Notas iniciais
A falta de lua deixava o caminho ainda mais escuro até o Nemeton. Eles seguiam em silêncio, lobisomens na frente guiando o grupo, deixando Stiles, o xerife e Kevin por último. Todos estavam atentos a qualquer ruído e pararam no local estabelecido como “perímetro seguro”.
– Agora eu sigo daqui. – Stiles falou, pegando Kevin do colo de seu pai – São mais uns quinze metros até o Nemeton, não é?
– Isso, quinze metros. – Derek assentiu, as sobrancelhas franzidas em sinal de contrariedade – É uma distância segura para podermos lhe ouvir.
– Ok. Vamos nessa, companheiro? – ele perguntou para o menino em seu colo, que apertou os bracinhos ao redor de seu pescoço.
Começaram a andar e Stiles sentia Kevin tremer em seus braços enquanto tinha certeza de que seu próprio coração corria mais rápido do que o normal.
A cada passo perto do nemeton sentia como se uma corrente mágica começasse a envolvê-los enquanto seu coração e o de Kevin passavam a bater sincronizados.
Um arrepio correu suas costas assim que avistou Deucalion, calmamente sentado sobre o tronco cortado do grande carvalho. Ele girava uma adaga na mão e enquanto olhava para o céu que, justamente por estar sem lua, parecia ter ainda mais estrelas.
– Stiles! – ele sorriu – Chegou antes do que previ.
– Quanto antes terminarmos isso, melhor.
– Praticidade e determinação. Excelentes qualidades no companheiro de um alfa.
– Acho que o objetivo desse encontro não é você elogiar meu relacionamento, certo?
Deucalion sorriu mais largamente e puxou uma mochila que até então estava jogada entre as raízes da árvore.
– Sim, eu estive pensando... – ele se agachou e remexeu nas coisas que havia levado – Pensei que se amarrasse você e Kevin, Katrina pode ser convencida mais facilmente a revelar seu plano.
– Nos amarrar? – a voz dele saiu um tom ligeiramente desesperado.
– Para dar veracidade. Duvido que Katrina seja amigável vendo você e a criança tão a vontade.
Antes que Stiles pudesse argumentar, Deucalion já amarrava os pés de Stiles com uma corda rústica, feita com um cipó que exalava um cheiro cítrico. Pegou Kevin de seu colo e também atou mãos e pés do menino que choramingava.
– Deucalion, eu não ach...
Ele foi interrompido pelo alfa que o amordaçou com um lenço branco e depois amarrou suas mãos para trás do corpo. Arrastou cuidadosamente o rapaz para o nemeton e o colocou deitado sobre o tronco, com Kevin aninhado próximo a sua barriga.
Olhou no relógio e sorriu ao ver que faltavam poucos segundos para a chamada “hora da lua”, momento exato em que cada uma das fases da lua era tida como concluída no céu.
Pegou a adaga com que brincava quando Stiles chegou e começou a andar ao redor da árvore, murmurando as palavras que Deaton havia lhe ensinado. Mas na hora de cortar seu braço e derramar o sangue para completar a invocação, ele furou o braço de Stiles que arregalou os olhos e gemeu com a dor aguda que a lâmina fria lhe provocou.
– Me desculpe, rapaz, mas não vou amarrar meu sangue a essa criatura. O seu sangue ela já conhece bem. – ele sussurrou no ouvido de Stiles e sorriu, de forma maldosa.
Assim que o tronco do nemeton absorveu o sangue derramado, a floresta pareceu escurecer ainda mais, alguns raios riscaram o céu e Stiles teve a sensação de um déjà vu, tamanha a similaridade com a noite em que o darach foi derrotado.
Mas não houve tempestade naquele momento, apenas um redemoinho formado por uma fumaça escura começou a se agitar ao redor deles, condensando-se cada vez mais, até que uma mulher realmente assustadora caminhou por entre elas. E quando ela ficou diante de Deucalion, o mundo pareceu parar.
