Telecinético
1 Capítulo 1 - Recrutamento
Ian acordou com seu amigo André ao celular, às seis horas da manhã de uma segunda-feira, lembrando-o de levar o trabalho que os dois tinham feito juntos no final de semana. Eles deram o máximo deles para deixar esse trabalho impecável, ele valia metade da nota de ciências. Respondendo com murmúrios, Ian disse para que André não se preocupasse e desligou.
O garoto sonolento então puxou as cobertas para cima da cabeça, para tentar voltar a dormir. Foi impedido logo depois pelo despertador, que marcava 7:00. Levantou, foi ao banheiro, lavou o rosto e desceu direto para a cozinha, onde abriu a geladeira, pegou uma caixa de leite e um copo no armário. Voltou-se para o balcão em L, colocou o copo nele e o encheu de leite. Devolveu a caixa de leite para a geladeira e fechou a porta. Pela janela Ian percebeu que um vento muito forte soprava as folhas amareladas pelo jardim. Quando virou-se para pegar o copo, ele acidentalmente esbarrou as costas da mão direita no copo, que deslizou até a ponta do balcão. O copo porém, não se estilhaçou no chão da cozinha como Ian esperava, no máximo derramou um pouco de leite no chão por causa da força. Ele estava por uma pontinha mínima, equilibrado na ponta do balcão. Ian então avançou lentamente com a mão e o agarrou com um pouco de receio.
Pegou alguns biscoitos em algum outro armário, e sentou em cima do balcão olhando direto para a janela. O vento cessara quase que imediatamente. Enquanto comia os biscoitos e tomava o leite calmamente ficou pensando no que acabara de ver e nas coisas estranhas estavam acontecendo com ele desde que fizera 14 anos há seis meses atrás. Um dia depois de seu aniversário, estava na casa de André fazendo um trabalho de escola juntos, como sempre. André fora no banheiro, e Ian se debruçou na mesa junto da janela da frente em cima de alguns cartazes para descansar um pouco. Estava olhando fixamente para um passarinho cinzento do outro lado da rua. O pássaro pousara a poucos segundos no asfalto quente. Ele ciscava um montinho de folhas verdes que caíram da árvore acima. No começo ele achou engraçado o jeito com que o animal movia seu pescoço, esperava pelo momento que ele voaria para o longe. Depois, ele estranhou quando o passarinho saiu do chão, mas não de um modo normal. Ele fora alçado ao ar, não parecia que fosse por vontade própria, batia suas delicadas asinhas freneticamente. Ele ficou a um metro do chão e mesmo batendo as asas não saia do lugar. Ian o fitava pensando em como ele estava preso.
— Quer comer alguma coisa? — André perguntou a Ian, tirando a atenção dele do pássaro. O pequeno (nome do pássaro) cambaleou no ar e voou.
André fez uma careta e disse a Ian que seu nariz sangrava. Ele foi ao banheiro pegar papel higiênico para o amigo. Ian não percebeu que ele havia feito aquilo até que as coisas começaram a se mover perto dele. Copos, canetas, talheres, livros e até as portas se abriam e fechavam sozinhas. No começo estranhou, depois começou a gostar, mas era assustador. Na noite após o seu aniversário sentiu uma dor de cabeça muito chata, bem na testa, assim como sentia quando as coisas se moviam.
Terminou de comer os biscoitos e o leite. Começou a tremer. Subiu até o banheiro, tomou banho, escovou os dentes, voltou ao quarto e vestiu a camiseta da escola, uma calça jeans e um casaco. Arrumou o cabelo ainda tremendo. Pegou a mochila, o celular e os fones de ouvido e saiu do quarto. Na metade da escada lembrou que teria Educação Física na escola. Voltou até o quarto e revirou seu guarda-roupa até que encontrou aquela coisa azul que a escola chamava de uniforme. Um calção azul forte e uma camiseta azul, quase roxa. Era ridículo. Tirou a mochila das costas e enfiou o uniforme lá dentro. Em sua escrivaninha uma folha com o logotipo da escola o chamou a atenção. Lembrou o motivo de André o ter ligado: lembrar de levar o trabalho de ciências. Colocou o trabalho com todo o cuidado na pasta e aí sim saiu. Ian fechou a porta dupla e caminhou pelos jardins até chegar na entrada da guarita ao lado do portão. O vidro se abriu e a cabeça de um homem gordo, de nariz grande, uniforme de segurança e fones de ouvido se botou para fora.
- Oi Carlos. — disse Ian para o segurança que geralmente só acenava para ele.
