar para mim:

— Obrigada. Pelo que fez na festa do Booker. Nunca tive a chance de agradecer.

Sorri, fazendo um gesto com a mão, como se não fosse nada.

Lembrei daquele dia. Eu ainda não conhecia Lori, Lizzie ou Sophia. Foi o dia que conheci Josh, e até mesmo Booker, que eu não falava muito — quase nada. E, claro, foi antes de toda aquela confusão de sentimentos com Victor, assim como os momentos com ele.

Na realidade, aquele foi o dia em que tudo começou de verdade, toda aquela coisa de Victor Stonem. Ou talvez tenha começado antes, na enfermaria. Ou até mesmo quando nos conhecemos naquele mesmo refeitório. Eu nunca saberia.

Eu não tinha como saber exatamente quando tinha começado a sentir algo por Victor, mas sabia que naquela dia da festa (até mesmo naquela época), eu não fazia a mínima ideia de tudo que aconteceria, não apenas em relação a nós. Em relação a tudo.

Lembrar daquilo acabou me fazendo lembrar de muitas outras coisas. Momentos com Mish, com Lori, com Yv, com a dupla Lizzie e Sophia, com as cheerleaders, o dia anterior com Josh e até todos os momentos com Victor. Tudo foi passando como um filme na minha cabeça, e eu me senti como se estivesse desligada do mundo exterior.

Estava no meu próprio mundo.

De modo inconsciente, toquei o pingente de âncora, preso ao colar ao redor do meu pescoço.

— Terra chamando Geovana! Alô?! — Josh estalou os dedos na frente do meu rosto, me fazendo piscar algumas (diversas) vezes e voltar à terra.

— O que foi? — perguntei meio perdida.

Cohan não estava mais sussurrando nada pra mim, Josh não estava olhando para a bunda do carinha aleatório e nossa mesa não estava com apenas nós três.

Por quanto tempo eu fiquei viajando na minha própria mente?!

— Você simplesmente foi parar no mundo da lua. — Josh franziu a testa. — E ficou sorrindo igual uma retardada. Está tudo bem?

— Sim, foi mal! Viajei aqui.

Olhei ao redor, franzindo a testa. Mary estava sentada na mesa, com Cohan no banco à sua frente. Mish ainda não tinha voltado, e até mesmo Jennifer estava ali, mexendo no celular. Como se tivesse percebido que eu estava olhando, Mary me olhou e sorriu de lado, arrumando os óculos de grau no rosto e acenando.

Acenei de volta, voltando minha atenção para Josh. Eu estava pronta para perguntar por quanto tempo fiquei no "mundo da lua", mas Mish apareceu, e ver aquele hambúrguer, refrigerante e batatinhas fritas em suas mãos me fez perder a fala e perceber como estava com fome.

Ele se sentou do meu outro lado, já que Cohan estava no lugar dele.

— Você é o melhor. — agradeci com um largo sorriso, pegando o hambúrguer e dando uma grande mordida.

— Eu sei. — brincou, me vendo comer (de modo nada bonito) e sorrindo de lado. — Não tenho nada pra fazer hoje depois do colégio, não quer sair?

Mesmo olhando para Mish, eu podia claramente sentir o olhar atento de Josh em nós. Com certeza estava prestando atenção na conversa.

Eu queria muito sair com Mish, simplesmente porque eu amava ficar perto dele, e ele quase sempre estava ocupado, então estar livre era algo meio difícil de acontecer novamente. Mas eu não podia.

Tinha treino das cheerleaders, e se eu não aparecesse a Harmony teria o prazer de me esganar.

— Não posso. — lamentei, fazendo uma curta pausa para mastigar um pedaço do hambúrguer. — Cheerleaders.

— Tudo bem, fica pra próxima. — deu de ombros, rindo um pouco quando quase me engasguei com a comida. — Só não cospe em mim, pelo amor de Deus. É difícil ser tão lindo assim.

— Convencido! — dei uma cotovelada em seu braço e rimos juntos.

Olhei para Josh, apenas para vê-lo sorrindo maliciosamente.