Katrina tinha os olhos escuros, não apenas as pupilas eram negras, mas todo o globo ocular era daquela cor. Seu rosto era magro e de um branco pálido, lembrando mármore. Os cabelos ruivos desciam lisos até a cintura, marcada por um cinturão de um material que aos olhos de Stiles parecia pele humana. Trajava um vestido roxo de alças finas que parecia ser feito das mesmas nuvens negras que a cercavam e que se movia para se ajustar a seu corpo a medida que ela caminhava até eles, com segurança. Mas o mais marcante na mulher era a tatuagem que iniciava no centro de sua testa com uma lua crescente e seguia tomando toda lateral esquerda de seu rosto, pescoço, braço e terminava no meio do dedo médio. As ramificações de tinta escura pareciam palavras intrincadas umas às outras, amarradas com linhas e pequenas flores de pétalas brancas.
– Conheço a sua alma. – a voz fria soou por todos os lados sem que ela tivesse aberto a boca sem cor – Sua alma me foi companheira no inferno, Deucalion. Mas ultimamente, não temos visto você por lá.
Deucalion não demonstrou medo. Sorriu mais abertamente e ergueu Kevin ao colo.
– Tenho assuntos mais interessantes aqui do que no inferno. – ele respondeu, displicente – E entre esses assuntos encontrei algo que acho que lhe pertence.
Os cabelos da bruxa se agitaram a seu redor, mas ela não se moveu:
– A criança Hale.
– É assim que você chama essa aberração?
– Essa é uma das três perguntas a que tem direito?
Deucalion se calou. Ele estava no meio de um ritual, não em uma conversa qualquer. Katrina não abriria nenhuma exceção, responderia a três perguntas e realizaria dois desejos. Respirou fundo e tornou a falar:
– A criança Hale, como você claramente a chama, não existe. Você a fez. O que ela é, Katrina?
– Ela é minha vingança, Deucalion. Ela é a minha arma. Uma pessoa nova, para tomar o lugar de uma antiga. Feita de um corpo morto com a vida de quem os Hale mais presa.
– Sempre falando em enigmas. Mas eu compreendo. – Deucalion avaliava a resposta em voz alta, talvez para fazer Stiles acompanhar seu raciocínio, talvez para dar informações aos outros do bando que aguardam a distância – Este menino foi feito com o corpo de uma criança e o sangue de Stiles. Inteligente de sua parte. Só não compreendo duas coisas. A primeira é como ele cresceu tão rápido em tão pouco tempo. E a segunda é por que ele é um metamorfo se Stiles não é nada mais que um humano.
Essas palavras fizeram os cabelos de Katrina se agitarem ainda mais, assim como as sombras que a cercavam.
– Ambos são lobisomens. Você recuperou a visão e perdeu o olfato?
– Stiles não é um lobisomem, Katrina. Nunca foi, nunca será.
A bruxa avançou na direção do rapaz e colocou a mão sobre a testa dele, murmurando alguma coisa. Stiles sentiu a testa queimar e teria gritado alto se não estivesse amordaçado. Por sua vez, Kevin parecia sentir a mesma dor que ele e começou a chorar desesperadamente. O filho do xerife se contorcia e lágrimas escorriam de seus olhos.
Katrina assistia, fascinada, Stiles se contorcer sem se transformar. Em compensação, Deucalion se admirava com as pequenas presas que cresciam em Kevin, os olhos brilhando dourados e as orelhas ficando pontudas.
– Impossível! – a bruxa gritou e sua voz fez Deucalion se agachar, sentindo seus ouvidos doerem – Eles não podem ser diferentes. Eles são a mesma pessoa! O que você fez? O que fez com meus Stiles?
Ela agora tinha uma das mãos erguidas na direção de Deucalion que sentia-se preso sob garras invisíveis.
