Terra Das Sombras

1 Bem vindo a terra dos mortos


Notas iniciais
Boa leitura :) e deixem reviews'

Escuro.

Era a palavra perfeita para descrever o lugar em que eu estava.

Mas e a palavra para descrever o que eu estava sentindo?

Bem, essa era fácil: Medo.

O medo era a única coisa impossível de não sentir quando se estava nesse lugar sombrio.

Sombrio.

Isso mesmo, sombrio... Porque a única coisa que eu conseguia enxergar ali além do chão, que estranhamente irradiava uma fraca luz dourada, eram as almas.

Mas espere um momento... Almas?

Sim, almas.

Pessoas que morreram, deixaram algo pendente na terra e ficaram presas ali, naquele lugar escuro, sombrio, frio e completamente, irrevogavelmente, sem vida.

Mas a pergunta a se estar sendo feita não é o que eu estou sentindo, muito menos o que as coisas eram, mas sim como eu posso estar conseguindo vê-las, não? As almas?

Bem, isso é algo que nem eu sei explicar direito.

Só sei que é a coisa que me acompanha desde pequena, desde a primeira vez que vi um fantasma, que por acaso era a minha avó. Mas ela não era a única. Pessoas que eu nunca tinha visto antes começaram a procurar-me incessantemente, pedindo ajuda, atravessando paredes, fazendo espelhos quebrarem... Elas eram tão parecidas com alguém vivo, que a princípio quase não notava diferença, a não ser, claro, pela luz prateada que os rodeava; essa era a única coisa que fazia com que eu soubesse que essas pessoas não eram normais. E é a única coisa que faz com que nós, os mediadores, consigamos diferenciar quem ainda está vivo de quem já deixou de viver.

Desde então eu vejo-as sempre, sempre mesmo, não havendo um único dia sequer que alguma delas não viesse ao meu encontro.

Porém, na terra, elas nunca andavam juntas, nunca em grupo, nunca em grande quantidade. Eram sempre individuais, sempre sozinhas, sempre disputando mediadores.

Nunca juntas.

Nunca em multidões.

E era isso que fazia-me temer esse lugar neblinado mais que qualquer lugar na terra, pois, diferente de qualquer lugar no mundo real, elas (as almas) tomavam conta de quase tudo.

Aqui, eram como milhares de formigas correndo para seu refúgio, de um lado para o outro, passando por mim como se eu simplesmente não existisse.

Mas o que havia de realmente estranho nesse lugar, além, claro, da grande quantidade de mortos, é que eu simplesmente não conseguia, por mais que tentasse, enxergá-las direito. Eu deveria estar vendo-as nitidamente, não apenas borrões, passando do meu lado como vultos e deixando-me a beira da loucura com suas vozes como sussurro me pedindo, me implorando na verdade, por socorro.

Quando dava-me conta disso (de que algo estava errado), sempre nesse momento, que eu me punha a andar.

Andar sem rumo, sem direção, sem saber para onde ou até onde iria. Só sabendo que queria andar para qualquer lugar bem longe dali, para qualquer lugar o mais longe possível desse, que era barulhento e escuro.

Andava, andava, andava e nada de chegar ao fim daquilo.

Andava e começava a achar que seria impossível, que parecia não estar saindo do lugar.

Andava como se minha vida dependesse daquilo, como se meu mundo fosse desmoronar se continuasse nesse lugar por mais um segundo sequer.

E nesse momento, quando estava tomada pelo pânico e pelo desespero, que eu me punha a correr.

Corria o mais rápido que eu podia, o mais rápido que minhas pernas pudiam alcançar, enfim, o mais rápido que eu aguentaria, afinal, eu sairia daquele lugar a qualquer custo, a qualquer preço!

E, mesmo assim, aquele “corredor” não acabava nunca. Nunca chegava a um fim.

Era assim todas as vezes.

Eu começava a chorar, nunca parando de correr, e quando chegava ao auge do desespero, era engolida pela escuridão.

Porém dessa vez foi diferente.

Quando eu comecei a pensar no quanto eu queria sair dali, do quanto queria isso, porque aquele lugar, e sua escuridão sem fim, me deixavam com um sentimento estranho, com uma vontade enorme e incontrolável de chorar, eu bati com tudo em alguém... Ou algo.

E tudo o que aconteceu depois disso foi muito, muito confuso.

