Tempos de Guerra

5 Impaciência, família e gritos. Muitos gritos


Notas iniciais
Guardian: antes de tudo, vou transmitir que a Bee ficará sem pc por tempo indeterminado, portanto vocês terão que se contentar apenas comigo por enquanto xD (traduzindo: me desculpem pela demora na resposta dos reviews >.<)

Pouco mais de cinco meses haviam se passado. Cinco longos meses em que absolutamente nada aconteceu. Ao menos nada do que as tropas alemãs em território francês esperavam, ou seja, um ataque dos Aliados naquela região. Assim como o gelo do inverno, a primavera se esvaiu e ao final de março o sol apresentou-se magestoso. E nada.

Durante todo este período, assim como lhes foi ordenado, os batalhões se moveram periodicamente pela extensão do rio, e repetiam em todos os vilarejos por onde passavam, a mesma cena do primeiro que encontraram.

Chenonceau. Uma pequena vila às margens do rio Loire; pequena e esquecida. Uma das poucas localidades ainda não atingidas pela guerra. Até agora.

O sobressalto dos moradores ao visualizarem a forma dos homens fardados, com o símbolo nazista nos braços, andando na direção deles, foi digno de um ataque cardíaco. O susto e o medo foram tão grandes, que as pessoas apenas não saíram correndo aos gritos, porque o medo tem o péssimo costume de sumir com a voz e inibir os movimentos.

Quem caminhava por entre as pequenas casas e pessoas assustadas eram os Sargentos Jeevas e Keehl, juntamente com meia dúzia de soldados armados. O restante havia ficado com o Tenente Otto no local onde montariam acampamento.

O grupo estava em missão de reconhecimento e posse. Mihael batia os pés e não desviava seu caminho por nada. Ereto e de peito estufado, se um camponês desavisado cruzasse com ele, era empurrado com força; se um barril o atrapalhasse, era chutado; e céus, que uma criança não se atrevesse a passar por eles...

A porta de madeira de uma das casas fora aberta brutamente ao som do estrondo produzido pelo coturno do Sargento Keehl de encontro com a mesma.

Os residentes, já suficientemente aterrorizados pela visão dos nazistas ao se aproximarem do — até então — vilarejo, pularam com o susto, e imediatamente, homem, esposa e quatro filhos de tamanhos próximos se abraçaram em defensiva.

Algo naquele homem era ameaçador só pela imagem, mas eles não conseguiam se decidir — talvez a farda com flocos de neve, ou a postura; as inúmeras e coloridas medalhas no lado esquerdo do peito ou o olhar duro brilhando sombriamente por causa da luz fraca. Ou então devia ser a cicatriz, que as crianças encaravam com medo e fascínio ao mesmo tempo, que marcava a bochecha esquerda e se rastejava para dentro do colarinho.

É, com certeza era a cicatriz.

— Vocês já devem saber que o território francês está sob domínio da Alemanha — assim que Mihael soltou tais palavras, na língua da França, sua imagem ceifadora intensificou-se — E as tropas nazistas se instalarão nesta região. Vocês nos servirão lealmente e sem questionamento — ele deu poucos e seguros passos em direção à família abraçada, fazendo com que os seis camponeses se expremessem contra a parede, conforme o sargento se aproximava — Entenderam ou quer que minha amiga desenhe? — tirou do coldre uma automática e apontou ao rosto do homem (Mello era tirano, não covarde). Este já estava vermelho e chorava sem soltar um pio — Aviso desde já que ele só tem a cor vermelha disponível.

O senhor acenou com a cabeça, o pavor escorrendo de seus olhos junto com as lágrimas.

— Ótimo — Mello afastou-se, e quem tomou a palavra foi Matt.

— Tudo o que precisarmos, desde mantimentos até medicamentos, vocês irão nos fornecer. E se alguém aqui entrar em contato com um mísero sodlado Aliado... — deixou o resto da frase no ar, pairando junto com a ameça implícita — Passe o recado para todos os outros — finalizou, se afastando também e se retirando em seguida, junto com Mello e os outros sodlados.

