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6 Capítulo 6 - Life is not over.
Notas iniciais
Depois de saírem da piscina, Regina levou Emma para casa. Agora, a loira já não estava mais tão difícil de lidar, pelo contrário, estava um pouco mais “tranquila", conversava sobre alguns assuntos aleatórios e até sorria de vez em quando. Claro que, sempre muito reservada, mas Regina sentia que estava aos poucos conseguindo conquistar a confiança de Swan.
Não necessariamente que as duas precisassem ser melhores amigas, um bom relacionamento, sem climas ruins já era o suficiente, mas a morena mesmo não querendo admitir, simpatizava com Emma.
Quando entraram no elevador, a fisioterapeuta apertou o botão do andar do apartamento, encostando-se à parede metálica e gelada, o que fez com que sentisse um pouco de frio, já que estava com o cabelo molhado e a temperatura lá fora estava um pouco baixa. Sentiu um arrepio percorrer seu corpo e então cruzou os braços em seguida.
— Está com frio? — Emma perguntou a observando.
— Não, muito. Quando eu chegar em casa e tomar um banho quente, passa.
— Vai acabar ficando doente assim, Regina. —Falou e sorriu. Você pode tomar banho lá em casa, se quiser. Eu posso te emprestar meu secador de cabelo e também roupas, caso não tenha aí com você. — Emma corou ao se dar conta do que disse, não sabia se deveria. Era muito atrevimento da parte dela? Elas mal tinham intimidade pra isso, se conheceram há dias atrás e Regina era apenas sua fisioterapeuta. Definitivamente, não tinham essa intimidade toda. A loira concluiu o pensamento e corou mais ainda. Porém, ao mesmo tempo fora tão natural, as palavras saíram quase que involuntariamente de sua boca. — Hm, é... Hm... Q-quer dizer, só se você quiser, claro. – Gaguejou após algum tempo em silêncio, Regina a fitava aparentemente surpresa. A morena riu com o embaraço da moça. Aquilo era novidade, jamais imaginou que veria Emma, sua paciente de gênio forte, envergonhada. — Muito obrigada, Emma. É muita gentileza sua, mas acho melhor não. Vou sair daqui e vou correndo pra casa, nem vou passar muito frio. — Disse sorrindo.
— Bom, você é quem sabe. É só que... Não quero ser a responsável por um futuro resfriado seu.
—Agradeço a preocupação, senhorita Swan. Mas você não acha que sou eu quem deve se preocupar com você, e não ao contrário? — Falou divertida, semicerrando os olhos e apontando o dedo indicador em direção à atleta.
— Tudo bem, então. Depois não vem falar que eu não avisei.
Ambas sorriram, e logo chegaram ao andar do apartamento. Regina, sempre muito habilidosa com a cadeira de rodas, entrou com Swan em casa com facilidade. “Ela deve empurrar inválidos como eu o tempo todo”. Desanimada, Emma concluiu. Assim que Regina fechou a porta e ia levando a loira em direção ao quarto, ouviram risadas vindas da cozinha.
— MÃÃÃE, CHEGUEI! – Emma gritou para que fosse ouvida. Regina interrompeu o percurso, parando no meio da sala.
— Filha... – Passos em direção à sala foram ouvidos, em seguida surgindo Mary Margareth acompanhada de... Ahh, não acredito!
Foi o que Regina pensou ao se deparar com a moça espalhafatosa que bateu no carro de sua irmã no dia anterior.
— RUBY! Que saudade! – Emma disse quase saltando da cadeira de alegria. A moça bonita, alta e muito bem vestida por sinal, se aproximou de Emma, abaixando e dando um abraço demorado na loira, ignorando totalmente a presença de Regina ali. — Ai patinha, que saudade de você! – Ruby disse ainda agachada ao lado de Emma.
Mary Margareth sorria para as duas, e Regina as observava sem demonstrar nenhum tipo de reação. Pelo visto Emma e Ruby, a maluca que bateu no carro de Zelena, eram amigas. — Eu já vou indo, então. – A morena disse sem jeito, interrompendo a conversa das duas.
— Ai meu Deus, que falta de educação a minha! – Emma disse ao lembrar-se da presença de Regina ali. — Ruby, essa é Regina Mills, minha fisioterapeuta. – Concluiu a frase sem muita empolgação. — Ainda é difícil aceitar que preciso de fisioterapia e cuidados especiais. — E Regina, essa é Ruby Lucas minha melhor amiga.
Ruby, finalmente fitou Regina nos olhos, se colocando em pé. — Você é a... – Disse totalmente surpresa abrindo a boca em um perfeito O. Regina riu e afirmou positivamente com a cabeça. Emma e Mary observavam a cena sem entender absolutamente nada.
