Notas iniciais
Enquanto olhamos pra fora, ignoramos o que se passa dentro de nós mesmos.

No dia seguinte, enquanto Érika entrava no carro do namorado, ficou repassando mentalmente a conversa que tiveram na noite anterior. Paulo havia desabafado outra vez sobre Thiago, o seu melhor amigo que morreu no mês passado, no dia 18 de março de 2012. Infelizmente no mesmo dia em que Paulo completou 18 anos de idade.

Thiago sofreu um acidente de transito horrível na BR 153, enquanto vinha para a festa surpresa do amigo. Desde então, Paulo sentia-se um pouco culpado pela morte dele. Se não fosse sua festa, provavelmente ele não teria morrido naquele dia.

Enfim, o problema não era o seu namorado não ter superado a morte do amigo, mas sim o quanto essa culpa, essa forma de lidar com o que aconteceu, estava afetando não somente sua vida pessoal, como também o relacionamento entre eles.

Entre os assuntos que conversaram, havia um que até aquele momento estava incomodando-a.

– Então é verdade que o seu carro será vendido esta semana?

– Meu pai disse que sim – respondeu Paulo serenamente.

Ela virou o rosto pra janela, do seu lado da porta do carro.

Há dois anos, desde que passou para o ensino médio, não sabia o que era ir ao colégio a pé, ou de ônibus. Não que fosse tão longe. De sua casa ao colégio a pé, seriam uns 15 minutos. Porém, não era por isto que estava incomodada, e sim, pela questão do status social. Status este que, desde o divórcio dos seus pais, estava declinando mais e mais a cada dia entre as pessoas com quem convivia no colégio e fora dele.

– Além da mesada, e agora possivelmente o carro, o que mais seu pai vai tirar de você?

– Não tirando a minha vida, tudo bem. – E sorriu por um instante.

Érika entendia muito bem aquele sorriso. Usado mais como uma máscara. Sabia o quanto ele estava sofrendo pelas coisas que vinha enfrentando naquele ano. Problemas todos nós temos, faz parte do curso natural da vida. Entretanto, permitir que os problemas controlem sua vida, seu dia a dia, é como queimar cada pedaço do sentimento de esperança.

Quando chegaram, ela foi a primeira a sair do carro.

– Obrigada pela carona – falou enquanto empurrava a porta do lado direito.

– E o meu beijo? – pediu ele.

Ela ignorou, e foi direto para o pátio do colégio. Estava grilada com a falta de atitude do seu namorado diante dos acontecimentos. Sentia saudades do início do namoro. As coisas eram menos complicadas. O sorriso era mais leve, o olhar mais tocante, o toque mais sensível. Agora, na maioria das vezes, tudo simplesmente estava mais pesado.

Dizem por aí que, o primeiro ano do relacionamento amoroso entre duas pessoas, é a mistura entre o Oásis e o Inferno. Para Érika, essa mistura estava acontecendo agora, no segundo ano de namoro.

Foi relembrando os bons momentos que ela entrou na sala de aula. Suas amigas já estavam no fundo esperando-a, ao lado da sua carteira, exclusivamente reservada, no mesmo lugar de sempre. Juntou-se a elas pra colocar em dia as fofocas do final de semana.

***

Ao final da primeira aula, Érika foi até a carteira de Bárbara, para falar sobre o trabalho de literatura.

– Que fim trágico foi aquele que você criou? – foi dizendo de supetão, logo que se aproximou dela.

– Bom dia! – sorriu para Érika com uma alegria que não encaixava muito bem em plena segunda-feira. – Se você está falando sobre o trabalho, simplesmente segui as orientações do professor. Usei todos os elementos que ele pediu que incluísse no texto.

– Estou preocupada se ele vai aceitar do jeito que está.

– Se os trabalhos receberem ordem de, primeiro, segundo e terceiro lugar, tenho certeza que o nosso estará em um desses três – afirmou Bárbara enquanto ajeita os óculos.

– Se você está dizendo, quem sou eu pra discordar.

– Fica tranquila Érika.

– Ficarei – consentiu. – Quanto tenho que pagar pela minha parte do trabalho?

– Decidi que não vou cobrar nada de você.

– Mas, não ajudei em nada. Você escreveu a história toda sozinha.

– Talvez. De qualquer forma já decidi! Não precisa ficar preocupada. O fato de você ter lido o texto todo, já é suficiente.

– Suficiente? – disse curiosa, sem entender onde Bárbara queria chegar com aquele papo.

– Digamos que o professor venha perguntar qualquer coisa sobre o texto, você vai saber responder com base na leitura que fez.

– E se isso não acontecer?

– Duvido muito que ele irá apenas recolher os trabalhos, e posteriormente devolvê-los com as respectivas notas, sem ao menos, fazer alguma coisa antes. Nem que seja uma breve referência a cada um.

– Ah sim. Então valeu. Obrigada!

– Por nada.

