Notas iniciais
Deucalion aparece por aqui...

Deaton cedeu o espaço no estacionamento para que o encontro com Deucalion acontecesse. Stiles chegou mais cedo com o menino e junto do emissário preparou tudo, o círculo de Mountain Ash perfeitamente traçado no chão com espaço suficiente para o carrinho de Kevin e alguns brinquedos, além do básico para qualquer eventualidade como fraldas, biscoitos e uma mamadeira.

O bando estava todo ali, de vigília, e quando Deucalion chegou, sorriu de um jeito irônico, ao comentar:

– Me sinto como uma celebridade.

– Serial Killers também tem essa recepção quando vão para a cadeira elétrica. – Cora respondeu, os dentes a mostra.

– Calma aí, Wolf Girl. – ele sorriu mais abertamente – Ao que tudo indica vocês precisam da ajuda desse “serial killer” aqui para dar um jeito no problema do filhote. E por falar nisso, onde ele está?

– Por aqui. – Scott acenou e eles foram para o estacionamento atrás da clínica.

Deucalion encarou Stiles sentado no chão, brincando com Kevin com alguns bonecos de super-herói. Se aproximou sorrateiro, antes de observar o círculo mágico traçado no chão quando o rapaz ergueu seus olhos verdes e rosnou, mostrando os dentes de lobo.

Todos se espantaram: era a primeira vez desde seu aparecimento que ele mostrava traços físicos de ser um lobisomem também. Todos sabiam que ele tinha sentidos aguçados, que seu olfato era excelente, mas não havia se transformado mais.

O garoto ficou de pé, meio cambaleante ainda e se colocou na frente de Stiles, rosnando cada vez mais alto, até o que o filho do xerife colocou a mão sobre seu ombro e falou:

– Está tudo bem, Kevin! Ele não vai nos machucar.

O menino piscou os olhos para ele e parou de rosnar, esticando os braços para ser pego no colo, o que Stiles fez imediatamente.

– Incrível! – Deucalion falou, erguendo as sobrancelhas.

Ele deu mais alguns passos para se aproximar o máximo que podia e respirou fundo. Inspirou algumas vezes, mas sentia-se confuso com os aromar que pegava no ar.

– Posso ter uma roupa dele? – pediu, diretamente para Stiles.

O filho do xerife olhou para os outros e como ninguém fez qualquer gesto contrário, retirou o casaco que Kevin usava e jogou para que Deucalion pegasse. O alfa segurou a blusa com cuidado e levou-a até o rosto para captar o aroma devidamente.

Depois de alguns segundos, seus olhos arregalaram e ele olhou de Stiles para Derek e então para Kevin. Abriu a boca ligeiramente e depois fechou novamente. Seus olhos tinham um brilho confuso e sua testa estava franzida.

– Como...? Isso é praticamente impossível... – ele murmurou e virando-se para Derek e Scott pediu – Posso cheirar a criança diretamente? Vocês podem amarrar meus braços com wolfsbane se quiserem. Mas eu preciso ter certeza do que estou presenciando aqui.

– O que acha? – Derek perguntou para Stiles, que não tirava os olhos do ex-líder dos alfas, enquanto Kavin segurava seu pescoço firmemente.

– Ok. – ele balançou a cabeça assentindo – Mas vocês o seguram. Um em cada braço. Você pode cheirar o Kevin, Deucalion, mas não vai encostar uma pata nele.

O alfa concordou com as condições e Stiles saiu do círculo mágico assim que o viu devidamente preso por Scott e Derek, e tendo Isaac, Cora e os gêmeos a seu lado.

Passou a mão num gesto calmante sobre as costas de Kevin e explicou:

– Esse moço estranho só precisa sentir o seu cheiro, ok? Ele não vai te machucar, nem me machucar. Der e Totti estão segurando ele, você vê? – Kevin balançou a cabeça e Stiles continuou – Ótimo, agora você precisa soltar o meu pescoço e eu vou colocar você perto dele, mas não vou te soltar. Pode ouvir meu coração? Viu que estou falando a verdade?

