Terra Sombria
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo 1
Incoerências
São Paulo, sete horas da manhã, acordo assustado. Vou me arrumar, mais um dia de trabalho. Trabalho no Banco do Brasil, no Villa Lobos. Saio de casa às oito horas, e vou direto a padaria, para comer meu lanche de sempre: pão de queijo e Nescau. Delicioso, simples, e nutritivo o suficiente para um café da manhã. E, mais uma vez, esses papos de dois mil e doze, pois estamos neste ano, em novembro. Dois homens, ambos de terno, um ruivo e outro loiro, falando do mesmo assunto:
- Matias rapaz, deixa de viajar cara, isso é só mais um dos vários \"fins de mundos\" que existe por aí, se o mundo fosse acabar, teríamos uma prova concreta- Falava o loiro.
- Não cara, sabe, não era onda de catástrofe natural ou anticristo, era uma confusão: pessoas corriam de pessoas, acho que com facas, porque só atacavam de perto, elas, na maioria, ensanguentadas. E... — Acabei meu lanche e fui-me embora.
No caminho, vou pensando no que o ruivo disse, imaginando como ele teria dito. Não era fácil, pois eu peguei pouco da conversa dele. Quando já me dei conta, estou no Villa Lobos, então sigo para o banco. Trabalho até o intervalo para o almoço, e vou procurar onde comer no shopping. Fui comer sushi, como ontem. De repente, algo atrapalha minha refeição: gritos de socorro, de \"Eu estou sendo perseguido!\". Acabo logo o sushi e olho para baixo, para ver o que acontecia. E lá estava uma pequena confusão: um homem corria rápido, perseguindo outro. Não, na verdade eram três caras, todos corriam rápido. O perseguido era negro, e usava camisa azul, que o destacava no meio das pessoas. Ele parou e resolveu enfrentar os três caras, começando pelo primeiro: ele da um soco na cara dele, que volta para trás num baque. Antes que o homem consiga se virar, os outros dois pulam nele, e, se minha visão não me engana, eles estavam mordendo o homem. O homem, que estava aos berros, começou a sangrar muito. Não era uma cena bonita, mais era algo que atraia atenção. De repente, um barulho alto me assustou: na mesa ao lado, uma mulher atacou um homem gordo, e mordia seu pescoço. Quando olhei mais para frente, vi várias pessoas correndo e uivando gritos congelantes, correndo em varias direções. Alguns viam para cá. Eu já tinha sacado mais ou menos o que se passava. Quando ia correr, meu telefone toca:
- André, onde tu ta? — A voz da Alessandra, minha namorada, estava desesperada.
- To no Villa Lobos, Alessandra.
- Pois vai pro estacionamento e não pergunta o porquê!
Entendido, capitão. Fui correndo para o estacionamento, enquanto tiros já estavam acontecendo. Assim que cheguei lá, silêncio. Três passos longe do elevador, ouvi um grunhido e senti algo bem pesado caindo sobre mim: era um cara gordo, careca, muito ferido. Ele tentou morder meu braço, e quase ia conseguindo, se não fosse um chute certeiro em suas costelas. Pude me levantar e dar mais três chutes na cara dele, até ele apagar. Mais grunhidos, pois o ataque chamou muita atenção. Vou correndo pelos carros, sem sequer olhar para trás. Perto da porta, olho para trás e vejo quatro ou cinco pessoas ensanguentadas e feridas vindo na minha direção. Vejo então um carro preto derrapando na entrada: Alessandra. Quando estava indo para o carro, a minha sorte do dia, um grupo vinha do outro lado, impossibilitando minha chegada ao carro. Tento correr no sentido contrário a entrada, mais vinham pelo menos um quinze contra mim, então entrei em conflito. Todos berrando como monstros. De repente, algo que, não sei se me alivio ou me aperreio: tiros. Viam do carro de minha namorada, disparando contra o grupo que me impediu de chegar a ela. Tiros certeiros, todos caídos. Corri para o carro como se fosse um foguete, e assim que abri a porta, ela já acelerou. Bem na entrada apareceram mais desses \"bichos\". Ela atropelou sem piedade, provocando uma saída de cinema. Assim que saímos do shopping, vimos o caos real: pessoas cruzavam a rua correndo desses monstros, corpos se estendiam no chão e carros apareciam desgovernados, geralmente batendo em obstáculos materiais, humanos ou \"monstruosos\". Eu perguntei:
-Que diabos é isso?
- Amor, prepare-se para encarar um novo mundo. — disse em tom severo.
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