– Você não olha por onde anda, não? – dizia alguém. Sim, porque nesse lugar onde todas as almas passavam por mim como se fossem feitas de fumaça, havia alguém de carne e osso como eu, e esse alguém era lindamente perfeito... E estava pê da vida comigo.

– É... Me des... Desculpa. – disse eu espantada enquanto olhava estupefata para o seu rosto, não só pela sua beleza arrebatadora, mas também por ter encontrado mais alguém aqui que parecesse um ser humano, ou pelo menos um ser humano vivo – Vo-você é... – estava gaguejando, que droga! Odiava ficar nervosa, principalmente na frente de caras bonitões como ele – Bem... Você é um mediador? – perguntei por fim. E vou dizer uma coisa, fiquei surpresa (na verdade mais do que eu já estava) com a expressão que ele fez. Ele me olhou como se eu fosse uma bêbada usando uma roupa de papai Noel em plena páscoa.

– Medi... O que? – perguntou ele com uma expressão confusa e ao mesmo tempo furiosa – Você está maluca, garota? – questionou-me, e desta vez apenas a fúria era evidente em seus lindos e expressáveis olhos ônix. Respirei fundo para não me estressar ou gritar com ele e disse:

– Mediador! – repeti, mas mesmo assim ele pareceu não entender. Já perdendo grande parte da paciência, eu falei – Pessoas que podem ver e falar com os... – mas minha voz ficou no ar, porque ao olhar para ele direito, olhar para seu corpo, eu percebi algo que estava nítido o tempo todo, mas que não poderia ser verdade. Meu Deus, como eu não tinha percebido isso antes? Não tinha como ele ser um mediador, ou um bruxo, ou nada que pudesse estar vivo, porque, bem... Ele estava morto! Mas isso não era possível, não o fato de ele estar morto, mas o fato de eu ter tocado em seu “corpo” e principalmente, por estar conversando com ele neste exato momento. Com a mente a mil, rapidamente obriguei-me a concluir o que falava anteriormente, temendo o que viria a seguir. – Fantasmas – terminei hesitante. E foi nesse exato momento, no exato instante em que ele ouviu a palavra ser proferida por meus lábios, que ele começou a rir, gargalhar na verdade, fazendo eu ficar apenas observando-o, observando esse ser sublimemente belo, rir de mim. Como eu não havia reparado isso antes? Ele tinha a luz que todos os outros fantasmas têm rodeando-o. A luz que chama a nossa atenção logo de cara. Mas a dele era tão, mais tão fraca que quase não consegui reparar, como ficou bastante evidente. Fiquei tão chocada quando constatei não ter percebido isso antes que nem lembrava que ele ainda estava rindo de mim. Olhei-o para a expressão mais blasé que consegui e, vendo isso, ele pareceu conseguir fôlego pra falar.

– Fantasmas? Você É maluca! – e ele voltou a rir como se eu tivesse contado a piada do ano, o que me irritou consideravelmente. Dessa vez eu não ia continuar calada: ele tinha me insultado e disso eu não gosto.

– Em primeiro lugar: eu não sou maluca — comecei falando o que mais havia me irritado — E em segundo lugar: sim. Fantasmas. E por um acaso, você é um deles – terminei sorrindo e notando, para a minha felicidade, que ele agora me olhava com surpresa evidente em sua expressão.

– Você é maluca! – já era a terceira vez que ele falava isso, mas dessa vez não tinha um pingo de humor na sua voz e sim algo que, vou confessar, me deixou satisfeita: Ele estava assustado e posso até arriscar dizer que ele estava com medo também – Como eu posso ser um fantasma se eu estou bem? — desafiou-me a responder com um sugestivo arquear de sobrancelhas — Na verdade, nunca me senti tão bem em toda a minha vida! Quero dizer... Tenho me sentindo um pouco estranho desde hoje de manhã mas... – então ele me olhou – Eu não preciso estar tendo esta conversa com você! Você é louca, como todas as outras pessoas que estão aqui! – ele estava gritando já. Dava pra perceber de forma nítida que ele estava muito nervoso – Afinal de contas, porque eles não param de gemer? Isso me dá nos nervos e é muito irritante – falou olhando para as almas que passavam ininterruptivelmente ao nossos redor, deixando evidente pela primeira vez, mesmo que por breves segundos, o que realmente estava sentindo. E devo confessar que isso instigou meu coração mole de mediadora, fazendo que, quando eu desse por mim, já estivesse respondendo-o educadamente.

