Tentativa
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Fernando suspirou fundo.
– Tem uma coisa sobre mim que nunca te contei.
– Estou ouvindo – disse ela impaciente com o rumo daquela conversa.
– Nasci com uma enfermidade... Câncer de linfoma. Fiz diversos tratamentos quando fui diagnosticado. Foi um tempo muito difícil. Minha família e eu enfrentamos uma barra pesada...
– Eu imagino...
– Imagina? Você não faz ideia de como fica o psicológico de uma pessoa que enfrenta o câncer! – a interrompeu alterando a voz.
Bruna levou um susto com a reação dele. Realmente não fazia a mínima ideia do que ele estava dizendo. Até onde conseguia lembrar, nunca conhecera alguém com câncer.
– Tudo o que eu mais queria, era morrer. Minha mãe foi o meu suporte todos os dias. Meu pai que sempre foi a rocha da família, como minha mãe dizia, nem ele se manteve tão forte por muito tempo. Ele chorou quando cheguei ao estagio avançado da doença.
Bruna pensou em chegar mais perto dele. Abraçá-lo e dizer que estava tudo bem, mas não estava tudo bem. Não esperava aquilo sobre ele. Jamais teria passado por sua cabeça. Mas isso deixava muito claro a mudança dele...
– Eu cheguei a pensar que jamais teria uma qualidade de vida melhor – prosseguiu Fernando enquanto encarava o chão. – Até que depois de várias sessões de radioterapia e quimioterapia, cheguei finalmente à quimioterapia curativa, com o controle completo do tumor. Nessa etapa, eu já estava com 15 anos. Totalmente livre do câncer.
– Aonde você quer chegar com essa história?
– Até eu conhecer você, tudo o que eu mais queria era aproveitar o máximo minha vida. Não perder nenhum momento com alguma besteira. Viver intensamente tudo... Não quero cuspir no prato em que comi. Tivemos ótimos momentos juntos Bruna – disse levantando a cabeça e olhando para ela com o semblante triste.
– Digo o mesmo. Estou aqui...
– Ótimos até descobrir que o câncer retornou, depois de três anos, ele voltou pior do que antes – continuou ignorando as falas dela. – Pensa no terror? Quando o médico me disse que estava com câncer novamente. Vi meu mundo desabar outra vez. Minha felicidade, esperança, sonhos, minha vida, irem pelo ralo.
Abaixou a cabeça outra vez, por causa das lágrimas que teimavam em descer pelo seu rosto.
Bruna começou a ficar aflita com aquele desabafo. Havia muita dor e sofrimento naquelas palavras. Uma realidade tão distante dela, mas que naquele momento a atingia em cheio. Olhou para a mesa de cabeceira ao lado da cama dele, o porta-retratos com a foto do dia em que se conheceram estava ali.
Era horário de intervalo no colégio. Ela estava na lanchonete pedindo o de costume: pão de queijo e suco de laranja. Quando ele aproximou-se dela. No instante que ela percebeu que Fernando estava ao seu lado, ela pensou em sair dali, mas seus pés não obedeciam. Ele pediu o mesmo que ela. Estava tensa quando os lanches foram entregues, quase ao mesmo tempo. Em seguida, ele olhou para ela, com aqueles olhos vivos cor de mel. Ia dizer alguma coisa, mas foi interrompido por uma garota que estava segurando uma câmera, que pediu pra tirar uma foto deles para o jornal do colégio. Assim aquela foto ficou como registro do início do relacionamento deles.
Agora, ali naquele quarto, os mesmos olhos cor de mel, não apresentavam tanta vida como no retrato.
– Por causa do câncer que você afastou de mim? – perguntou Bruna com certo pesar em sua voz.
– Não.
Ele levantou a cabeça. Limpou as lágrimas com as costas das mãos e olhou outra vez pra ela.
– Foi por sua causa que me afastei de você!
– Como assim por minha causa? – perguntou ela tensa e indignada.
– Não se faça de boba Bruna. Sabe muito bem do que estou falando!
– Não estou me fazendo de boba. Não estou tão bem quanto pareço...
– Nós dois sabemos perfeitamente o motivo que trouxe você aqui hoje.
Bruna o encarou. Seu tempo estava acabando, e certa raiva dele, passou a tomar conta dela.
– Sim! Fiz o teste de DST, e deu positivo para HIV. Como eu já disse, eu sempre me cuidei...
– Exatamente! O problema, o motivo gira em torno do HIV.
Ele olhou diretamente nos olhos dela.
– Eu decidi não te ver mais, depois que meu médico confirmou que, o câncer havia retornado por causa do vírus do HIV. E sabe por quê?