– Não fiz nada! Já os encontrei assim. Você deve ter feito algo errado. Essa criança não é o que você queria que fosse.
Ela deixou o alfa cair de qualquer jeito e circulou o nemeton completamente irritada.
– Volte aqui! – Deucalion ordenou, ainda no chão – Você está presa a uma invocação! Volte e responda às minhas perguntas. Você disse que eles são a mesma pessoa, você chamou os dois de Stiles. Seja clara, Katrina, ao responder essa dúvida: qual era o seu plano?
A mulher rosnou, não como um lobisomem faz, mas de um jeito muito mais animalesco e sombrio. Voltou-se de frente para o alfa e se fez maior que ele, erguendo-se no ar como se fosse feita de sombras.
– Já disse que meu objetivo era plenamente minha vingança contra a família maldita, o clã desprezível que me expulsou do meu próprio mundo. Queria os Hale destruídos. Queria matar um a um e usar seu sangue para pintar as paredes de minha casa. Mas soube que alguns caçadores foram mais rápidos do que eu e simplesmente fritaram os malditos num incêndio.
Ela cuspiu no chão, como se tivesse nojo do que tinha falado.
– O fogo era pouco perto do que eu queria. Pouco sofrimento. Misericordioso até. Foi quando descobri que sobraram alguns. Poucos. Nada mais que três deles. E que em seu bando, veja que peculiar, tinha alguns humanos. E Mais que isso, um humano especial. Companheiro do filho de Talia. Foi fácil observar a dinâmica do grupo, que sempre gira em torno das ideias desse moleque – ela apontou para Stiles – e ver que ele é o único elo que mantém o bando unido. Você pode imaginar isso, Deucalion? Um humano sendo a cola para um bando de lobisomens? Hilário! E perfeito. Eles se apoiarem, se ancorarem justo no membro mais frágil. E a ideia era simples: trocar Stiles. Fiz algo melhor que um golen, uma cópia fiel de Stiles, que iria crescer rapidamente e assumir o lugar nele no grupo. Uma bomba implantada no seio do bando para destruí-los da pior forma possível: emocionalmente.
Deucalion não percebeu que estava fascinado com a simplicidade e eficácia da ideia. Stiles era mesmo o elo que mantinha o grupo unido e substituí-lo causaria danos irreparáveis.
– O que não faz sentido é o menino se transformar e ter parado de crescer. Era para ele continuar crescendo até atingir a idade do original. Mas isso ainda não vem ao caso. Você tem uma última pergunta.
– O que eu ganho se te ajudar?
E com essa pergunta Katrina sorriu e Stiles sentiu seu mundo desabar.
O silêncio que dominava a floresta com a presença de Katrina foi mais que suficiente para que os lobisomens ouvissem a conversa e a menção da traição de Deucalion fez com que eles se agitassem.
– Vou rasga-lo em dois! – Derek rosnou e correu em direção a Stiles. Mas não chegou a dar cinco passos e foi arremessado para trás.
Bateu as costas numa árvore e se ergueu, ligeiramente atordoado. Os outros que tentaram passar também não conseguiam e só então eles notaram uma fina linha no chão, feita por mountain ash.
– Maldito! – Derek esbravejou, andando frustrado de um lado para o outro.
– O que aconteceu? – o xerife pediu.
– Deucalion nos traiu e preparou uma armadilha. Stiles está preso lá dentro. Ele cercou o lugar com mountain ash. – Scott respondeu.
– E isso é...?
– Uma barreira mágica. Nenhum lobisomem pode atravessá-la. – Cora resmungou, esfregando a mão sobre o rosto, completamente frustrada.
– Ainda bem que eu não sou um. – o xerife falou, andando para o local onde a barreira estava.
– Você não pode ir lá sozinho! – Ethan segurou o braço do pai de Stiles – Vai estar ao alcance de um lobisomem e uma bruxa.
