Tem que ser você
2 Hora do almoço
Notas iniciais
"Os pequenos gestos desencadeiam uma enorme paixão"
27 de Maio – Terça-feira
Um novo dia começou e estou passando para Eric tudo o que ele deve fazer como meu assistente. Daqui a pouco Ana e Marcelo vão chegar.
– O mais importante é saber de todos os meus compromissos e não deixar que eu esqueça – eu disse.
– De jeito nenhum senhor.
Já tinha passado para Eric, agora estava na hora do almoço, não está nos meus planos ir em casa hoje, acho que vou ter que almoçar na rua.
– Eric, você vai almoçar sozinho? – perguntei.
– Vou sim, aqui perto tem um restaurante, dá para ir andando – respondeu ele.
– Posso ir almoçar com você?
– Sim senhor, será uma honra.
Tirei meu paletó, peguei minha carteira enquanto Eric me esperava, pegamos o elevador, meu carro estava em frente ao prédio.
Dirigi apenas por cinco minutos, achei que era mais longe, logo saímos do carro e fomos nos sentar. Imediatamente uma garçonete nos deu o cardápio.
Tinha tanta coisa boa, mas estava esperando para ver o que Eric ia pedir. Ele pensava e pensava, coçava a cabeça, mas não se decidia, até que fechou seu cardápio e ficou quieto.
– Já decidi, vou querer purê, brócolis, salada e peixe.
Eu notei que ele é bem seletivo, não quis arroz e feijão, mas ao contrário dele, eu como de tudo, resolvi pedir o prato do dia: arroz, feijão, batata-frita, farofa e filé de frango empanado.
– Você não tinha cara que comia isso, senhor! – exclamou ele.
– Eric, não me chame de senhor aqui, não estamos no trabalho, estamos entre amigos aqui – insisti – Minha mãe sempre contratou empregadas que fizessem uma comida reforçada, desde criança me alimento assim.
Ele sorriu e ficou quieto depois. Às vezes ele é um pouco enigmático, não fixa o olhar em uma só coisa, fica observando o lugar, mas quando olha em seus olhos é bem específico.
O silêncio tomou conta da mesa por um tempo, fiquei um pouco apreensivo, queria conversar mais com ele, afinal é meu assistente, acho que uma boa amizade iria ajudar muito nessa parte.
– Me diga Eric, você tem namorada? – eu quase gaguejei, não pude segurar, estava curioso.
– Não – ele respondeu tristemente – Podemos falar de outro assunto, não quero falar sobre isso.
Notei que ele ficou cabisbaixo e baixou a cabeça, eu queria entender a razão dele ter fugido dessa conversa.
– Tudo bem Eric, eu respeito sua escolha, mas antes que pergunte, eu não tenho namorada.
Ele levantou a cabeça e deu um sorriso de meia boca, ao mesmo tempo parecia feliz e um pouco duvidoso.
Eu pensei muito antes de revelar algo a ele, mas sentia que ele era confiável.
– Eric, posso te contar algo?- perguntei.
– Pode sim!
– Desde a minha adolescência, nunca tive muito jeito com namoros, fiquei com algumas meninas e na faculdade não me importava com isso, apesar de ter tido muitas pretendentes, pode parecer estranho, mas ainda sou virgem.
Ele desviou o olhar do meu e coçou a cabeça, deu um risinho de leve e suspirou.
– Se eu te contar que também sou virgem, vai acreditar?
– Claro que sim, você é mais novo do que eu, é até justificável, enfim, as pessoas hoje em dia não dão muita importância para a virgindade, mas eu penso diferente.
Eric agora estava me olhando nos olhos e parecia que ele entendia o que eu estava dizendo, sei lá, era algum tipo de transmissão de pensamento, uma conexão direta.
– Henrique, eu confesso que não encontrei a pessoa certa, pode ser piegas, mas é algo muito importante da vida, querendo ou não, ainda somos puros – ele ria ao falar isso.
– Concordo com você Eric, meu pai que me pergunta de vez em quando se eu estou namorando, eu fujo do assunto, mas no fundo ele sabe que não.
Nossos pratos chegaram, eu e Eric pedimos uma garrafa de Coca-Cola e dividimos. Eu observava ele comer, parece loucura, mas a maneira dele segurar o talher, o jeito que levava até a sua boca e mastigava com tanta delicadeza. Já eu, era um pouco desajeitado, o meu lado da mesa já estava com restinhos de comida em volta do prato, eu estava nervoso.
Depois que comemos, a garçonete nos perguntou se iríamos querer sobremesa e nos mostrou as opções do dia, e encontrei meu doce favorito, mousse de maracujá, pedi para mim e Eric também.
– Eu também adoro mousse de maracujá — disse ele
Nós comíamos em silêncio, mas de vez em quando nos olhávamos e ao mesmo tempo, eu chegava a ficar sem jeito. Simplesmente não consigo explicar essa situação, havia algo nele que me chamava atenção.
Eu paguei a conta depois de insistir muito, fomos para o carro de volta à empresa.
