Tennensi Reformatory
43 Faça por merecer
Notas iniciais
–Deixar as pessoas em estado vegetativo é coisa de profissionais.
– Ah meu Deus. – Ela me olhava com um misto de sentimentos no olhar, como se não pudesse estar mais agradecida e ao mesmo tempo chocada e culpada.
– Não me olha assim ruiva. – Disse sério olhando em seus olhos. – Eu não quero que tudo mude por causa disso. Não quero que você se sinta culpada e nem que me odeie por ser um semi-assassino. – Ela franziu o cenho. – Eu sei que você tem uma lista longa de motivos que devem fazer você me odiar, mas não acrescente este, tudo bem?
– Adam, pare de falar besteiras. – Ela disse em um fio de voz. – Voc... você é quem tem de acrescentar isso na lista de motivos pelo qual deve me odiar. Droga... eu não sei o que dizer. Meu pai... ele deve conseguir alguma coisa. Ele tem que conseguir, Adam.
–Ele já fez o suficiente, ruiva. Ele me colocou aqui nesse lugar e com apenas dois anos. – Eu disse com um sorriso meio forçado. – Claro que podia ter a fiança, mas meu pai de todos os modos não tinha o dinheiro e minha mãe simplesmente ligou para o reformatório e deixou um recado dizendo para eu esquecer que sou o filho dela. Mas não faz diferença, há muito tempo ela tinha deixado de ser minha mãe. – Natascha me olhou perplexa. Eu havia conversado com ela algumas vezes sobre a minha mãe. Mas ela nunca viu de verdade como era nossa relação. Tão instável quanto a dela com os pais, dias atrás.
–Adam, minha família tem o dinheiro. – Ela disse convicta. – Meu pai. Eu. –Ela falou. – Você pode... ainda tem como pagar a fiança? – Eu suspirei.
– Não. – Eu disse, porém estava sorrindo de forma meio abobada, não devido a minha situação e sim pelo momentâneo desespero da ruiva por minha causa. – Já aconteceu. Seu pai se ofereceu pra pagar, disse que esse era o menor dos detalhes para ele. Que nunca poderia compensar o favor que eu fiz a ele, e outro monte de palavras bonitas. Mas eu neguei.
– Negou? – Ela quase engasgou com as palavras. – Você é idiota mesmo ou sofre de algum problema? – Eu ri.
– Eu sou idiota mesmo. – Justifiquei. – Mas eu neguei ruiva, porque finalmente estávamos quites. Um favor por um favor. Se eu aceitasse a grana continuaria devendo uma a sua família. E eu não sabia se estaria disposto a sacrificar mais dois anos para compensar. – Ela franziu o cenho.
– Do que você está falando, Adam? – Ela parecia realmente confusa. – Estou começando a achar que realmente se trata de uma doença.
–Eu to falando de você ruiva. – Tentei soar direto. – Colocar você nesse lugar foi o favor que seu pai me fez mesmo indiretamente. – Ela pareceu me encarar como se agora tivesse certeza que realmente se tratava de um problema mental. – Cair em cima de você na primeira vez que nos vimos, pode ter certeza que foi a melhor merda que já me aconteceu. Até aquele dia ninguém levantava a voz para mim a não ser Ethan. Ninguém me xingava e me olhava nos olhos da forma como você faz. Eu nunca nem sequer tinha sido afrontado por uma garota. E mesmo que eu tivesse humilhado você, literalmente te jogado ao chão, na noite em que nos esbarramos de novo, você permanecia lá com o mesmo olhar inabalado.
–Adam eu acho que... – Eu fiz sinal para que ela não me interrompesse, eu tinha certeza que não conseguiria me abrir novamente se ela fizesse isso.
–Até aquele dia, eu só me sentia o dono do pedaço e se você não tivesse aparecido, eu continuaria sendo o capacho e braço direito do Brandon. Se você não tivesse invadido a ala sete naquele dia e enfrentado ele do modo que eu sempre sonhei em enfrentar até aquele dia, talvez seria eu acobertando ele a dar sumiços em garotas e os irmãos delas. E nem vamos falar de como eu sou sortudo por não ter contraído nenhum tipo de doença sexualmente transmissível. E isso eu também devo a você, eu simplesmente comecei a ter nojo de deitar na mesma cama, ou melhor de deixar você deitar na cama em que metade da população feminina do reformatório já tinha se deitado. – Eu não pude evitar rir. – Você pode não saber, mas no dia em que eu percebi que você realmente ia continuar a dormir no meu quarto eu fui na loja mais próxima e comprei quatro jogos de cama novos. Mas agora só restam três já que eu tive que eliminar um deles na manhã em que você dormiu no mesmo quarto do Mason. Eu fiquei tão revoltado aquele dia, que chamei uma qualquer para o quarto e só me dei conta disso na manhã seguinte. E acredite eu não estava revoltado só porque você não me avisou que dormiria fora. – Eu dei um suspiro sem saber o que falar. – Foi por isso que eu te liberei da maldita aposta. Eu esperei você voltar sem ter certeza que voltaria. E agora que está de volta eu simplesmente acho que não consigo mais suportar deitar na mesma cama que você e fingir que é absolutamente normal. Que beijar você é só um passatempo. E acredite eu não acho que meus sonhos sejam saudáveis. Pelo menos não aqueles que envolvem você. Então só seja sincera, você entende pelo menos a metade de cada uma das coisas que eu disse a você, ou eu realmente sou um idiota? – Ela não disse nada. Ficou calada por tantos segundos que eu desconfiei que talvez ela tivesse dormido de olhos abertos enquanto me escutava. O que sem dúvidas seria uma puta sacanagem com o meu discurso improvisado.
