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2 Capítulo 2: Ele Sabe Que Sou Eu
"Pode ser qualquer um aqui" Pensei, olhando para os alunos naquela sala de aula.
Não, meu dia não começou aí, é apenas meu velho costume de querer omitir grande parte da história. Tudo bem, do começo.
Acordei ás 6h, com uma disposição tão grande quanto o percurso da minha casa para Long River... Minha ironia continua intacta. Vesti o uniforme branco com listras vermelhas, comi alguma coisa que minha mãe preparou e fui para a escola. Zack e sua mochila vermelha estavam a caminho também, saímos sempre na mesma hora. meu sono me impediu de lembrar da foto logo de início.
Atravessamos a área verde, que no início da manhã era tão bonita quanto o final da tarde. Atravessamos o quadro de avisos, muitas fotos e... A FOTO!
"Zack, Zack! Espere! Antes de irmos pra sala, tenho que te mostrar uma coisa."
Zack esteve calado durante o percurso, talvez meia dúzia de palavras foram ditas. Ele não pareceu empolgado ou apreensivo sobre a "novidade" que eu iria lhe mostrar.
"Zack, ontem aconteceu algo muito estranho no meu computador..." E então contei toda a história. Cada detalhe, cada cena que vi e cada sensação que senti.
"Peter... Como assim?... E... O que você fez?"
Zack estava com medo, eu o conhecia, ele acreditou totalmente naquela história toda. Eu confesso que aquilo tudo, no fundo, está mexendo sim comigo, e aquela expressão de Zack não estava ajudando a me acalmar. Eu ainda não havia mostrado a foto.
"Eu tive que tirar uma foto, você precisa ver aquele site"
Mostrei a foto, e lentamente ele tirou o celular da minha mão. Ele leu, e com uma cara de espanto, ele estava levando aquela história a sério, mais do que eu imaginei que ele fosse levar. Sua voz soou um pouco trêmula:
"E... Você tem ideia do que é isso? Você nem, ao menos, leu as Regras! Você está em perigo, Peter!"
"Você realmente acredita nisso?" Por que eu perguntei dessa forma? Por dentro estou assim como ele.
"Com toda a descrição que você disse, isso parece bem real pra mim!" Sua voz estava num tom de quase desespero.
"Zack, vamos ser realistas..." Pare de falar da boca pra fora, Peter! Não tente se convencer! "Isso deve ser alguma brincadeira muito bem bolada!"
"E se for real? Hein?!"
"Se for real, eu posso manter isso em segredo"
"Ah, ótimo, e os dois morrem!"
Esse fato me assustou um pouco, não me lembrava desse detalhe. Antes de responder a conversa que já estava alterando um pouco nossas vozes, recuei um pouco, eu estava na defensiva. Aquela conversa estava me fazendo acreditar naquilo tudo, ou no mínimo dar seriedade á situação.
*Minha atenção é direcionada para o alarme*
"Tudo bem, Zack, vamos pra sala logo"
Ele não estava bem, estava preocupado comigo, eu me lembro de o ver assim no período do sequestro de sua mãe, sua preocupação com as coisas é explícita. Eu devia me preocupar mais comigo, assim como ele está fazendo.
Entrei na sala de aula, junto com Zack, sentamos nas últimas cadeiras, quase no final. Eu não estava nem um pouco interessado no que ia sair da boca daquele gordo, nojento, que se diz ser meu professor. Minha atenção estava em outro lugar...
"Pode ser qualquer um aqui" Pensei, olhando para os alunos naquela sala de aula.
Não é que não tenha acontecido nada de importante antes disso, eu apenas organizo meus pensamentos de forma diferente. Mas enfim, eu olhava para todos os alunos, todos. E se ele estivesse ali? Será que é da minha sala? E se ele já estiver pesquisando quem é seu oponente? No caso, eu! Eu não posso matar alguém! Ninguém vai acreditar em mim, além de Zack! É matar ou morrer!
Não percebi, mas eu estava com os olhos arregalados, sentado inclinado para frente, quase numa tentativa de posição fetal, o máximo que a cadeira me permitisse. Aquilo chamava atenção, claro. Acalmei-me e relaxei.
"Não pense, não pense, não pense"
O tempo passava devagar. Eu tentei jogar alguma coisa no celular. Zack estava conversando por papel com alguém, queria que fosse comigo, preciso de uma conversa. O professor anotava algumas coisas, e Mark... Oh, sim, Mark, o "valentão", estuda na mesma sala que eu. Sentava até perto de mim, e mexia a aula inteira no seu broche prateado do time de futebol, em forma de uma bola e o emblema de Long River. Seu orgulho. Mas eu tentava evitar contato visual, ele já me bateu algumas vezes, nada evitaria que isso acontecesse de novo.