– Eles não param de gemer pois, assim como você, eles não aceitam as suas mortes, não querem aceitar que a vida deles acabou – eu disse de forma simples, mas significativa, já que ele me olhou de uma forma diferente.

– Então você quer dizer que eu, Uchiha Sasuke, futuro dono das empresas Uchiha, garoto prodígio da minha escola, chefe do time de futebol americano, enfim, você está dizendo que eu... Morri? – ele perguntou por fim com uma expressão de extremo desgosto. Bem, eu não gosto disso, mas é meu trabalho dizer às pessoas que elas não estão mais entre os vivos, que eles estão vagando pelo mundo, não como humanos, mas como almas penadas, fantasmas. Não era algo fácil de se aceitar, principalmente para os que, como Sasuke, tinham uma vida deveras boa quando vivos.

– Sim, você morreu. E posso arriscar dizer que foi subitamente já que você nem tinha se dado conta da sua morte – disse levianamente. Mas olhando para ele percebi que foi um erro, já que ele me olhou com mais desgosto do que nunca.

– Eu não tinha me dado conta pois, como em qualquer outro dia normal, eu havia acordado para ir para a faculdade, na minha cama, no meu quarto. Como eu poderia sequer desconfiar que eu estaria morto? – ele perguntou me olhando de forma interrogativa, esperando a resposta que ele sabia que eu não tinha.

– De nenhum forma, me desculpe. Deve ser frustrante descobrir que, bem, você teve a sua vida arrancada tão cedo – disse como que para tentar reconfortá-lo, o que eu acho que deu certo já que ele me olhou de uma forma bem mais calma, sem o desgosto ou a fúria de ainda pouco. Vendo isso acabei por dar um pequeno sorriso, o que o fez sorrir também, mesmo que tristemente.

– É... Está sendo ruim, e como você disse, está sendo frustrante – ele disse desfazendo o sorriso – Só que eu vou ter que conviver com isso, não posso mudar o fato de estar morto, certo?

– Não, não pode – disse com a tentativa de parecer compreensível. Ele parecia estar mais calmo com o fato de ter descobrido estar morto.

– Então tudo bem. Obrigada. – falou com os olhos abaixado e com a expressão pensativa.

– Por nada — disse por fim. Já estava virando-me para ir embora quando ele falou:

– Só me responda uma coisa... — parou por um momento como que para reavaliar o que falaria, eu acho, e quando decidiu que falaria, prosseguiu — Foi você que me chamou ainda a pouco? – eu subitamente me virei, não pelo fato de ele ter falado, mas sim pelo susto que eu peguei pela pergunta que ele fez – Porque eu não sei se entendi direito, ou se foi realmente você, mas depois que ouvi uma voz chamando-me, eu vim parar aqui – ele falou com a mão na nuca. E a única coisa que eu pude fazer foi piscar várias vezes para ver se assimilava o que ele havia acabado de falar. Ele ouviu a minha voz?

Como?

– Eu... eu não chamei você — falei embaraçada demais para não gaguejar — Nem sabia quem você era até ainda a pouco – disse tentando me recuperar do susto, e da surpresa. E ele pareceu... Desapontado? Não, não foi isso. Ele pareceu aliviado. Provavelmente porque estava começando a se achar louco por estar escutando vozes.

– Ah... Okay — ele parecia lutando contra emoções fortes, mas, surpreendentemente, não as deixava visíveis para leituras — Prazer em conhecê-la, senhorita... — deixou a lacuna no ar, já que sabia que só eu poderia preenchê-la.

– Sakura, Haruno Sakura – disse por fim. Estava sentindo que algo ia acontecer a qualquer momento, quando, subitamente, tudo começou a clarear vagarosamente.

Olhei uma última vez para Sasuke e notei que sua figura estava começando a embaçar gradativamente.

Quando tudo já estava tomado pela luz cegante, levantei a rosto para aceitá-la de bom grado, e teria sido a última coisa que lembraria do sonho se Sasuke não tivesse sussurrado algo para mim, algo que eu lutei para escutar, porém, que foi perdido pelos meus ouvidos por conta do entorpecimento, que era tanto, que só fui capaz de assimilar uma única palavra no meio das quais ele falou.

Uma palavra que eu conhecia desde sempre, mas que em seus lábios se tornou algo completamente novo: o meu nome.

Sakura...

Escutei antes de o clarão me engolir.

Notas finais
Taa aíi .. ta boa, ruim, ridícula, ótima, maravilhosa? Comentem e nn deixem de nos deixar felizes'