Dezenas. Dezenas de milhares de soldados "anfíbios" invadiram a Normandia naquela manhã leve e ironicamente ensolrada. A luz do dia exibia com exatidão os corpos ensanguentados na praia enquanto os homens que surgiam do mar tentavam ultrapassar as barreiras montadas a beira-mar.

De qualquer forma, os alemães voltaram ao ataque e algumas horas depois — quando o exército original estava sendo reduzido cada vez mais — os reforçoas, milagrosamente, chegaram.

A diferença de números continuava nítida e desanimadora, mas toda vez que um soldado pensava em desistir, o discurso de Otto lhe cinha à mente. Até mesmo aqueles que chegaram posteriormente, agora já haviam ouvido a atuação repetida pelos outros. Inclusive as ameaças nas entrelinhas.

~x~

Duas semanas haviam se passado, e as tropas alemãs continuavam resistindo firmemente. Claro que o ataque aberto cessou no mesmo dia que começou, e agora tinah virado uma disputa de estratégias. Ora o Eixo fazia sua investida, ora os Aliados. Por um lado os americanos — então organizados nos arredores da praia — não se deixavam encurralar, por outro os alemães — novamente alojados na cidade e abaixo dela — não deixavam os outros avançarem além de onde estavam. Era, acima de tudo, uma batalha de resistência, onde quem mantivesse a melhor estratégia sairia vitorioso.

— Jeevas, vá buscar mais munição no depósito subterrâneo e aproveite para ordenar à Companhia G para ir auxiliar o Tente-Coronel Weber na parte Oeste da cidade — Otto ordenou, virando para o outro sargento em seguida — Keehl, avise aos seus homens para estarem preparados para instalarem as minas terretres ao anoitecer.

— Sim, senhor! — os dois responderam juntos e saíram em direções opostas.

Mello deu as ordens aos seus homens, não podendo mais negar que subestimara, e muito, Edwin Otto. A única coisa que talvez lhe fosse deficiente, era a experiência, mas afora isso, era muito mais competente e habilidoso do que seu predecessor.

Dadas as ordens, Mello voltou ao seu posto, e de lá ele viu. A explosão. E aquela visão provocou um misto de sensações desagradáveis em seu corpo. A frieza do medo e o ardor do ódio o consumiam simultânea e insuportavelmente.

Matt havia passado as ordens à companhia aliada e agora voltava, na direção de um caminhão de carga, juntamente com outros três homens, com as armas e munições pedidas.

Até que veio a explosão.

Sargento Jeevas foi completamente surpreendido com a detonação de uma granada não muito distante de onde ele se encontrava. E logo em seguida mais outra. As granadas não acertaram o caminhão, mas acabaram por destruir algumas das construções ao redor, impedindo assim, a mobilidade do automóvel.

E sem ter para onde dirigir, o sargento saltou de dentro da cabine do caminhão e gritou aos homens que o acompanhavam:

— Tirem as armas de dentro! Levem na mão mesmo, mas tire-as daqui! AGORA! — não podiam perder nenhum armamento à disposição, definitivamente não podiam se dar a oluxo de perdê-los!

Os armamentos foram descarregados e rapidamente retirados da zona de perigo. Mas não se pode dizer o mesmo dos homens que os carregaram. Não de todos eles, pelo menos.

Mail estava próximo do que restava de uma das casas quando a terceira granada detonou. Ele não conseguiu se afastar a tempo.

A explosão serviu para fazer a construção ruir de vez, e com a audição afetada pelos sucesivos estrondos próximos e com a visão atrapalhada pela cortina de poeira, Matt percebeu tarde demais que outra granada havia sido lançada.

Tarde demais.

Sentu apenas a dor dilacerante e a pressão insuportável quando os destroços de concreto caíram em cima dele, soterrando-o, deixando-o sem ar. Até que ele não sentiu mais nada.

E foi esta a visão que Mello teve.

O loiro saiu em disparada de onde estava, o coração dolorosamente enlouquecido em seu peito, até o ponto onde Matt estava.

— O que estão esperando?! TIREM ELE DALI!! — gritou furiosamente ao se aproximar, pulando os entulhos e escorrengando em alguns. Os homens se mobilizaram imediatamente.

Outros soldados foram atraídos pelo ocorrido, e entre eles, o tenente.

Mello estava cego pela fúria. Não enxergava ao seu redor com nitidez mais, tal era seu estado de espírito. A única coisa que enxergava, que concentrava sua atenção, era a imagem de dois homens usando fardas americanas correndo para longe da área detonada. Mas eles não iam fugir. Ah, mas não iam mesmo!

Mihael pegou uma metralhadora caída no chão ao lado de um cadáver e mirou no indivíduo da direita primeiro. Mas antes que pudesse atirar, Otto depositou uma mão no cano da arma, abaixando-a, e com a outra mão estendeu um objeto para o sargento.

— Olho por olho, granada por granada — falou e voltou-se para ajudar na retirada de escombros.

Mello deixou um rápido sorriso de sádica satisfação tomar conta de seu rosto antes de arrancar o pino da granada e jogá-la. De onde estava, dava a impressão de ter visto algo parecido com uma perna voando onde antes corriam os dois homens.

Claro que a prioridade, principalmente para Mello, era ajudar Matt e não deter os culpados, mas Mihael não podia deixá-los impunes. Não depois de terem causado a soterração de Mail. Hipocrisia? Talvez. Mas a guerra como um todo era um grande amontoado de hipocrisia.