– Não vou estar sozinho! – ele deu um tapinha na arma que carregava na cintura – Aqui são balas especiais. Um presentinho de última hora que Deaton me enviou hoje cedo. E se eu não for, qual alternativa nós temos? Não vou sentar aqui e ver um psicopata e uma bruxa dar fim a vida do meu filho.
– Vou com você! – Scott se adiantou.
– Você é um lobisomem também. – o xerife lembrou.
– Sim, mas já fiz isso uma vez. Foi como me tornei um alfa de verdade. Já quebrei a barreira de Mountain Ash uma vez, posso fazê-la de novo.
– Todos nós podemos. – Isaac, que se mantinha quieto e pensativo, sugeriu – Todos nós podemos tentar quebrar a barreira. Vai doer, mas se fizermos isso juntos, com o apoio do Scott...
– Sim! É uma ideia. – Aidan concordou – Ficamos um ao lado do outro e forçamos a barreira. O xerife pode entrar e aguardar quando o primeiro de nós atravessar a barreira antes de seguir.
O pai de Stiles atravessou a linha formada por Mountain Ash e aguardou impaciente, enquanto os outros se alinhavam ao longo da trilha feita por Deucalion. Scott foi o primeiro a colocar as mãos na barreira mágica e seus olhos piscaram com um vermelho profundo e intenso. Logo Derek e os outros também forçavam a barreira.
Assim que Scott ouviu o estrondo da barreira ceder para a sua pressão, correu com o Xerife em direção ao nemeton. Os outros conseguiram instantes depois, ao mesmo tempo. A barreira quebrou lançando um brilho prateado no céu que chamou a atenção de Deucalion e Katrina.
– O que é isso?
A pergunta da bruxa soou como um sibilado, mas ela não conseguiu ouvir a resposta de Deucalion. Um zumbido passou diante de seu rosto e no instante seguinte o alfa começava a tossir e um líquido viscoso e negro escorria de seus lábios. Pouco acima do coração, um buraco queimava deixando um rastro de sangue escorrendo por sua camiseta.
Deucalion caiu ajoelhado ao lado de Kevin, observando o xerife se aproximar, seguido de Scott.
– Não sou xerife nessa cidade por falta de opção! – o pai de Stiles murmurou para Scott que parecia impressionado com a pontaria do oficial.
– Katrina! – Deucalion chamou, com a voz áspera e pontuada pela dor – Meu... Meu desejo... Tenho dois... Me salve!
A bruxa olhou o alfa caído e estendeu a mão para ele, erguendo sua face com a ponta do indicador. Deucalion sentiu a unha comprida e gelada da mulher em sua carne e sua voz chegou até ele como um sopro de escuridão:
– Não.
– Maldita! Você fez um pacto!
– Mas não com o seu sangue. – ela argumentou e levitou em direção a Stiles, que permanecia levemente tonto com a dor que sentiu minutos antes – Já tenho o que quero, Deucalion. Você não é necessário.
E como se estivessem esperando essas palavras, as sombras que lhe circundavam caíram sobre o lobisomem que ainda deu um último grito apavorado antes de ser deixado sem vida sobre o nemeton.
Os uivos atrás de Katrina não a assustaram, o xerife ainda tentou atirar mais uma vez, mas a bala simplesmente atravessou a bruxa como se ela de fato fosse feita de ar. Ele parou de atirar quando notou a proximidade dela com Stiles e Kevin.
Cora passou a frente do grupo e avançou para a mulher que nem se deu o trabalho de virar o rosto em sua direção. Um golpe de sombras empurrou a lupina de costas contra uma árvore, arrancando-lhe um gemido de dor.
Scott conseguiu golpeá-la, aproveitando sua força como um verdadeiro alfa. Suas garras rasparam sobre uma das tatuagens de Katrina rasgando a pele de onde escorreu um líquido perolado. Derek se aproximou nesse momento, mas a bruxa já havia se recuperado e virou para encará-lo.
