–-- É aquele cara ali --- O anjo apontou para um homem que dormia tranquilamente em sua cama.

João estava se equilibrando em um galho de uma arvore, a qual fora obrigado a subir para olhar pela janela de uma casa. O anjo disse que não poderiam observar o homem de dentro da residência porque existiam certas regras para evitar invasão domiciliar pelos fantasmas, mas que isso não vinha ao caso.

–-- Vou repetir sua missão. --- Disse o anjo flutuando no ar ao bater frenético de suas asas de borboleta. --- Aquele cara quer se matar, você vai entrar no sonho dele e convencê-lo a não fazer isso. Simples assim. Creio que o melhor método é falar diretamente como ele, todo aquele bla bla bla de a vida é bela e as coisas vão melhorar, mas você é livre para usar sua imaginação, faça como achar melhor. Porém tome cuidado, porque no sonho dele também estará um demônio, que tentará convencê-lo do contrario, a dar um fim a sua vida miserável. Esse demônio está ciente de você e da sua missão, mas não se preocupe, lá ele não possui nenhum poder sobre-humano e se você falhar são só 23 aninhos de purgatório.

Repentinamente um vento forte soprou e João perdeu o equilíbrio, tentou em vão se segurar em um galho e fechou os olhos ao cair da arvore, quando os abriu novamente percebeu-se deitado no chão de um local completamente diferente. O céu azul, temperatura agradável, uma praça com um gramado bem verde, muitas arvores e várias pessoas, caminhando, passeando com seus cachorros, sentadas nos bancos, crianças brincando em balanços e gangorras, correndo e rindo. Nunca estivera naquele lugar antes. Será que já estou dentro do sonho daquele cara? Perguntou-se João, olhando em volta. Avistou o dono do sonho sentado em um dos bancos, jogando migalhas de pão para os pássaros. Esse é um sonho bem tranquilo para alguém que está pensando em cometer suicídio.

Olhou em volta mais uma vez tentando identificar o demônio, poderia ser qualquer uma daquelas pessoas. Poderia até não ser uma pessoa, quem sabe um dos pássaros. Mas João abandonou essa ideia quando a viu: Uma garota colegial de longos cabelos encaracolados cor de caramelo, com comportamento diferente de todas as outras pessoas no sonho, ela estava parada de pé ao lado de uma arvore, encarando o dono do sonho. Ela percebeu que também estava sendo observada e cruzou olhares com João, séria e estranhamente um pouco assustada, recuando, porém logo tomou a iniciativa de se aproximar e sentar no banco ao lado do homem, abrindo um simpático sorriso e oferecendo batatas do pacote de ruffles que carregava.

–-- Obrigado, querida. --- Respondeu o homem pegando duas batatas, uma delas comeu e a outra esmigalhou para dar aos pássaros.

Ela está tentando ganhar a confiança dele. Refletiu João, indignado e sem batatas para oferecer nem ideias de como puxar assunto. Tinha que se livrar dela antes, mas não sabia como. Decidiu afastá-la dele primeiro, até pensar em algo.

–-- Posso falar com você um instante? --- Perguntou para a garota.

Ela hesitou, mas então se levantou e seguiu João até se afastarem o suficiente para que o homem não os escutasse. Pararam um de frente para o outro, sérios. João não sabia o que falar, os dois ficaram em silêncio até que a garota resolveu perguntar:

–-- O que você queria falar comigo?

–-- Hum... eu... Qual o seu nome?

A garota estranhou a pergunta, olhou rapidamente para o dono do sonho, que continuava pacificamente sentado no banco e respondeu para ver aonde isso iria dar:

–-- Angélica. E o seu?

–-- João. Que nome estranho para um demônio.

–-- Demônio? --- A expressão da garota mudou. --- Tentar me confundir não vai adiantar.

Angélica deu as costas e começou a caminhar de volta ao banco, João segurou-a pelo ombro.

–-- Pera aí! Você não é o demônio que veio convencer aquele cara a se matar?

Ela se virou.

–-- Essa é a minha missão, mas eu não sou um demônio. Estou mais para... um fantasma. Você é o demônio.