Tempos de Guerra
8 Desespero
Notas iniciais
Só podia-se contar os dois meses que se passaram, pelas trocas de dias e noites, único fator natural reconhecível, já que a aproximação do outono ficava em segundo plano no palco de atrocidades onde bem mais da metade dos atores repousava mortos na areia. Corpos Aliados do Eixo sendo empilhados e quiemados periodicamente, após terem suas armas e munições recolhidas. Homens que em um segundo falavam, andavam e lutavam, em outro davam seus corações, literalmente, pela pátria e pelos ideais desta.
Devido a isso e às doenças, que se espalhavam cada vez mais facilmente pela falta de medicamentos — consequência da interrupção do contato há mais de um mês -, os alemães dizimaram-se absurdamente e sem nenhuma chance de reforços.
Oitenta homens — e diminuindo — atiravam contra os americanos quase que implorando desesperadamente a Deus para que conseguissem virar o jogo. Esperança? Perdida há muito. Desespero? Dominando tudo e todos.
Ainda mais depois depois do que aconteceu quase um mês antes.
— Andem logo, seus palermas — Mello sussurrou autoritário para a meia dúzia de soldados que os acompanhavam apressados. Tenente Otto, os ditos soldados e os Sargentos Jeevas e Keehl, agora recuperados e de volta à ação, avançavam sorrateiros pelos arredores da cidade, abaixados e camuflados pela escuridão da noite.
Pararam próximos a um dos pontos de concentração Aliada, e o mais baixo que conseguia, Otto repassava a ordem aos soldados.
— Segundo o grupo de reconhecimento, esta região do acampamento possui dois grandes depósitos, um de mantimentos e um de munições, e um menor, também de armamentos, um pouco mais afastado — sua voz saía em um silvo que poderia ser confundido com o vento — Kehhl, Jeevas e eu vamos ao depósito de munições, à leste, e vocês três irão ao depósito menor à oeste furtar o máximo de armamentos que conseguirem — indicou três dos soldados — e vocês três causam a distração para manter o nosso caminho livre — olhou para os três restantes.
O plano era destruir os depósitos maiores de mantimentos e munições para diminuir ainda mais os recursos do exército Aliado e "dar o fora" antes de maiores complicações. Mas é claro que não iriam deixar a oportunidade passar e pegariam a maior quantidade possível de mantimentos antes de destruir o resto. A parte dos alimentos estava sob o comando do Tenente-Coronel Weber, e enquanto os soldados ordenados furtavam os armamentos no outro depósito, Otto e os sargentos destruíam o estoque maior, que esperavam estar com a segurança negligenciada por conta da distração planejada.
— Vão — Otto sibilou para todos.
De cócoras, os três homens responsáveis pela distração se movimentavam rápido para evitar qualquer barulho. Distanciaram-se alguns bons metros e atiraram numa árvore perto da base. Faziam tudo pensado minuciosamente, tanto para não serem pegos quanto para não desperdiçarem a preciosa munição.
Os americanos atentaram-se ao barulho e logo se armaram. A noite muda favorecia a audição apurada e tornava o momento muito mais tenso. Os soldados alemães também soltaram alguns gritos para chamar a atenção, além de gastarem um único e certeiro tiro em uma lamparina próxima, iniciando um pequeno incêndio. Feito isso os homens se retiraram rapidamente, antes que fossem encontrados.
No desespero de conter o fogo que, devido à área arbórea em que estavam, corria o risco de se alastrar, os Aliados se concentraram em deter as chamas, crentes de que fora uma tentativa falha dos alemães de matá-los. Porém a ação do Eixo estava acontecendo mesmo era nas costas do alojamento.
Os soldados do primeiro grupo adentravam sorrateiramente o galpão de alimentos. Com as lanternas baixas, vasculharam o local repleto de mantimentos empacotados em papel verde, do exército, e lacrados com fita crepe.
— Braatz, avise o tenente que vamos jogar a comida — Weber ordenou.
Os sargentos e Otto preparam-se para receber os pacotes, abrindo entre cada um, um espaço de quase dez metros. O primeiro embrulho fora jogado da porta, caindo nas mãos de Braatz. Assim que este lançou para Mello — e então para Matt e para Otto — mais um veio. Repetiram a ação mais doze vezes, a comida sendo empilhada e escondida um pouco mais longe, antes de partirem para a segunda parte do plano.
