Tequilas
2 Segunda tequila
1
Havia algum tempo que ele não conseguia mais reconhecer seu namorado. E por isso se sentia cada vez mais solitário. Era difícil sorrir sob essas circunstâncias. Tegoshi Yuya era alguém que sorria o tempo todo, não queria preocupar as pessoas a sua volta, mas estava cada vez mais sofrendo ao sorrir.
– Você está bem?
Mesmo de costas, soube de quem se tratava. A voz rouca de Nishikido Ryo era inconfundível. Dessa vez, o sorriso foi mais sincero quando se virou para ver o amigo.
– Estou sim, obrigado por se preocupar Ryo-chan!
Apesar de mostrar uma personalidade mais bruta na frente das câmeras quando está no NEWS, Ryo era uma pessoa muito atenciosa, principalmente com seus amigos e essa era a sua característica que Tegoshi mais apreciava. Por ser mais reservado, Ryo havia esperado por um momento em que estivessem a sós para fazer a pergunta. Ele havia demorado em seu banho, sabendo que Tegoshi também estava enrolando para não pegar carona com Yamapi. E Tegoshi sabia que ele tinha feito isso de propósito.
– Yamapi e você estão bem?
Tegoshi mordeu os lábios. Não podia dizer que sim, mas também não podia negar. As coisas estavam muito confusas e ele não sabia o que responder. Não quis despejar tudo em cima de Ryo e então apenas lhe sorriu.
– Você tá precisando se divertir um pouco.
– O que está dizendo? Eu sempre me divirto! – Tegoshi piscou um olho.
– Então talvez precise um pouco mais de diversão. Estou indo beber com Yoko e Okura, está a fim?
– Anooo...
– Certo, eu vou mudar isso. Nós vamos beber com Yoko e Okura. – ele afirmou e o puxou pelo pulso para fora do vestiário.
Tegoshi apenas riu e se deixou levar. Precisava mesmo se distrair.
2
A casa estava lotada de pessoas famosas, Tegoshi e Ryo cumprimentaram alguns ex-colegas de doramas que encontraram até chegarem a mesa em que estavam os integrantes do Kanjani 8.
– Vou pegar algo para beber, o que quer pedir?
– Vodka com suco.
Ryo sorriu de canto com o pedido de Tegoshi, o mais novo gostava de beber essas coisas açucaradas. Ele se afastou em direção ao balcão, enquanto Tegoshi puxava uma cadeira ao lado de Yoko.
– Ahhh, eu estou mesmo triste com isso. – dizia Yoko, enquanto batia o copo de cerveja na mesa – É uma pena que Akakame tenham mesmo terminado.
Yoko era um entusiasta de Akakame, Tegoshi sabia disso. O rapaz sempre que podia falava algo sobre o casal na frente das câmeras, adorando provocar as iniciais do KAT-TUN, mas a mídia e o público apenas consideravam suas palavras como fanservices. E nos bastidores, Yoko era tão devoto quanto. Muitas vezes ele intermediou as brigas intermináveis de Akame e se eles permaneceram juntos por tanto tempo, muito se devia aos conselhos de Yoko tanto para Akanishi quanto para Kamenashi.
– O que você está dizendo? Daqui duas semanas eles voltam. – Okura afirmou.
– Eu também acho. – Tegoshi opinou – Mas sério, o Kame merece alguém melhor!
– Não fale assim do Bakanishi, não existe ninguém melhor para o Kame do que ele! – Yoko afirmou, sacudindo a cabeça.
Tegoshi notou que o amigo já estava ligeiramente embriagado e sorriu, seria uma discussão inútil mesmo se ele estivesse sóbrio.
– Em todo caso, porque você está tão triste assim? Eles vão voltar. – Tego sacudiu os ombros.
– Desta vez é definitivo. Kamenashi estava com Koki hoje.
– EHHHHHH? – Okura e Tego não podiam ter ficado mais surpresos.
– Um pouco antes de você chegar, Tego, eles foram embora juntos.
– Isso não significa nada! – Okura riu.