Com os cabelos agitados a seu redor, ela segurou Derek pelo pescoço e ergueu-se no ar levando-o consigo, como se o lobisomem não pesasse nada.
– Chegou a hora! – ela tinha uma expressão extasiada – Vou acabar com você, Hale. De um jeito que vai doer mais do que a morte, mais do que o exílio. Vocês me tiraram de perto dos meus, e eu vou tirar os seus de perto de você. E você vai viver eternamente sabendo que isso foi sua culpa!
Ela soltou Derek, que caiu no chão com um baque e sentiu o osso do tornozelo partir. Mas a dor da lesão não foi tão grande quanto perceber que a bruxa ia agora para cima de Kevin e Stiles. E ela tinha finalmente aberto a boca, revelando dentes pontiagudos e marrons.
Derek uivou, os outros lobisomens fizeram o mesmo e tentaram se aproximar, o xerife atirou duas vezes para o alto, mas nada adiantou. A bruxa foi com os dentes direto para o pescoço de Stiles e mordeu.
Os dentes foram aos poucos enterrando na carne macia e alguns filetes de sangue escorreram pelo pescoço pálido. Katrina apreciava o sabor férreo do sangue de Stiles como se estivesse provando o melhor dos vinhos.
Ela não se preocupou em ouvir os lamentos, o choro do xerife ou o vento tornando a correr atrás de si. Deleitava-se apenas com a sensação de se aproximar da jugular, a pulsação de Stiles vibrando em seus lábios.
O filho do xerife respirava fundo, sentindo o sangue escorrer quente pela sua pele pálida, mas por mais estranho que lhe parecesse, não sentia medo. Apenas inclinou a cabeça um pouco mais de modo que pudesse olhar para Derek e Kevin, que parecia soluçar mais de tristeza que de medo.
E quando os olhos de Stiles se encontraram com os de Derek, algo que ninguém esperava aconteceu: Derek sentiu seus olhos mudarem, ficando cada vez mais quentes, passando do azul para o vermelho e retomando sua força como alfa.
Mais que isso, ele rosnou alto, erguendo-se do chão sem se importar com o tornozelo quebrado e rasgou a camisa, avançando em direção à bruxa. No meio do caminho, mesmo sem a força da lua cheia, impulsionado apenas pelo som do coração do Stiles cada vez mais fraco, ele se transformou em um lobo completo.
Suas patas negras e grosas, caíram sobre as costas da bruxa e seus dentes afiados rasgaram sua garganta, arrancando um jato do mesmo líquido perolado que Scott havia lhe tirado do corte no braço.
A bruxa urrou de dor por poucos instantes, mas logo o líquido mudou para vermelho, seus olhos voltaram ao normal e os cabelos, antes ruivos, ficaram completamente brancos. A pele jovem e tatuada murchou, revelando a idade avançada da mulher que a mulher devia ter.
Derek ainda arrastou o corpo de Katrina para o lado e se aproximou de Stiles que sorriu, cansado, antes de sentir a vista escurecer.
****
Dois anos depois
Stiles sempre corria para deixar tudo pronto em casa antes de levar Kevin para a creche onde o menino ficava para que ele pudesse ir para a faculdade local e Derek para o trabalho. Não que o lobisomem precisasse de dinheiro, mas era bom que a criança crescesse sabendo que os adultos têm responsabilidades, de modo que ele montou uma loja, uma espécie de antiquário que vendia não apenas móveis antigos, mas livros raros também.
Todas as manhãs eram parecidas na vida deles, Stiles se levantava e cuidava do café e do lanche de Kevin. Se arrumava, dava banho no menino e só então Derek saía da cama. “Privilégio de chefe”, ele costumava brincar quando via Stiles emburrado por ter que levantar mais cedo.
No fim do dia, Derek iria buscar o menino na creche e iria para casa preparar o jantar, enquanto alguém do bando, geralmente Isaac ou Cora brincavam com Kevin no quintal da casa Hale que foi totalmente restaurada.