— Não acredito! Então era você que estava com aquela maluca que me xingou ontem. Olha, me desculpa mesmo, eu nã... – Foi interrompida por Regina.
— Fica tranquila, senhorita Lucas. Foi um acidente, e você fez o correto, que é se prontificar a pagar o concerto do carro. – Sorriu para a moça. — Quanto a minha irmã, bom... Ela realmente amaldiçoou pelo menos umas três gerações sua, mas eu a entendo também.
— Sua irmã me odeia agora. Hoje de manhã quando liguei para acertarmos sobre o concerto do carro, ela estava impossível. Como se eu também não estivesse irritada por ter que pagar o concerto do meu também. – Ruby respondeu revirando os olhos.
— Ei, vocês duas – Emma finalmente interrompeu aquela conversa, da qual ela não estava entendendo nada. — Então vocês já se conhecem?
— Sim, patinho. Ontem eu bati no carro da irmã da Regina, uma longa história. – Mary arregalou os olhos. — Mas já está tudo bem. Ninguém se machucou, e também já resolvemos a situação.
Elas conversaram mais algumas amenidades, mas logo Regina despediu-se, e seguiu caminho para sua casa.
Durante o caminho, refletiu sobre a conversa na piscina que tivera com Emma. Lembrou também da gentileza da loira ao oferecer para que tomasse banho em sua casa. Riu consigo mesma, ao lembrar-se do dia que conhecera Emma e a própria mal a encarou, estava repleta de amargura, não queria se quer dar-se uma chance, e agora já tinha evoluído bastante, ria um pouco mais, conversava e até agradeceu à fisioterapeuta. Regina sorriu novamente, um sorriso de orgulho, ela estava feliz ao ver que seu esforço para ajudar a moça estava dando certo.
Ao entrar em casa, respirou fundo e se jogou no sofá, fechando os olhos. Ela teria que atender outro paciente às quatro da tarde. Olhou o relógio constatando que ainda era hora do almoço, porém ainda não estava com fome, depois ela pensaria em almoço, agora ela queria mesmo era um banho, para tirar o cloro da piscina do corpo.
***
Já se passam das cinco da tarde, Ruby havia se despedido há menos de quinze minutos e Emma já se sentia totalmente entediada. Passaram a tarde toda conversando sobre o tempo em que estivaram longe uma da outra, rindo e comendo guloseimas preparadas por Mary.
— Definitivamente, não é fácil ficar aqui, sem fazer nada de interessante ou útil. Sinto-me totalmente inválida. – A loira bufou, olhando para as revistas em seu colo.
Ela se sentia mal, ficar em casa, em cima de uma cadeira é desesperador. Ela queria viver como as outras pessoas e não ficar trancada dentro de casa. Olhando a tela do computador a sua frente, algumas lembranças começaram surgir em sua mente.
Lembrou-se do dia em que ganhou medalha de ouro em uma competição importante, lembrou-se também de alguns treinos dias antes da apresentação, o quanto estava ansiosa e com medo de não conseguir.
“ —Vai Emma, tenta mais uma vez! Você vai conseguir.
—Ingrid, o salto quádruplo é totalmente arriscado. Não sei se vou ter força e velocidade o suficiente.
—Minha querida, você sempre deu o seu melhor em tudo! Quase conseguiu da última vez, vamos treinar mais um pouco. Sei que é difícil, mas você é ótima e conseguira realizá-lo.
—Ok, vamos tentar mais um pouco. Acho que vou conseguir.
—Isso, garota! É assim que se fala!
Respirou fundo e foi deslizando seus patins no gelo para pegar velocidade. Tentou uma, duas, três, quatro... Já estava quase desistindo, quando... Conseguiu. Saltou e deu quatro giros no ar. Sorrindo voltou ao chão e Ingrid correu em sua direção a abraçando.
—Ingrid, eu não acredito. Eu consegui!
—Eu falei que você conseguiria,Emma! Agora a gente só precisa continuar trabalhando para que você fique cada vez melhor e consiga realizar no dia da sua apresentação também.
—Isso é tão arriscado, tenho que conseguir sem errar. Será apenas uma tentativa, Ingrid. Tenho que ser minuciosa e exata nos movimentos.
— Você vai arrasar! Disso eu não tenho dúvidas!