Contudo, o ataque inimigo não veio tão cedo quanto eles imaginavam. Na verdade, cada vez mais parecia se tornar realdidade a afirmação do Coronel Volz. "Esperariam anos, se fosse necessário".

A cada novo dia sem qualquer sinal de ataque, os homens ficavam mais impacientes; a cada noite que chegava no mais absoluto silêncio, a irritação avançava um patamar. Paciência é um quesito importantíssimo para um soldado — mesmo que muitos não o tivessem — , mas mais de cinco meses de espera levam a melhor sobre qualquer um. E tudo isso acumulado acabou se tornando um motivo de constante medo — ainda maior — para as desafortunadas pessoas das vilas, depois de alguns infelizes — para elas — "incidentes" causados pelos soldados irritados.

E é claro que Matt, e principalmente, Mello, não eram exceções.Nenhum deles esperava que fosse demorar tanto assim...

Em uma noite escura, onde praticamente as únicas fontes de iluminação existente eram as luzes longínguas da vila do atual local onde as companhias se encontravam, Mihael caminhava pelas proximidades do acampamento, hora ou outra repreendendo algum soldado que negligenciava sua vigia.

Parou subitamente ao ver uma silhueta mal feita pela lua minguante. Ela estava sentada no chão, sobre o que mais tarde Mello descobriria ser um espesso cobertor, com os joelhos flexionados, os pés próximos às coxas, e os braços cruzados apoiados no topo das pernas.

Reconheceria aqueles cabelos vermelhos em qualquer lugar, sob quaisquer circunstâncias.

Matt encarava a outra margem do afluente congelado do rio Loire, criando uma fonte refletora de luz verde com suas íris, que recebiam atenção especial da pequena parte iluminada da lua. Nada poderia ser lido em sua face, esta que era refletida injustamente no gelo do rio, abaixo do reflexo da lua.

Mello aproximou-se do ruivo, ficando de pé ao seu lado. Não falou nada, apenas ficou ali parado, com o olhar nas luzes distantes que brilhavam na vila.

Ficaram assim por um tempo, até que o silêncio foi quebrado por Matt.

— Mello — chamou, sem erguer o rosto.

— Hum?

— Eu acho que é Natal.

Mello olhou surpreso para Matt — que continuava com a expressão indecifrável — e de volta para a vila. Natal? Parecia uma festividade extremamente supérflua neste ambiente... Mas ao mesmo tempo despertava uma estranha sensação de nostalgia neles.

— Natal... — Mello falou, entendendo o por que da vila estar mais "acesa" nesta noite — Há quanto tempo nós não comemoramos isso?

— Cinco... Seis anos talvez — Matt tentava se lembrar do último Natal que haviam de fato comemorado, mas a única lembrança que vinha à sua mente era de muitos, muitos anos atrás — Você se lembra das festas de Natal de quando éramos crianças?

— Eram uma bagunça total... — Mello respondeu, sua mente vagueando até aquela época nostálgica também.

Há muitos, muitos anos, as famílias de ambos costumavam se juntar para celebrar essa data, e apesar dos problemas econômicos que enfrentavam na época, suas festas eram sempre animadas e fartas, na medida do possível.

Mas isso há muitos anos. Isso quando a família de Mihael ainda estava viva. Isso antes dela ser vítima do ódio e ressentimento de sobreviventes franceses da Primeira Grande Guerra, pelo fato do pai de Mello ter sido um importante oficial nesta. Apenas Mello sobreviveu.

— Mello, você acha que nós ainda poderemos ter um Natal?

— Mas que pergunta ridícula é essa? É lógico que sim — e então acrescentou com um ar de zombaria — O que é isso, Sargento Jeevas? Demonstrando fraqueza?

