Telecinético
2 Capítulo 2 - Meio Termo
– O que aconteceu? – Eder perguntou vendo a cara de pânico de André.
– O Ian desmaiou, eu não sei, acho que foi alguma coisa na cabeça dele... – André mordeu o lábio inferior, não sabia se contava tudo que acontecera. Quem acreditaria? Além do mais, isso não era a urgência agora.
Eder se ajoelhou ao lado de Ian. E checou seu pulso. Normal. Chamou seu nome, levantou sua cabeça. O sacudiu. Mas ele não acordou. Levá-lo ao hospital era o mais recomendado a se fazer, embora ninguém pudesse resolver seu problema lá.
– Vamos levá-lo para o hospital. Tá legal? Vamos na garagem pegar a caminhonete que tem mais espaço. – disse Éder pegando Ian do chão com pouco esforço. – Pega a chave naquele pote em cima do console. – disse para André apontando a cabeça para a mesinha ao lado da porta.
Eder deixou a sala, em direção à porta que levava á garagem, e André correu para a mesinha. Esta continha em sua superfície uma bandeja redonda azul em que repousavam chaves e um pote de vidro com canetas. Separado por um pequeno vaso de flores cinza com folhagens artificiais havia outro pote. Era azul, combinando com a bandeja, sua aparência era leitosa e refletora. André levantou sua tampa levemente pesada. Sua mão trêmula pegou as três chaves que estavam no pote. Em uma situação normal ele poderia facilmente pegar a chave certa. Em uma situação normal.
Sozinho na sala, André começou a pensar, inconscientemente, no que tinha visto. Lembrou da sensação fria que sentiu em seu peito quando foi atirado para a poltrona. Como se uma mão invisível e gigante envolvesse seu tórax e o empurrasse. O que fora? Ele nunca iria acreditar se outra pessoa o contasse a história do que acabou de acontecer aqui. Ou se visse num daqueles documentários de canais científicos. Quando criança, poderia até acreditar, mas seu cérebro o havia obrigado a crescer. A configuração mudou para: “não acreditar”. Mas acabara de ver. Como não acreditar. Que outras maravilhas e horrores estaria impedido de ver? A urgência não era essa agora, depois seria, e como seria! A urgência agora era seu amigo, Ian. Ian...
Ele se afastou do pensamento que não durou mais do que alguns segundos e correu para a porta que levava à garagem. Eder estava ao lado da Hilux preta com Ian em seus braços. Seu rosto estava ligeiramente pálido. Ele sabia o que poderia acontecer. André se aproximou e abriu sua mão, com leves marcas vermelhas onde apertara as chaves.
– Abre a porta de trás pra mim, por favor, ah, com a de cima. – ordenou Eder, André se sentiu levemente idiota, sabia que aquela era a chave para se trazer, a com o símbolo da Toyota. – Você vai com ele atrás, certo.
Antes que André pudesse colocar a chave na fechadura Ian acordou. Seus olhos se abriram arregalados. Tomou ar. Estava inquieto, assustado.
– O que aconteceu? – soltou.
– Tu está bem? – perguntou Eder rapidamente.
– Sim, estou – ele forçou suas pernas para descer e Eder o largou calmamente. – não há nada de errado.
– André me disse que tu desmaiou. – disse Eder intrigado, suas sobrancelhas franziram, seu rosto se tornou desconfiado.
– Desmaiei? – Ian perguntou olhando para André.
– Tu não se lembra? – devolveu André – Tu “resbalou” e... bateu com a cabeça no rádio. – mentiu.
– Sério? – tentou recordar. Olhou para Eder e depois para André que levantou as sobrancelhas e apontou imperceptivelmente preocupado para Eder. Ian entendeu que o amigo queria ajudar. – Ah é... Ahn, eu deixei meu casaco cair e “resbalei” nele... Foi isso. Mas estou bem agora.
– Tem certeza? – Eder parecia ter comprado a mentira. Lembrava de ter visto o rádio espatifado. Só se esqueceu de que não havia nenhum casaco no chão da sala. Ele pensou em ligar para Diego, o pai de Ian e o avisar. Talvez estivessem escondendo algo. Eder sabia que Ian tinha o poder da telecinese e de coisas que Ian nem imaginava. Diego havia viajado à procura de algo que pudesse ajudar seu filho, e chegaria hoje. Por isso convidou Ian para jantar. Seu pai o surpreenderia.