– Por quê?
– Porque foi... – Bruna não conseguiu ouvir o restante. O tempo de duração do desejo acabou naquele momento.
Tudo escureceu nos segundos seguintes.
***
– Bruna, acorde! Bruna!
Ela abriu os olhos pensando que havia apenas desmaiado, e que Fernando a tinha em seus braços. Porém, percebeu que a realidade era outra. Havia voltado para o banco da praça, onde se encontrava antes da viagem ao passado.
– Que bom que você acordou.
Bruna ficou passada!
Aquele cara, falando com ela todo preocupado, era nada mais, nada menos, que Fred, o seu ex-namorado, galinha!
– O que você está fazendo aqui?
– Te encontrei desmaiada no banco e fiquei preocupado. Achei que estivesse morta...
– Com certeza estava torcendo por isso! – disse ela livrando-se dos braços dele.
– Não brinque com essas coisas Bruna.
– Tanto faz! Eu estou bem, não precisa ficar preocupado comigo – mentiu ela, pois estava sentindo uma leve dor de cabeça.
Acho que desmaiei e bati a cabeça, pensou.
– Estava procurando você desde a semana passada. Precisamos conversar – disse sentando-se ao lado dela. – Depois desse tempo todo sem te ver, você continua gata como sempre foi.
– Acho que você não tem nada pra falar, Fred. Nosso relacionamento acabou faz muito tempo. Se havia algo a me dizer, você está muito atrasado!
– Na verdade tenho sim. – E mudando o tom de voz para sério. – Preciso que você me ouça, tem haver com sua e a minha saúde.
– Desde quando você entende alguma coisa em matéria de saúde? Se eu não estou enganada, da última vez que te vi, exatamente naquele dia que terminamos nosso relacionamento. Você beijou a vaca da Carol na minha frente! Aquela porca que nem escovava os dentes direito.
– Pelo visto você ainda mantém o sarcasmo na ponta da língua!
– Sempre querido. Ainda mais com ex-namorado, que acha que ainda tem moral na praça, literalmente falando.
Mesmo incomodada com a presença dele, não podia deixar de reparar o quanto ele também estava um gato. Principalmente aquele rosto livre das espinhas do passado.
– Por que está me olhando assim gata? – disse aproximando o rosto pra beijá-la. Ela colocou a mão no rosto dele, afastando-o.
– Já acabou faz tempo, Fred. Se liga!
Bruna levantou do banco sentindo-se um pouco zonza.
Fred levantou em seguida e segurou seu braço.
– Eu sou HIV positivo! Adquiri quando dei aquele vacilo no passado, te traindo com aquela outra mina. Provavelmente transmiti pra você também!
Bruna fitou-o perplexa. O tempo todo, desde que descobriu que estava com HIV, culpou Fernando.
Voltou a chorar.
Agora tudo estava claro como a água.
Era sobre isso que Fernando estava falando. Eu sou a culpada dele ter morrido. Eu o matei! – pensou arrasada.
– Me solta! Eu vou embora!
– Espera, precisamos conversar mais.
Ele a segurou com mais força tentando abraçá-la.
– Não temos mais nada o que conversar. Você arruinou a minha vida! Você destruiu meu futuro! Me larga, ou vou gritar agora mesmo!
– Estou preocupado com você. Quero te ajudar.
– Eu não preciso da sua ajuda. Você já fez sua parte me transmitindo esse vírus dos infernos! Droga! Tire suas mãos de mim!
Fred a soltou. Em seguida ela correu o mais rápido que suas pernas permitiram. Enquanto em sua mente, uma mistura de arrependimento e raiva tomava conta dela. Todas aquelas informações do passado e do presente, haviam transformado seus pensamentos num palco de horrores.
Perdida mentalmente nesse palco, em meio às lágrimas, não percebeu que estava atravessando a avenida enquanto corria. Não conseguiu ouvir Fred gritar seu nome em tom de advertência, enquanto um ônibus vinha em sua direção, tentando frear.
Já era tarde demais.
O seu mundo se desfez enquanto a chuva começa a cair fina.
Fernando não chore!
Foi seu último suspiro.
***
Érika ficou chocada com o desfecho do texto que acabara de ler. A história entrou em um surrealismo pior do que o filme, o mestre dos desejos, que viu aos oito anos de idade.
Tudo bem que é um trabalho pra entregar amanhã na segunda aula, mas a Bárbara, aquela nerd, poderia ter criado uma história melhor, pensou.
No dia seguinte conversaria com ela sobre isso. Agora era hora de ligar pro seu namorado Paulo, e saber por que ele enviou um torpedo alguns minutos atrás, dizendo que estava muito triste.
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