Teste para o Paraíso
3 Capítulo 3
–-- Não, não sou. Também sou um fantasma. --- João esclareceu, intrigado. --- Por acaso você está no teste para o Paraíso?
–-- Sim, e você é o demônio que está tentando me enganar.
–-- Estou no teste também, acho que nós dois é que fomos enganados. Mas minha missão é convencê-lo a não cometer suicídio. A sua é o oposto, é estranha para um teste divino, não é certo.
–-- E você acha certo deixar esse cara vivo para continuar matando?! --- Angélica indagou tentando não levantar a voz.
–-- Matando? Como assim?!
–-- Não sabe quem ele é? É um assassino em série, um psicopata doido que já tem mais de 15 vítimas. Ele sai pela noite procurando prostitutas, e contrata o serviço da que o agradou, mas pensa que tem algum tipo de relacionamento com ela, então quando volta no dia seguinte e a vê com outro cliente, acredita estar sendo traído, mata a mulher, corta o corpo em pedaços e enterra no seu quintal.
–-- Eu não sabia disso... --- João estava pasmo. --- De qualquer forma, se eu não passar no teste terei que ficar 23 anos no purgatório.
–-- Só 23? Eu terei que ficar 67! Muito mais que você, então poderia deixar eu...
–-- Nem vem! Isso é porque eu fui uma pessoa melhor que você na terra, e morri por uma fatalidade.
–-- Fatalidade?
–-- Atravessei a rua correndo e fui atropelado.
Angélica abaixou o olhar, séria e melancólica.
–-- Eu não morri por uma fatalidade... --- Seus olhos começaram a lacrimejar. --- Desde pequena eu era atormentada por um tio que abusava de mim... Depois de mais velha eu conseguia evitá-lo, mas então descobri que também abusava da minha irmã caçula... Eu fiquei com muita raiva, me descontrolei e o ataquei com uma faca, ele se desviou e pegou a faca da minha mão. Fincou na minha barriga, mas não foi um golpe fatal. Ele colocou as mãos nojentas no meu pescoço e senti seus dedos apertarem com força... Eu me debatia, tentava gritar por ajuda... Mas não adiantou. A dor era muito grande e a vida foi deixando o meu corpo, até que tudo se tornou escuro.
João se sentiu mal por ela, pensando em como seu fim fora doloroso. Angélica merecia passar no teste.
–-- Bem, eu...
A garota o interrompeu:
–-- Tá, é mentira. Eu bati com a minha moto num poste.
João precisou de alguns segundos pra entender que foi feito de trouxa.
–-- Você nem tem idade para dirigir.
–-- E você deveria olhar para os dois lados antes de atravessar a rua.
–-- Cansei disso! --- Exclamou João, impaciente. --- To nem aí, vou lá completar minha missão!
Rapidamente se deslocou até o dono do sonho, parou em frente a ele e disse com convicção:
–-- Lembre-se disso quando acordar: Não vale a pena se matar, você vai para o inferno.
–-- Inferno? --- O homem estava indignado. --- Por que eu, um cristão e trabalhador humilde, iria para o inferno?
–-- Porque você matou mulheres a sangue frio...
O homem levantou-se nervoso do banco e os pássaros voaram assustados.
–-- É claro! Elas me traíram! Mereciam morrer!
João percebeu que não seria tão fácil convencer esse homem com problemas mentais.
–-- Mas então, se não é pela culpa, então por que você quer se matar?
–-- Não aguento mais... Não adianta o quanto eu procure, o quanto me esforce, não consigo achar alguém que me ame e seja fiel.
–-- Você ta certo, nós mulheres somos umas malditas. --- Afirmou Angélica, que havia aparecido ao lado de João. --- Nunca vai encontrar uma decente, é melhor se matar mesmo.
–-- É mentira, ela quer...
Em um piscar de olhos, tudo a volta de João e Angélica mudou. Não se encontravam mais na praça ensolarada, mas em frente a casa em que o homem acabara de acordar. Ele olhou pela janela com expressão confusa, mas não tinha a capacidade de ver os dois fantasmas em seu quintal. Fechou a janela e foi tomar um café forte.
–-- O que ele decidiu? Como sabemos quem ganhou? --- Perguntou João.
Ambos escutaram um crack.
O chão abaixo dos pés de Angélica começou a rachar e abrir uma fenda. A garota despencou, conseguindo se segurar na borda da abertura, porém uma força tentava a sugar para a escuridão, como um buraco negro. O vento anormalmente forte queria levar tudo ao redor para dentro da fenda, João se segurou na árvore que subira anteriormente.
–-- Me ajuda! --- A garota estendeu uma das mãos para ele, prestes a ser aspirada.
Sem pensar duas vezes, João agarrou a mão de Angélica, com a mão livre segurando em um galho da árvore. Não conseguiria se manter assim por muito tempo diante daquela força sugadora.
Batendo suas asinhas multicoloridas ao longe para não ser aspirado, o “Anjo-Fada” gritou para o garoto:
–-- Saia daí! Se você cair no buraco não tem volta!
João não poderia simplesmente largar a garota que pedira por ajuda. Mas o que fazer? Aquela era a vontade divina, se não soltasse ele também cairia. Mas não conseguiu fazer isso, apenas se manteve segurando firme sem pensar nas consequências, até que seus dedos perderam força e ambos foram engolidos pela escuridão.
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