Tente Me Achar
3 Capítulo 3: Vingança
Por um momento, um breve momento, nenhuma palavra foi dita, mas aquele silêncio pareceu uma eternidade. Eu não sabia mais se meu coração batia rápido ou devagar, ou se mesmo batia. Mark era meu oponente e já estava tentando cumprir seu objetivo, mas por que ele fugiu?
Olhei para a boca de Zack, estava sangrando, seus pontos abriram. O médico recomendou que ele não falasse, nem fizesse esforço. Conversar comigo e descer as escadas daquela forma não foram boas ideias.
"Peter... Olha, cara, volta pro seu quarto. Nem pense em faltar a aula amanhã, aqui você é um alvo fácil para Mark. Mantenha-se sempre em grupo lá em Long River."
Zack tentava me tranquilizar, ele tinha razão. Eu ainda estava imóvel, e ele pegava seu celular, estava ligando para o seu pai. Não sei que desculpa ele inventaria para dizer que seus pontos abriram, e que ele precisava voltar para o hospital, não prestei atenção também.
Conversei mais algumas palavras com Zack, ele sabia que eu estava chocado em saber daquilo, tentou me tranquilizar mais um pouco e foi andando pra sua casa. A rua era tranquila, apesar do que acabou de acontecer, e a distância era irrelevante. Voltei para minha casa, passos lentos, ouvidos atentos e mente vaga.
"Minha vida está em jogo... É matar ou morrer"
Era o único pensamento que consegui ter durante o caminho até minha cama. tranquei a porta, fechei a janela, coloquei objetos por perto, para se caso essas entradas fossem abertas, os derrubassem e eu acordaria. Meus pais, felizmente, não acordaram com aquela correria, mas eu provavelmente não iria dormir hoje. Mark seria capaz de me matar... Ele não hesitaria, com certeza. Já eu...
Antes de finalmente conseguir dormir, lembro-me de receber uma mensagem de Zack:
"Estou bem, acabei de recolocar os pontos, mas fui proibido de ir pra aula amanhã. Se cuida, não fique sozinho."
Apesar de mal dormida, aquela noite serviu para reorganizar meus pensamentos, aquilo era minha realidade agora e eu devia agir. A ausência de Zack hoje na aula vai ser difícil, mas eu vou seguir seu conselho, não vou ficar sozinho, não posso ficar sozinho.
Hoje a entrada da escola não estava como eu costumava ver, estava vazia, mesmo com todas as árvores e flores no lugar. A luz não estava ajudando, acho que aquela entrada sempre foi um reflexo do que eu sentia. Eu me sentia exatamente como eu estava vendo aquele jardim... Vazio. Mesmo já tento aceitado o fato de estar no jogo, e ter organizado meus pensamentos na noite passada, ainda não sei se eu sou capaz de matar alguém... De matar o Mark!
As aulas demoraram a passar. Sentei na segunda fila hoje, bem distante de Mark nas últimas. Conversei bastante com Kessy e Kevin, dois irmãos que são meus amigos, e eles sentavam nas cadeiras da frente. Conversar com Kessy era mais agradável quando eu era apaixonado por ela, há algum tempo, e não importa mais hoje, não quero falar sobre isso, pois estava servido apenas como distração.
A última aula estava para acabar. Acho interessante observar como algumas coisas que você não espera acontecem numa naturalidade maior do que as coisas que você já espera. Um amigo meu, sentado atrás de mim, tocou meu ombro, me chamou.
"Mandaram passar isso pra você"
Ele me deu um papel, estava todo dobrado, abri aos poucos. Ler aquilo foi como assoprar todo o castelo de cartas que eu montei na noite passada.
"Eu sabia. Você aceitou o desafio..."
Involuntariamente olhei para Mark. Ele estava dormindo, claro, acho que seu broche o deixava acordado. Mas se não foi ele que mandou o papel... Quem foi? Mais alguém sabe que eu sou um jogador! COMO ISSO É POSSÍVEL?! Olhei para trás, observei a sala, e apenas uma pessoa me encarava, esperando minha resposta.