– Tô bem, sério. – disse Ian. Repentinamente sua mente lembrou do que havia acontecido, escutou as vozes e o pânico o acertou.
As vozes na cabeça de Ian eram meras lembranças, e o pânico real. Ele começou a se afastar lentamente da Hilux, Eder e André o acompanhando com os olhos, como uma pintura. E depois... Nada.
– Podemos ir agora? – Ian disse calmamente, olhando para seu reflexo na Ferrari de seu avô. De costas para os dois.
– Claro! Vamos com meu carro. – disse Eder calmo, e começou a andar em direção a porta com André, Ian não se moveu. Eder olhou para trás. – Você vem?
Sem resposta. Algo estava vindo. Na cabeça de Ian. Um zunido abafado. Como se aquecendo. Chegando perto. Se aproximando. Se aproximando. Acertando em cheio. Acertando. Acertando. De novo...
... ajuda...
Não tão alto desta vez, mas desconfortável. Ian ficou nervoso. Queria gritar para que parassem com isso. Mais do que ninguém ele ansiava por ajuda. Os gritos em sua cabeça se tornaram sussurros e depois gritos novamente. Nervosismo. Horror. Olhou ao redor. Os olhos arregalados como se procurando os falantes. O rosto torcido em desespero. Levou as mãos a cabeça e um grito insano e rude saiu de sua boca. Sua cabeça doía como se a martelassem na velocidade de seu coração, que batia rápido. Ele podia sentir sua cabeça explodindo em energia, Ian expremia os olhos, tudo estava branco, os olhos, a cabeça. Eder e André olhavam para Ian, prestes a se aproximarem para ajudar. Eles tiveram um vislumbre dos olhos de Ian abertos e brancos, brilhantes, antes de serem erguidos do chão. As chaves dos carros flutuavam da mão que André a abrira. Os carros flutuavam próximos ao teto. André e Eder podiam sentir a energia, formigava por todo o corpo deles. Eles levitavam quase sem poderem se movimentar, havia uma sensação gélida por seus corpos.
IAN! — chamou André. O amigo tirou as mãos da cabeça e olhou para os dois. O que viram foi bizarro, os olhos de Ian estavam brilhando em um branco muito forte. Em sua testa algo começava a brilhar.
O coração de Ian estava batendo mais e mais rápido. Seu peito estava em chamas, a cabeça doendo como nunca. A sorte dele é que somente sentia metade desta dor, estava distante, distante de seu próprio corpo cada vez mais. Seu nariz começou a sangrar, o sangue escorria por sua boca fechada e caía no chão de concreto.// ataque cardíaco // Ian teve uma última visão de André e Eder no ar, antes do brilho sumir de seus olhos. Seu corpo desabou no chão, antes de desmaiar completamente ele ouviu algo: “cuidado...”. No mesmo instante os carros caíram com um estrondo, Eder e André também caíram.
– Tu tá bem? — perguntou Eder a André.
– Sim. — respondeu André, ele arregalava os olhos sem acreditar. Ele olhava para Eder e via seu rosto levemente surpreso, como se acabasse de ter visto um simples acontecimento fora do normal. André olhou para Ian, imóvel no chão de concreto, com uma pequenina poça de sangue abaixo de seu nariz.
– André, abra a porta de trás, vamos para o hospital. — disse Eder.
André abriu a porta de trás da Hilux preta que a poucos segundos estava encostando no teto, sua respiração estava acelerada. Eder ordenou que André fosse no banco de trás com Ian, ele tirou seu casaco e deu para o menino fazer um travesseiro. Eder apanhou Ian do chão com cuidado, levou-o até o banco de trás da caminhonete e deixou-o deitado no banco, com a cabeça apoiada no colo de André. Ele fechou a porta, entrou no carro, apertou o botão do controle que se encotrava no porta-luvas e porta da garagem se abriu. Ele saiu de ré, manobrou o carro fora da garagem e saiu pelo portão que se abrira. Ele parou, apertou outro botão e o portão se fechou. Os dois olharam para a guarita, Carlos estava dormindo sentado.
– Pelo menos ele não viu as câmeras. — disse Eder, ele saiu em alta pela rua pouco movimentada. Pegou seu celular do bolso da calça e o entregou para André — Ligue para o Diego e ponha no viva-voz.
