Tekken no Kimochi
13 A tímida Donzela e a Irmã superprotetora!
Notas iniciais
Naruto roncava em alto e bom som, jogado de qualquer jeito na cama. O quarto antigo de seus pais, cuja porta fora bloqueada por um armarinho estrategicamente colocado, teve que ser limpo antes que ela pudesse se instalar ali. Seu antigo quarto havia sido tomado pelo irmãozinho e decorado ao gosto dele, mas até que Haruka não achou muito ruim. A mudança em si não havia sido tão trabalhosa, já que a ruiva carregava todos os seus pertences selados em um pergaminho dos que resgatou em Uzushio. Os Uzumaki tinham selos para quase tudo, e isso era bem útil.
Ela jogou as pernas para fora da cama e lançou um olhar ao Uzumaki menor, vestido com aquele pijaminha azul com gorro de hipopótamo. Ela deu uma risadinha ao lembrar como ele havia ficado irritado quando ela disse que aquilo o deixava fofo. Podia ser marrento e até mesmo um ninja, mas muito dele ainda era só uma criança. Naruto era uma espécie de mini versão do pai, mas barulhento e pavio curto como a mãe. Ela não podia deixar de achá-lo uma gracinha. Sua alegria durou pouco, já que seu corpo começava a sofrer com um incômodo matinal que já havia se tornado recorrente. Ela sentia que seu corpo não era mais o mesmo, e pegar uma luta naquele estado era complicado. Sentia-se fraca, zonza e aérea a maior parte do tempo. Precisaria tomar cuidado daquele momento em diante. O selo que havia depositado no próprio corpo drenava-lhe o chakra enquanto dormia, então pela manhã, se sentia 20 vezes pior do que se sentiria normalmente.
Haruka geralmente dormia com uma regata branca e uma calça de linho amarela, sem muita cerimônia. Eram roupas simples e confortáveis, tanto para treino quanto para descanso. Tocando a madeira fria do chão com os pés, ela silenciosamente andou até o corredor em direção ao banheiro. Já estava amanhecendo. Ela tinha que preparar o café.
Após se sentir um pouco melhor, ela lavou o rosto e parou diante do espelho do banheiro para dar uma olhada no próprio reflexo. Os olhos diferentes a encaravam de volta compenetrados, e ela deduziu que enquanto dormia, a faixa sobre o sharingan havia se soltado. Suspirou e mais uma vez atou as bandagens sobre o olho esquerdo. Naruto era curioso, e se ele visse aquele olho, ela teria que dar várias explicações complicadas. Kakashi fora fácil de convencer, mas pelo pouco que ela sabia do Uzumaki mais novo, com ele ela não teria tanta sorte.
Cobrindo o doujutsu e o braço de metal, a mais velha finalmente rumou para a cozinha e procurou uns cubinhos de sopa missô que havia comprado no dia anterior. Ela já teve a impressão de que a alimentação do irmão ficaria por sua conta, já que esse não sabia comer outra coisa além de lámen e doce. Ele precisava de roupas novas também, já que as suas eram de segunda mão e estavam bem surradas.
Ela retirou o antigo e empoeirado avental verde com o redemoinho vermelho dos Uzumaki de sua mãe do armarinho, sacudiu-o e vestiu. Um espelho pendurado em uma coluna do apartamento lhe deu uma visão de como se parecia. Só agora, depois de anos e ao vestir o velho avental é que ela percebera como se parecia com Kushina.
Amarrando os cabelos longos em um rabo de cavalo baixo e prendendo a franja longa com presilhas, Haruka dispôs-se a trabalhar em silêncio. Naruto era do tipo que desmaiava quando batia na cama, então o barulho da ruiva cozinhando não iria acordá-lo.
Há quanto tempo ela não cozinhava para alguém? Sua vida havia estado tão louca nos últimos anos que esses pequenos prazeres eram quase inexistentes.
Aliás, Haruka só gostava de cozinhar para pessoas que ela gostava. E de fato, ao trabalhar na fronteira, no esquadrão de Contra-Assassinato e como embaixadora, passar o tempo com elas se tornou algo raro. Só havia uma única pessoa que permanecia a seu lado em tempo integral no passado, e até isso se fora.
Yukihito.
O coração dela ficou pesado ao se lembrar do antigo companheiro e velho amigo. Uma pessoa curiosa, inteligente, forte e vivaz. Tão sofrido, tão incompreendido...
Até que seu sofrimento produziu sequelas em sua mente que por mais que Haruka tentasse, ela não conseguiu apagar. Não conseguiu curar.
E ele se tornou um monstro.
E a culpa era dele. Toda dele.
—Da próxima vez, seu bunshin não vai te ajudar, Orochimaru. – As palavras proferidas na quietude da aurora estavam recheadas de uma raiva que era raro em ver na Uzumaki. De fato, Yukihito não era totalmente inocente. Mas ele podia se responsabilizar por seus atos?
