Thanks to You
5 Capítulo 5 - Her eyes.
Notas iniciais
A vida é mesmo uma caixinha de surpresas. Quando é que eu ia imaginar que aquela fisioterapeuta petulante poderia fazer com que eu me sentisse melhor? Não sei que tipo de magia aquela mulher usa com o olhar e aquele sorriso, mas sei que de alguma forma me passou segurança.
Não estou conseguindo lidar com essa minha situação, confesso. Como meu psicólogo disse: infelizmente, agora a realidade é essa, então de um jeito ou de outro, preciso enfrentar. Claro, é tudo muito complicado, lento, exige paciência — que definitivamente eu não tenho — mas algo me diz que talvez eu devesse dar uma chance a mim. O não eu já tenho, estou aqui completamente sem o movimento das pernas. Então não custa nada ir em busca do sim.
Regina acabou me encorajando, com aquelas palavras. Sim, ela sempre me dizendo coisas que fazem com que eu pense. Parece que ela não é tão ruim assim. Bom, pelo menos agora somos “amigas".
Estávamos eu e meus pais em silêncio, sentados na sala após o jantar. Cada um em seu mundo, minha mãe lendo algumas revistas de decorações para casa, meu pai concentrado no jogo de futebol que passava na TV, e eu com o computador no colo, fingindo que estava fazendo alguma coisa, mas na realidade estava mesmo era presa em meus pensamentos.
— Como está sendo as sessões de fisioterapia, Emma? — Meu pai perguntou desligando TV e virando de frente para mim.
— Nada de muito interessante. Ainda está no começo, então é tudo bem lento, mas estou tentando. — Respondi sem muita animação.
— Ah filha, mas hoje conversei com a senhorita Mills e ela me disse que você está finalmente se esforçando, e ainda disse que está se saindo super bem! — Minha mãe falou toda empolgada.
— Pra quem é fisioterapeuta é assim mesmo né, mãe? A gente mexe um dedo e eles já dizem que estamos ótimos e progredindo bastante. — Revirei levemente os olhos em desaprovação.
— Aí Emma, você tem que parar de ser pessimista assim! — Ela bufou.
— Sua mãe tem razão, filha. É assim mesmo, qualquer mínimo detalhe já faz uma grande diferença. Você precisa começar a pensar positivo para que as coisas boas possam vir.
— Exatamente, Emma. Negatividade só atraí coisas ruins. — Minha mãe falou enquanto guardava as revistas em uma gaveta.
— Tá bom, eu já entendi o recado de vocês dois. — Sorri e assenti com a cabeça. — Agora, por favor, mãezinha linda, eu preciso dormir porque estou exausta. E com dor de cabeça. Me ajuda?
— Vou fingir que não ouvi o sarcasmo, dona Emma. Mas tudo bem, vamos lá.
*******
—Alô?
— Emma?
— Sim, eu mesma. Quem é?
— Patinha! Que saudade eu estava de ouvir sua voz.
— Ruby? Aí meu Deus, não acredito! Como você está, lobinha?
— Estou bem, amiga. Terminei minha pós lá na França, e agora, adivinha?! Cheguei aqui em New York há uns três dias, vim pra ficar mesmo. Amo esse lugar, e não consigo ficar longe.
— Que ótimo, Ruby! Estou morrendo de saudades.
— Eu também, patinha. Preciso muito ir te ver. Fiquei sabendo do acidente, como você está?
— Bem, na medida do possível. Foi horrível, pensei que ia morrer... Mas enfim, não vamos falar de coisas ruins. Você está na casa da Granny?
— Sim. Vovó está super feliz que estou de volta.
— Lobinha, já que você está por aqui, por que não vem me ver? Estou morrendo de saudades.
— Nossa amiga, eu também estou com tanta saudade de você. Preciso mesmo te ver, pra colocar os assuntos em dia.
— Então vem. Estou morando com os meus pais agora. Eles ainda moram no mesmo lugar, você pode vir aqui quando quiser.
— Vou sim, patinha. Hoje estou ocupada, tenho algumas coisas pra resolver, mas amanhã estou livre, aí vou te ver, pode ser?
— Claro, vou ficar te esperando.
