TenteEntender
2 Diana
Notas iniciais
Eram exatamente nove horas e quinze minutos da manhã e eu já estava correndo pelo campus da universidade. A primeira aula do dia já tinha acabado e eu estava correndo o máximo que podia para conseguir chegar a tempo da segunda. Tenho um grande histórico de atrasos desde o começo do ano, estamos em maio e não acostumei a acordar cedo o suficiente para pegar a primeira aula.
A minha professora de letras, senhora Jenecí, disse-me que se continuar assim terei que pagar a matéria dela várias e várias vezes durante o curso de Jornalismo. Coisa que não pretendo nem um pouco.
O que mais quero no momento é me livrar daquela mulher, mal amada e que sofre de falta de sexo diário.
O corredor para as salas de aulas estavam abarrotados de alunos cortando caminho por entre eles. Uma correria só, as cores da universidade, vermelha e azul, ressaltavam o local fazendo parecer com que a agitação estivesse mais intensa ainda.
Todo dia era esse mesmo problema, sempre estava correndo, sempre atrasada, sempre barrada por uma multidão de estudantes que assim como eu estavam loucos para entrarem na próxima sala de aula e afundar a cabeça entre os livros e dormir o que não foi dormido noite passada.
Acordar em uma segunda-feira logo depois de uma grande festa no campus é basicamente um enorme sacrifício. Todos pareciam estar de passando por uma ressaca eterna. Passos lentos como zumbis de The Walking Dead.
— Por favor, saiam do caminho só hoje. — Reclamei ainda tentando abrir espaço para passar.
Ana Clara, também conhecida como vaca mestre saía de sua sala de direito quando passei por ela pelo corredor. Aquela dali não media esforços para se passar por uma mulher da vida completa, se for contar com quantas pessoas dessa universidade ela já dormiu, acho que poucos, meninos e meninas, restam para contar a história. Ela joga dos dois lados, o que facilita muito na hora do vamos ver. De acordo com a rádio corredor sua melhor prática era feita a três.
Estava apenas esperando ela me enxergar no meio daquela multidão toda, para soltar seus gritinhos estridentes. Sua voz irritava meus ouvidos. Mesmo não indo muito com a cara dela no começo, passamos a pagar história na mesma sala e sendo colegas de carteiras não tinha como não falar com a criatura de cabelos amarelos.
— Diana!
Meu nome saia com um sotaque estranho da sua boca, ela tinha essa mania de algumas vezes imitar sotaques no país a fora. Bom mesmo era quando ela começava a falar inglês, não importava quem fosse, ela passaria o dia falando daquele jeito. A pessoa entenda ou não.
— De onde é esse agora? — Perguntei enquanto subia as escadas para o próximo andar.
— Rio Grande do Sul. — Afirmou enquanto sorria para alguns garotos.
— Preferia quando estava tentando o inglês.
— Eu também, mas temos que abrangi nossas fronteiras.
Sorriu para uma garota dessa vez, me fazendo revirar o olhar.
Chegamos a sala faltando três minutos para o toque, a classe estava completa, claro que estava. Ninguém em sã consciência perderia uma aula do professor Raimundo de história. Ele parecia mais um foceu vivo, certamente seria colocado em um museu quando batesse as botas, mas suas provas eram simplesmente absurdas, questões criadas pelo próprio que segundo ele tinha vivido o bastante para elaborar provas para crianças que mau saíram das fraldas.
Suas aulas duravam no mínimo duas horas, quando ele não insistia em nos fazer perder o horário para o almoço. Aí sim eram duas aulas seguidas, quatro horas inteiras com a bunda grudada na carteira.
Ana Clara certamente tinha um carma para o chamar atenção da sociedade a sua volta, a criatura não estava satisfeita em apenas conversar comigo durante as duas horas inteiras, ainda queria puxar assunto com os queridinhos da primeira fileira.
— Sério mesmo, Ana Clara, faltam apenas 15 minutos para sairmos daqui. Não nos faça ser expulsas hoje, novamente. — Afundei o rosto entre as mãos, tentando ao máximo não ser notada.
Não que eu não goste da Clara, longe de mim, mas às vezes, quase sempre, ela conseguia me tirar do sério.
O refeitório estava tomado por jovens, com suas bandejas e animações as aulas do período da manhã tinham terminado e o objetivo da massa maior era alimentar o grande monstro existente na barriga de cada um. Pegar minha bandeja foi mais fácil do que costuma ser, normalmente filas são necessárias para esse procedimento, caso contrário aquilo ali vira um verdadeiro circo.
Normalmente, nesse momento Ana Clara e eu nos separamos, cada uma para sua devida mesa. Como a minha era do lado oposto ao dela tive que caminhar o que normalmente caminho até dar de cara com o pessoal com quem normalmente almoço em uma mesa completamente diferente.
— Oi amor.
Gustavo me cumprimentou com um leve selinho, enquanto eu ainda absorvia o fato de não estarmos onde normalmente ficamos. Coloquei a bandeja na mesa vendo a salada balançar com o impacto.
Gustavo estava ali como sempre, Brenda e seu namorado Júlio também, mas ao olhar mais a direita me deparei com um ser estranho habitando meu espaço.
— Ah, esqueci de apresentar. — Gustavo comunicou. — Esse é Victor Sales, meu vizinho de quarto. Ele vai almoçar com a gente agora.
Sorriu enquanto despejava alguns tapas nas costas do amigo.
Victor Sales estava sorrindo o tempo inteiro, um sorriso brincalhão que me fez perceber que também estava sorrindo para o grupo sem muitos motivos aparente.
Mesmo sem entender o que estava acontecendo ali e como Gustavo fazia amizades tão rápido decidi estender a mão para a nova companhia e abrir meu sorriso mais encantador.
Até porque tinha que passar uma boa impressão as visitas, certo?
— Diana Fernandes, Prazer.
Estendi minha mão na sua direção vendo-o segurá-la suave no ar, retribuindo o sorriso ele respondeu.
— O prazer é meu.
Victor Sales seria motivo para muitas gargalhadas e brincadeiras, saídas fora de hora e sem contar muita dor de cabeça. Mas naquele momento ele apenas parecia mais um jovem carismático.
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