Eric ficou organizando minha agenda em minha sala, e eu fui encontrar Ana e Marcelo.
– Boa tarde Ana e Marcelo, eu sou Henrique, o novo presidente da “PUBLIC MONTENEGRO”.
Ana logo de cara abriu um sorrisão, me abraçou, e depois que me lembrei que ela e minha mãe eram super amigas, ela vivia lá em casa. Ela não mudou nada, continuava extrovertida, com um cabelo loiro comprido, bem vestida e com seus clássicos brincos de argola.
– Seja bem vindo querido, como você está grande, na sua formatura da faculdade parecia menor, enfim, está muito lindo – disse Ana.
– É meu jovem, tão novo e já presidente de uma empresa, eu sei que vai se dedicar ao máximo, só não arranje uma esposa que trabalhe na mesma área que você, ela irá te seguir aonde for, falo por experiência própria – ele riu e me deu um abraço.
Ana e Marcelo são casados há treze anos, eles formam um casal legal, ele também é todo chique, só que não gosta muito de ternos, ele é do tipo cowboy, calça jeans, jaqueta de couro.
Ficamos algumas horas montando a campanha do novo shopping, até que Eric bateu na porta.
– Senhor, sua agenda está toda organizada, deixei na sua mesa as correspondências e já encomendei aqueles materiais que o senhor me pediu – disse ele – Precisa de mais alguma coisa?
Olhei fixamente para ele e fiquei orgulhoso dele ser tão impecável.
– Não Eric, muito obrigado, pode ir pra casa, e até amanhã – dei uma piscada de olho para ele que ficou sem graça e encostou a porta.
As horas foram passando, só saí da empresa 21:00, mas pelo menos já resolvemos tudo, a campanha estava pronta, agora só faltava mandar para a gráfica e publicar na internet.
A caminho de casa, passando pelo centro da cidade, eu vi uma paneteria chamada “PANETERIA SEBASTIAN”, só podia ser da irmã de Eric, estacionei o carro e fui até lá, estava quase fechando.
– Boa noite, qual o seu nome por favor? – perguntei educadamente.
– Eu sou Alicia, o senhor deseja alguma coisa?
– Na verdade, gostaria de falar com o Eric, eu sou o chefe dele na empresa, o Henrique, mas não é nada sério, se ele estiver ocupado eu o vejo amanhã.
– Ah não, ele está lá em cima, vá por aqui e suba a escada, só bater na porta.
– Muito obrigado, e prazer em conhecê-la.
– O prazer é todo meu.
Subi a escada e bati na porta, e instantes depois Eric surge na porta, apenas de camiseta branca e de calça moletom. Ele fez uma cara de surpreso, mas ficou feliz em me ver.
– Henrique? Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele.
– Não aconteceu nada, eu estava passando por aqui porque é caminho da minha casa e vi a paneteria e não sei porque, eu vim aqui, mas me desculpe, está ficando tarde e não quero te incomodar.
– Não está incomodando, eu só achei estranho você por aqui, mas sua presença é sempre boa, por favor entre.
A sala de estar era aconchegante e estava bem quentinha, me sentei no sofá, Eric se sentou na poltrona em frente a mim e ficamos nos olhando por alguns segundos.
– Eric, eu não sei por que vim aqui, não tenho nada para dizer, mas só senti uma enorme vontade de ver você.
Ele se encostou na poltrona e contorceu o lábio, também devia estar confuso, mas estava feliz também.
– Você quer beber, comer algo?
– Não obrigado, fizemos um lanche reforçado na empresa.
– Bom Eric, eu acho que estou carente de amigos, porque meus amigos da faculdade mudaram de cidade e não tenho parentes próximos, deve ser por isso, já faz um tempo que não tenho amigos.
– Tudo bem Henrique, eu entendo você, eu tenho poucos amigos, alguns também saíram da cidade e só restou uma amiga minha que no momento está em lua de mel.
Depois de nós dois termos confessado que estamos carentes de amigos, a situação ficou melhor e começamos a conversar sobre outras coisas até que a irmã de Eric subiu.
– Fiquem a vontade aqui, eu vou tomar banho e me deitar, a casa é sua Henrique – disse ela.
Ela seguiu para o corredor e entrou no quarto.
– Sua irmã é muito simpática, assim como você.
– Obrigado, ela é ótima mesmo.
Aquele silêncio pairou novamente sobre nós e apenas os olhares criavam vida, mas eu tinha realmente que ir, aonde já se viu, é quase 22:00 e eu na casa dos outros.
– Eric, obrigado por ter me recebido, e desculpe mais uma vez pela hora e também pela visita surpresa, prometo que não faço mais isso.
– Não se preocupe, a casa está aberta pra você sempre que quiser vir.
Eric se levantou e foi até lá embaixo comigo.
Entrei no carro e dei aquela piscadinha de olho de novo, ele riu e fechou a porta.
Liguei o carro e fui pra casa pensando nele e no seu sorriso.
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