Neguei um pouco com a cabeça, prendendo o riso e voltando a focar na minha comida.

Todos os alunos do primeiro ano que estavam naquela classe simplesmente saíram correndo, menos eu e Mish. Suspirei um pouco, pegando minha mochila e jogando-a por cima do ombro, saindo com ele da sala.

— Queria ter a próxima aula com você. — resmunguei, encostando-me na parede, vendo o movimento naquele corredor.

Muitos estudantes estavam ali, indo e vindo, pois estavam trocando de classes.

— Quem mandou escolher outras aulas? — perguntou ele, não parecendo apressado como todos os outros.

— Nem fui eu. Coisa da minha mãe. — bufei um pouco, o que o fez soltar uma risadinha e se aproximar de mim.

— Tenho que ir agora. Te vejo amanhã, minha linda. — segurou meu rosto delicadamente, beijando minha testa e depois minha bochecha. — Bom treino.

Assenti um pouco, sorrindo. Mish conseguia me fazer sorrir sem esforço, e eu adorava aquilo. Ele me tratava com muito carinho e às vezes parecia que achava que eu era algo super frágil, que poderia quebrar a qualquer momento. Mas eu não me sentia sufocada, nem um pouco.

E ainda ele tinha o hábito de sempre me dar um beijo na testa que, pra mim, era a coisa mais linda e fofa do mundo. Como se ele realmente quisesse cuidar de mim. Me proteger.

Mish era muito bonito, sim, eu sabia que muitas meninas eram loucas por ele, o que me incomodava. Ciúmes. Mas pra mim era algo normal, eu também sentia quando se tratava de Daniel, Leo e até mesmo Cameron. Aqueles meninos eram tudo pra mim, e eu quase sempre era como uma mãe ciumenta e superprotetora (tipo uma versão feminina do meu próprio pai) quando se tratava deles — por mais que eles sempre acabassem cuidando de mim, e sendo igualmente ciumentos.

— Obrigada, tchau.

Ele se distanciou, dando uma piscadela e virando de costas pra mim, virando também o corredor e sumindo.

De repente, me peguei pensando se Josh estava certo sobre o que tinha dito em relação à Mish e eu. Bem, ele me elogiava, era atencioso comigo, me ajudava quando eu precisava e ainda me tratava como uma princesa.

Mas Daniel me tratava do mesmo jeito.

Porém, nunca tinha rolado um clima entre Dan e eu, como aconteceu uma vez com Mish.

Ele me via apenas como amiga, ou algo mais? Eu não sabia, e pensar naquilo me deixava mais confusa que o normal. Eu já estava cheia de problemas amorosos, não precisava de mais. Argh, por que Josh tinha colocado aquilo na minha cabeça?!

Isso tudo é besteira, ele me vê apenas como uma boa amiga.

Sorri, convencendo a mim mesma. Josh estava errado, Mish não gostava de mim.

Yv também era um amor comigo, não tanto quanto Mish, mas era, e eu tinha certeza que Yv sentia absolutamente nada por mim.

Então por que Mish sentiria?

Nós já tínhamos quase nos beijado aquela vez na sala de aula, mas foi porque rolou o tal clima e só. Ele já tinha dito que me achava bonita, eu com certeza o achava lindo, não namorávamos ninguém e tínhamos uma relação incrível.

Então, pensando melhor, pra mim rolar um clima entre nós era normal.

Talvez ele quisesse ficar comigo ou algo do tipo — se ele pedisse, sim, eu aceitaria.

Eu gostava de Victor, mas não éramos namorados.

Às vezes Mish insinuava algumas coisas leves, mas nós brincávamos muito um com o outro, então eu não levava a sério.

Assim como eu também falava algumas coisas, que não eram para ser levadas a sério.

Era até (muito) parecida com minha relação com Cam, e eu também nunca tive sentimentos por ele, nem ele por mim.

Então, não, eu não tinha com o que me preocupar.

Notas finais
Continuação próxima semana, amores! Fiquem de olho lá no grupo. Comeeeentem, me contem o que estão achando, beijão! sz Xoxo, Little G.