Tequilas

1 Primeira tequila


1

– Kazu... Você vai ficar bem?

A pergunta de Tanaka Koki ficou perdida no ar. O rapaz a quem ela foi dirigia apenas seguiu seu caminho com passos lentos, era doloroso prosseguir, porque ele sabia que agora era definitivo. Kamenashi Kazuya sabia que a cada passo que dava, mais se afastava daquele quem foi o seu primeiro amor.

– Kazu.

Trilhando esse caminho, como conseguiria ouvir a voz de seu melhor amigo? Sofria a cada centímetro que andava, a saudade o sufocava e a humilhação o esmagava. Tolo. Podia esperar ainda alguma coisa de Akanishi Jin? Se era a segunda vez que ele o abandonava por uma amante que Kamenashi jamais vai conseguir superar: América. Era incrível como os olhos de Jin cegavam para tudo que não fosse aquele país horrível cheio de coisas e pessoas que o afastavam dele.

Kazuya lutou. Lutou e lutou. E, no final, havia perdido mais uma vez. Não tinha jeito, era o fim. Ainda segurava o recado que Koki lhe trouxera. Uma carta, uma mísera carta em poucas linhas escritas de qualquer jeito e o idiota nem ao menos teve coragem ou dignidade de conversar cara a cara com ele. Chega. Esta foi a última humilhação que sofria daquele homem.

Ele sentiu o calor das mãos de Koki segurando a sua. Virou-se, dessa vez era impossível ignorá-lo. Koki lhe sorria e sua voz transmitia compreensão quando lhe fez a sugestão:

– Vamos beber.

A bebida era algo sedutor naquele momento. Esquecer, ele estava precisando disso. A bebida o ajudava a esquecer e a se entregar a curtos, porém intenso, momentos de prazer. Trazia aquele calor que conseguia substituir a falta de Jin e o levava até aquela terra tão almejada, aquele mundo onde seu coração não estava tão ferido. Um mundo em que era possível encontrar a felicidade, ainda que efêmera, e se entregar às mãos desconhecidas e voluptuosas.

Sabia que estava exagerando no último ano, mas marcas das noitadas e bebedeiras estavam visíveis em seus rostos e chegou a causar alguns comentários entre os fãs, mas ele não poderia ter sido tão forte na frente das câmeras se não fosse pelo sakê. Não teria suportado todos os noticiários concentrados na saída oficial de Akanishi Jin do KAT-TUN. Nem o sucesso dele nos Estados Unidos, e muito menos a ruína de seu relacionamento.

– Sim, vamos beber. – concordou.

2

A tequila era a bebida preferida de Jin. Nunca soube o motivo, mas o ex-namorado até mesmo a escolheu para o seu solo Love Juice. Até mesmo a bebida tinha que ser estrangeira para ele. Tudo, absolutamente tudo deveria ser ocidental. Era óbvio que ele não levaria um namoro com um japonês para sempre e era até mesmo incrível que eles tenham ficado juntos durante sete anos. Sete anos, ignorando os intervalos de rompimento, mas foram sete anos desde que trocaram o primeiro beijo.

Estava ainda no primeiro estágio da embriaguez: a depressão. O início era sempre doloroso porque sua mente ainda estava consciente para lhe trazer lembranças tristes. Sabia que se deixasse, sua mente vaguearia pelo passado, recordando-se de cada gesto, cada olhar, cada palavra, cada sorriso, cada sexo trocado entre eles. E isso ele não queria, não queria lembrar, queria esquecer. E se afogaria naquela maldita bebida favorita dele. Virou o copo sobre seus lábios pintados de sal e depois chupou o limão. Mal terminou de engolir e pediu mais uma dose. Precisava ir logo para o segundo estágio.

Ao lado de Kazuya, Koki tomava uma long neck alemã e olhava para o amigo se enterrando na bebida. Normalmente, tentaria impedi-lo, mas não nesta noite em que sabia que ele estava em frangalhos. Doía-lhe muito ver Kazuya neste estado, sentia raiva de Jin por muitas vezes deixá-lo em segundo plano, priorizando sempre suas vontades e esquecendo os sonhos de Kame com muita facilidade. Jin não o merecia, jamais o mereceu. E por esta razão, Koki apenas observou enquanto ele perdia cada vez mais a sobriedade.