Matt não se deixou provocar. Levantou de cima da coberta dobrada e ficou de frente para o loiro, tocando de leve, com seus dedos enluvados, a cicatriz em seu rosto. A mesma cicatriz adquirida no fatídico dia em que perdeu seus parentes. A mesma cicatriz que o assombrava até hoje, anos depois, lembrando-o do dito dia; e que assombrava Matt também, deixando bem claro, literamente marcado na pele, o quão perto ele chegou de perdê-lo.

— Você também pode às vezes — Mail falou em voz baixa, quase um sussurro.

Mihael afastou a mão do outro de seu rosto, voltando a centrar o olhar na outra margem, mas sem realmente vê-la. A guerra causou a morte de seu pai, de sua famíia inteira, e cá estava ele. Envolvido até o pescoço na guerra. E em uma bem maior que a anterior. Mas se não tinha escolha a não ser ficar no meio de tudo isso, precisava ao menos acreditar que o seu lado era o mais forte, que o seu país iria triunfar no final.

Ao menos isso, para tudo aquilo não ser em vão.

Contrariando a monotomia e a espera insuportáveis, algo "diferente" finalmente aconteceu.

Em meados de maio, em uma manhã de primavera particularmente quente, um soldado desconhecido chegou ao acampamento. Passou pelos demais soldados, desconfiados, à procura do oficial responsável.

— Heil Hitler! — estedeu o braço direito assim que o encontrou, próximo à sua barraca — Senhor, eu fui enviado para transmitir as novas ordens.

— Eu sou o Tenente Edwin Otto, o oficial responsável por estas companhias. Diga-me quais são as ordens — o tenente falou autoritário, ordenando com um olhar aos homens que estavam próximos, para se afastarem.

E todos obedeceram, se afastando sem demora. Todos menos os sargentos, que se postaram quase ao lado do tenente.

O soldado respirou fundo antes de enunciar — A companhia B, juntamente com a companhia C, devem imediatamente se mobilizar para o norte. Um ataque Aliado é esperado na Normandia, sem data exata. Armadilhas devem ser preparadas e todos os homens devem estar prontos para lutar a qualquer momento. Isso é tudo, senhor!

— Nós estamos aqui por ordem do Coronel Volz. Quem emitiu essas novas ordens? — Otto indagou.

— As ordens são do Marechal Rommel, senhor.

— Do marechal?! — Otto exclamou surpreso, virando para os sargentos em seguida — Organizem os homens, devemos partir o mais breve possível!

Keehl e Jeevas assustaram-se não menos que Otto. Era quase imensurável o grau de urgência do chamado, já que fora feito pelo Marechal Rommel em pessoa. Nem precisaram da ordem direta; saíram para juntar suas tropas praticamente no mesmo instante.

— Levantem essas bundas brancas e flácidas AGORA! — Mello reunia seus homens aos berros, andando a largas e fortes passadas — Andem logo, seus inúteis! — agarrou um dos soldados pelo colarinho, enquanto os outros se apressavam-se para juntarem os armamentos o mais rápido que conseguiam. Jogou-o para dentro de uma das barracas, qual balançou e caiu com o soldado ainda dentro — Estamos partindo para a Normandia em cinco minutos!

Matt não fez diferente.

— ACABOU a vida boa, moças! — ele gritou no ouvido de um soldado adormecido, tirando o quepe da cabeça, escondendo-o atrás das costas e deixando a cabeleira vermelha impulsionar-se para frente por causa da potência de sua garganta — Você estão aqui para lutar pela nação e agora vocês vão fazer isso DIREITO ou vão morrer na mão do inimigo! — a cada palavra, mais homens se moviam atrapalhados e desesperados, tropeçando uns nos outros, recolhendo o que viam pela frente, desde armas até mantimentos — Vocês se acham soldados honrados de Hitler?! Vocês não são NADA até provarem o contrário!

Próximos à confusão, Tenente Otto e o soldado mensageiro observavam tudo.

— São eficientes, não? — Otto perguntou orgulhoso ao sodlado, olhando os sargentos.

— Sim, senhor — o soldado respondeu em voz baixa, os olhos levemente arregalados e um único pensamento em mente: "Tenho que aprender a dar mais valor ao meu sargento..."

