Tem que ser você
3 Um pouco mais perto
“O amor machuca, mas também é capaz de curar”
28 de Maio – Quarta-feira
Mais um dia de trabalho, pela manhã tive que reler alguns relatórios e depois passei mais algumas rotinas para o Eric, que se manteve calado durante toda a manhã, não sei no que ele estava pensando. Será que ele está tentando manter apenas uma relação profissional?
– Você está bem Eric? – perguntei na intenção de descobrir algo.
Ele olhou diretamente nos meus olhos.
– Estou sim, não se preocupe comigo, coisas do passado.
Se ele disse coisas do passado, então provavelmente deve ser algum ex-amor, ou não.
Tive que ir ao novo shopping para entregar o material da campanha e depois voltei com a esperança de convidar Eric para almoçar novamente.
Assim que cheguei ele estava em frente ao prédio, falando no celular, parecia triste. Fiquei no carro esperando ele terminar a ligação, e em poucos minutos ele desligara o celular. Eric se sentou no banco perto da banca de jornal e abaixou a cabeça colocando as duas mãos na nuca. Eu fiquei um pouco tentado a ir falar com ele, mas eu não sabia se era o momento.
Saí do carro e ele me viu, logo voltou a se sentar e me chamou para sentar ao lado dele.
– Desculpe eu estar tão estranho hoje – disse ele.
– Não estou preocupado com isso, eu apenas queria entender o porquê dessa sua tristeza assim de repente.
– Eu te conto, mas não aqui, em um lugar mais tranquilo.
Fomos para uma pracinha que tinha perto do prédio, tinha poucas pessoas. Ficamos numa mesa daquelas onde os idosos costumam jogar xadrez.
– Há cinco anos eu conheci uma pessoa que tinha acabado de se mudar para a casa ao lado da minha, o nome dele era Arthur, ele tinha 19 anos e eu 16 anos. Nos tornamos ótimos amigos, daqueles que não se desgrudam, um dormia na casa do outro, as famílias já estavam acostumadas com nossa amizade e nada podia mudar aquilo. Certa noite, nós estávamos voltando de uma festa e ele disse que gostava de mim.
Eric desviou o olhar, parecia meio frustrado ao dizer isso, mas pra mim não havia problema algum, pra mim toda forma de amor é válida, contanto que seja verdadeira.
– Depois que ele disse isso, eu fiquei mudo por um minuto e disse que também gostava dele. Nossa relação foi ficando cada vez mais profunda e teve um dia que ele resolveu contar aos pais dele, que aceitaram numa boa. Meus pais já suspeitavam e no final acabaram entendendo.
Se Eric está me contando isso sobre ele é por que confia em mim, isso já é um bom sinal.
– Tudo era perfeito até que ele passou no vestibular e em poucos meses teria que se mudar para São Paulo para cursar sua faculdade. Não tinha como pedir pra ele ficar, e nem tinha como eu ir com ele. Passamos o Natal e Ano Novo juntos e depois ele viajou, mas disse que eu podia esperar que ele voltaria.
– Então ele ficou esse tempo todo e nunca mais deu notícias? – perguntei.
– No começo trocávamos e-mails, mas depois ele não respondia mais, e também teve o acidente dos meus pais, as coisas complicaram e ninguém manteve contato.
Fiquei triste pelo Eric, ele acreditava no Arthur e de repente foi esquecido.
– Não fica assim Eric- no impulso ele me abraçou e deitou sua cabeça em meu ombro, aquele momento foi muito especial – Quem sabe já não tem outra pessoa que goste de você.
Eric se afastou e pensou por um instante no que eu disse.
– Quem? – perguntou ele.
A tensão entre nós aumentou, ele queria uma resposta e eu não sabia se podia responder. Tentei pensar em algo, mas ele ainda estava me olhando.
– Não sei, mas alguém gosta de você – respondi rapidamente.
Depois dessa conversa reveladora, fomos almoçar e novamente Eric me surpreendeu com sua escolha de prato, apenas salada. E eu nem vou comentar meu prato.
Voltamos do almoço, e eu fui para uma reunião com os acionistas.
Depois de duas horas de reunião dispensei Eric e fui para minha sala elaborar os novos projetos de marketing da empresa.
Fui embora por volta de 22:00, estava muito cansado, mas consegui chegar em casa bem. Meu pai já tinha ido dormir, não quis acordá-lo.
Fiz um lanche rápido na cozinha, depois fui tomar banho e por fim fiquei vendo televisão no meu quarto, e logo me lembrei do abraço que Eric me deu. Foi tão espontâneo e sincero, ele confiava em mim e estava na hora de confiar nele também.
29 de Maio – Quinta-feira
Meu pai acordou cedo e estava na mesa tomando café, sentei de frente para ele e notei que ele estava bem melhor.
– Você está muito bem pai! – sorri para ele.
– Não é que estou mesmo, estive pensando e hoje vou para a empresa com você, mas fique tranquilo, não vou ficar te regulando – brincou ele.
– Será um prazer te ter um pouco mais perto.
– Assim eu aproveito e vejo se você escolheu um bom assistente – disse ele – Como é mesmo o nome do rapaz?
– Eric Sebastian, um jovem muito simpático e trabalha bem.
– Quero conhecê-lo!
Chegamos à empresa e todos ficaram felizes em ver meu pai, afinal ele não deixou de ser a pessoa mais importante da empresa.
– Bom dia Eric, esse é Jonas Montenegro, meu pai e dono desta empresa – meu pai o cumprimentou e ele sorriu de volta.
– É uma honra conhece-lo senhor – disse Eric.
– Jovem Eric, saiba que como assistente do presidente você também é muito importante, então sempre seja o braço direito de Henrique.
– Não tenha dúvida disso, nós já somos amigos – disse ele.
Enquanto meu pai foi até a sala dos acionistas, eu fiquei na minha sala com Eric.
– Seu pai é bem simpático Henrique! — disse Eric.
– É mesmo, estou feliz que ele esteja melhor.
– Desculpe perguntar, mas faz tempo que sua mãe faleceu? – perguntou Eric.
– Ela teve leucemia e faleceu quando eu tinha 10 anos.
– Nós dois tivemos perdas enormes!
– Tivemos que crescer e nos acostumar com essas perdas – acrescentei com uma enorme dor no peito.
Eric fazia anotações e eu folheava os relatórios, até que me deu vontade de saber algo, mas não sabia ao certo se ele iria responder. Eu tinha que tentar.
– O que você sentiu quando me abraçou ontem? – perguntei na esperança de ouvir o que queria ouvir.
– Eu senti conforto e segurança, apenas sabia que podia contar com você naquele momento.
– Se eu quisesse te abraçar, você me abraçaria? – joguei as cartas na mesa.
– Claro que sim, porque não?
Aproximei-me dele e o puxei para perto de mim e o abracei bem forte, pude sentir o cheiro do seu perfume doce e agradável. Ele envolveu seus braços a minha volta e pude sentir seu coração batendo aceleradamente. Aquele momento era especial para nós, compartilhando um carinho sincero e ingênuo.
Passando pela sala de câmeras, Jonas notou a falta do funcionário do setor e ao olhar para os televisores, viu seu filho e Eric abraçados na sala da presidência. Por um minuto ele pensou mil coisas, mas ficou observando a tela e só depois de alguns segundos fechou a porta e saiu rapidamente.
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