Tinham que agir simultaneamente. Os incêndios nos galpões precisavam ser iniciados praticamente ao mesmo tempo, e eles deveriam se retirar imediatamente após feito isso.
— Vocês cuidam da gasolina — Otto sussurrou para os sargentos, postando-se na entrada do galpão de armamentos, com sua automática na altura do peito, vigiando enquanto os outros trabalhavam.
Matt e Mello encharcavam todo o interior do galpão com gasolina, e ao esvaziarem todo o conteúdo do galão, se juntaram a Otto na entrada.
— Jeevas, isqueiro — Otto estendeu a mão para o ruivo, ainda observando o lado de fora. Achou que vira alguma movimentação nas folhagens, mas mesmo com seu sexto sentido eximiamente apurado, preferiu não externar o pensamento e manter o foco na estapa final do boicote.
O tenente entregou sua arma para Mello, que mantinha a porta aberta para a fuga, e acendeu o isqueiro. Mal seu dedo acionou a ferramenta, um disparo fora ouvido e na fração de segundo seguinte Otto caía de costas no chão, direto numa poça de gasolina; poça esta que deixou de possuir uma cor uniforme em questão de segundos.
— Otto! — Matt se apressou em caçá-lo com a lanterna, mas outro tiro atingiu a construção em seguida, despertando a reação de Mello após o curto momento de choque. Os olhos dele correram pelo ambiente na fúria do momento e atirou uma única vez no vulto em movimento ao longe. Fora mais que suficiente.
Otto estava caído no chão, o sangue que escorria da ferida feita fazia uma poça cada vez maior em junção com a gasolina abaixo dele. Sua respiração saía difícil e dolorosa, e uma brisa gelada parecia invadir-lhe todo o corpo. Ardia, queimava, latejava, doía intensamente.
Não é hora para eufemismos, Otto estava morrendo. E ele próprio sabia disso.
— Otto! Otto! TENENTE!! — Mail chamava em desespero, agachando ao lado do homem.
— Você segura desse lado — Mihael ordenou a Matt, também agachando, pronto para passar um dos braços do tenente por sobre seus ombros e erguê-lo com a ajuda de Matt.
— ... S-Saiam daqui... — Otto falou com dificuldade.
— Como? — Mello perguntou confuso — Mas é lógico que não podemos deixá-lo aqui!
— — Escutem... Urgh... — Otto usava todo o seu fôlego para tentar falar em um nível audível e entendível — ... Eu estudei medicina o suficente para perceber que esse é um tiro fatal, então... — tossiu um pouco, um filete de sangue escapando por sua boca — ... Dei... Deixem-me pelo menos terminar a missão...
E foi então que ambos os sargentos perceberam que mesmo após atingido, o tenente mantinha o isqueiro seguro em sua mão.
— Não... Não podemos fazer isso! — Mail exclamou. Não queria, não podia deixar Otto ali para morrer... O tenente salvara sua vida! A simpatia, o respeito e a gratidão, o impediam de abandoná-lo daquela forma.
— Jeevas, eu levei um tiro mas continuo sendo seu superior... — mesmo que a voz antes tão potente tivesse saído trêmula, a autoridade se derramava de cada palavra, tão líquida quanto o sangue que escorria do baixo tórax esquerdo de Otto — Eu... Estou mandando... Vocês deixarem este... — inspirou mais fundo e com mais dificuldade. Suas escuras íris já começavam a perder o foco, e os tremores de seu corpo também intensificaram-se — ... Lugar, agora. Sem questionar!... Argh...
Com os últimos resquícios de energia, Tenente Edwin Otto acionou o isqueiro, após algumas tentativas, e deu sua ordem final e irrefutável.
— Vão.
— N-Não! Nós... — Matt gaguejava, seus olhos arregalados e sua respiração descompassada pelo susto, pelo desespero.
Morte era a convidada de honra em um campo de batalha, e tanto Mail quanto Mihael cansaram de trombarem com ela durante as chuvas de balas. Mas vê-la ali, abduzindo a vida do homem mais respeitado pelo alemães na Normandia, era aterrorizante.
Barulhos não muito distantes puderam ser ouvidos.