Victor...
Seu olhar me passava medo, ele estava com medo também, como sempre. Olhava para mim, mas desviava o olhar quando podia. Ele escreveu aquilo... Mas como ele sabe?! Aquilo estava muito errado. Respondi o papel.
"Tenho que falar com você no final da aula, por papel é perigoso, jogue isso fora"
Mark era o outro jogador, talvez... Victor queira me ajudar... Será? Mas como ele sabe que eu sou um jogador? Muitas perguntas explodiam na minha cabeça. Aquilo só cooperou para que o relógio fosse mais devagar, mas finalmente, ouvi o alarme, era a hora da verdade. Não arrumei meu material, me levantei e fui para o final da sala. Mark saiu da sala rapidamente, assim que o alarme o acordou.
Victor teve medo quando me aproximei, olhava para baixo, para os lados. Eu não tinha tempo para cuidar de seu lado psicológico ou emocional, tive que ir direto ao ponto:
"Como você sabe que eu... Aceitei o jogo? O que você sabe sobre isso?"
Ele manteve a expressão, mas respondeu logo em seguida:
"Você... Você está agindo como ele! Está com a mesma expressão! Eu lembro... Eu lembro!"
"Ele quem? Ele quem? Quem agia como eu?"
Eu estava tentando não gritar. Victor fez uma pausa antes de responder minha última pergunta.
"Meu irmão... Ian..."
Ian... O garoto encontrado morto em Long River a facadas, irmão de Victor. Agora tudo fazia sentido!
"Seu irmão?! Ele participou desse jogo?!"
Meu Deus, ninguém nunca iria imaginar! Ian foi um jogador também! Victor podia saber muita coisa, ele podia me ajudar! Havia muita coisa escondida ainda ali, eu podia sentir isso, mas minha mente queria se acostumar ainda com a nova informação.
Victor estava com uma expressão de medo, mas acho que vi um pouco de raiva, talvez por eu estar fazendo muitas perguntas, ou talvez pelo meu tom de voz, mas ele acabou tomando a palavra.
"Peter, há mais coisas que você deve saber... Venha comigo pra minha casa, é seguro lá, te contarei tudo"
Aquelas palavras... "É seguro lá", sim, eu concordo, Mark estaria longe dali. E "Eu te contarei tudo", foi algo que eu realmente precisava ouvir. Acho que é a primeira sensação de alívio que sinto nesses últimos dias, foi como encontrar a saída do labirinto, talvez com essas novas informações eu possa solucionar alguma coisa, talvez isso me ajude!
Aceitei o convite. Lembro-me de ter ido para a casa de Ian e de Victor uma vez, e também não era muito longe de Long River, mas era por um caminho oposto à minha casa. Fomos de ônibus, mas a viajem durou pouco, descemos logo em frente. A casa era um pouco velha, baixa, cores desbotadas. A alegria deve ter ido embora com Ian... A mãe de Victor trabalhava até tarde, então durante esse período ele estava sozinho em casa, era uma boa oportunidade para ele me contar o que precisava.
O conselho de Zack me veio à mente... Mas não, eu estava perto demais da verdade.
Eu estava nervoso, nós estávamos entrando na sala de estar. Vi poucos móveis, mas não reparei no resto do ambiente, pois meu foco ali era outro. Victor jogou sua mochila no chão e andou um pouco, ele parecia mais á vontade ali. Eu, pelo contrário, estava muito nervoso. Nunca imaginei que eu estaria ali naquele momento, mas eu tinha que aceitar que aquilo fazia parte do que eu estava participando, e qualquer ajuda seria bem vinda.
Tentei iniciar logo o assunto.
"Então, Victor. Estamos aqui. O que você tem para me falar?"
Ele continuou em silêncio, andou até a cozinha.
"Quer alguma coisa para beber?"
"Não, obrigado, estou mais interessado no que você tem para me falar." Tentei não ser arrogante ao falar essa última frase.
