Terra, desligando
2 Projeto Nascente - dia 6
Notas iniciais
As mesas e as cadeiras do restaurante comunitário eram compridas. Deveriam sentar lado a lado, esbarrando o braço no sujeito do lado, respingando sopa quente na blusa suja de outro. George sentia-se um tanto constrangido de estar acompanhado de uma moça oriental, cheirosa e bem arrumada. Recebiam olhares estranhos, difícil se entender o que se passava na cabeça de cada morador de rua ali presente. Ayumi não ligava. O percurso que fizeram andando a fez pensar em muitas coisas sobre o destino final da Terra, já estava extasiada demais para sentir qualquer sentimento ruim.
Pegaram comida em um prato de plástico velho e úmido. Uma das mulheres que serviam a comida riu da presença de Ayumi, com suas roupas limpas e cabelo penteado. Pensava no que aquela oriental estava fazendo ali, perdida, ao lado de um mendigo. Passaram por uma porta aberta que os levou aos fundos do local, um cenário relativamente grande, cercado por gigantescos muros, com mesas minúsculas para duas pessoas a céu aberto. George sugeriu sentarem-se no canto, longe de todos. Era irônico. Lá fora, no mundo cheio de pessoas superficiais, seria Ayumi a sentir vergonha de estar junto de George, mas ali dentro, como muitos semelhantes a situação de George, era o oposto que acontecia. Ayumi provou a comida, mas ficou estampado em sua face que não lhe agradava.
– O que foi? – ironizou George. – A comida não agradou a princesa? Isso não é um restaurante cinco estrelas.
– Não é tão ruim – amenizou Ayumi, — só acho que falta sal.
– Existem mendigos hipertensos, diabéticos... O dono daqui não quer ninguém caindo cara na mesa de repente, morto.
– Têm sal nesse lugar pelo menos?
– Têm sim – respondeu. – Deixa que eu pego.
Ayumi Kiyota ficou ali, sentada, sozinha. Olhou para cima e viu o céu em forma de um quadrado, formado pelos enormes muros.
– Nós fizemos isso... Nós estamos matando você querida Terra. Dolorosa e lentamente. Eu sinto muito...
Uma lágrima escorreu por seu rosto. Estava sendo repetitiva e começava a irritar-se consigo mesma, mas era inevitável pensar no fim do planeta. Era horrível pensar que milhões de pessoas iriam morrer, e que somente algumas foram selecionadas a viver no novo mundo, na maldita Lumus. George retornou em seguida. A moça tratou de secar o rosto e manter a postura normal de antes. Depositou o saleiro na pequena mesa e ficou olhando para Ayumi.
– Estava chorando? – perguntou o mendigo.
Cogitou mentir, mas para quê? Com que finalidade? Tudo ia para os ares mesmo. O botão do foda-se estava ligado para Ayumi.
– Estava – respondeu.
– Imagino que seja pelo mesmo motivo que a fez pedir desculpas quando tropeçou em mim, já que ninguém faz isso, e também por ter me trazido até aqui, coisa que nunca ia acontecer.
– Sim, tudo isso é pelo mesmo motivo.
– E eu poderia saber qual o motivo das suas maluquices moça?
– Pode me chamar de Ayumi se quiser – respondeu em uma indireta.
– E eu poderia saber qual o motivo das suas maluquices Ayumi? – corrigiu.
Kiyota respirou fundo, a respiração ainda trêmula, e começou a contar tudo. Se George fosse acreditar ou não, isso seria outra coisa.
Ayumi Kiyota era evidentemente filha de Japoneses, Akiko e Jin. Certo dia, um homem milionário comprou uma gigantesca área florestal do governo onde seria construído um shopping de última geração. Diversas pessoas sentiram-se indignadas com a tamanha burrada que o homem milionário faria o que acabou gerando um protesto contra a destruição da floresta. Defensores da natureza, civis comuns e diversas pessoas uniram-se na causa, dentre eles, estava a bióloga Akiko Nagai. Os protestos duraram dias e noites seguidas. Multidões dormiam no topo as árvores e vagavam de um lado pelo outro entre a densa floresta. Ferozes brigas aconteciam entre defensores e policiais com suas balas de borracha e bombas de fumaça. Pessoas feridas e muito caos, dia após dia. Os protestos contra a derrubada da floresta gerou polêmica em grande parte do mundo, logo, ganhando o nome de caso Verde. No grupo dos policiais e seguranças estava o policial Jin Kiyota. Jin não se importava com as árvores ou natureza, pois defendia a tecnologia do século XXIV, acreditando ser a salvação do planeta. Entre toda a guerra e violência, Jin confrontou-se diversas vezes com Akiko Nagai. Os ataques acabaram aproximando-os de alguma forma, e logo, surgira o amor entre os dois. Jin acabou mudando de time e passou a ajudar Akiko e todo o grupo defensor. Tudo isso porque amava a bióloga. O caso Verde fora encerrado com a perda dos defensores. A floresta foi derrubada e o shopping construído. Revoltado com tudo que aconteceu, Jin abandonou seu posto de policial e formou-se em biologia, passando a ajudar e trabalhar ao lado de Akiko.
Cinco anos após o desastroso caso Verde, Akiko e Jin foram convidados a participar de um projeto secreto, organizado por alguns países do planeta. Chamado de projeto Nascente, visava construir um novo mundo em um planeta descoberto, com condições parecidas com a Terra. Este planeta era a Macronesia, situado a cem mil anos luz da Terra. Embora muitos viviam suas vidas normalmente, o grupo do Nascente sabiam que a Terra estava morrendo. Akiko e Jin aceitaram a proposta, acreditando que recomeçar em um novo mundo, em Macronesia, poderia ser a última solução para a sobrevivência humana e da natureza.
Akiko casou-se e engravidou de Jin, mas mantinham-se firmes no projeto Nascente. Então tiveram sua primeira e única filha: Ayumi Kiyota. Akiko instruiu a filha desde a infância a seguir a mesa carreira de bióloga. Ensinou-a tudo que sabia, e explicou detalhadamente sobre a proposta do Nascente. E após anos e anos de trabalho, Akiko e Jin faleceram de causas naturais, e Ayumi substituiu seus pais no projeto Nascente. Lumus, a primeira cidade da Macronesia foi construída, e os seres humanos devidamente selecionados, que iriam viajar e levar consigo diversas plantas e animais, e fazer uma vida nova e correta em Macronesia.
– Estou feliz porque consegui terminar o que meus pais ajudaram a construir, e porque teremos finalmente uma vida nova e digna em outro planeta. Mas estou tão triste com tudo isso porque nada disto aqui vai existir mais. Consegui parar diversos homens de poder com suas destruições, consegui prolongar a vida da Terra. Mas com a revelação do projeto Nascente ao mundo, todos começaram a desperdiçar e desmatar, acreditando fielmente que todos nós seremos levados para Lumus, na Macronesia, o que é uma grande mentira. No fim, nada adiantou. O projeto Nascente terminou, a Terra está fadada a morrer, e sou basicamente uma inútil agora. Sinto falta de quando eu comandava o jogo. Sinto falta de quando eu costumava jogar os dados...
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