Naquele dia foi pra casa sorrindo, satisfeita consigo mesma. Mal sabia que dali exatamente duas semanas, durante sua apresentação ela conseguira realizar com maestria o salto quádruplo. “
Com lágrimas nos olhos ela sorriu, sua saudade de patinar era imensa. Sentia tanta falta daquela adrenalina, sensação que nunca mais poderia ter novamente. Como dói querer alguma coisa e ter certeza de que nunca poderá ter. Seu choro intensificou, ela queria correr até não ter mais forças, gritar até ficar sem voz, chorar todas suas lágrimas, esquecer, dormir até que toda sua dor fosse embora. Sua sensação de estar perdida era grande, tentava ter esperanças, tentava com toda força acreditar em tudo que Regina falou, mas não existia mais nenhuma expectativa. Por mais que ainda tentasse e estava realmente se esforçando, voltar andar era algo que não iria acontecer.
Entre lágrimas e soluços, alcançou um pequeno vaso de flores que estava no criado-mudo ao seu lado, e junto com um grito estridente o arremessou longe com toda sua força.
***
— Alô? Regina? Sou eu, Mary Margareth. Está podendo falar?
— Ah sim, Mary. Posso falar. Algum problema?
— Não, nada demais. Eu só liguei porque me esqueci de avisar que amanhã Emma tem consulta com o Dr. Whale na parte da manhã, então vai dar pra... Ai Meus Deus, EMMAA
— Mary? Alô? Mary, isso foi um grito? O que está acontecendo? Alô??
A ligação foi encerrada, deixando uma Regina perplexa do outro lado da linha.
— Sis, o que houve? – Zelena perguntou parando o carro e olhando sua irmã que estava paralisada.
— Zel, era Mary Margareth, mãe da Emma, minha paciente. Ela estava me falando que amanhã a filha terá uma consulta, provavelmente não poderia fazer a fisioterapia, mas aí eu só ouvi um grito bem alto, ela chamou Emma pelo nome e desligou... – Respondeu tudo num fôlego só e olhou para a ruiva com os olhos arregalados.
— Regina, isso é sério. O que será que aconteceu?
— Eu não faço a mínima ideia. E agora, o que eu faço?
— Vai até lá e vê se está tudo bem. É muito longe? Já estamos na rua mesmo. E se aconteceu alguma coisa grave e elas precisam de ajuda?
— Mas Zel, eu nem sou nada delas. Não sou amiga, não sou da família. Como vou aparecer assim? E se for muita intromissão minha?
— Sis, pode ter acontecido alguma coisa. Você vai conseguir voltar pra casa sabendo depois desse acontecido?
— E se não aconteceu nada demais e eu apareço lá do nada. Vou dizer o quê?
— A verdade ué. Que você ficou preocupada e foi ver se precisavam de ajuda. – Zelena disse e ligou o carro novamente. — Regina, você é um ser humano, óbvio que ficaria preocupada depois dessa ligação, se não aconteceu nada, o que eu realmente espero, será melhor ainda. Mas duvido muito, porque ninguém grita assim à toa, sis. Agora, me fala o caminho que eu vou ficar lá te esperando.
— Tudo bem. Tem certeza que quer me esperar lá? Você disse que estava morrendo de fome.
— Sim, estou com fome. Mas aguento mais um pouco e te espero lá. Afinal, estamos com o seu carro né? Eu apenas estou dirigindo. – Sorriu e Regina sorriu de volta apreensivamente.
***
Mary Margareth após ouvir o barulho de algo quebrando e em seguida um grito, abandonou o telefone e saiu correndo o mais rápido que conseguiu em direção ao quarto da filha.
— Emma? O que houve? – Ofegante abriu a porta do quarto e pode ver Emma aos prantos, que gritando mais uma vez, arremessou com muita força um enfeite de mesa e em seguida alguns livros. — EMMA! O que está acontecendo?
— EU QUERO FICAR SOZINHA! – Soluçando e com lágrimas por todo o seu rosto, arremessou um copo de água que se espatifou no chão. — MINHA VIDA ACABOU!
— FILHA, PARA COM ISSO! VOCÊ VAI QUEBRAR TUDO, CALMA! – Mary gritou chorando e tentando se aproximar.
— SÓ SAIA DAQUI, POR FAVOR!
A campainha tocou e Mary um pouco ser saber o que fazer, deixou o quarto e foi ver quem era. Ao abrir a porta e viu que era Regina continuou chorando.
— Mary... – Regina sentia que seu coração poderia sair pela boca a qualquer momento. — O que está acontecendo?
— Ai Regina, me desculpe. É a Emma, ela não está bem. Está chorando muito, quebrou vários objetos e não deixa eu me aproximar, fica dizendo que a vida acabou. Eu não sei o que fazer. David não está em casa... Eu-eu... Não sei... – A mulher de cabelos negros mal conseguia dizer as palavras.