Victor pegou alguma coisa. Não consegui identificar... Era... UMA FACA?!
"VOCÊ MATOU MEU IRMÃO!"
Essas foram as palavras que saíram de sua boca, antes dele atirar a faca em mim, passou perto do meu ombro, levei um pequeno corte. Mas como assim?! Ele acha que eu matei o irmão dele?! Ele me trouxe até aqui... Pra se vingar!!!
Victor correu para me atacar, ele estava de mãos vazias, mas eu podia ver agora a raiva em seus olhos, aquilo era sua maior arma. Um murro atingiu meu rosto, quase caí, continuei em equilíbrio.
"Victor! Espere! Eu não matei ninguém! O que você pensa que tá fazendo?!"
"Eu vou te matar, seu desgraçado! Filho de uma..."
Ele correu para pegar a faca. Eu não podia ficar parado, imitei o chute que dei em Mark para defender Zack. Meu chute atingiu sua barriga. Ele caiu em posição fetal.
Victor tossia, mas se levantou, desistiu da faca e tentou me atacar mais uma vez. Ele pulou em cima de mim, conseguiu me dar dois murros no rosto. Eu estava desesperado! Ele queria me matar! O que eu poderia fazer?! Mais um murro, mas dessa vez foi meu. Ele caiu para o lado, derrubou uma mesa de centro da sala e se cortou em seu vidro.
Tentei tomar controle da situação. Fiquei de pé e gritei para ele que estava no chão.
"Espere! Vamos conversar! Eu NÃO matei o Ian! Eu não posso provar, mas você acha que eu viria aqui sozinho com você, sabendo que você sabe do jogo?! Eu saberia que você me descobriu! Eu nunca teria vindo aqui! MARK! Ele é meu oponente! Ele sim deve ter matado seu irmão! Tanto pode ter sido ele, como qualquer outra pessoa, mas eu repito, não fui eu!"
Eu gritei o suficiente para essas palavras marcarem o pensamento de Victor. Ele não tinha como acreditar totalmente em mim, mas o que eu disse fazia sentido e era verdade. Eu não queria machucá-lo, mas ele me obrigou. Naquele momento, houve um silêncio de muita tensão, eu não fazia a mínima ideia do que estava passando na cabeça dele. Espero que seja algo diferente de me matar.
"Peter... Eu queria que fosse você. Eu queria que fosse QUALQUER UM! Eu só quero... Me vingar! Matar quem matou meu irmão."
Eu via tristeza. Eu via um garoto totalmente diferente daquele assustado e inexistente Victor da sala de aula. Eu via atitude, via que ele tinha um motivo pelo qual lutar, mesmo não tendo acertado seu alvo.
Ele se levantou, veio até mim. Meus músculos esperaram mais um golpe, mas apenas meus ouvidos obtiveram resposta.
"Eu peço desculpas, Peter. Eu posso ver que você está falando a verdade. Quero te ajudar, assim como tentei ajudar meu irmão e queria que mais pessoas tivessem feito isso. Tenho que te devolver logo o seu celular"
Aquela última frase... Agora um furacão devastava meu cérebro.
"Meu... Meu celular? você está com meu celular?!"
"Peter... Sinto muito, mas eu estava te achando estranho como você estava agindo durante a aula. Estava muito parecido com Ian, então decidi pegar seu celular para procurar alguma coisa, alguma mensagem. Aproveitei sua briga com Mark e o peguei. Vi a foto, então tive certeza de que você era um jogador."
Aquilo não podia ser verdade! Podia, mas estava acabando com tudo o que eu tinha imaginado! Saber que aquela imagem estava com Mark, era a prova de que ele sabia que eu era outro jogador, mas se ele nunca viu a imagem... Como ele sabe?!
"Você mostrou ou falou do meu celular para alguém?"
"Não... por que você está nervoso?"