— Matt... Não dá mais. Vamos... — Mello puxava os cabelos e relutava contra si mesmo. Seus instintos de dedicação à irmandade do exército rasgavam-lhe o estômago e gritavam em seus tímpanos "Vá salvar Otto, seu fraco!", contudo a obediência o mantinha atado. Maldita disciplina militar!
Otto não tinha mais forças para ordenar nada, e antes que a chama do isqueiro encostasse na gasolina espalhada pelo chão, contrariando tudo o que desejaria de fato fazer, Mello cerrou os dentes e puxou Matt pela farda, forçando-o a levantar. Não falou nada; não conseguiria dizer nada naquele momento. Arrastou Matt — arrasado e derrotado, sem oferecer mais nenhuma resistência- para fora.
E esta foi a última vez que ambos viram Edwin Otto.
O fogo havia se iniciado, e justamente seu primeiro alvo consumido foi o corpo agora totalmente inerte do tenente.
Assim que Mello e Matt pisaram fora do galpão, o local fora alvejado pelos Aliados, quais se aproximavam criticamente. Nem pensaram no que estava acontecendo, apenas correram o máximo que podiam, com o som das balas atingindo diversas superfícies como trilha sonora.
— Onde está o tenente? — Braatz perguntou em meio à corrida, qual envolveu quase todos os membros da missão. As plantas e a terra atrapalhavam na locomoção, mas todos pararam por um segundo apenas.
Um clarão avançou pelo céu escuro, sobre as copas das árvores. Labaredas altas tentavam alcançar as estrelas e jogavam corpos americanos para cima juntamente com os restos do que há instantes atrás eram partes do depósito. O fogo não demoraria a se alastrar pelo bosque, o que despertou Mello.
— Apenas corram!
Os homens, o que ainda restava do exército, os companheiros que continuavam resistindo, iam caindo um a um. Parecia que a cada vez que ohlavam para os lados, um soldado morria. Era desesperador.
Logo o único oficial que restava vivo, Tenente-Coronel Weber, também deu adeus à sua respiração e batimentos cardíacos. Os Sargentos Jeevas e Keehl foram deixados sozinhos com poucas dezenas de homens. Cansados, machucados, mal-alimentados, e sem esperanças. Mas ainda de pé.
Até que não deu mais.
Estavam totalmente cercados e encurralados pelos inimigos, com munição suficiente apenas para... Não, eles não tinham munição suficiente para nada mesmo.
Estavam cercados, e os americanos aproveitaram a oportunidade para encerrar de vez aquela batalha que acabou durando bem mais do que eles esperavam. Abriram fogo.
Sem ter para onde fugir nem meios para revidar, as balas seguiram sem problemas. E Sargento Jeevas foi um dos primeiros atingidos, direto na cabeça. Keehl nem teve tempo de gritar pelo nome do ruivo quando este caiu. Porque o segundo sargento foi ao chão logo depois.
...
...
...
Ignoremos os dois últimos parágrafos, por favor. Eles foram uma brincadeira de mau gosto proveniente do calor do momento.
Agora vamos ao que aconteceu de verdade.
O que restava do exército alemão realmente estava cercado, ams as tropas Aliadas não abriram fogo contra eles.
— ... — Matt analisou rapidamente a situação e concluiu que havai apenas uma única atitude a ser tomada — Larguem suas armas! — gritou para seus companheiros, ele próprio deixando a arma que segurava, inútil, cair ruidosamente no chão.
— O QUÊ?! — Mello exclamou, segurando ainda mais firmemente sua metralhadora.
Mas o som de metal, das armas, sendo derrubadas no chão, pôder ser ouvido por toda a área que os alemães ocupavam.
Era o som da derrota.
— Nós nos rendemos! — Matt gritou em inglês para os americanos que os cercavam.
— MAIL!!! — Mello ainda exclamava inconformado, sentindo seus dedos coçando para acionar sua arma e gastar suas últimas balas naqueles yankes malditos.
— Nós. Nos. Rendemos — Matt repetiu entredentes, tentando fazer o loiro largar a arma. Não conseguindo, sussurrou urgente — Eu falei que era melhor você ficar vivo, então larga essa arma!
— Mas... Mas... MERDA! — disse por fim, derrotado.
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