Tentação
52 - Capítulo 52
Jess socou o queixo de um dos brutamontes que cercavam o detetive Hants. O homem cambaleou para trás. Eu não conseguia enxergar direito, podia ver apenas duas sombras brigando. A terceira sombra apareceu, socando Jess na barriga fazendo-o soltar um gemido de dor.
Hants estava encostado na parede, observando todos os movimentos. Eu pensei em correr de encontro a ele e soca-lo bem na cara, mas seria burrice. Ele era um demônio, um demônio forte.
– Isso está ficando divertido. – Hants disse.
Jess conseguiu se esquivar de um chute e com suas mãos, segurou a perna de um dos homens, girando-a com toda a força. O homem gritou e caiu no chão. Jess desviou do segundo homem e o socou no estômago, o homem arfou, Jess não perdeu tempo e o pegou pelo pescoço jogando-o contra um dos armários do cômodo.
– Interessante. – Hants falou.
Meus olhos correram exatamente onde Hants estava a alguns segundos atrás, minha respiração acelerou quando percebi que ele não estava mais lá. Eu rodeei um possível balcão no centro do cômodo. – Realmente estávamos em uma cozinha. – E corri para a pequena passagem entre as paredes, onde Hants já não estava mais. Lembrei que Jess havia me dito que correr seria a melhor opção, mas eu não pensei em nada disso, não queria deixa-lo.
Passei para o outro lado do cômodo e movi minhas mãos pelos armários tentando achar alguma gaveta. Uma faca seria bem-vinda naquele momento. Minhas mãos bateram em um objeto de madeira, fazendo-o tombar, um barulho de metal ecoou e facas de todos os tamanhos acabaram caindo pelo chão. Ótimo. Pensei.
Me agachei tateando as mãos pelo chão em busca da maior faca que eu pudesse encontrar. Um pedaço de metal gelou meus dedos e eu o agarrei. Era pesado, imaginei ser a melhor faca para enfiar em alguém.
– Magda. – A voz de Jess chamou.
Eu me virei, forçando minha vista para conseguir enxergar algo. A sombra de Jess estava sendo agarrada por um dos homens, enquanto o outro estava sob o domínio do Jess. Ele precisava de ajuda.
– Corra. – Ele disse.
Era improvável isso acontecer. Eu não ia correr, não ia simplesmente fugir e deixa-lo com aqueles assassinos.
– Ande. – Ele disse mais uma vez, com força na voz. O homem que o segurava puxou-o para trás fazendo-o bater contra a porta. As mãos de Jess soltaram o outro homem que parecia sufocar.
– Jess. – Gritei, correndo na direção de um dos grandões com a faca na mão.
Dois braços me agarraram e me puxaram para trás. Hants.
– Já chega. – Ele falou cuspindo gotas de saliva na minha nuca.
Hants me segurou forte e me arrastou para trás. Jess ficou elétrico e se levantou rapidamente, mas não foi o suficiente. Os homens o dominaram juntos e seguraram-no bruscamente.
– Me solte. – Gritei me debatendo. Meus pés flutuavam. Empurrei a faca para trás, tentando furá-lo na barriga, mas ele segurou minha mão antes mesmo da lâmina tocar sua pele.
Não consegui mais ver Jess. Hants já estava me levando para dentro do corredor. Passamos todas as portas e entramos em um cômodo aberto de luzes fracas. A sala.
Meus olhos arderam. Eu queria ter força o suficiente para acabar com Hants e sabia que era impossível.
– São dois contra um agora. – Ele se referiu a Jess e os dois capangas demoníacos.
Eu não consegui dar qualquer resposta aquele comentário. Ele estava me insultando. Insultar antes de cometer assassinato era sua especialidade. Hants me ergueu, jogando-me em seu ombro. A faca que eu segurara, agora estava nas mãos dele.
Hants começou a subir alguns degraus nos levando até um cômodo vazio e pequeno. Ainda me segurando, ele abriu uma porta de vidro que dava início a uma pequena varanda com alguns metros de altura. Meu coração acelerou.
– É isso? – Comecei. – Vai me jogar?
Ele apenas fez um som com a boca.
– O que são aquelas seringas? – Perguntei. Se eu iria morrer, queria ao menos morrer sabendo o que ele estava tramando.
– Então vocês entraram no meu laboratório. – Ele não parecia infeliz com a notícia.
– O que são? – Insisti.
Hants me jogou no chão e agachou na minha frente, enrolando meus cabelos em sua mão. A faca agora estava abaixo do meu queixo, ameaçando cortar minha garganta a qualquer momento.
– Veneno.
– Veneno? — Repeti.
– Um veneno bom.
– Não existem venenos bons. – Eu chacoalhei o corpo, a lâmina da faca gelou minha pele. – O que pretende fazer com isso? – Me contive em tentar escapar, seria um desastre ter a garganta rasgada.
– Me tornar imortal.
Um arrepio correu pelo meu corpo. Os demônios não eram imortais, havia um jeito de mata-los, ferindo profundamente o coração.
– Impossível. – Engasguei levemente.