– Você é idiota. – Ela falou rápido se sentando na cama, meus olhos acompanharam seu movimento ao mesmo tempo que eu sentia um balde de água fria sendo jogado em mim. Talvez ele fosse apenas imaginário, mas acredite o choque era real.
Eu não me senti capaz de dizer nada. Fiquei com medo de explodir se dissesse. Não que eu estivesse sentindo raiva. Mas eu acho que era algo novo. Algo ainda pior do que a raiva. Era o misto da rejeição que vinha de mãos dadas com a mágoa. Isso não era um sentimento legal, acredite.
Não consegui mais encará-la, não depois que ela cortou a linha de nossos olhares e passou a olhar convicta para uma das paredes. Suspirei dando-me por vencido e resolvi que não conseguiria ficar naquele quarto, mas não poderia expulsá-la também. Me levantei rápido pegando minha camiseta no chão e a pondo de qualquer jeito no corpo. Caminhei até a porta e tive que contar até cinco na esperança de que talvez ela dissesse algo. Não disse.
Sai do quarto sem me preocupar em encostar a porta. Pelo silêncio ninguém fora eu e a ruiva estávamos naquele lugar. Caminhei pelo corredor sem me importar em estar descalço e aquele chão parecer imundo. Eu não me lembrava da última vez que alguém havia varrido aquele lugar.
–Adam. – A voz atrás de mim me fez congelar onde eu estava. Não tive coragem o suficiente para olhar para trás e ver a ruiva me encarando. Eu ainda estava lutando contra a minha vergonha. Mas de qualquer forma olhar e não olhar era a mesma coisa. Eu a conhecia bem o suficiente para saber que ela estava parada na porta. Apenas de meias que logo teriam a sola encardida com o chão do corredor, e a roupa um tanto amarrotada enquanto seu cabelo se sustentava em um coque mal feito. Mas que parecia combinar com toda aquela áurea de “pouco me importo com a sua opinião” que a sinaleira costumava emitir.– Você é idiota, mas isso não quer dizer que eu não entenda. Cada uma dessas coisas que você disse só confirmam mais o quanto você é idiota. Sabe por quê? – Fiz um curto aceno negativo com a cabeça. Ela o notou, mesmo eu estando de costas. – Porque eu não ligo para o que você faria agora se eu nunca tivesse aparecido, para o tipo de garoto mimado e arrogante que você é ou seria.. tanto faz. Tanto faz as garotas que você pegou ou rejeitou, e nunca me passou pela cabeça em quantos futuros filhos seus eu estava me deitando por cima, mas já que você citou, muito obrigado pelos cobertores novos. E além de tudo sabe por que você é ainda mais idiota? – Eu não tive como impedir meu corpo que em câmera lenta se virava na direção dela até estarmos de frente um para o outro, com cinco metros em nosso meio. – Porque você pensou que eu ia te deixar em paz assim,tão fácil. – Foi minha vez de franzir o cenho. – Tanto faz se vamos dar certo ou não. Se eu terei que dormir aqui ou no quinto dos infernos, eu entendo você Adam. Entendo tudo em você. E você sempre foi o mais experiente com essa coisa de dizer a coisa mais ou menos certa na hora certa, então não me peça um discurso. Mas eu quero você Adam. Pra caramba.
Eu sorri. Simplesmente sorri porque essa era a única coisa que eu podia fazer levando em conta que meus olhos já estavam arregalados e meu estômago se revirando como se talvez estivesse treinando diferentes estilos de dança. A ruiva correu em minha direção e eu não pude fazer nada se não colar nossos lábios. Meu Deus, aquilo era ridiculamente gay e ao mesmo tempo tudo o que eu queria esse tempo todo. Ter ela ali, e saber que ela continuaria, tanto faz o tempo que ela estaria lá. Mas eu poderia sorrir para o futuro marido dela, quando ela resolvesse crescer de verdade e sei lá, virar uma McSider de verdade com cabelos normais e personalidade normal e dizer pra esse cara, que mesmo pegando a melhor garota que eu já peguei, ele nunca a teria como eu tive. Ele poderia ter a Natascha. Qualquer um poderia ter a Natascha no futuro. Mas eles me invejariam. Invejariam a mim porque eu tive o prazer de ter a sinaleira.
– Eu odeio você Adam. – Ela sussurrou em uma curta pausa enquanto seu corpo era mantido contra a parede do corredor. Eu ri.
– Eu não. – Disse e ela sorriu mordendo o meu lábio. – Eu me acho o cara mais sexy e legal que você poderia ter. Não a motivos para eu me odiar. – Ela gargalhou.
–Tanto faz. – Disse. – Desde que eu realmente o tenha. – Ela concluiu colando nossos lábios novamente.
Eu podia dizer tudo o que ela era e não era. Eu podia dizer como aquela garota me fazia ter os pensamentos mais sacanas que um cara poderia ter. Eu também podia contar como eu estava me sentindo realizado por ouvir aquela última frase dela. Mas eu não vou dizer. Não quando eu posso ter uma ruiva sexy no meu colo.
– Faça por merecer. – Eu sussurrei em resposta a ela, sentindo seus lábios em meu pescoço.
– Eu mereço. Você sabe, não sabe? – Ela sussurrou jogando baixo o suficiente colocando as mãos por dentro da minha camiseta e me permitindo sentir a ponta das suas unhas em minhas costas.
– Ah com certeza sei. – Disse em resposta.
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