Terra, desligando
1 Lumus - dia 5
Notas iniciais
“...Dentro de exatamente um mês, no dia 15 de Novembro de 2438, será iniciada a colonização em Lumus, a pequena cidade que está prestes a ser finalizada no planeta Macronesia, situado a cem mil anos luz de Terra. Os primeiros civis a colonizar Lumus já foram restritamente selecionados...”
Ayumi Kiyota depositou a xícara de café na mesa, juntamente com a folha de jornal. Ficou ali, sentada, sozinha em sua casa, pensando na noticia que havia acabado de ler. Um planeta muito distante ia começar a ser colonizado, logo acabou pensando que os dias do planeta Terra estavam contados. O jornal podia não dizer exatamente isso, mas Ayumi era esperta, sabia muito bem que era isso que estava acontecendo, embora praticamente toda a face da Terra não fosse perceber. O que todos temiam por tanto tempo ia acontecer: o fim do planeta Terra, onde gerações viveram, onde muitas histórias, acontecimentos, vitórias e catástrofes aconteceram. Subidamente a jovem oriental levou as duas mãos ao rosto e começou a chorar. Os sentimentos dentro de si colidiam-se ferozmente. Secava as lágrimas antes mesmo que pudessem escorrer por seu rosto. Chorou e soluçou feito uma criança. Chorou porque sua casa estava a beira de se desmoronar, chorou porque muitas coisas ficariam para trás, muitos registros históricos seriam perdidos. Mas acima de tudo, chorou porque ela, uma renomada bióloga, viu que todos os anos que passou lutando para salvar seu planeta foram basicamente em vão. Levantou-se e foi até a janela. Admirou o amanhecer. O Sol levantando-se ao fundo, dando cor ao céu, coisa que quase ninguém costumava notar, e que deveriam notar muito, agora que a Terra tinha seus dias contados, subliminarmente, o apocalipse anunciado. Mesmo com aquela horrível notícia, a Terra mantinha-se radiante, lutando para sobreviver a poluição e destruição humana. Ayumi viu as casas e árvores do outro lado da rua, uma flor nascendo entre pedras abaixo da sua janela. Era um lindo dia. Ganhou um leve susto ao ouvir o telefone tocar. Uma ligação atrás de outra, incessante. Ignorou. Saiu correndo por afora. Já estava trajada para trabalhar, porém, não seguiu para seu local de trabalho. Correu aleatoriamente pela calçada, vendo carros passar, o trânsito da manhã, as buzinas, as mulheres de vestido tubinho e os homens de ternos com suas malas de couro. Mal sabiam que tudo isso estava prestes a acabar. O choro voltou, e agora Ayumi deixava suas lágrimas como rastro. Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. A Terra sendo trocada por um planeta a milhões de anos luz? Era isso mesmo? Havia muitas coisas que Ayumi gostaria de fazer na vida, e que faria agora. Aproveitaria ao máximo possível este um mês de vida.
Já estava ofegante, ainda correndo, quando tropeçou em um amontoado de roupas na calçada. Foi de encontro ao chão. Civis comuns passavam ao seu lado, lançavam olhares julgadores, alguns de nojo, mas nenhum sequer ajudou-a a se levantar. Pessoas e mais pessoas fazendo o que faziam, dia após dia como robôs, sem sequer saber do fim próximo da Terra. Levantou-se sozinha então, batendo as mãos pelas roupas. Olhou mais de perto, e viu que não se tratava de roupas velhas jogadas na calçada, mas sim um mendigo. O homem colocou-se sentado no chão, um tanto grogue, coçando a barba loira e resmungando.
– Eu sinto muito – disse Ayumi. – Eu estava distraída e...
– Sua Chinesa idiota! – reclamou o homem.
O sujeito olhou para os lados com os olhos quase fechados por causa do Sol da manhã. Parecia perdido no tempo, perdido naquela geração de tecnologias, roupas formais e pressa. Era quase um homem das cavernas que fora jogado no ano de 2438.
– Mas não importa. Eu posso esquecer seu desastre se me der uns trocados – disse o homem. – Estou morrendo de fome, e para piorar a droga da garrafa de cerveja acabou – resmungou para si mesmo.
Ayumi teve uma ideia. Pensou se seria loucura, mas sendo o fim do mundo, acreditou que nada seria loucura.
– Como se chama? – ela perguntou.
O homem sujo e maltrapilho pareceu meio surpreso com a pergunta.
– George.
– Muito prazer. Sou Ayumi.
– Certo, certo... Posso ganhar meu trocado agora moça? – resmungou.
– Não – respondeu. – Mas podemos ir comer em algum lugar – sugeriu.
– Eu e você? – zombou o homem, George. – Juntos? Olha moça, dê o meu dinheiro e você segue em frente. É tão fácil.
– Ah, por favor – insistiu a oriental. – Recebi uma notícia pouco tempo atrás que me deixou um pouco chateada. Moro sozinha, não tenho amigos com quem possa desabafar. Às vezes é melhor confiar em um estranho do que em um conhecido. Você pode escolher o lugar, onde quiser. Vamos, está um dia lindo.
George lutou dentro de si. Olhou para os lados, coçou a barba cheia, frustrado com o pedido. Apenas queria ficar quieto em seu canto. Já estava farto de ser ridicularizado, zombado e humilhado. Era chutado durante as manhãs por trabalhadores. Lixo e cuspe eram atirados contra ele durante a noite por jovens. Apenas queria viver o resto de sua medíocre vida e morrer abandonado e esquecido. Mas no fim, depois de pensar tanto, acabou cedendo. Falou para Ayumi, meio sem jeito:
– Bom, conheço apenas o restaurante para mendigos onde servem comida por um preço muito baixo. Eu costumava ir lá, e depois eu tomava uma cerveja no bar em frente. Fica perto do subúrbio da cidade.
Ayumi deu um sorriso acolhedor. Estendeu sua mão para ajudar George a se levantar.
– Então vamos até lá.
A oriental pensou se estava fazendo a coisa certa. E se fosse assaltada por George? E se ele a matasse? Bom, não importava, o mundo estava acabando mesmo.
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