— Então tá bom. Beijo, patinha.
— Beijo.
Não acredito que minha melhor amiga está de volta! Faz um pouco mais de cinco anos que Ruby, foi para a França fazer uma pós-graduação em psicologia.
A conheci quando estávamos no último ano do ensino médio, e nos formamos juntas na faculdade. Ela em psicologia e eu em educação física, pois sempre fui apaixonada por meus patins. Faço patinação desde os meus 11 anos de idade, vivia participando de competições, porém só comecei a patinar profissionalmente mesmo, na época do ensino médio. Lembro que fiquei muito indecisa se eu faria psicologia ou educação física, fiquei com medo de me arrepender, mas eu sabia que independente da escolha do curso eu queria mesmo era ser atleta, e seguiria patinando. Depois de pensar bastante, ter várias conversas com meus pais, optei por educação física. E não me arrependo, pois ajudou bastante na minha carreira.
Faltando menos de um ano para terminar a faculdade, eu comecei me preparar para as Olimpíadas, não foi nem um pouco fácil conciliar os estudos com os treinos, mas consegui.
Todos os momentos Ruby estava ao meu lado, passamos por várias coisas juntas, mas poucos meses depois de terminar a faculdade aqui, o pai de Ruby disse que pagaria a pós dela lá na França. Ele é um empresário muito rico, que nunca ligou muito para minha amiga. Ela sempre morou com Granny, sua avó materna, depois que sua mãe faleceu quando ela ainda tinha 3 anos. No começo foi muito difícil, eu não queria ficar longe da minha amiga e nem ela queria deixar tudo aqui. Granny ficou toda dramática também, mas era a chance dela, e sem dúvidas deveria agarrar com todas as forças. E assim, foi. No começo, a gente conversava pelo Webcam todos os dias, mas conforme o tempo foi passando, a frequência em que nos falávamos foram diminuindo pela nossa falta de tempo. Depois do meu acidente, piorou, nunca mais falei com nenhum amigo meu.
— Emma? — Minha mãe entrou no quarto me chamandoe logo sentando nos pés da cama onde eu estava.
— Oi, mãe. — Coloquei o celular de lado.
— Regina me mandou mensagens dizendo que amanhã gostaria te levar para fazer exercícios na piscina. Então, pediu pra eu perguntar o que você acha.
— Por que ela fala com você? E não diretamente comigo? Não é porque estou paraplégica que não sei mais responder por mim.
— Emma, para de drama! — Ela disse revirando os olhos em desaprovação. — Ela fala comigo porque é o meu número que ela tem.
— Então me dá o número dela, porque eu não sou criança, e posso responder por mim. — Respondi esticando as mãos para que ela me entregasse o celular.
Ele entregou o celular em minhas mãos, e saiu do quarto. Procurei nos contatos o número dela e salvei no meu celular com o nome Regina. Em seguida, enviei uma mensagem.
E: Quando quiser perguntar alguma coisa, é só vir diretamente na fonte, eu posso responder por mim. Sei que você não tinha o meu número, então vou dar um desconto. Mas agora, não tem desculpa. Já salvei o seu, é só você salvar o meu também.
Bloqueei a tela do celular, e encostei minha cabeça no travesseiro, fechando os olhos. Não passou nem dois minutos e senti o celular vibrar. Olhei e Regina tinha respondido algo.
R: Tenho falado apenas com sua mãe porque você não ia muito com a minha cara, lembra? Mas de qualquer forma, me desculpe, vou falar apenas com você agora. Enfim, o que acha de amanhã fazermos uma sessão de hidroterapia? Podemos ir até a piscina aí do condomínio mesmo. Você vai gostar, garanto.
Assim que terminei de ler já comecei digitar uma resposta.
E: Por mim, tudo bem. Mas, você tem certeza? Não sei se será uma boa ideia.
R: Claro que será uma boa ideia. Não precisa ficar tensa, vou estar te auxiliando o tempo todo, ok?
E: Ok.
R: Então combinado. Até amanhã, Emma.
E: Até amanhã, Regina.
