A proximidade do encontro com Katrina deixava o bando todo com os nervos a flor da pele. As discussões eram constantes, muitas delas por motivos idiotas como deixar a garrafa de refrigerante aberta ou não apagar a luz do banheiro.

Stiles sentia que ia acabar enlouquecendo no meio de tanta tensão. Kevin agora passava mais atempo choramingando e agarrado a ele ou Derek, e até mesmo dormindo, o rapazinho parecia não relaxar, rangendo os dentes com tanta força que quem ouvia tinha a impressão de que eles iriam quebrar.

Do mesmo jeito que as discussões começavam rapidamente, elas também acabavam com a mesma facilidade. Mas apenas para dar uma falsa sensação de normalidade ao bando. O único que se mantinha alheio a tudo ainda era Derek.

E o motivo dessa suposta apatia era desconhecido por todos ali, inclusive Stiles. Após o encontro com Deucalion, Derek levou todos para casa e disse que sairia para buscar alguma coisa para comerem.

No entanto, ele fez um pequeno desvio do caminho para o restaurante tailandês, passando antes pela delegacia para conversar com o Xerife. Em poucas palavras explicou para ele o que tinham deduzido a partir das informações de Deucalion e Deaton e as lembranças de Stiles.

Sem que Derek precisasse pedir, o xerife assumiu para si a tarefa de descobrir se havia algum recém nascido sumido ou mesmo algum relato de um corpo desaparecido. Derek agradeceu e saiu, mas não havia nem estacionado o carro próximo a casa quando seu celular tocou.

– Derek! – a voz do xerife estava visivelmente tensa – Acho que tenho uma evidência.

– Estou ouvindo.

– Há quase um mês houve um relato de perturbação da ordem pública. De acordo com os registros da Secretaria de Segurança Pública um grupo de arruaceiros depredou um cemitério, inclusive violando túmulos.

– Túmulos de crianças?

– Apenas um. Andrew Frederich Carson, um garotinho de seis meses que morreu junto com os pais num acidente de carro. Não encontraram nem a lápide e nem o caixão com o corpo do menino.

– Você disse que os vizinhos do cemitério queixaram-se de um grupo de arruaceiros.

– Sim, mas o sistema de segurança instalado no posto de gasolina em frente ao cemitério não registrou nenhuma imagem. Apenas uma sombra escura e um pouco de estática antes dos barulhos começarem.

Derek suspirou. Estática e sombras em câmeras de segurança, tudo indicando o sobrenatural.

– Onde isso aconteceu? – Derek perguntou, fechando os olhos com força.

– Em Half Moon Bay.

Derek desligou logo depois disso. Half Moon Bay ficava a 200 quilômetros de distância. Pensando nisso, Derek sentiu um arrepio correr sua espinha. O xerife disse que a família inteira morreu num acidente de carro e ele não duvidava que até esse acidente pudesse ter sido provocado por Katrina.

Ele não contou essas informações para ninguém. Não precisava de Stiles ou qualquer outro do bando surtando porque a criança que eles tanto amavam era algum tipo de zumbi.

Demorou quase três dias para que Deaton ligasse, falando que ele e Deucalion haviam encontrado um jeito de chegar até Katrina.

– O esconderijo dela pode ser um lugar perigoso. Não sabemos o que tem lá e achamos que o melhor é trazê-la para um lugar neutro. – o emissário explicou, sentado no sofá da casa de Stiles, onde eles estavam passando a tarde com Kevin e o xerife.

– E como vamos fazer? Mandar um e-mail para ela, katrina@bruxamá.com? Ou enviar pelo correio um convite para um brunch? – Stiles ainda não tinha se acostumado a ideia de ter que reencontrar a dona daquela voz que lhe aterrorizava até em pesadelos.

– Vamos invoca-la. – Deucalion, que se mantinha afastado do grupo, foi quem respondeu.

– Invocar? – Scott ergueu uma sobrancelha.

– Sim. Katrina não é mais um lobisomem. Não é mais da nossa espécie. Ela ainda pode se transformar, mas abriu mão de ser uma de nós para se tornar uma bruxa. Isso agora faz dela uma criatura sujeita à invocações. – Deaton explicou.

– E como isso é feito? Em termos práticos, quais as chances de funcionar, onde será feito e quem poderá estar presente? E o principal, como nos livramos dessa coisa?

As perguntas foram feitas pelo xerife que tinha Kevin sentado em seu colo e um pote com banana amassada na mão para dar para a criança.