O garoto logo achou nos contatos “Diego C” e discou. Ele colocou no viva-voz e o devolveu para Eder que o segurou junto ao volante. O terceiro som de chamada foi interrompido por uma voz que disse “Alô”.
– Diego, aconteceu. Ele estava estranho, os olhos brilhavam.
– Como Esdras falou... Eu consegui o que vim buscar. Como está Ian?
– Ele desmaiou, estou levando ele para o Pinheiros.
– OK, estou a caminho da cidade, vou direto para lá. — Diego desligou, sua voz preocupada. Eder guardou o celular no bolso. Estavam em uma avenida agora, ele tinha que acompanhar a velocidade dos outros carros.
– O que está acontecendo? — perguntou André, ele não estava entendendo nada.
– O Ian te contou alguma coisa sobre os poderes dele? — Eder perguntou olhando para André pelo retrovisor.
– Poderes? Não me falou nada, ele estava muito estranho hoje. — respondeu André, era tudo tão anormal. — Estavamos na sala, ele estava prestes a me dizer alguma coisa. De repente levou as mãos à cabeça, eu tentei me aproximar mas algo me jogou para longe, não sei o que foi. Ele desmaiou e o resto tu já sabe. Cara, tu acabou de escutar o que eu disse?!
– Parece louco, eu sei, mas é real André. — Eder sorriu e depois ficou sério, os olhos na estrada. — Ian possui telecinese, que tu certamente sabe o que é. Se fosse só isso...
– Se fosse só isso? — André o interrompeu. — Tu tá falando sério?! Telecinese, como nos filmes?
– Tu viu, presenciou. É tão difícil de acreditar?
– É. Quero dizer, se fosse noticiado no jornal mais sério do mundo que isso aconteceu em tal lugar, com fulano de tal, seria mais fácil. Mas com o Ian?
– Tu ficaria surpreso com o que não sabe sobre o Ian, coisas que nem mesmo ele sabe.
– Espera um minuto, como tu sabe destas coisas? — André estava intrigado.
– Diego me contou tudo a um tempo atrás, eu custei a acreditar mas então ele me mostrou algumas coisas. Fiquei fascinado com as histórias que ele me contou. Ele me pediu ajuda para cuidar de Ian, mantê-lo seguro e escondê-lo de alguém. Ele deve ter descoberto seus poderes a pouco tempo. Como eu ia dizendo antes, se fosse só a telecinese estaria tudo bem e tudo seria mais fácil. O problema é que ele tem uma espécie de segunda personalidade. E ela tentou se libertar, tomar o corpo de Ian, mas foi demais para ele. Agora ele está em meio termo, quem está no seu colo pode ser Ian ou sua outra personalidade.
– Isto é... — André perdeu a fala, sua boca estava aberta. — Isto é estranho, e fascinante ao mesmo tempo.
– Fascinante será o que conversaremos depois. Explicaremos tudo para vocês assim que Ian estiver bem. E André, não conte isso a ninguém.
– E quem acreditaria em mim?
***
Depois de vários minutos chegaram no Hospital dos Pinheiros. Ian foi levado em uma maca para o pronto-socorro. Depois de examinado, o médico, um senhor de cabelos brancos, disse que ele sofrera um ataque cardíaco, mas que passava bem. Ele administrou os cuidados necessários e Ian ainda desacordado, foi encaminhado para o 4° andar para repousar. No quarto de número 412, Ian foi ligado a um aparelho que media seus batimentos cardíacos. A notícia de que ele sofrera um ataque cardíaco deixou Eder e André preocupados. Eles agora estavam sentados em cadeiras no quarto olhando para Ian, escutando os “bips” e esperando Diego chegar. Onze e meia da noite a mãe de André ligou.
– É minha mãe, o que digo para ela? — André estava nervoso.
– Diga que estamos em uma pizzaria e não vamos demorar. — disse Eder.
André atendeu sua mãe e mentiu que estavam no fim de uma deliciosa pizza de strongonoff. Ela disse para não irem dormir muito tarde pois teriam aula no dia seguinte. André concordou com tudo que a mãe disse e desligou.
À duas quadras do hospital, Diego estava parando em um sinal vermelho, se perguntando se Ian estaria bem, e se não causaria problemas até ele chegar.
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