E quando o rapazinho assentiu mais uma vez, ele esticou os braços e deixou Kevin próximo o bastante para que Deucalion esticasse o tronco e captasse o aroma direto da pele clara da criança.

Depois de alguns instantes Deucalion voltou o corpo na posição normal e exclamasse:

– Céus! Nunca vi nada assim.

– O que você nunca viu? – Deaton, que permanecia calado até então, indagou.

– A criança. Ele tem cheiro de vida nova, mas ao mesmo tempo é antigo. É vida criada a partir de vida extinta. Reconhece isso, Alan?

O emissário abriu a boca, chocado. Em momento algum isso lhe passaria pela cabeça.

– Balenshe? – o emissário indagou – Mas isso faria do Kevin um golen. E os lobisomens teriam sentido o cheiro do barro.

– O que está acontecendo? – Stiles parecia confuso e sentia seu coração vacilar com medo do que aquela discussão significava. Conhecia pouco sobre o mundo sobrenatural que se descortinava a cada dia em sua vida, mas lembrava-se de golens em jogos de RPG on line e eles nunca eram boas coisas.

– Estamos falando de um possível ritual Balenshe, Stiles. – Deucalion tomou a palavra, encarando o rapaz que abraçava Kevin cada vez mais forte – Uma antiga seita do baixo oriente que influenciou as práticas mágicas de muitos povos, incluindo os judeus. Os Balenshe tinham o costume de criar guardiões, homens feitos de barro para tomar conta de seus templos e suas aldeias. Eram os soldados perfeitos, pois não tinham sentimentos e nem família. Davam sua vida pela aldeia se ela fosse atacada ou atacavam quando eram ordenados. Os Golen eram feitos para seguir as ordens de seu mestre.

– Mas... Kevin tem sentimentos. – Stiles protestou, confuso – E ele tem uma família. Quer dizer... ele é só uma criança, não pode fingir gostar da gente, pode?

Derek tomou a criança do colo de Stiles, enfiando o rosto na curva do pescoço do menino e respirando fundo, depois passando o braço por cima dos ombros de Stiles e ficando com os dois perto de seu corpo.

– Ele não cheira barro. Ele cheira como uma pessoa. De verdade. – sua voz era quase um rosnado.

– Também não senti o cheiro de barro nele. – Deucalion tratou de se justificar – Mas senti o cheiro de vida antiga.

– Continuamos confusos. – Aiden comentou.

– Kevin não foi feito de barro. Possivelmente ele foi feito com outro tipo de material.

– Que material seria esse? – Stiles perguntou, já prevendo (e temendo) a resposta.

– Material humano. – Deucalion olhou Stiles nos olhos ao responder isso.

Stiles agradeceu por estar com o braço de Derek a seu redor, caso contrário teria cedido com os joelhos no chão.

Sentiu-se fraco e sua cabeça rodou com a informação. Não que esperasse algo melhor de uma criança que parecia com ele, cheirava como Derek e tinha aparecido na forma de lobo no meio da tempestade, além de crescer seis meses em seis horas e ter uma larva parasita mágica presa na nuca. O que o deixou atordoado foram as lembranças de seu sequestro. Do que ouviu no lugar em que ficou preso por uma semana.

Sua mente foi longe e ele não ouviu quando Derek pediu a Scott que segurasse Kevin enquanto ele levava Stiles para dentro da clínica. Não ouviu a discussão entre o bando sobre o que fariam com Deucalion dali em diante, se ele poderia ir embora ou se ficaria por ali, com eles. Tudo o que a mente de Stiles processava eram as lembranças e o olhar de Kevin, atento a suas reações.

– Stiles... – Deaton chamou, em voz baixa, e o rapaz finalmente olhou para ele.

Estavam os dois sozinhos no escritório do emissário. Os ruídos do lado de fora eram captados, mas ele não se esforçava para entender do que se tratava. Encarou Deaton, que esperava pacientemente, e falou:

– Vida antiga.

– Sim, Stiles. Você o que isso pode ser?

– Eu. – ele respondeu – Não só eu, mas alguma coisa revivida junto com o meu sangue.