– Você é tola. – Ele me levantou. – Ainda não testei, mas sei que é a minha maior invenção. Estou a muito tempo trabalhando nisso e não espero que falhe. – Ele riu, seus olhos brilharam. Ainda segurando a faca em minha garganta ele soltou meus cabelos e puxou uma seringa do bolso. O líquido verde brilhava com a pouca luz que vinha da rua. – Isso aqui. – Ele chacoalhou a seringa. – Me fará imortal.
– E pretende distribuir gratuitamente a todos os seus colegas malignos? – Perguntei indiferente.
– Sim. – Ele fitou meus olhos. – Menos o seu cachorrinho, Jess.
– Bom saber. – Jess apareceu atrás dele, que foi mais rápido e me pegou pelo braço com tremenda força arremessando meu corpo para o alto me fazendo voar por cima das grades da varanda. Estiquei minhas mãos para agarrar as grades e meu corpo se chocou com elas. Não aguentaria me segurar por muito tempo.
Hants deixou a faca cair quando Jess chutou sua mão. A faca deslizou pelo piso batendo no ferro que eu estava segurando. Minhas pernas balançavam no ar.
Jess tentou acertar Hants com soco, mas a força dele não era suficiente. Hants segurou a mão de Jess e o jogou contra a parede, em seguida pegou-o pela camisa e empurrou seu corpo em direção ao chão. Jess gemeu bem ao meu lado. Antes que Hants socasse seu rosto com toda força, ele conseguiu se soltar e mandou Hants para longe o bastante para conseguir pegar minhas mãos. Ele me puxou, mas Hants já estava próximo.
– Não solte. – Ele sussurrou.
Vi um braço puxá-lo pelo pescoço e seus pés deslizarem pelo chão. Eu tentei erguer meu corpo, mas não consegui. Fazer uma dieta teria entrado para minha lista mental de coisas importantes. Isso se eu vivesse.
Minutos depois, Jess foi jogado contra a grade, seus olhos estavam totalmente negros. Sua expressão era assustadora. Um aperto tomou meu coração. Hants segurava Jess pela nuca, mirando a cabeça dele para baixo.
– Te jogar não resulta em nada. – Hants falou ofegante. – Mas me dá tempo um tempo bom. – Antes que ele o fizesse, Jess agarrou o ferro e jogou seu corpo para frente de propósito, Hants se desequilibrou e soltou Jess facilmente.
Jess estava do meu lado, ele segurou minha cintura e me empurrou para cima. Minhas mãos alcançaram o topo da grade e eu me joguei para dentro da varanda novamente. Hants pegou a faca e mirou em mim. Meus olhos se arregalaram e eu fiquei paralisada.
Ouvi apenas minha respiração, tudo aconteceu em câmera lenta. O ar saiu da minha boca lentamente. A ponta da lâmina estava mirando em meu rosto. Eu não conseguiria escapar tão rápido, era o fim. Fechei meus olhos e uma lágrima escorreu de um deles, meu corpo relaxou e eu puxei todo o ar que pude.
Um barulho abafado me fez abrir os olhos. Jess estava no chão, na minha frente com a faca atravessada em sua mão. Ele gemeu, mas não pensou duas vezes em tirá-la e manda-la de volta a Hants. A faca entrou em seu peito, e eu tive a certeza de que Jess havia mirado no coração. Em um dos braços de Hants, a seringa estava vazia. Ele havia aplicado o veneno no corpo.
– Jess, aquilo vai torna-lo imortal. – Eu chorei. – Ele disse que o veneno foi feito para isso.
Jess não disse nada. Ele se levantou, segurando a mão sangrando ele moveu-se para frente em passos curtos. Os olhos de Hants estavam negros como os de Jess.
Hants gargalhou.
– Eu venci, Jess. – Ele gritou. – Você não pode fazer nada agora. – Sua mão segurou o cabo da faca e puxou-a para fora, sangue escorreu pela camisa. – Antes de tudo, quero que saiba que isso é pelo meu filho. – Ele tossiu. – Eu matarei você e sua garota. Depois todas as pessoas que estavam ao redor de vocês. – Ele engoliu saliva andes de continuar. Ele não parecia bem, aquilo era efeito do veneno. Levava um tempo para chegar onde ele queria, não só tempo, mas também consequências. Porém, depois daquilo ele se tornaria imortal, pensei. – E então... – Hants não conseguiu continuar. A tosse aumentou e ele cambaleou para trás, se apoiando na grade da varanda. – Isso está... – A voz dele vacilou. – Errado. – Terminou.
Jess recuou, ele percebeu que havia alguma coisa errada.
Hants tossiu ainda mais forte e sangue brotou em seus lábios. Seus olhos pareciam ferver escuridão.
– O que? – Ele sussurrou.
– Acho que você não esperava isso. – Jess falou, com tranquilidade na voz. Eu sabia que ele estava tão aliviado quanto eu.
Hants encarou Jess. Sua mão estava segurando a ferida no peito e sangue corria sem parar, passando em suas mãos como córregos de águas vermelhas. Hants caiu. Seu corpo ficou imóvel.
– Tudo bem? – Jess me puxou para ele.
Ele não estava preocupado com o ferimento na mão. Jess me abraçou tão forte que eu achei que iria derreter. Ele me beijou com força e desespero e segurou meu rosto contra o seu.
– Acabou. – Ele sussurrou. – Eu te amo.
Meus olhos encharcaram-se e eu contornei meus braços em volta do Jess.
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