Stiles voltava por volta das 6 horas, depois de passar algum tempo na delegacia, onde ele cumpria as horas de estágio do curso de Psicologia Forensi. Todos se sentavam para jantar e conversar e depois que Kevin ia dormir cada um ia cuidar de seus assuntos e Derek e Stiles finalmente iriam para cama. Muitas vezes apenas para dormir.
Era impressionante como eles haviam se adaptado a uma rotina tão doméstica, como uma grande e estranha família feliz. Stiles vivia fazendo referências à Família Adams e ria, divertido, quando Scott entrava na dança e falava que Isaac seria definitivamente o primo It, se deixasse o cabelo crescer.
Mas naquela manhã em especial, Stiles acordou com uma sensação estranha. Ficou sentado na cama, observando Derek dormir por um tempo antes de se levantar e ir para cozinha sem trocar de roupa.
Não tinha vontade de ir para a faculdade, tampouco para a delegacia. Tudo o que seu corpo pedia era que pegasse Kevin e fosse com ele para a cama e se enrolassem juntos o dia inteiro.
Lavou o rosto na pia da cozinha mesmo para afastar a sensação e preparou o café da manhã, com panquecas e xarope de bordo, leite quente e suco de laranja. Tirou Kevin do berço que ele dormia no quarto ao lado do seu, tirou sua fralda noturna e o levou para a cozinha.
Observava o menino feliz comer seu cereal enquanto assistia a um episódio de Little Einsteins na TV que ficava sobre a geladeira. Quando olhou no calendário é que ele lembrou, fazia exatos dois anos desde que ele ganhara a mordida que lhe deixou as marcas no pescoço.
Correu o dedo pela pele que tinha uma textura diferente das demais. Oito pequenas marcas de um tom mais rosado que o restante e que não desapareceria.
Algumas vezes ainda acordava assustado, sentindo como se os dentes de Katrina estivessem fincados novamente em seu pescoço. Nessas noites, Derek o abraçava mais forte e lhe falava tudo o que Deaton explicou para eles após Stiles recobrar a consciência.
Segundo o emissário, quando Deucalion usou o sangue de Stiles, o poder da invocação foi vinculado ao rapaz e não ao alfa. Depois, quando Katrina assassinou o lobisomem sobre o nemeton já marcado pelo sangue de Stiles, ela reforçou o vínculo do rapaz com aa árvore sagrada. Foi esse vínculo que manteve Stiles vivo e esse mesmo vínculo que permitiu que Derek se transformasse, se reafirmando como um alfa e como companheiro de Stiles.
Ele ainda explicou que a única forma em que uma bruxa feito Katrina torna-se vulnerável para ataques é quando executa alguma tarefa que exija toda sua concentração. Assassinar Stiles e se vingar dos Hale era o seu maior objetivo e ela tornou-se alvo fácil para Derek.
Stiles não se lembrava de quase nada do que ocorreu naquela noite. Tinha alguns pensamentos soltos e confusos, mas sabia que uma peça estava faltando. Uma peça que faria aquela sensação de mal estar passar definitivamente e deixa-lo ser feliz com sua família.
O rapaz finalmente se arrumou, após tomar um copo de suco e comer umas quatro panquecas e logo estava pronto para sair, Kevin também arrumado e aguardando na sala. Derek desceu naquele momento, deu-lhe um beijo de bom dia/tchau e foi preparar uma xícara de café, ouvindo Stiles abrir a porta e Kevin gritando:
– Tchau-tchau, papai!
Mas Stiles não chegou a sair para a varanda. Bloqueou a passagem de Kevin e respirou fundo, sentindo o coração apertar.
– Sourwolf? – ele murmurou – Pode vir aqui?
Derek não precisou de um segundo chamado. O tom de voz de Stiles em conjunto com a mudança de seu humor fizeram o lobisomem saltar.
– O que foi?