Deaton franziu as sobrancelhas.

– O que você se lembrou?

Stiles deu um suspiro cansado e fechou os olhos, deixando o corpo cair na cadeira.

– Algumas palavras apenas. A voz da mulher cantando palavras estranhas em latim, quer dizer, eu acho que era latim, enquanto ela me cortava. Ela me cortou por sete dias. Sempre no mesmo ponto ao lado de onde deveria estar meu coração. Achei que um dia ela ia simplesmente enfiar aquela faca mais fundo e arrancar ele do meu peito.

O emissário ficou em silêncio, respeito o tempo de Stiles organizar suas memórias.

– No terceiro dia ela me cortou duas vezes. Ouvi ela murmurar que precisava correr antes que tudo perecesse. E realmente, eu podia sentir algum cheiro de podridão no lugar. Deaton, — sua expressão era apavorada – e se ela ressuscitou o Kevin? Não o Kevin exatamente, mas uma criança qualquer? Isso é possível?

– De Katrina tudo se espera, Stiles. Eu diria que é possível, sim. Você conseguiria repetir alguma coisa que ela tenha falado?

Ele fez um esforço, esfregando os olhos e mordendo o lábio inferior enquanto tentava se lembrar.

– Não lembro tudo, nem a ordem, mas ela repetia coisas como “aliem vita”, “compôs sui”, “custos vigilat” e “ad internecionem”. O que foi? – Stiles questionou vendo a expressão se transformando no rosto de Deaton.

– As palavras que ela usou, basicamente se traduzem como “vida alheia”, “senhor de si”, “sentinela sempre atento” e “até o extermínio”. Isso me faz crer que ela não criou um simples golen, Stiles. Ela criou um ser, capaz de estar atento para levar executar sua vingança contra a família de Derek.

– Ela quer nos exterminar! – Stiles resumiu, sentindo o estômago revirar com a ideia.

– Isso nunca foi segredo para ninguém. – Deaton ajuntou – Nós agora sabemos que o aparecimento de Kevin tem realmente a ver com o seu sequestro e conseguimos entender porque vocês se parecem tanto. Agora, você não é um lobisomem, Stiles. É essa a peça que está faltando no quebra-cabeça.

– Não está. – Stiles falou, de repente, impedindo o emissário de continuar – Eu sei porque ele também é do Derek.

Em poucas palavras, Stiles explicou que o dia em que foi sequestrado, havia acabado de sair da casa de Derek. Eles tinham pedido pizza e numa brincadeira boba entre Isaac e Scott um deles jogou um pedaço do alimento que caiu em cima de Stiles. Derek ofereceu uma camiseta sua e colocou a peça de roupa suja para lavar.

– E é claro que eu sou um idiota e em vez de pegar uma camiseta limpa do Derek, peguei uma que ele já tinha usado. Acho que estou pegando essas manias de cheiro que os lobisomens têm. – Deaton deu um pequeno sorriso, indulgente, ouvindo o que o rapaz contava – Quando fui pego, estava com essa camiseta. A mulher que me prendeu rasgou minha roupa e disse que precisava dela para o casulo. Só que o casulo, seja lá o que for isso, foi feito com a roupa do Derek.

Deaton ficou em silêncio por um tempo. Do lado de fora, o burburinho havia parado e Stiles sabia que todos haviam escutado essa conversa entre eles. O emissário encarou Stiles mais uma vez e o que ele falou a seguir, fez quase todos os lobos lá fora rosnarem:

– Vamos ter que ir até Katrina. Temos alguma ideia do que ela fez, mas o que isso implica para a segurança do Kevin ainda é um mistério. Não sabemos quanto tempo ele tem conosco ainda.

– Deucalion vai ter esse encontro com ela. – Stiles lembrou o emissário.

– Não acho que seja suficiente. Ele pode se encontrar com ela num primeiro momento, mas apenas para nos dar a localização de seu refúgio. Depois, seremos nós contra ela.

Notas finais
Está chegando a hora de confrontar a bruxa-loba... e aí? o que acham que vai acontecer?