– Isso não, mas cinco minutos antes eles estavam se agarrando ali, naquele canto! Eu já estava quase indo lá colocar um pouco de juízo neles, mas eles foram embora... Certamente para terminar o que começaram.
Okura concordou e Tegoshi sorriu dizendo que Koki certamente faria Kamenashi feliz, comentário que rendeu uma careta por parte de Yokoyama, que voltou a resmungar sobre o fim de Akakame.
Pouco depois Ryo voltou com as bebidas. As horas que se passaram foram agradáveis para Tegoshi. Riu bastante ao lado dos amigos e conseguiu distrair sua mente. Um pouco mais calmo, ele sentia falta de Yamapi. Decidiu ligar para o namorado, talvez ele quisesse dar um pulo até ali.
Afastou-se para um canto mais tranqüilo e fez a ligação. Era um pouco tarde, já passava da meia noite e talvez ele estivesse dormindo, mas, sob o efeito do álcool que fazia aquela saudade começar a crescer cada vez mais, até ele sentir uma necessidade incontrolável de ver Yamapi.
A voz sem emoção que o atendeu amenizou um pouco a sua ansiedade.
– Yamapi?
– Yo.
– Desculpa te ligar essa hora... Estava dormindo?
– Não... Ainda ando com insônia.
– Ehhh... Você devia procurar um médico e pedir algo pra isso. Estamos em um período com muito trabalho.
– Farei isso. Você me ligou para...?
– Senti saudades! – Tegoshi sempre foi sincero e dizia seus sentimentos sem qualquer problema, mas sabia que Yamapi era diferente e que estava envergonhado naquele momento, por isso ele logo emendou: – Não quer vir até o Clube H?
– Quem está por aí?
– Não basta eu? – ele se enfezou.
– Não foi isso o que eu disse.
– Bem, Ryo-chan, Yoko e Okura.
– Hum... É que eu estou com um pouco de dor de cabeça.
– É porque Akanishi não está aqui, certo?
– Que merda você está falando?
– Pi, você está muito estranho desde que ele foi para os Estados Unidos.
– Isso não tem nada a ver com ele. Jin já voltou há algum tempo e pelo seu raciocínio torto, eu deveria ficar bem por isso, certo? Mas eu não estou nada bem.
– Então me deixe te ajudar...
–... Talvez isso não tenha mais jeito.
Um silêncio perturbador antes daquelas palavras que, ao invés de consolar, apenas aumentou a ferida de Tegoshi.
– Gomen nasai.
Tão formal. E em seguida ele encerrou a ligação, mas Tegoshi ainda manteve o aparelho em sua orelha. O que Yamapi estava querendo realmente lhe dizer com isso? Seus olhos transbordaram quando ele cogitou algumas hipóteses e teria desabado ali no chão se não fosse amparado por Ryo.
Tegoshi não sabia de onde ele havia surgido, mas havia sido na hora certa. Ryo viu com aflição os olhos de Tego se espremerem por causa do choro. Ele não queria chorar, mas isso apenas fez aumentar as lágrimas. Ele ainda se segurava com uma mão em um dos braços de Ryo e passou o outro braço sobre os olhos, limpando as lágrimas.
Aquela cena cortou o coração de Ryo, que não precisou perguntar para entender o que tinha acontecido. A tristeza em Tegoshi havia se tornado uma constância e isso era um grande pecado. Aquele rapaz não devia parar nunca de sorrir, pensava Ryo, porque o seu sorriso era o mais bonito em todo o mundo.
Com um gesto suave, ele afastou uma mecha do cabelo de Tegoshi para atrás de sua orelha e ergueu o seu queixo. Tegoshi o olhou tão fragilizado que apertou ainda mais o coração de Ryo.
– Venha, eu disse que você se divertiria esta noite.
Ryo o guiou até o balcão e Tegoshi, magoado e levemente influenciado pelo álcool consumido, não ofereceu resistência. Estava curioso em descobrir aquilo que seu inconsciente e seu corpo, já haviam percebido pelos olhares trocados com Ryo durante muito tempo, pela voz embargada dele contendo um sentimento em diversos momentos, pelos dedos impedindo a mão de um gesto mais ousado, do suspiro arrependido ao invés de palavras que pensou em dizer...