– Todos podem vir, mas eu sugiro que nem todos apareçam. Ela é obrigada a responder à invocação, mas se sentir que está acuada, pode sumir novamente. – a voz do ex líder dos alfas era estranhamente calma.

– É um ritual bastante simples, apesar de envolver elementos delicados. – Deaton começou a explicar – Precisamos de um lugar neutro, mas com certa fonte de poder, o que eu suponho todos vocês sabem do que estou falando.

– Nemeton. – Isaac concluiu.

– Exato. Quando estivermos no nemeton, quem fizer a invocação deve ficar o mais próximo possível de suas raízes. Não seria exagero até mesmo aproveitar que ele está cortado e se posicionar no meio. Katrina não poderá atingir quem estiver protegido pela magia druida que ela abriu mão em prol da necromante.

– Mas quem estiver de fora... – o xerife tornou a falar.

– Estará vulnerável. – Deucalion respondeu.

– Depois que um de nós estiver no meio do nemeton, o que deve ser feito? – Cora perguntou, querendo saber qual seria a dinâmica desse ritual.

– Ao ser invocada, a criatura, independente de sua natureza, estará presa ao véu da invocação e irá lhe responder três perguntas e realizar dois desejos. Mas isso tem um preço, que deve ser pago com sangue.

– Sacrifício animal? – Stiles questiona, a voz um tom acima do normal.

– Não exatamente. – Deaton continua a explicar, mais preocupado com o olhar do xerife do que com o espanto dos lobisomens – Quem estiver presente na invocação pode se voluntariar para dar seu sangue. Apenas algumas gotas sobre o tronco do nemeton serão suficientes.

Eles ficaram em silêncio por um momento, quando Derek questionou:

– E quando faremos isso?

– Na sexta-feira. É noite de lua nova, o momento perfeito para esse tipo de ritual.

Todos concordaram com Deaton e estavam mais tranquilos, quando Deucalion tornou a falar:

– Já pensaram em quem vai fazer a invocação?

– Eu! – Derek e Stiles falaram ao mesmo tempo.

– Não é prudente. – o alfa ponderou – O objetivo de Katrina, até onde sei, é exterminar os Hale. Se Derek estiver ao alcance de suas mãos, ela não vai hesitar em ataca-lo. E como Stiles é o companheiro de Derek, acaba ficando na mesma posição.

– O que você sugere? – o xerife perguntou, ligeiramente incomodado com o tom que a conversa estava levando.

– Eu faço isso. Afinal, vocês me chamaram aqui para pagar minha dívida com Derek e chegar até Katrina. – o bando pareceu considerar uma boa proposta, quando ele continuou – Mas vou levar Kevin comigo.

Houve um grande alvoroço no local, rosnados e protestos sendo proferidos por todos ao mesmo tempo, até que o xerife gritou:

– Basta! Todos vocês, calados! – ele olhou para Deucalion – Você está falando em levar meu neto direto para as garras dessa tal Katrina?

– Não. Estou falando de ter Kevin comigo para que ela me veja como aliado, antes que vocês a ataquem e coloquem um fim nisso. – ele explicou – Preciso de um motivo para invoca-la. Uma invocação não é feita apenas para bater papo com um bruxo. Ela precisa confiar em mim para explicar o que o Kevin é, o que ela pretende para ele e o que temos que fazer para impedir que ele se torne a arma que ela planejou.

Era um ponto de vista sensato, apesar do incômodo que todos sentiam dentro de si ao pensar em Deucalion sozinho com Kevin no meio da floresta.

– Prestem atenção! – ele continuou – Eu me encontro com Stiles e Kevin na floresta enquanto vocês cobrem o perímetro. Não é bom se aproximarem muito antes da hora para que ela não seja capaz de farejá-los. Apesar de não ser uma lupina, ela deve ter mantido alguns dos nossos dons. Eu a invoco com a falsa intenção de devolver Kevin para que ela termine seja lá o que for que estava fazendo com ele e quando ela tiver respondido às questões, vocês atacam.

Parecia um bom plano. Lógico, direto, simples. Eles acabaram concordando, apesar de Derek ainda sentir uma pontada de insegurança dentro de si. Era tudo fácil demais. E ele havia crescido com a perspectiva que se uma situação está muito fácil é porque tem algo incrivelmente errado com ela.

Notas finais
Tá quase no final... acho que o próximo capítulo já é o último...