Tentação

53 - Capítulo 53


Notas iniciais
Quero agradecer a todos os leitores por terem acompanhado e favoritado. Estou feliz por ter conseguido terminar a história, os comentários me incentivaram bastante. Muito obrigada mesmo. Mas chega de enrolar, espero que gostem. Boa leitura.

Jess me puxou pelas escadas, me guiando em direção ao corredor. Eu não sabia o que havia acontecido na cozinha logo depois que Hants me levou junto com ele.

— Onde estão os outros? – Perguntei, apertando sua mão.

— Mortos. – Ele falou.

Um alívio correu meu peito. Estávamos sozinhos, não havia mais perigo.

Entramos no cômodo em que Jess lutara a minutos atrás. O vi fazer um movimento para o lado e uma luz forte se acendeu. Os dois corpos estavam jogados um para cada lado.

— Consegui achar uma das facas que você derrubou. – Jess disse. – Esse eu matei. – Ele apontou seu indicador para um dos corpos. – Aquele lá fez o serviço sozinho. – O outro corpo estava com os olhos sangrando, e uma faca atravessada no peito. — Eu o furei nos olhos. Viver sem enxergar não estava nos planos dele, eu acho.

***

Parei o carro em frente à casa da Abgail. Eu havia dirigido, Jess estava muito ferido.

— Estamos bem agora? – Perguntei a ele.

— Sim. – Ele suspirou. – Hants comandava os outros, sem ele não haverá mais planos. Eu espero.

— Hants queria se vingar pelo Philip.

— É.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, até Kane aparecer na porta.

— Ei. — Ele disse. – Está tudo bem?

Jess e eu nos olhamos.

— Sim. – Falamos juntos, sorrindo.

— Ah, minha nossa. – Mamãe apareceu. – Mag, você está bem? – Ah, querida.

Não consegui andar direito até entrar pela porta da casa de Abgail. Mamãe havia me apertado o caminho todo, chorando e lamentando por tudo o que havia acontecido, depois contamos toda a história. Ela não deixou de me dar broncas, dizer o quanto eu era irresponsável e que eu havia feito uma loucura. Jess também ouviu um bocado de palavras acusadoras, mas depois ela se desculpou e o agradeceu.

— Tudo bem. – Abgail começou. – Acho que já podem se retirar, não quero ser mal-educada, mas preciso de espaço, quero ficar sozinha. – Não demos muita atenção, acho que ela ficou ainda mais agitada por ter sido ignorada.

Não demoramos muito depois disso, se acaso fizéssemos, Abgail ficaria louca.

***

Em casa, contei a mamãe tudo o que havia acontecido na vez em que ela foi parar no hospital. Ela não acreditaria antes, diferente de agora, que ela havia entendido tudo e não interrompera um segundo sequer para dizer “Isso é ridículo, você está usando drogas? ”. E ela também chorou quando eu disse que Thomas estava morto.

— Acho que já está bom. – Mamãe disse. – Não preciso de mais notícias ruins. Preciso descansar. – Ela limpou o rosto. – Aliás, todos nós precisamos.

— É, precisamos muito. – Luis falou, bocejando.

— Você tem certeza que está tudo bem? – Mamãe perguntou, encarando Jess.

— Sim, senhora. – Jess respondeu, acenando com a cabeça.

Louis ajudou Kane a levar Hanna até a caminhonete, Jess e eu paramos na varanda de casa. Minha mãe estava subindo as escadas, ela parecia um zumbi andando.

— Ei, Jess. – Louis gritou. – Se importa de me deixar em casa?

Jess fez um sinal com as mãos e Louis entrou na caminhonete.

— Eu me importo, para falar a verdade. – Ele falou baixinho, me fazendo rir.

— Pare com isso. – Eu o repreendi, abraçando-o. – Louis é legal.

— Um dia eu entenderei isso. – Seu rosto estava centímetros do meu. – Mas não prometo nada.

Eu o beijei.

— Magda. – Ele sussurrou.

— O que?

— Precisamos conversar. – Seus olhos fitaram os meus.

— Ei, Jess. – Kane gritou. – Ande logo.