Me senti um pouco mais animada após essa conversa. Não sei, mas Regina é uma das únicas pessoas que acredita em mim, acredita que eu sou capaz, e não fica me tratando com pena, ou como seu eu estivesse sentenciada a pena de morte.
Já o restante do meu domingo foi um saco. O mesmo de sempre, meus pais tentando me tirar do quarto o tempo todo, inventando coisas para fazer.
Tentaram várias vezes, mas realmente não estou no clima, prefiro ficar quieta no meu canto mesmo. Assisti praticamente uma temporada inteira de One Day at a Time, minha série favorita no momento.
Só saí do quarto pra comer e pra tomar banho. Agora já é bem tarde, acho que vou finalmente dormir, me sinto entediada aqui sem fazer nada, mas ao mesmo tempo não tenho a mínima vontade de fazer nada. Complicada, esse é o meu nome.
No dia seguinte acordei no mesmo horário de sempre, fiz minha higiene matinal, e preparei minhas coisas para a sessão de fisioterapia de hoje. Coloquei com roupa de academia, uso elas para fazer fisioterapia, pois dão mais flexibilidade, sem falar que são confortáveis. Então optei por uma regata, lisa cor de rosa e um short preto e cinza. Por cima coloquei uma jaqueta preta, porque por mais que estamos indo na piscina que é aquecida e fica em local fechado, o dia lá fora está um pouco frio. Coloquei também, por baixo um biquíni azul turquesa.
Tomei café da manhã e estava na sala lendo um dos meus livros favoritos de poesia, quando Regina chegou.
Ouvi minha mãe a cumprimentado e indo correndo novamente para a cozinha, pois estava testando uma receita nova e não podia parar de mexer.
Regina veio sorrindo em minha direção, droga! Ela sempre sorrindo, e me deixando tímida. Hoje ela usava uma calça bailarina preta, com um tênis cinza e uma jaqueta leve na cor preta também.
— Bom dia, Emma. Como está se sentindo hoje? Preparada? — Falou enquanto colocava sua bolsa no sofá.
— Bom dia, Regina. Estou bem, e acho que preparada também. – Fechei o livro e olhei diretamente para ela.
— Ah, que ótimo! Então vamos lá?
— Vamos.
Pequei minha bolsa com toalha, celular e outras coisas, que estava na poltrona ao lado e coloquei no colo. Ela pegou a dela também, e começou empurrar minha cadeira em direção à porta de saída.
— Emma, acho melhor avisarmos sua mãe que já estamos indo. Se não ela vai voltar pra sala, não vê ninguém e ficará achando que te raptei. – Ela sorriu parando e olhando pra mim.
— Claro que não, ela sabe que vamos á piscina. Mas tudo bem é melhor avisar mesmo. – Ri com a preocupação de Regina. — Mãe, já estamos indo. – Gritei para que ela pudesse ouvir.
— Tudo bem, filha. – Minha mãe veio da cozinha com um pano de prato nas mãos. — Mas Regina, você precisa alguma ajuda? Quer que eu acompanhe vocês? Já terminei o que eu estava fazendo.
— Não é necessário, Mary. Só se você quiser ir pra acompanhar Emma mesmo.
— Ah não, mãe. Não sou um bebê, posso muito bem ir “sozinha”. – Respondi fazendo sinal de aspas com o dedo.
— Então tá bom, mas olha Emma, cuidado! – Ela disse me fazendo revirar os olhos em desaprovação. — E Regina,eu sei que você é ótima profissional, mas por favor, cuidado com a minha menina.
— Pode ficar tranquila, vou cuidar muito bem dela. – Regina respondeu sorrindo.
— Ok, terminaram? Agora podemos ir? – Falei bufando.
— Vamos. – Regina disse abrindo a porta.
Pegamos o elevador e fomos até a piscina que ficava no térreo. Durante o percurso que fizemos, não ouve nenhuma troca de palavras. Fico totalmente sem jeito com a presença dela, não sei explicar, me deixa nervosa. Então prefiro não dizer nada.
Chegamos e o lugar estava vazio, as pessoas não costumam vir a essa hora, ainda mais em uma segunda-feira. Senti um alivio, sei lá. Acho que eu ficaria constrangida se tivesse pessoas aqui olhando.