Estavam em uma sala reservada da boate, mas então Kamenashi quis dançar. E este era o sinal do segundo estágio. O álcool começava a dar sinal em suas ações. As maçãs do rosto já estavam avermelhadas, assim como o começo de seu pescoço, Koki podia enxergar porque o outro vestia aquela camiseta com um decote generoso que deixava à vista o início de sua clavícula. A camiseta preferida de Jin. Tanto para vesti-la quanto quando Kamenashi a vestia. E Koki podia compreender o motivo.

Era um local visitado por famosos, então não teriam problemas em irem até a pista. Ainda assim, Koki tratou de colocar uma touca em Kamenashi e recomendou-lhe usar os óculos quadrados. Kame aceitou, só queria ir logo para a pista. No caminho, pegou uma cerveja no balcão.

Kamenashi o levou para próximo do som. Gostava daquele lugar, era como nos shows, ele sentia o chão tremer, sentia a música invadindo seu corpo através dos poros, a música estava dentro de si e fazia sua pele pulsar. Seu corpo logo se rendia aquele ritmo e seu quadril era jogado de um lado a outro, seu pescoço, girado, suas mãos percorriam o próprio tórax.

Koki não podia fazer nada mais além de olhar. Não estava mesmo a fim de dançar, poderia ficar ali até o final dos tempos, olhando, admirando, deliciando-se e, o principal, impedindo qualquer pessoa que não fosse ele de se aproximar de Kazuya.

O caçula já não prestava atenção à sua volta. Apenas sentia seu corpo esquentar em uma velocidade incrível. A fumaça da pista começava a afetar a sua respiração, o suor começava a transbordar debaixo da touca, escorrendo pelo rosto e alcançando aquele pescoço alvo e tentador. Jogou a cabeça para trás, sentindo cada vez mais a música em si.

Ainda não era suficiente. O sorriso de Jin ainda lhe vinha à mente. Virou a garrafa e tomou um grande gole. Precisava esquentar mais, precisava explodir. Precisava de sexo.

E o terceiro estágio... Começou.

Terminou a long neck em mais dois longos goles e a deixou sobre uma mesa próxima e caminhou até Koki, encarando-o, fitando principalmente sua boca.

–Você quer.

Koki não respondeu nada.

– Eu sei que quer. Sempre quis. – Kamenashi virou o rosto para o lado, falava vagarosamente, era claro que já estava embriagado e, ainda assim, continuava sedutor. Piscou lentamente e voltou a olhar Koki. – Você sempre tentou esconder, mas seus olhos sempre falharam... Eu sei que você sempre me olhou com desejo. Sempre quis me tocar. – ele disse isso e segurou a mão de Koki e, com a outra, abaixou o próprio zíper, trazendo a mão dele para dentro, deixando-o brincar com seu sexo.

Koki não dizia nada, mantinha o olhar fixo em Kazuya. Não pode negar aquele desejo que explodiu quando o caçula fechou os olhos e lambeu o lábio inferior demonstrando sentir um grande prazer com os dedos de Koki.

– Me leva para um lugar mais tranqüilo... E faça o que quiser...

Os olhos de Kamenashi estavam levemente abertos, fitando-o divertido, e seu sorriso era de canto e desafiador. Como Koki poderia resistir?

Em um súbito movimento, agarrou-o pela cintura com a sua outra mão disponível e o prensou contra seu peito. Ainda olhou uma última vez aquelas orbes cheias de desejo e embriaguez antes de beijá-lo com avidez. Subiu sua mão pela costela dele, sentindo o corpo pequeno estremecer e o segurou pela nuca. A outra mão continuava o que Kamenashi havia iniciado. Koki sabia que não poderiam fazer ali, mas esse era o preço que Kazuya pagaria por tê-lo provocado.

Kazuya não se importava com aquele castigo. Na verdade, era o que ele precisava. Sua mente estava totalmente fora de seu controle, apenas tinha consciência das respostas de seu corpo às carícias de Koki e as mãos experientes e confiantes o tocavam com uma destreza impressionante. E o que dizer do beijo? Forte, seguro, voluptuoso.

Kazuya estava perdido. E agradecia a Koki por isso.

3

Aquela era sem dúvida a visão mais bonita em todo o mundo. Kamenashi dormia de barriga, com uma mão fechada próxima ao rosto, os cabelos ainda estavam mais curto do que ele costumava usar, mas a parte de trás já atingia a nuca e a franja lhe cobria parcialmente o rosto. Suas costas estavam nuas, o lençol enrolava-se em suas pernas como uma serpente, escondendo as partes mais cobiçadas pelo rapper. E completava o quadro aquele sorriso satisfeito. Kame dormia tranquilamente, sem lembranças tristes, sem a imagem de Jin para perturbá-lo.