— O que foi? – Perguntei ao Jess.

Jess suspirou.

— Preciso levar Hanna, ela tem que descansar. – Ele me soltou e me beijou na testa. – Depois conversamos.

— Você está bem? – Perguntei. – Está ferido também, não é só ela que deve descansar.

— Eu aguento. – Ele sorriu.

Seus passos largos eram sexys, eu nunca deixava de prestar atenção em seus movimentos. Ele andava confiante, até mesmo estando em condições não tão boas. Mas o que ele queria falar comigo? Parecia sério.

A caminhonete se foi. Hanna gritou algo como “Você vai pagar esse estrago”. Não me obriguei a entender aquilo, eu não iria pagar. Nem pensar.

***

O dia seguinte correu tranquilo. Mamãe dera folga a mim e ao Kane. “Escola” não era uma palavra bem-vinda naquele momento, “dormir” era.

— Você parece bem-humorada. – Mamãe falou sorrindo. Ela segurava uma caneca na mão e uma espátula na outra. O cheiro de panquecas estava em toda a cozinha.

— Isso se chama alívio. – Falei.

— Seu irmão saiu cedo hoje.

— E para onde ele foi? – Perguntei, despejando leite em um copo.

— Visitar aquela menina estranha? – Ela fez careta.

— Hanna.

— Deve ser. – Sua feição séria apareceu. – Mag, você gosta mesmo daquele menino?

Mas que pergunta era essa? Claro que sim.

— Mãe, se vamos falar sobre o Jess, espero que não seja desse jeito. Não assim. – Eu me sentei. – Não vou deixa-lo, se é isso que...

— Tudo bem, tudo bem. – Ela me interrompeu. – Eu só quero o seu bem.

— Ele é o meu bem.

— Ele não é como nós somos, Magda.

— Eu não me importo, Ok? – Não perdi a cabeça, não queria discussão, só queria aproveitar o dia. – Podemos mudar de assunto?

— Uh-hu. – Ela disse, com a caneca na boca. – Quanto ao Kane, devo proibir. Essa Hanna não é flor que se cheire. Já basta você com esse Jess.

— Mããee. – Revirei os olhos.

***

Eu estava no meu quarto desenhando quando Jess entrou pela janela. Aquilo deveria ser normal para mim, mas eu sempre me assustava, e quando o via o meu estômago brotava borboletas.

— Você é bom nisso. – Falei, me aproximando.

— Eu sou bom em muitas coisas. – Ele mordeu o lábio. – E você sabe disso.

Estava uma tarde bonita. O céu era uma mistura de cores, azul, amarelo, branco e alaranjado. A janela do meu quarto deixava a luz bonita entrar.

— O que está fazendo? – Ele perguntou, desviando os olhos para minha escrivaninha.

— Hum, desenhando. – Respondi.

Sua mão estava enfaixada, lembro-me que mamãe havia feito o curativo, quase como um pedido de desculpas.

— Kane e eu fomos a galeria mais cedo. – Ele disse.

— E porque não me avisaram?

— Você estava bem dormindo. – Ela sorriu, seus dedos acariciaram meu rosto. A luz do sol brilhava entre nós dois. – Parecia estar sonhando comigo, decidi deixa-la como estava.

Eu ri e ele riu também.

— Eu sonho com você todos os dias.

Jess ainda estava sorrindo, mas sem mostrar os dentes. Seus cabelos lisos e negros estavam bagunçados. Sua barba parecia ter acabado de ser feita.

— Você deve ter algo para me dizer. – Eu o lembrei.

Seu sorriso desapareceu aos poucos, sua feição era neutra. Suas mãos estavam na minha cintura, elas apertaram-me e me puxaram para ele. Jess estava usando uma camisa escura e jeans, como sempre.

— Eu não quero perder você. – Ele sussurrou com os olhos fechados.

— Não vai. – Meus braços seguravam seu pescoço. – Você não vai me perder. – Seus músculos estavam tensos. Ele começara a me preocupar. – O que foi? – Perguntei baixo.

— Eu não costumo pensar no futuro. – Ele disse. – Mas eu venho feito isso a algum tempo. – Ele se afastou um pouco. – Você sabe...