Regina parou a cadeira ao lado de uma espreguiçadeira onde colocou minha bolsa e a dela, sentando em seguida em frente a mim.
— Precisa de alguma ajuda com a roupa? – Perguntou olhando para mim.
— Não, obrigada. Já estou com o biquíni, vou só tirar a blusa. – Respondi totalmente corada com a pergunta.
Ela ficou sem jeito também e levantou em seguida tirando a jaqueta e revelando um top preto também – gente, essa mulher gosta de preto né? – comecei tirar a minha jaqueta e em seguida minha regata, ficando só com o biquíni e o short. Eu estava totalmente sem jeito, evitei ao máximo não encará-la, mas fui surpreendida quando ela tirou a calça e ficou apenas com um short que não era escandaloso nem nada, mas que vestiu muito bem. “O pior de tudo é que a desgraçada é linda. Quê?! Emma, que diabos está havendo com você? Pirou de vez agora?”. Respirei fundo tentando espantar meus pensamentos e prendi meu cabelo enquanto ela também prendia o dela.
— Pronta? – Ela disse andando minha direção.
— Sim, mas como é que você vai me levar até a piscina? Porque assim, eu não sou muito leve não.
— Tá achando que eu não consigo é? – Semicerrou os olhos. — Pois te garanto que consigo, ouviu?
— Então, tá né? – Gargalhei. — Como vamos fazer?
— Seguinte, vou levar na cadeira até a beirada da piscina, pra ficar mais fácil. Depois, pego você no colo e te sento na borda da piscina, com os pezinhos na água, enquanto eu entro primeiro e em seguida pego você novamente.
— Que complexo. — Dei risada e ela riu também.
— Agora deixa de conversa e vamos lá?
Apenas afirmei com a cabeça e em seguida ela fez todo o processo com facilidade. Entrou na água e veio até mim.
— Emma, agora eu vou colocar um braço segurando as suas pernas e o outro vou colocar em suas costas. Você pode passar o braço em meu pescoço, tudo bem?
— Ok. – Ela passou os braços nos minhas costas e pernas e me puxou para dentro da piscina.
Eu estava um pouco tensa, mas passei um braço ao redor do pescoço dela. Que sorriu pra mim.
— Está se sentindo confortável assim? – Ela perguntou se afastando devagar da borda da piscina e indo mais para o meio.
Eu estava um pouco constrangida em estar tão próxima a ela. Mas de qualquer forma, eu estava confortável com aquilo.
— Sim. – Respondi tentando fazer o mínimo de contato visual possível.
— Pode relaxar, Emma. Te trouxe aqui para que você se sinta mais leve, não precisa ficar tensa assim.
— É estranho alguém ter que me segurar.
— Eu sei, mas é só falta de costume. Vamos fazer assim, vou te colocar pra boiar. Pode soltar seus braços, estique seu corpo e deite sobre a água, vou segurar você.
Fiz o que ela mandou, fechei os olhos e relaxei. Depois de muito tempo, finalmente me senti mais leve. Lembrei da sensação de patinar, de correr, de ser livre e sorri.
— Tô gostando de ver, Emma. Fico muito feliz em te ver sorrir.
— Nossa Regina, eu adorei essa sensação... Me sinto tão livre.
— Ah, eu sabia que a hidroterapia ia te fazer muito bem.
Eu estava realmente feliz, aproveitando o momento, que nem vi o tempo passar.
— Emma, eu sei que você está adorando, mas já extrapolamos demais. Está na hora da gente sair.
— Sério? Já? – Falei voltando a posição inicial e passando meu braço redor do pescoço dela novamente.
— Sim, sério. – Ela sorri olhando para mim.
E pronto, lá estava eu de novo perdida na imensidão daqueles olhos castanhos. Não sei explicar, mas eles me encantam. Ela me encarou de volta, mas logo ficou ruborizada e desviou o olhar.
— Obrigada, Regina.
— Pelo quê? – Ela voltou me fitar.
— Por hoje. E por ser tão paciente comigo. – Sorri ainda encarando-a.
— Eu já disse, me agradeça lutando por você, ok?
Eu balancei a cabeça positivamente, e ela me devolveu um sorriso largo.
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