Koki afastou a franja, colocou-a suavemente atrás da orelha dele e deslizou seus dedos pela face macia. Kamenashi resmungou qualquer coisa, mas não despertou, e aquele momento foi bastante gracioso na visão do amante. Aquilo deu a certeza a Koki de que fazia o que era certo. Não permitiria mais que Jin machucasse Kamenashi. Protegeria aquele sorriso com todas as suas forças e não se importaria em fazer o que fosse preciso.

Assim que se decidiu, seu celular vibrou na cômoda ao lado da cama. Pegou o aparelho e, pelo visor, pensou que não poderia ser mais providencial. Levantou-se da cama e saiu do quarto usando apenas a sua cueca boxer. Fechou a porta e foi para a sua sala. Atendeu.

– Hey, Jin.

– Koki! Koki seu degraçado, eu te liguei a noite toda, onde diabos você estava?

–... Acho que você não gostaria de saber!

– Dane-se também. Me diga, vamos, diga logo. Você entregou meu recado ao Kame?

Koki respirou fundo e foi até o seu armário. Abriu uma gaveta e pegou aquela carta ainda lacrada.

– Entreguei.

Houve um momento de silêncio e se Koki bem conhecia Jin ele estava mordendo os lábios, ansioso. Agora prendia a respiração e, por último, voltava a falar.

– E o que ele disse?

Aquela voz infantil sempre despertou em Koki, e em quase todos que conheciam Jin, a vontade de embalá-lo como a uma criança. Jin era egoísta, atrapalhado e irresponsável, mas não era uma pessoa ruim. Mas era uma mistura perigosa para aquele que detinha o amor de Kamenashi. Jin não podia fazer sempre o que queria se realmente amasse Kazuya. E Jin jamais abriu mãos de seus sonhos, então agora Koki também não abriria mão do seu.

– Ele disse que sente muito, mas o tempo de vocês já passou. A sua saída do grupo foi a última gota d’água. Ele deseja sorte e sucesso a você, mas seus caminhos são em direções diferentes agora. – ele hesitou ao escutar um soluço. – Ele não quer mais nada com você, Jin. Eu sinto muito.

– Eu... Eu... Eu preciso falar com ele. Que droga, nós precisamos conversar cara a cara. Porque ele não quer me encontrar? Diga a ele para ser decente comigo e terminar na minha cara nosso relacionamento. Não posso aceitar que seja dessa forma.

– Jin, eu também acho que vocês deveriam conversar, mas... Será que uma única vez você não pode atender a vontade dele?

– O que você está dizendo?

– Jin, ele te amou muito, mas nos últimos dois anos... Que tipo de relacionamento vocês mantinham? Já não era mais amor. Me desculpe por dizer isso, mas era somente ilusão. Aceite Jin... E se quer realmente que ele seja feliz, deixe-o seguir seu caminho.

– Mas... Ele sabe, Koki?

– O que?

– Ele realmente leu a minha carta?

Koki percebeu que precisava ser mais cauteloso.

– A exatamente o que você se refere? Eu não li sua carta, mas o Kame sim.

–... Johnny-san me obrigou a fazer uma escolha. E eu escolhi o Kame. Vou construir minha carreira aonde não possa mais atrapalhar o KAT-TUN. Teríamos que nos ver menos, é verdade, mas pelo menos poderíamos continuar juntos... Porque ele não pode aceitar isso?

E aquela era a intensidade do sentimento de Akanishi, afinal. E como sempre, ele agiu a seu modo. Com sua força bruta, construiu uma nova carreira. Iniciava um trabalho no exterior. Akanishi era incrível, não poderia esperar menos dele. Ainda assim, acreditava que o ex-companheiro de banda só poderia trazer mais dor a Kamenashi.

– Eu sinto muito, Jin. Eu não sei responder isso. Mas essa é a decisão dele. Você não o consultou ao fazer isso, não espere que ele te consulte para tomar a sua decisão. Escuta, Jin... Concentre-se em seu trabalho e dê o seu melhor. Sei que vai vencer. Bye, bye.

Koki encerrou a ligação. Fitou o aparelho por muito tempo.

Era melhor assim.