- Oi! Lembrou do trabalho de ciências? – disse Carlos limpando a garganta.
- Lembrei sim. O André te ligou?
- Não faz muito. Pelo jeito esse trabalho parece importante.
- É um pouco. Tchau. – disse Ian. Ele se afastou até o portão de metal cinza que se abriu e se fechou rapidamente quando Ian o ultrapassou. A segurança da casa era reforçada quando Luiz, o pai de Ian viajava a trabalho. Haviam mais seguranças na guarita e vigiando os fundos.
Ian passou pelos grandes seguranças de ternos e óculos escuros em frente a Mansão de Prata, o grande casarão cinza que contrastava com verdes jardins cheios de flores. Andando pela calçada até atravessar a rua, Ian pensava em dar meia volta e voltar a dormir, ele odiava Educação Física, mas adorava Ciências e Inglês também, então continuou andando.
Meteu a mão no bolso do casaco e pegou seu celular e fones de ouvido. Demorou um tempo para desenozar os fones. Quando colocou-os no celular viu seu rosto refletido na tela escura, olhos castanhos, cabelo castanho escuro e viu o rosto de outra pessoa também. Imediatamente, num susto Ian olhou para trás mas não havia ninguém lá. Se voltou para a tela do celular, desta vez só seu rosto estava refletido na tela. Virou a tela para os lados olhando o que se refletia, examinou novamente ao seu redor. Nada.
Ele continuou sua caminhada até a escola, desta vez com música. Alguns metros adiante as casas iam diminuindo de tamanho, até se tornarem um tanto simples. O vento então começou a soprar. Era o mesmo vento estranho e forte que soprara antes. O vento levantou as flores amareladas que estavam na calçada e as soprou à frente, para longe. As folhas então voltaram estranhamente. O vento gélido se comportara de um jeito incomum. Ian virou seu pescoço para vê-las passar ao seu lado. Se espantou quando viu a mesma figura que vira na tela do celular, no meio das folhas. Era um homem, de cabelos ruivos e olhos verdes. Os únicos traços que notara antes de as folhas caírem e o vento parar repentinamente.
Ele ficou o caminho inteiro pensando se ele fizera as folhas se moverem, mas também se perguntava o que seria aquela figura. “Eu não poderia ter feito isso.” Ele pensava. “Poderiam ser as próprias folhas, o vento”. “Não tinha ninguém lá”. A certo ponto, em frente à padaria Centeio, Ian atravessou a rua, do outro lado, num prédio de três andares se encontrava o Colégio Santa Clara. O prédio era relativamente novo, a escola só tinha cinco anos, mas abrigava a maioria dos filhos da classe média e elite da cidade. O prédio era em tons pastel, algumas pessoas não gostavam, outras achavam ridículo, mas Ian, ele não dava a mínima. Sentado num banco à sombra de uma árvore, fones no ouvido, um garoto de cabelos loiros escuros, olhava para o nada . Ao passar os olhos pela área, avistou Ian que ia atravessando o gramado por entre as pessoas que não paravam de falar. André levantou-se de um salto e foi na sua direção , ao chegar do lado de Ian, os dois mudaram de direção, agora caminhavam em direção à porta da escola. — Trouxe o trabalho? – perguntou André ansioso. — Nenhum oi? – retrucou Ian. — Oi. Trouxe o trabalho? — Sim, eu trouxe. — Graças a Deus! – disse André, agora bem mais aliviado.
Os dois atravessaram a grande porta de entrada, por dentro, uma típica escola americana perdida no sul do Brasil. Nada comparada às escolas do resto do país. Era um palácio perto das outras. Os grandes corredores eram cobertos por armários azulados e entre eles, portas marrons que se abriam para as salas de cada turma. Ian e André estudavam no segundo andar, na oitava série B. Pegaram as escadas para o andar superior e André perguntou:
- E o seu pai, já voltou?
- Ainda não. – disse Ian em tom triste.
- Já faz o que? Duas semanas?
- Mais ou menos isso. Tá muito, muito chato ficar sozinho naquela casa.
- Dá pra imaginar! — falou André lembrando o tamanho da casa.
- Ei, porque você não dorme lá hoje? – sugeriu Ian.
- Eu tenho que pedir para minha mãe. Mas acho que sim.
- Beleza, tenho uma coisa muito importante pra te contar.
- Mal posso esperar!
Ian pretendia contar ao amigo sobre tudo que acontecera, ele não aguentava mais. As folhas, o copo, o pássaro. O sinal bateu.