Mas algo me incomodava, eu estava sendo observado, senti o que eu senti na noite passada. Tive aquela estranha vontade de olhar pra trás para verificar. Queria não ter olhado.
Victor estava me encarando, mas ao olharmos diretamente um para o outro, ele desviou o olhar. Ele parecia nervoso, mexia em suas unhas e estava meio ofegante. Não se sentia bem. Sua história não é uma das melhores, ele era irmão de Ian, o garoto morto a facadas. Não sei se eu já devia ter comentado, mas a culpa não é minha. Victor faz questão de não ser notado, de não existir, viver apenas em seu mundo. Não é á toa que eu disse que sua mãe ficou sozinha depois da morte do filho.
Recuei meu olhar da mesma forma, eu não me sentia bem em saber que ele estava me encarando, mas em instantes ele cumpriria bem seu papel de passar despercebido.
*Novamente o alarme me surpreende*
A próxima aula era no laboratório de ciências, os alunos pegaram parte do seu material e foram para lá. Alguns aproveitavam para perder a aula, e outros iam... Brigar?
"Quem você pensa que é pra me chamar de retardado e otário? Responda! Seu pedacinho de merda!"
Ele estava falando com Zack?! Sim, Mark já bateu em Zack algumas vezes também e estava prestes a bater de novo.
"Otário..."
A boca de Zack teve tempo apenas de dizer essa palavra, a mão de Mark pesou sobre ela. Ele caiu e Mark pisou no punho de Zack. A sala estava vazia, apenas eu, Zack, Mark e seus amigos estavam lá.
Mark sentia o poder, ele gostava de fazer aquilo.
"Você quer mais?!" Disse ele rindo.
Meu melhor amigo estava ali, no chão, com a boca sangrando, eu precisava fazer alguma coisa. Eu acabaria indo ao chão também. Segurei o ombro de Mark.
"Você é, sempre foi um otário, agora solta ele!"
"Não foi uma das minhas melhores frases antes de levar uma surra" Pensei.
Bastou um empurrão para me jogar para longe dali. Bati com as costas na parede, e aquilo doeu, senti como se meu pulmão tivesse sido jogado para frente. Abri os olhos e Mark estava montado e Zack, fechando o punho para mais um ataque. Ele estava de costas para mim, era minha chance. Seus amigos não deram atenção a mim, eles estavam rindo da briga.
"Seu idiota!!!"
Chutei sua costela, aliás, um pouco abaixo da costela, pois não senti seu osso, nem muito menos algo quebrando. Isso o fez sair de cima de Zack e dar um breve grito de dor. Ele se levantou, seus amigos pegaram minhas coisas, minha mochila, tudo, e jogaram no chão.
Zack se levantou, estava com raiva, limpou um pouco de sangue que ainda escorria. Mark foi até as minhas coisas, pisou em alguns livros, pegou minha carteira, tirou algum dinheiro, mexeu mais e mais. Nós estávamos com medo, imóveis, apenas observar era uma opção. Mark deu um sorriso e disse:
"Nunca mais eu quero olhar pra cara de vocês dois."
Veio até mim. Meus músculos se contraíram um pouco, a dor se aproximava, e ele me deu um soco na barriga. Ele e seus amigos foram embora da sala.
"Peter, você está bem?!"
O silêncio foi interrompido por passos correndo para fora da sala. Era Victor. Em momento algum eu notei sua presença ali, ele estava no canto da sala, observou tudo, estava com uma expressão horrível, com medo. Antes de sair da sala me olhou novamente com aquele olhar estranho.
"Peter, responde, você tá bem?"
"Eu que pergunto, você tá sangrando..."
"Cortei o lábio, deve ser um corte feio, mas estou bem."
"Por que diabos você foi insultar o Mark?"
"Ele não pode sair por aí fazendo tudo que vier na cabeça"
"É, e olha aí o resultado..."
A partir desse momento, posso resumir em instantes o que aconteceu. Fomos para a coordenação, ligamos para os nossos pais, aquela "queda" foi feia, tivemos que ir ao hospital. Apenas por preocupação dos nossos pais, mas não havia nada grave. Zack levou dois pontos no lábio. Chegamos ás 21:30h em casa e Zack pediu para dormir na minha casa hoje, ele disse que queria conversar comigo. Sim, o assunto do site martelou minha cabeça enquanto eu ia para o hospital e Zack fez soar que esse era o assunto ao pedir pra dormir na minha casa.
22h. Fechei a porta, liguei o ar condicionado. Meus pais foram dormir.