Laura e Beatriz estavam acenando da porta da sala, para que Érika saísse logo.

– Bom, tenho que ir. Mais uma vez, obrigada!

– Tudo bem. Vai lá!

***

Estavam diante do espelho do banheiro feminino, retocando a maquiagem e o cabelo. As três mais populares do 3º ano, da turma A. Érika por ser a namorada do rapaz mais cobiçado pelas meninas do colégio, o Paulo, do 3º ano, da turma B. Laura pelas festas mais badalas, realizadas em sua casa, de tempo em tempo. E Beatriz a novata do trio, que havia entrado no colégio naquele ano, aos olhos de muitos garotos, a mais bonita das três. Loira, olhos verdes, e ao contrário do que muitos duvidavam, era a mais estudiosa. Ficando atrás apenas da outra novata daquele ano, Bárbara.

– Por qual motivo você estava conversando com aquela nerd, Érika? – questionou Laura enquanto levantava seus cílios com mais uma camada de rímel.

– Sobre o trabalho que temos que entregar ao professor Miguel na próxima aula.

– Humm. Não gosto dela. Sei lá. Não tenho nada contra ela. Só acho que o meu santo não bate com o dela, se é que me entende.

– Também não tenho nada contra ela – concordou Érika enquanto passava mais um pouco de base no rosto. – Até que a história que ela criou ficou interessante.

– É aquela que você me contou ontem, sobre uma maluca que descobre que está com HIV?

– Sim. Acho que ela fumou uma enquanto escrevia toda aquela viagem com os personagens Fernando e Fred.

– Você acha? Pelos detalhes que me contou, ela foi em frente com a plantação toda, e das boas!

As três caíram na gargalhada com essa última fala de Laura.

– Meninas, vocês acham que essa tonalidade de rosa combina com minha pele? – interrompeu Beatriz mostrando o batom próximo ao rosto, para elas avaliarem.

– Vai ficar idêntica a Barbie vai ao colégio – comentou Laura dando boas risadas. – O que por si só já é bem redundante, por estarmos no colégio.

– Se a sua intenção for seduzir o professor Miguel, esse batom vai dar um ponto extra a você – insinuou Érika com um olhar sedutor.

– Hoje vocês estão puro deboche! – exclamou Beatriz chateada.

– Relaxa. Só estamos pegando no seu pé, porque somos suas amigas – disse Érika enquanto penteava seus cabelos cacheados.

– Isso mesmo! – concordou Laura. – Agora falando sério. Eu teria coragem de ficar com o professor Miguel.

– Credo amiga. Ele tem idade pra ser nosso tio.

– Menos Beatriz. Ele deve ter no máximo uns 28 anos. Mas o fato de ele ser casado seria um problema para você Laura.

– Não vejo isso como problema, Érika – retrucou Laura enquanto escolhia qual gloss iria passar em seus lábios carnudos. – Vejo como solução! Os homens casados são os melhores. São mais experientes!

– Então você quer ser uma destruidora de famílias?

– Como sempre dramática, não é senhorita Beatriz? Eu posso muito bem ser a amante. Concorda comigo Érika?

– Não me coloque no meio disso. Porém, não vou negar que ele é um gato, mesmo não fazendo o meu tipo.

– Papo de garota comprometida!

– Nada haver Laura. É apenas a minha opinião.

– Duvido. Se você estivesse solteira, sua opinião seria diferente. Entre ele e o seu namorado Paulo, não vejo muita diferença.

– A diferença já começa na idade, e depois, no estilo da roupa que usam. Sendo assim, não trocaria meu namorado pelo professor.

– Pra mim, ele pode estar vestido de forma mais brega possível, continuará sendo o mesmo gato que ele já é.

– Garotas! Garotas! – interveio Beatriz. – Já faz dez minutos que estamos aqui. Provavelmente já estamos atrasadas pra segunda aula.

– Não estamos. Esqueceu que a professora terminou a aula antes do horário?

– Vamos mesmo assim. Quero apreciar aquele ser divino entrando na sala. O cabelo dele é muito fashion.

– Ué! Você não disse que ele é um tio pra nós?

– Sim. Mas não há problema algum admirar o charme dele quando está andando pela sala. Totalmente diferente de querer ir pra cama com ele.

– Está bem. Até onde sei de santinha, você só tem esse olhar angelical, garota! Vamos logo antes que eu lhe dê uma voadora!

Saíram rindo do banheiro.

***

Quando Érika chegou a sua casa, a primeira coisa que sentiu foi o cheiro delicioso do almoço. Ao entrar na cozinha, deparou com sua mãe mexendo as panelas.

– A senhora não foi trabalhar?

– Estou em horário de almoço – respondeu Heloísa. – A propósito, quero falar com você sobre um assunto, aproveitando que seu irmão está no banho.

– Assunto proibido para menores de nove anos?

– Não exatamente! Quero saber uma opinião de sua parte, sobre o que vou te contar.