O jeito muitíssimo delicado dos sargentos era tão eficiente, que em três minutos uma frota de jipes seguia para noroeste pelas margens do rio, em direção ao Oceano Atlântico. A foz do rio ficava justamente alguns quilômetros abaixo da região do Canal da Mancha.

Matt e Mello, ao mesmo tempo, deduziram em suas mentes que a tática Aliada seria aportar na França pela Normandia para despistar uma possível recepção do Eixo na foz do rio Loire e então adentrar o país pelo rio mais a frente. Como se tivessem ensaiado, o loiro e o ruivo se entreolharam, balançando na cabine do automóvel que percorria os solos disformes das estradas de terra entre os bosques franceses. Ambos sabiam que pensavam o mesmo sem proferirem uma palavra sequer.

Aceleremos um pouco o tempo a partir deste ponto. Tudo o que se precisa saber do tempo que se passou — algumas semanas — é que as companhias B e C conseguiram chegar no ponto certo sem nenhum grande problema, e se instalaram em uma cidade costeira prontamente evacuada.

Parecia uma reprise de um episódio há muito repetido. Mas com a diferença de que agora, como haviam lhes dado um ponto exato para guardarem, podiam montar armadilhas e tudo o mais que conseguissem para recepcionar o exército inimigo.

Mas o problema é que eles não conseguiram fazer o trabalho completo. Tinham preparado várias coisas, verdade (inclusive "bases" feitas de improviso abaixo da cidade), mas poderiam ter feito mais, se tivessem mais recursos. Conforme o tenente e os sargentos haviam descoberto, o Füher e o Marechal divergiam quanto ao ponto de ataque, e como consequência, os que haviam sido mandados para lá, tinham que se contentar com a limitação de recursos.

Mas isso não impediu o Marechal de enviar, ainda, mais tropas para o mesmo ponto, para a formação do "muro do atlântico".

Certa noite, durante a madrugada na verdade, mesmo debaixo da forte chuva, Sargento Jeevas fazia sua ronda pelos arredores da cidade. O tempo havia estado horrível durante todo o dia, e parecia ter piorado ainda mais com o cair da noite.

Quem acreditaria que alguém realizaria um ataque com uma tempestade daquelas? Mas como ordens eram ordens, lá estava Mail. E durante isso, ele encontrou Mello gritando com um soldado, precariamente protegido da chuva por uma lona.

Aproximou-se em tempo de ouvir o desfecho da repreensão.

— Entendeu?! Se você tivesse o direito de dormir, estaria em uma das casas e não de vigia. Agora VÁ FAZER O SEU TRABALHO!!

Mail esperou o homem se aprumar em sua posição, demonstrando mudamente que havia entendido, antes de sair andando com Mello atrás dele e falar.

— Pode deixar que eu cuido da fiscalização dos vigias. A não ser que você queira roubar o meu turno — sorriu meio de lado.

Mello fez uma careta de irritação — A quem estamos enganando? Não vai ter nenhum ataque! Só nos jogam de um lado para outro e merda nenhuma acontece! Quanto tempo...

O sargento não teve chance de finalizar a frase, porque um barulho alto o interrompeu. Um barulho inconfundível de aviões. E mais, um barulho estrondoso, que se fazia ouvir acima da chuva, de bombas.

O ataque havia começado.

— Gefickt¹ — os dois soltaram juntos na fração de segundo antes de começarem a se mover.

Notas finais
¹Gefickt ->"fudeu", em alemão (segundo o meu irmão).
Guardian: então... Nós estamos usando apenas uma base histórica real, mas não esperem uma aula de História, ok? Nós criamos várias coisas sob o que aconteceu de verdade. Por exemplo, o Marechal Rommel existiu mesmo e ele e Hitler discordavam quanto aonde seria realizado o ataque Aliado. E no caso, Matt e Mello foram para a praia de Omaha, que foi o local que mais ofereceu resistência durante o ataque (conhecido como Dia D e iniciado na manhã do dia 6 de junho de 1944).