— Mary, tudo bem. Acalme-se, beba um pouco d’água. Vou falar com ela. Posso? – Após a mulher acenar com a cabeça positivamente, Regina entrou e seguiu no corredor que dava até o quarto de Emma.
Antes de abrir a porta, pode ouvir o choro alto de Emma, assim como ouviu mais alguns objetos sendo arremeçados. Abriu a porta com cautela, mas logo um notebook foi lançado em sua direção.
— Emma! – Ela se assustou com o barulho, mas fechou a porta e se colocou pra dentro do quarto. — Emma, por favor! Eu só preciso que me escute.
— REGINA, O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? CHEGA! EU NÃO AGUENTO MAIS! – Com as mãos no rosto, caiu em um choro profundo.
A morena sentiu uma dor corroer seu peito ao ver Emma sofrendo tanto. Ela queria poder tirar todo aquele sofrimento da loira. Sem saber como agir, ela decidiu fazer o que sentiu vontade. Emma poderia esmurrá-la? Poderia, mas preferiu arriscar mesmo assim. Foi andando até a cama, sentou-se e passou os braços em torno da moça que continuava chorando.
No primeiro momento, a loira se debateu nos braços de Regina, tentou afastá-la, mas acabou cedendo ao perceber que não teria forças para sair dos braços da morena. Emma abraçou a fisioterapeuta de volta e afundou seu rosto no pescoço de Regina.
Continuaram ali, abraçadas durante um bom tempo, até que o choro de Emma foi diminuindo, dando lugar apenas a soluços e respirações pesadas. Regina fazia leves carinhos nos cabelos dourados. Estavam confortáveis assim, até que o silêncio foi cortado pela voz tremula da loira.
— Eu preferia ter morrido aquele dia.
— Shiiiu... Por favor, Emma. Não diz isso.
— Acabou Regina, não existe mais expectativa, não existe prazer, não existe vida. Acabou, minha vida acabou. Eu sou uma inválida.
— Emma, sua vida não acabou. – Ela respondeu ainda abraçada à loira. — Você está viva. Consegue imaginar a quantidade de pessoas que hoje estão sepultadas e mais do que qualquer tesouro, desejariam estar no seu lugar, ter a vida que você tem, pelo simples fato de estarem vivos novamente?
— Quem quer viver dessa forma? Cheia de limitações, trancada dentro de casa enquanto as outras pessoas estão vivendo? Eu não posso andar, não posso ter uma vida normal, Regina. Todos os meus sonhos foram destruídos, eu jamais vou conseguir ser feliz novamente. Não posso ser normal, entende? Não posso ter um relacionamento, não posso ter filhos...
— Ei... É claro que você pode ter uma vida normal, um relacionamento, filhos. Emma, você está viva! Tudo isso é possível sim.
— Quem vai querer uma mulher que não sente nada da cintura pra baixo? Que tipo de prazer posso receber ou dar a alguém? – Disse olhando nos olhos de Regina.
— Emma, você pode sim dar e receber prazer. Vida sexual segue normal. O corpo é apenas um instrumento do prazer: o sexo começa na mente. Existem diversas possibilidades, como a descoberta de novas zonas de prazer, e tudo isso faz parte do processo de reabilitação. Sua vida não acabou, garanto. – Sorriu e Emma ficou pensativa.
Emma suspirou e Regina segurou suas mãos.
— E quanto a você se sentir inválida, não sinta. Ficar só em casa não é fácil, eu sei. Mas acho que posso te ajudar. Se você quiser, claro.
— Como assim? – Emma a olhou sem entender.
— O que você acha de passearmos alguns dias na semana, irmos há alguns lugares legais, hm? Eu adoraria.
— Regina, você não precisa fazer isso, sério. Não quero ser um encosto atrás de você.
— Não diga bobagens, você jamais seria um encosto, Emma. Sou sua amiga, esqueceu? E amigos são pra essas coisas. – Deu um leve empurrão no braço da loira.
— Eu sei, mas sério mesmo. Você não tem obrigação nenhuma... – Foi interrompida.
— Não continue a frase, senhorita Swan. – Levantou uma sobrancelha com um olhar intimidador.
— Ok, tudo bem. Não vou falar mais nada. – Olhou bem fixo nos olhos castanhos. — Obrigada, Regina.
— Não me agradeça, Emma. Só quero que você veja que ainda há muitas outras fases da vida para serem vividas.
Emma instintivamente passou seus braços ao redor de Regina, que prontamente a abraçou de volta. Elas suspiraram, cada uma sentindo o aroma suave da outra, não sabiam exatamente o porquê, mas de alguma forma desejaram em seu íntimo que o tempo parasse, para que assim, pudessem ficar sentindo o conforto daquele abraço eternamente.
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