Os dois chegaram até a curva do corredor após a escada e seguiram seu caminho calados. Ao passarem pela fileira de armários, chegaram a sala da 8B, lá um homem grande de braços fortes e aparência severa bloqueava a entrada da porta. Era o professor de Educação Física, Lucas Moreira.
- Atrasados. De novo. – disse o homem com voz grossa e repreendedora. – Entrem.
Os dois entraram calados e se dirigiram para o fim da sala, nas duas últimas classes do canto, perto da janela. Foi um sofrimento para ficarem com aqueles lugares. No primeiro dia entraram na sala e correram direto para esse canto. Nos dias que se passaram, alguns dos colegas sentaram nos lugares deles, com caras de inocentes. André e Ian aplicaram a estratégia de chegar cedo, vinte minutos antes, para garantirem os lugares. Fizeram isso por quinze dias até que os outros entenderam a mensagem, o lugar era deles.
O senhor Moreira fez a chamada e ordenou que todos trocassem de roupas rápido para começar a aula logo. Todos os alunos se apressaram para sair da sala com suas mochilas, quase correndo. Os vestiários ficavam no primeiro andar, perto do ginásio, que ficava a alguns metros da escola. Ian quebrou o silêncio que se instalara desde que entraram na sala de aula.
- Comprei uma nova expansão do The Sims 3!
- Qual?! — Perguntou André animado.
- É uma surpresa. – disse Ian. Os dois adoravam aquele jogo, tinham quase todas as expansões, viravam a noite jogando. — Tu vai ter que dormir lá em casa se quiser ver!
- Não é justo! Minha mãe vai ter que deixar.
Chegaram nos vestiários trocaram de roupa tão de pressa que Isaac, um menino franzino e muito gentil, vestiu a camisa do lado avesso e um outro garoto esqueceu das meias. O Sr. Moreira não suportava perder tempo. Correram para o ginásio onde o professor estava de braços cruzados perto das arquibancadas onde os alunos geralmente sentavam para esperar as ordens do Sr Moreira. Os alunos fizeram o alongamento, o aquecimento, correram dez minutos ao redor da quadra e finalmente se sentaram nas arquibancadas para escolherem os times para jogar.
- Primeiro a gente vai jogar vôlei. Tudo bem?- a voz do Sr. Moreira ecoava pelo ginásio.- Ian e Marco, vocês fazem os times, rápido. — Ian era o melhor jogador de vôlei da turma.
O primeiro a ser chamado por Ian, foi André, que era razoável, mas era seu melhor amigo . Depois de divididos os times, o Sr. Moreira ordenou que o time de Ian ficaria do lado azul da quadra e o time de Marco do lado marrom, uma faixa nos limites da quadra demarcava as cores azul e marrom.
- André, você saca. — ordenou o professor.
André, nervoso, pegou a bola das mãos do professor e se posicionou na linha de saque. Ouviu-se o apito. André pulou e sacou, a bola bateu na rede.
- Mais força André! – repreendeu o Sr. Moreira.
André chegou para perto de Ian e cochichou:
- Pra ele é fácil falar! Já viu o tamanho dos braços dele? – Ian riu.
Ouviu-se o apito de novo e assim o jogo foi andando, Ian marcando vários pontos seguidos até ganharem o primeiro set. O jogo estava super divertido até que na metade do segundo set o Sr. Moreira apitou e gritou:
- Fim de jogo!
Iriam jogar futebol. Ian era sempre um dos últimos a ser chamado para jogar futebol. Passou a odiar o esporte. Só jogava porque era obrigado. Para sua alegria uma velha de cabelos brancos invadiu o ginásio, foi em direção ao professor e cochichou alguma coisa com ele.
- Ian, diretoria agora! — O Sr. Moreira se dirigiu a Ian, um tanto desconfiado.
O menino seguiu a velha pela saída, seus cabelos cacheados brancos estavam altos, e cheios de frizz. Ela tinha uma verruga na ponta do nariz que Ian não conseguia parar de reparar de vez em quando. Num corredor, algo chamou a atenção de Ian, um faxineiro passava um esfregão no chão. Seus cabelos eram ruivos como os do homem que vira nas folhas de manhã. Ian parou para tentar ver seu rosto, pensou em chegar mais perto, talvez perguntar seu nome, quem era, mas foi impedido.
- Anda logo garoto, eu não tenho o dia todo. – reclamou a velha.
“Velha ranzinza. Por que ela não compra um Pointts e tira aquela verruga.” Pensou Ian.