Heloísa desligou todas as chamas do fogão que estavam acesas. Caminhou até a mesa de mármore que estava no centro da cozinha, puxou uma das cadeiras, e sentou.

– Você sabe que estou namorando?

– Sim. Com aquele cara...

– Gustavo. O que você acha dele?

Érika ainda estava de pé quando sua mãe lhe fez a pergunta.

Nove meses atrás, naquela mesma mesa, sua mãe havia lhe perguntado o que ela pensava sobre o seu pai. Duas semanas depois eles divorciaram, deixando algumas questões um pouco confusas para Érika entender. Três meses após o divórcio, sua mãe já havia encontrado outro homem, o Gustavo.

O mesmo aconteceu com o seu pai. Só que com ele, foram dois meses depois. Conheceu Catarina, sua futura madrasta.

Caminhou até a geladeira para pegar um caixa de suco de goiaba, o seu predileto. Aquela conversa parecia que iria demorar mais um pouco.

– E aí o que me diz?

– O vi poucas vezes, mãe. Mal conversei com ele nessas ocasiões. Ainda mais que nelas, eu estava chateada por você e o meu pai terem se separado. – Deu uma pausa pra pegar um copo no armário. – Não prestei muita atenção nele. Não tenho ideia do que dizer sobre ele. Por que essa pergunta agora?

Heloísa olhou para a filha. Apesar dos traços evidentes do nariz e da boca, que faziam recordar do ex-marido, contudo, Érika permanecia um retrato quase fiel dela, quando tinha a mesma idade. Não tinha certeza se contava à filha o que o que estava em sua mente. Sabia que pra ela as coisas estavam melhores agora, de uma forma diferente. Entretanto, não ter a mínima ideia de como Érika reagiria, deixava-a insegura em contar. Adolescentes na maioria das vezes são bastante imprevisíveis. Mesmo assim ela resolveu confiar no seu papel como mãe.

– O Gustavo, ele... me pediu em casamento ontem a noite.

Érika quase derrubou o copo com suco. Olhou para sua mãe, que a olhava de volta como se estivesse esperando uma reação da filha mais animada.

– Não precisa olhar espantada pra mim. Queria saber sua opinião sobre o pedido dele.

Érika não sabia o que responder.

O que eu acho sobre o pedido de casamento? Minha mãe pirou de vez! Ou, talvez esteja sentindo a falta de um marido ao lado dela, pensou.

– Então filha, o que tem a me dizer?

Érika sentou em uma das cadeiras da mesa, ficando de frente para sua mãe, assim poderia olhar melhor para ela enquanto continuavam a conversa.

No início do divórcio dos pais, Érika havia escolhido um lado, o do seu pai. Pra ela sua mãe era a culpada pelo que havia acontecido. Contudo, nos meses seguintes, foi descobrindo aos poucos que o casamento deles estava engessado, segundo ouviu sua mãe comentar, que as coisas não eram mais como antes. De um lado, seu pai foi esfriando com o tempo, até diminuir a frequência em que vinha ver os filhos nos finais de semana. Arranjou uma namorada que tomou o tempo dele livre. O que para Érika — que sempre foi mais ligada ao pai do que seu irmão mais novo, Guilherme -, foi como se aos poucos, uma faca fosse sendo enfiada em seu coração.

A relação que mantinha com o seu pai sempre foi muito afetuosa. Ele a chamava de minha princesa. Mesmo após o nascimento de Guilherme, ele continuou dando a mesma atenção de sempre, o que para sua mãe, foi um pouco espantoso, já que normalmente os pais são mais ligados ao filho.

Mas, todo esse amor de pai, não foi suficiente pra manter contato com os filhos após a separação.

Com o tempo, Érika foi aproximando-se de sua mãe, bem mais que antes. Todavia, não tão próximas quanto ao teor daquela conversa. Pra ela, sua mãe estava forçando a barra!

– Faz apenas seis meses que estão namorando. Não acha que ele está precipitando-se em pedir agora?

– Não acho. Eu sinto que ele é o homem certo.

Érika começou a rir.

– Posso saber por qual motivo está rindo?

– Essa coisa de sentir, é muito clichê.

– É intuição feminina!

– Se a senhora está dizendo. Tudo bem. Quem sou eu pra discordar.

– Tenho certeza disso!

– Siga seu coração, mãe.

– Isso é uma resposta clichê.

– É a minha opinião. A senhora segue seu coração, e eu vou seguir o meu estomago e almoçar – disse levantando-se da mesa.

– Não tão rápido. Vá guardar seus materiais e lavar as mãos enquanto ponho a mesa.

– Sim, senhora.

– E fala pro seu irmão descer. O Gustavo vai passar aqui pra levá-lo a escola.

Gustavo... Ele deve ter feito alguma amarração, só pode! – pensou Érika enquanto jogava a mochila pra dentro do quarto mirando a cama.

Notas finais
Agradeço a todos que estão acompanhando a história até aqui. Ainda tem muita coisa pra acontecer hehe.