Tegoshi o viu fazer o pedido. Duas tequilas. Tomaram ao mesmo tempo e um pouco escorreu pelo canto dos lábios de Tego, afoito em saciar a sua sede. Era a primeira vez que tomava aquela bebida. Nunca teve muito interesse nela. Ele gostava sim de bebidas doces. Para ele não fazia muito sentido você forçar seu paladar a consumir algo que não lhe agrada apenas para se embriagar. Porque não aproveitar um bom sabor além de se embriagar? E para ele as coisas doces eram as mais saborosas no mundo inteiro.
Aquela noite, porém, ele descobriu o motivo das bebidas amargas. O gosto forte impedia qualquer dor de se manifestar. E isso era muito bom. Sentir-se bem.
Olhou para Ryo e o descobriu lhe admirando. Sorriram e voltaram a beber mais.
Por alguma razão inexplicável, Tegoshi realmente sentia sua tristeza diminuir. Seus movimentos já estavam lentos, talvez a sua dor também estivesse embriagada e havia se esquecido dele, ouvia vagamente as coisas a sua volta e só enxergava Ryo a sua frente. Seu rosto estava muito atraente naquela noite e seu sorriso era muito reconfortante.
Estavam rindo e ele não conseguia se lembrar do motivo, isso também não importava. Bastava aquele sentimento bom que desfrutava agora. Sentia-se leve, sentia-se bem.
3
– Vamos pedir um táxi.
Tegoshi sacudiu a cabeça, negando, enquanto seus cabelos eram jogados para o lado pelo vento razoavelmente forte na rua. Suas bochechas estavam coradas pelo álcool e o inicio de seu pescoço também. Ele recusou a oferta de Ryo, sabia que ambos estavam bêbados demais para dirigirem, mas também não queria ir de carro. Queria ir a pé.
Eles conversavam tranquilamente, era madrugada e as ruas estavam praticamente desertas. Tegoshi começou a andar, para longe da vista dos seguranças da boate em que estavam, enquanto Ryo o seguia.
– Mas estamos muito longe! – Ryo argumentou, mostrando um mínimo de sobriedade.
– Tudo bem, eu não me importo de caminhar o quanto for. – ele disse, parando de repente, quando já não podiam mais ser vistos e quando já não existiam mais testemunhas. – Porque Ryo-chan vai caminhar comigo, não vai? – Tego fez o pedido enquanto enrolava o braço de Ryo com o seu, entregando-se a ele.
– Eu sempre estarei ao seu lado. – foi a resposta que conseguiu dizer e que deixou o menor feliz. – Como tenho feito até hoje.
O que recebeu como resposta foi aquele sorriso que ele tanto gostava. Ryo sentiu seu rosto arder e sabia que já não poderia mais ser efeito da bebida. Ele segurou o queixo de Tego com seu indicador e polegar e então o beijou.
O beijo tinha gosto de álcool e traição. Tegoshi fechou seus olhos e deixou algumas lágrimas escorrerem, mas não fez nenhum gesto para impedi-lo. O beijo foi lento e cuidadoso, Ryo fazia questão de sentir cada partícula de gosto daqueles lábios sem ferir ainda mais o rapaz em seus braços. Escorreu seus dedos do queixo para o pescoço, procurando um caminho entre o cachecol para chegar à pele dele.
Ryo sentiu as mãos de Tegoshi agarrados a sua blusa. Novamente, ele estava agarrado a ele, segurando-se como as crianças amedrontadas fazem com a barra da saia das mães. Era um pedido de ajuda e, desta vez, Ryo não ia ignorá-lo.
Então uma forte luz caiu sobre o casal. Ryo foi o primeiro a notar o que acontecia e virou seu rosto na direção do veículo, parado próximo e eles. Tegoshi abriu os olhos e piscou algumas vezes. Teve dificuldades para entender o que estava acontecendo e, então, ele viu aquele carro.
O carro de Yamapi.
E Tegoshi soube que o fim havia chegado.
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