A diretoria ficava perto da entrada da escola e o diretor era o Eder Antunes, amigo do pai de Ian e amigo de Ian também. Ele sabia que a esse ponto estariam jogando futebol. Digamos que Lucas Moreira era um dos homens mais previsíveis da cidade. Como Eder sabia que Ian odiava este esporte, as vezes o tirava da aula de Educação Física para bater um papo, tomar um café ou algo do tipo. Chegando na sala do diretor não havia ninguém lá.
- Aguarde aqui. – disse a velha secretária fechando a porta. Ela era nova na escola e tinha uma vontade!
Ian sentou na confortável cadeira do diretor, pegou um cubo mágico que parecia uma estrela e colocou os pés em cima da mesa de vidro. Eder tinha um gosto estranho. A mesa era de vidro, gavetas transparentes, na verdade tudo era transparente, menos as paredes. Ian estava quebrando a cabeça para tentar resolver o cubo e ouviu um barulho de descarga e uma porta se abriu. Um homem de cabelos erguidos e barba, alto e encorpado saiu do banheiro.
- Ah, eu não sabia que tinhamos um novo diretor na escola! – disse Eder, como sempre brincalhão. – Sai da minha cadeira, vai! – Ian tirou os pés da mesa e passou para o outro lado na cadeira das visitas. – Como vai a vida sem o seu pai por perto?
- Ah tá tudo bem... Estou um tanto solitário mas estou bem. Acho que o André vai dormir lá hoje.
- Bom, bom... Eu estava pensando, se vocês quisessem eu poderia levar vocês para comer uma pizza ou algo assim. – sugeriu Eder.
- Claro, lá pelas dez horas tá legal?
- Sim, claro. Eu passo lá pra pegar vocês então.
- Ok! – concordou Ian.
Os minutos se passaram, tomaram café e conversaram um teco.
- Acho melhor você ir agora. – disse Eder.
- Ta bom! – Ian lembrou-se do faxineiro. – Ahn, você sabe alguma coisa sobre aquele faxineiro novo? É um ruivo.
- Faxineiro ruivo? Não tem nenhum funcionário ruivo na escola. –respondeu Eder intrigado.
- Bom, nenhum funcionário novo? – insistiu Ian.
- Não, ultimamente não. Posso saber por quê?
- Ah, nada não. – Ian desistiu.
- Antes que vá, eu tenho uma coisa que pode te interessar... – disse Eder vendo o entrosamento de Ian com o cubo. Ele foi para um canto da sala remexer alguns armários de vidros foscos.
Fora da sala do diretor o telefone tocou e a velha secretária o atendeu. Ian a olhou pelo vidro, se perguntou se aquilo não seria uma peruca. Foi quando ela saiu flutuando da cabeça da velha, que nem percebeu. Continuou a falar no telefone. Uma rede prendia alguns tufos de cabelo, por isso ela usava uma. A peruca foi mais alto até encostar no teto. Ian se deu por conta de que ele estava fazendo aquilo e desmanchou o sorriso besta que estava em sua cara. Se concentrou e com muito esforço tentou fazê-la descer, até que na metade do caminho a peruca caiu e a velha anotando um recado nem percebeu. Eder virou-se para Ian com uma revista na mão e exclamou surpreso:
- Seu nariz está sangrando!
- O que? – disse Ian confuso levando os dedos até as narinas. Examinando as pontas dos dedos, eles estavam vermelhos. Ian se encostou na cadeira e virou a cabeça para trás, Eder se apressou em pegar papel higiênico e o deu um pedaço.
- Está tudo bem?
- Ta sim, isso tem acontecido ultimamente. – explicou o garoto.
Após estancar o sangramento, Ian perguntou:
- Então, o que tu ia me dar?
- Ah, é só essa revista sobre cubos mágicos, você pareceu interessado. E esse aqui é pra tu. — Eder entregou a Ian uma revista e um cubo mágico simples.
- Ah sim, valeu! – disse Ian, não tão interessado. Ele depois quebrou o breve silêncio. – Eu já vou indo então.
- Até mais. – despediu-se Eder.
- Até! – disse Ian fechando a porta. Ele se aproximou da velha antes de sair.
- A senhora está maravilhosa hoje, Dona Marta! – elogiou falsamente.
- Ora, muito obrigado garoto. – disse ela, com a peruca má posicionada na cabeça.
Ian voltou lentamente para o ginásio, examinando todos os corredores para ver se encontrava o faxineiro que vira, mas nem sinal dele. Ele decidiu manter o papel higiênico no nariz mesmo após verificar que o sangramento havia parado. Talvez se livrasse do resto da aula de educação física. Talvez o Sr. Moreira ficasse comovido com a situação e o mandasse para o banco. Antes de voltar para o ginásio passou nos vestiários para guardar a revista e o cubo. Voltou para a aula que estava na metade do segundo período. Começou a tremer assim que se acomodou num dos bancos dentro da quadra, e ficou assim até a hora do almoço, quando parou de tremer.