— Não. – Interrompi. – Eu não sei, Jess. – Falei. – E eu não quero saber nunca.

Eu sabia o que ele estava querendo dizer. Minha mãe havia dito mais cedo que nós dois éramos diferentes. Eu sabia que Jess não era humano, eu sabia que poderiam vir consequências. Mas e daí? Eu também sabia que eu não me importava com nada disso.

— Mag, eu não vou poder te dar uma família. – Sua voz rouca me deixava louca.

— Eu não me importo. – Forcei meus olhos para não derramar lágrimas.

— Você precisa ter certeza. – Ele disse.

— Não diga isso, não pense em desistir de mim. – Eu desfiz a pequena camada de ar entre nós. – Não pense.... Eu tenho certeza, você está me entendendo?

— Eu não disse que iria desistir. – Ele falou, erguendo meu queixo. – Eu não disse.

Ele me beijou. Jess me beijou intensamente e eu não esperei muito para enfiar minhas mãos por dentro de sua camisa e sentir sua pele firme, seus músculos bem desenhados. Não esperei muito para sentir seu cheiro forte de tudo, de chuva, de terra, de hortelã, de homem. Seu calor gostoso e seus toques carinhosos e calculados. Ele era habilidoso, eu era dele. Ele podia fazer o que quisesse, mas por favor que ele não me deixasse. Tudo menos me deixar. Não havia horário e nem lugar certo, não havia “Nãos” só “Sins”. E eu nem me importava para o que ele era, a única coisa que eu sabia é que eu o amava. Eu o amava tanto que nem eu sabia mais de nada. Só sabia que ele era único, que ele era meu.

— Eu amo você. – Foram as palavras dele. Palavras ofegantes e sinceras que eu me recusava a ter que ouvir só uma vez. Ele sempre dizia, mas eu sempre iria querer mais. Eu não me cansaria, eu jamais me cansaria de ouvir sua voz, eu jamais me cansaria dele. Eu nunca iria me cansar. Nunca.

***

Muitos dias se passaram. Muitas horas. Muitos minutos. Muitos segundos. E finalmente eu havia me formado. Seriam novos planos. Novos sonhos.

As luzes eram coloridas, a música agitada. Pessoas elegantes, o salão era enorme. Eu estava no baile de formatura, pensar isso me fazia sorrir. Eu achava ridículo, ou melhor, eu um dia havia achado ridículo tudo isso.

Ele estava lá. Ele usava terno preto. Seus cabelos estavam penteados, mas nada formal. Ele nem se quer estava usando sapatos de couro. Ele nem se quer prestava atenção em outra coisa a não ser em mim. Seus olhos pareciam dois buracos fundos cheios de segredos obscuros, e eu não tinha medo. Eu tinha vontade de sei lá o que, tinha vontade de “Jess”.

Meus amigos também estavam lá. Estavam mais babacas do que nunca. Eu os levaria para a vida toda, nem que fosse apenas em fotos. Cada um seguiria seu caminho.

Eu consegui um emprego melhor e minha mãe continuou com seu trabalho, mas ela recebeu aumento porque passara a ser gerente da empresa em que Thomas havia a colocado. Minhas economias conseguiriam cobrir os gastos da faculdade. Eu havia feito as somas.

Sobre Kane? Ah, ele conseguiu roubar um beijo da Hanna. Ela quase arrancou a cabeça dele, mas todos nós sabíamos que ela não era tão durona assim. E que ela estava se segurando para não confessar de uma vez o que sentia de verdade.

Aliás, Jess se mudou para um apartamento mais discreto e Hanna conseguiu sua galeria novamente, com nossa ajuda é claro. Dias e Noites em trabalho pesado. Eu até ganhei um espaço para deixar meus desenhos a mostra. Mas ela ainda não me perdoou pelo fato de eu ter roubado seu carro, coitada.

Demônios? Estão em todos os lugares, pecando. Mas só um me importa. O nome dele é Jess e ele é escandalosamente sexy e perfeito.

O futuro? Ah, o futuro a gente vê no que dá.

The Horrors – Still Life ♪ ♫

FIM.

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