"Zack, eu sei sobre o que você quer conversar"
Ele estava sentado na cadeira do meu computador, ligou-o e disse:
"Eu quero saber o máximo sobre esse tal jogo, nós precisamos fazer alguma pesquisa, isso não é coisa que se leve na brincadeira!"
Eu concordei. Outra coisa que se passou pela minha cabeça, se Mark fosse meu adversário, ele poderia ter me matado naquela hora mesmo! Eu não era capaz psicologicamente, nem fisicamente, de matar alguém! Eu tenho que ser o primeiro a descobrir quem é meu oponente... MAS COMO?!
Zack já olhava alguns sites, mas aparentemente nada, e não seria fácil. Ele pediu para ver novamente a foto no meu celular. Coloquei a mão no bolso e... Não, não está aqui. Deve estar na minha mochila. Procurei um pouco e... Onde está meu celular?
"Eu não estou encontrando meu celular..."
"Como assim?"
"Eu não estou encontrando! Liga pra ele!"
"Isso não é bom. Não está pelo quarto? Qual é a última lembrança que você tem dele?"
Não. Não pode ser. Um calafrio percorreu minha espinha. Aquela memória veio como bala na minha mente. Falei com meu corpo tremendo.
"Eu... Eu estava jogando na hora da aula... Até que... Você brigou e... Larguei o celular na mesa... Fui te ajudar."
Zack me olhou com uma expressão semelhante a de espanto que ele fez ao ver a foto no celular. Continuei.
"MARK! Mark mexeu nas minhas coisas naquela hora, hoje mais cedo! ELE DEVE TER PEGADO MEU CELULAR!"
"PUT..."
Aquilo não podia ter acontecido. Aquele celular nas mãos de qualquer um é a prova de que eu sou o outro jogador! Aquilo não podia ser divulgado! E se Mark for meu adversário?! Zack se levantou da cadeira, ele estava aflito agora, mas tentava me tranquilizar.
"Peter, calma, sabemos que o celular está com Mark, ele deve ter pegado apenas para fazer algumas ligações, ele nunca vai olhar as fotos. Amanhã você recupera seu celular!"
"Minha VIDA tá em jogo aqui! Foi só eu acreditar nessa merda que os problemas já começaram a aparecer! Alguém pode me matar por causa disso!"
Eu estava gritando, mas não o bastante para acordar os meus pais, era um grito abafado, mas que resumia minha preocupação agora. Meu celular podia estar com Mark, podia estar com qualquer um. Minha vida estava naquela foto.
*Escuto um barulho lá fora*
"O que foi isso?" Perguntou Zack
"Parece o barulho da cerca quando se movimenta... Alguém está aqui!"
Corri pra janela, de lá eu podia ver a entrava da casa, sua cerca e... TEM ALGUÉM ALI!
"Zack! Alguém tropeçou na cerca! Se levantou, está correndo! Vamos! Vamos! vamos!"
Meu quarto ficava no segundo andar, desci as escadas junto com Mark numa velocidade que meus passos poderiam sim acordar meus pais. A cozinha ficava no caminho da porta, eu peguei uma faca antes de correr para a entrada.
"O que eu estava fazendo? Aquilo era real... Eu devia matar alguém. É matar ou morrer... Meu Deus, eu peguei a faca apenas para proteção, mas... Eu teria que usá-la alguma hora"
Meus pensamentos apagaram, o vento frio soprou no meu rosto, eu estava do lado de fora da casa, estava tudo muito escuro. Corri para a calçada, olhei para a direita, alguém corria mais adiante, não consegui ver quem era, e estava muito longe para correr atrás.
Eu estava parado ali na calçada, com uma faca na mão. Aquilo era horrível, não consegui aceitar que eu estava naquela situação, que eu estava vivendo aquilo, era aterrorizante. Novamente meus pensamentos são cortados, mas dessa vez pela voz de Zack.
"Peter..."
"Eu não consegui ver quem era, meu Deus, estou em perigo!"
"Peter... Veja isso"
Zack segurava algo. A luz de um poste, mesmo sendo fraca, refletia naquele objeto. Aproximei para ver o que era. Meus olhos apertaram, segurei aquilo para identificar melhor.
"Não... Não pode ser" Eu não queria acreditar.
Eu segurava um broche prateado, era em forma de uma bola de futebol e consegui ver o emblema de Long River. Era o broche de Mark.
"Peter..."
"Eu sei Zack, eu sei... É ele..." Nunca tive tanto medo ao pronunciar alguma frase, não consegui expressar emoções na minha voz. Mas o que mais fez meu corpo tremer, suar e dilatar minha pupila foi falar o que faltava naquela frase...
"E ele sabe que sou eu"
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