Aproximadamente meia dúzia de soldados retiravam os escombros do lugar no braço, embaixo dos gritos estrondosos e mal contido desespero de Mello, que era o que trabalhava com mais empenho. Rapidamente eles encontraram a perna de Matt; o uniforme rasgado mostrando o joelho cortado.

— Aqui! Rápido! — os olhos de Mello mal cabiam em suas órbitas e seu coração batia tão rápido que doía. Manter a calma nunca foi um "dom" dele, mas a situação o estava levando ao ápice de um ataque de nervos!

Mais por medo de Mello do que para salvar Matt, os soldados desenterraram o sargento aidna mais depressa. Entretanto, a visão não foi nada aliviadora.

Sagento Mail Jeevas estava desmaiado sobre os blocos de concreto despedaçados, seu rosto virado para a direita, deixando totalmente à mostra um grande e feio corte em sua têmpora esquerda. O sangue que dali escapava em um fluxo constante mesclava com o cabelo ruivo, misturando-se; vermelho no vermelho, era difícil diferenciar um do outro. Seu rosto, assim como todo o resto dele, estava coberto de poeira e sujeira, mas a palidez que tomou conta de sua pele era mais do que perceptível.

Mello, cujo peito era cada vez mais oprimido por um peso enorme, que quase o impedia de respirar, apressou-se em tirar os últimos destroços de cima do ruivo e estava prestes a tirá-lo de cima dos que deixavam seu corporepousando de forma desnivelada, quando reparou em algo mais. Era um pouco difícil desviar o olhar do rosto sujo e pálido manchado de vermelho, visão que o sufocava e apresentava um conhecido desespero, mas era igualmente difícil ignorar a estranha posição na qual se encontrava o ombro esquerdo de Matt.

— Ajudem aqui! — Mello gritou, para variar, puxando o corpo de Matt para seu colo. Um braço abaixo da articulação do joelho e outro, com cuidado, no pescoço. Mihael aproximou seu rosto do de Mail e, para amenizar um décimo do aperto na garganta do loiro, pôde sentir a fraca respiração daquele — Ele está vivo!

Com isso, Otto e os outros homens se apressaram o máximo que o terreno disforme lhes permitia para ajudar os sargentos. Dois deles ajudaram Mello a segurar Matt e o tenente, devido à sua formação médica mais aprofundada ainda nos tempos de treinamento, tirou o casaco marrom de Matt como pôde. Sem outro jeito de livrar-se da camisa, Otto rasgou-a com pressa. quanto antes garantissem que o ruivo nã otinha nenhum ferimento letal, melhor.

— Ponham-no na vertical — sentenciou Otto após examinar com os olhos clínicos os tórax e abdômen de Matt, desde o umbigo até a cicatriz antiga no lado esquerdo do peito, desenhando em alto relevo a Suástica — E enfiem algo na boca dele para que não morda a língua.

— Tenente... — Mello começou, mas nma verdade não sabia o que perguntar.

— Ele deslocou o ombro, Keehl. Vou colocar no lugar.

Após obedecerem Otto, Mello olhou rapidamente ao redor, e não encontrando nada minimamente limpo, ergueu a manga do casaco e colocou seu próprio antebraço entre as dentições de Matt. Os soldados penderma o desacordado em pé, deixando o lado esquerdo solto para que o tenente fizesse o que tinah de fazer.

O tenente depositou suavemente uma mão na parte frontal do ombro e usou a outra como apoio na parte de trás. Respirou fundo uma vez antes de impor força no ombro machucado, para fazê-lo voltar ao lugar. Tinha que devolver a cabeça do úmero para a cavidade glecanóide da escápula, e se alguém duvida disso, isso dói. Muito. Otto aplicou força suficiente para fazer aquilo de uma única vez, para não prolongar o sofrimento, mas a dor continuou sendo tremendamente forte.

E Matt gritou.

Ou pelo menos tentou. Todos os sodlados que assistiam, prendiam a respiração, como se eles próprios sentissem a dor do sargento ao ouvirem o barulho do osso se deslocando.

Matt foi abruptamente despertado pela agonia que o invadiu e percorreu todo seu corpo em potentes ondas, a dor fazendo seus olhos envergarem para cima. Tentou gritar, o que mais queria era gritar, mas o antebraço de Mello em sua boca o impediu, e tudo o que saiu foi um som abafado e desesperado. um som que acabou sendo acompanhado pelo grito contido do próprio Mello. É lógico, Matt estava quase arrancando um pedaçço de sua carne com os dentes!

Mello mordeu fortemente o lábio inferior, impedindo-se de gritar, sentidno ogosto de ferro invadir-lhe a boca. Matt ainda tentava gritar, movendo desesperadamente a cabeça machucada, obviamente ainda sentindo a dor quase insuportável.

— Estamos com falta de anestésicos — Otto comentou observando Mail e o sangue escorrendo do antebraço de Mihael — Ok, levem Keehl para a enfermaria e cuidado ao carregarem Jeevas.

No mesmo instante os sargentos foram levados para o local que eles chamavam de "enfermaria", deixando um rastro de sangue provindo do braço de Mello. Matt ainda estava zonzo de dor e era apoiado em outro soldado para conseguir andar, mesmo assim percebeu o estrago que fizera.

— Mello... Desculpe pelo seu braço... — disse embragado, com a cabeça pendendo levemente para a direita.

— E você ainda queria vir sozinho...

Matt hesitou por um momento, mas achou melhor não rebater. Pelo menos não naquele momento. Estava sentindo dor demais para isso...

Notas finais
Guardian: não nos batam...