Stiles olhou para ele e depois para seus pés. Ali, na varanda da casa Hale, uma caixa de papelão, forrada com um cobertor cor de rosa exibia uma linda garotinha de no máximo dois meses. Ela tinha olhos de um castanho claro, quase iguais aos de Stiles e cabelos fartos e escuros, algumas sardinhas e um sorriso sem dentes simplesmente encantador.
– Quem a deixou aqui? Tem algum bilhete? – Derek pediu, mas Stiles afirmou que não após vasculhar a caixa que não tinha nada além do cobertor.
Derek envolveu a menina com um braço, a fim de esquentá-la, mas logo afastou o rosto para longe e olhou para Stiles:
– Ela cheira como você. E eu. – ele respirou perto mais uma vez – E um pouco como o Kevin.
– Oh não, eu não fui sequestrado e parte nenhuma de mim foi cortada recentemente. – Stiles sorriu para Derek, mas logo uma ideia veio a sua mente e ele abria a boca, surpreso e encantado.
– Ótimo, vamos chamar seu pai e relatar um bebê desaparecido e...
– Não! – ele respondeu prontamente, saltando para perto de Derek e tomando a criança em seu colo – Ela não é uma criança desaparecida, Derek. Ela é uma criança encontrada, e ela é nossa.
– Como pode falar uma coisa dessas?
– Porque eu me lembrei, ok? Me lembrei o que aconteceu há dois anos. A invocação, faria Katrina responder 3 perguntas e depois realizar dois desejos. Mas o vínculo não foi do Deucalion, foi meu.
– Do que você está falando? — Derek franziu as sobrancelhas.
– Derek, antes de você se transformar... Eu senti meu vínculo com ela se formar e acho... bem tenho certeza de que fiz meus dois desejos.
– O que você desejou?
– Desejei primeiro não morrer e depois ter condições de dar a Kevin uma irmã. – ele respondeu a última sentença com os olhos baixos e tímidos.
Derek não respondeu. Mandou Kevin ir assistir um desenho e voltou com a criança pequena em seu colo.
– Der, volte aqui. Fala alguma coisa.
– Ainda acho que temos que ligar para o seu pai. Alguém vai ter que fazer a papelada falsa da Luna também igual a do Kevin.
Stiles abriu a boca para responder, mas a fechou em seguida, processando a resposta de seu companheiro. E quando o fez, o detalhe que mais o chamou a atenção foi:
– Luna? Você já escolheu o nome dela?
– Não é só você que teve amigos imaginários na infância, Stiles. – Derek piscou para ele e voltou a comer uma panqueca, ouvindo Luna ressonar em seu ombro.
Stiles sorriu abertamente desta vez e tornou a passar a mão pela cicatriz em seu pescoço e pensou que aquelas marcas não eram apenas marcas de sobrevivência, eram suas cicatrizes, suas marcas dos nascimentos de seus dois filhos.
Chamou Kevin para ficar com eles na cozinha e quando o menininho subiu em sua cadeira alta, olhou intrigado o pequeno embrulho no colo de seu pai.
– O que é isso? – ele apontou.
– Essa é a Luna. Ela agora vive com a gente. – Derek informou, virando a menina de frente para ele – Tudo bem para você?
Kevin aproximou seu rosto do dela e respirou fundo. Depois deu de ombros e falou:
– Ela cheira como a gente. É um cheiro feliz. Vai ser legal se ela ficar.
Stiles sentiu seu peito finalmente se acalmar. Era isso que lhe faltava aquela amanhã, completar a sua família. Observou como ela segurava com força o dedo mínimo de Kevin e o mais velho parecia todo orgulhoso da força de Luna, como um verdadeiro irmão mais velho.
Stiles respirou fundo, emocionado com a cena, e percebeu que Kevin falara a verdade, eles juntos tinham um cheiro feliz. E ele faria o impossível para que esse cheiro nunca sumisse de suas vidas.
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