Se Mark não pegou meu celular, ele não sabia de nada... Então o que ele foi fazer na minha casa ontem?! Aquilo estava muito estranho! Não estava conseguindo organizar aqueles pensamentos na minha cabeça! Nada mais fazia sentido! E se VICTOR fosse meu oponente?! Eu não podia mais confiar nele... Aquela história de vingança podia ter sido apenas disfarce para ter outra oportunidade para me matar depois! Eu posso estar em território inimigo!
"Victor... Eu tenho que ir! Não posso mais ficar aqui! Tenho muitas coisas pra fazer em casa ainda... Desculpe, não posso ficar mais tempo do que já fiquei"
Aquilo estava na cara que era mentira, mas Victor deve ter entendido que eu estava com medo. Aquilo o tornava mais confiável? Eu tinha que ir embora dali naquele momento.
"Espere! Espere! Seu celular... Vou pegar. E tem algo que quero que leve."
Eu estava com medo. Victor entrou no antigo quarto de Ian. Olhei ao redor, vi toda a bagunça que fizemos, e só agora comecei a sentir a dor intensa que o corte tinha feito, mesmo sendo leve, mas o sangue havia parado. Meu maxilar doía, e isso aumentava minha dor de cabeça, influenciada por essa bomba de informações. Mark... Que segredos ele esconde?
Meus pensamentos foram interrompidos pela presença de Victor. Ele apareceu em silêncio, como sempre. Assustei-me e quase o acertei, mas ignorei meu reflexo. Ele segurava meu celular e um notebook.
"Peter, peço inúmeras desculpas. Aqui está seu celular, e quero que fique com o notebook de Ian. Na semana antes de ser morto, ele passava horas aí. Já revirei, mas não encontrei nada útil. Talvez você tenha mais sorte."
Aceitei as desculpas, peguei meu celular, coloquei o notebook na mochila, e fui embora. Despedi-me rapidamente, pois meu desejo era sair dali o mais rápido possível. Esperei um ônibus e fui pra casa, escondendo o corte no meu braço.
Eu não estava muito esperançoso sobre o notebook, pois até mesmo Victor não encontrou nada, mas não custava nada verificar mais uma vez. Quando eu estava a caminho de casa, mandei uma mensagem para Zack.
"Preciso falar com você, é urgente!"
Já estou indo para o meu quarto e ele não me respondeu ainda. Eu estava com uma blusa velha amarrada no braço, apenas para proteger o corte, pois ele já havia parado de sangrar, e novamente me tranquei no quarto. Dormi. Era o que eu mais queria fazer. Era onde as respostas podiam... Ok, onde as perguntas se organizavam, e eu acordava mais disposto para achar as respostas. Eu estava muito cansado, queria que tudo aquilo acabasse.
Acordei tarde, por volta das 21h. Verifiquei o celular e não havia nenhuma ligação de Zack, nem mesmo mensagem. Tentei ligar, mas ele não atendeu. Estranho, mas eu tinha mais coisas para me preocupar.
Sentei, liguei o notebook de Ian.
"Mas o que eu estou fazendo?"
Talvez a reposta estivesse ali. Era difícil, mas... Quem sabe.
O clima era o mesmo quando encontrei o site "Tente me Achar". Aquele vento frio pela janela que esqueci de fechar, o silêncio, meu medo que começava a aparecer, e eu vasculhava o computador de Ian. Encontrei fotos antigas, textos, pesquisas, pornografia, mas nada relacionado ao site. Era uma besteira procurar. Mas... Achei uma pasta, dentro de outras pastas de fotos, com um nome estranho.
*Cliquei*
Mais uma chuva de pastas com nomes estranhos. Olhei uma por uma. Era quase um labirinto aquilo, até que... Vídeos? Ali no meio daquilo tudo? Será que Victor teve acesso a isso? Não foi fácil de encontrar, o computador estava lotado de arquivos. Abri um vídeo aleatório.
Ian?! Era ele mesmo?! Ele estava pálido, triste... Mas... Mas o que?!
O que eu ouvia ali era algo... Algo que me fez entrar em choque. Eu acabava de descobrir um segredo que mudava toda a linha de raciocínio que eu tive até agora! Meu Deus...
Não pode ser...
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