Sentados em uma mesa do refeitório, Ian e André conversavam sobre o que acontecera com Ian durante a aula de Educação Física, Ian pensou em falar ao amigo o real motivo para que ele quisesse tanto que André fosse à sua casa, mas descartou a ideia após Isaac se juntar a eles, falaram sobre como estavam nervosos para apresentar o trabalho de química e de como ele era importante. André e Isaac falavam nisso e Ian só concordava com o que eles diziam. Depois do intervalo, voltaram para a sala onde a professora Aline esperava sentada em sua mesa os alunos chegarem, com uma cara feliz que assustava aos colegas de Ian. O trabalho era sobre a tabela periódica, começaram a apresentar os trabalhos, Ian e André foram a quarta dupla a fazer a apresentação, Ian estava calmo, mas André tremia de nervoso. Foram aplaudidos como todos os outros. Suas notas estavam garantidas, Ian se sentiu aliviado em ver que André tinha se acalmado.
Às 15:30 o sinal bateu e todos guardaram seus materiais e saíram. André combinou com Ian que passaria em casa para pegar uma roupa, ele já sabia que sua mãe o deixaria dormir na casa do amigo. Ian o acompanhou até o carro e após ela dar resposta positiva. Ian perguntou se ele poderia ir com ele e Eder à noite comer uma pizza. Ela, generosa, disse que sim. A mãe de André era acolhedora, aquele tipo de mãe de todo mundo, todos se sentiam bem aos cuidados dela. Ian se perguntava, se tivesse mãe, ela seria assim como a do melhor amigo. Não ter mãe era difícil. Normalmente pode-se pensar que uma pessoa que cresceu sem mãe não sentiria falta de uma figura que nunca teve presente em sua vida, mas era muito difícil. Não ter algo que todos a sua volta têm. Mas Ian era amado por seu pai, muito. Valorizava muito a mãe de André. Era o mais perto que chegaria de ter uma mãe. Às 16:30 a campainha da mansão tocou e Ian foi atendê-la. Era André, com uma mochila nas costas e sorriso no rosto.
- Entra. – disse Ian.
- Eu preciso muito ir ao banheiro! – soltou André.
- Vai então. – disse Ian.
André foi até o quarto onde ficava quando dormia na casa de Ian e largou sua mochila, depois correu para o banheiro. Minutos depois, os dois se encontravam ansiosos no quarto de Ian instalando a expansão do jogo que ele comprara, Quatro Estações, uma das que eles ainda não possuiam. Depois da instalação no notebook dos dois eles foram até a sala e ligaram o rádio a todo volume e aproveitaram o jogo até as sete horas quando finalmente pararam, pois estavam famintos, foram até a cozinha e tomaram um café. Queriam deixar espaço para a pizza com Eder mais tarde. Voltaram a jogar o jogo até as 21:00 quando Ian lembrou a André que teriam que se arrumar para sair. Até esse ponto, Ian não teve coragem de contar seu segredo ao amigo. Mas decidiu que contaria depois que se arrumassem. Quando isso aconteceu, Ian foi até a sala de novo e André estava lá, sentado no sofá trocando as músicas no rádio. Quando Ian se aproximou do amigo levou as mãos á cabeça, era como se ela tivesse rachado ao meio. Seus gritos foram abafados pelas 7 melhores que tocava no momento. André foi acudir o amigo mas foi jogado pelo ar até uma poltrona onde ficou imóvel observando, preocupado e sem entender nada, a situação do amigo. Estava paralisado. Era possível ver o terror em seus olhos.
...AJUDA!...
Vozes clamavam na cabeça de Ian. Ele se ajoelhou e olhou para o rádio, e este se arrebentou, a música parou e os estilhaços voaram para todos os lados. André se protegeu com os braços, seu corpo tremia.
...AJUDA!...
Os gritos na cabeça de Ian atingiram um crescendo e de repente tudo se silenciou, inclusive Ian, que caiu desacordado. André saiu da poltrona e se ajoelhou perto do amigo, atordoado.
- Meu Deus! Ian, acorda, ALGUÉM ME AJUDA AQUI! – André estava desesperado, tentou dar tapinhas na cara dele para ver se acordava, mas não adiantou. O que será que acontecera?
André saiu correndo em direção a porta para pedir ajuda, e se deparou com Eder entrando na casa.
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