Ele era louco. Louco com atestado clínico comprovado. Ela poderia ir embora e levá-lo para longe de outras pessoas. Um lugar onde ele não machucaria ninguém e onde ela poderia refrear os instintos assassinos dele com mais facilidade.
Mas...
Ela não podia desistir. Nem por Naruto, nem por Konoha, nem por pessoas vindouras. Nem por Ele.
Sim. Ela poderia dar a Yukihito sua presença, sua gentileza, sua amizade. Porém o que ele queria dela era algo que ela por mais que quisesse, não poderia lhe entregar. Não poderia lhe entregar, porque não pertencia mais a ela.
Seu coração.
Haruka suspirou, pondo a mesa do café. O barulhinho de passos sobre a madeira e um bocejo no corredor lhe deu a informação de que o otouto acordara. Um sorriso suave preencheu o rosto da Uzumaki mais velha, que baixou os olhos para seu trabalho e deu a si mesma um aceno rápido com a cabeça em aprovação. Também havia preparado obentou para mais tarde, caso a dupla não pudesse comer em casa.
Fazia tempo que ela não cozinhava. Mas pelo jeito, não perdera a mão.
—Wooooow... Incrível, -ttebayo! – A vozinha de timbre indefinido devido à puberdade vindoura do Uzumaki menor ressoou cheia de surpresa quando os olhos azuis caíram sobre a refeição. Ele já tinha vestido a blusa preta com o redemoinho e as calças laranjas que geralmente usava.
—Está quente. Vem comer logo.
—Hai!
A dupla se sentou e ao agradecer pela comida, começaram a refeição. Naruto dava uma mordida em um bolinho quando finalmente notou a bandagem no olho da mais velha.
—O que houve com o seu olho?
—Hm? Ah, perdi ele há uns anos. Nada que se preocupar. Mudando de assunto, já descobriu o que você vai fazer pra próxima etapa da Prova Chunnin?
—Han? Ah, sim. O Kakashi-sensei disse que ia treinar o Teme, aí ele colocou o paspalho do Ebisu pra me treinar. Mas aí encontramos um velho taradão nas termas e ele nocauteou o meu professor. Aí eu fiz ele jurar que me treinaria. – Naruto narrou simplesmente. Haruka mordiscava um bolinho de peixe quando os olhinhos do Uzumaki mais novo brilharam. – Haru-nee...
—Hm? – Ela perguntou, e sentiu um arrepio na espinha ao ver aquele sorriso no irmão e aquela vozinha com tom arrastado. Lá vinha coisa.
—Você é forte, né?
—*gota*Bem, eu tento. Por quê?
—Me treina?
—Você já não tem um treinador?
—Tenho... – Ele fez beicinho. – Mas você podia me treinar também, -ttebayo.
—Gomen ne, Naruto. Eu já havia prometido para a Sakura-san que ia ajudar ela para as finais. – Ao ver o bico do loiro, ela ponderou por um momento. – Mas posso te ajudar com o chakra kusari.
—Você consegue usar também? – Ele piscou, surpreso. A ruiva deu uma risadinha.
—Sim. Despertei as correntes quando eu era muito nova. Foi o que fez o otou-san me matricular na academia. Desde então, elas se tornaram um de meus jutsus favoritos.
—Che lefal!!* (que legal!) – O mais novo exclamou, com a boca toda cheia de arroz. A mais velha fez uma leve carranca e prensando as bochechas dele com o polegar, limpou sua boca com o guardanapo.
—Não fale de boca cheia. É falta de educação.
—Gomen... – Ele se desculpou, engolindo a comida finalmente. Haruka deu um sorrisinho, mas o som de bicadas de pássaro na janela chamou a atenção da dupla. Um falcão mensageiro estava próximo ao parapeito, olhando ansiosamente lá para dentro. A ruiva se levantou, abriu a janela e retirou a mensagem. O pássaro voou para longe e enquanto seus olhos corriam pelas letras, um sorriso se formou em seus lábios. O menor, curioso como sempre, chegou perto, tentando ver o que estava escrito por cima do ombro da outra. – O que é isso?
—Uma mensagem do palácio do daimyo. Kakura-dono está melhor e está voltando a Konoha. Vai ter uma recepção formal para ela no dia de sua chegada, e nós vamos à festa. – Haruka deu uma piscadinha. O sorriso do garoto foi tão largo que ele mal se conteve. Ele iria numa festa grã fina, e o que era melhor, como convidado! Nada de ser posto pra fora que nem cachorro!
—YAY!! Isso é demais, dattebayo!! – Ele deu um pulo, lançando o punho ao ar. Mas um detalhe cortou sua comemoração. – Peraí... Kakura não é o nome da velhota que a gente tinha que escoltar? Aquela que você fingiu que era?
—Essa mesma. Kakura-dono é uma embaixadora influente do País do Fogo e uma kunoichi experiente em obtenção de informações. Quando eu trabalhava como guarda do Daimyo, ela era um dos meus colegas. Mesmo depois de subir ao posto de embaixadora, eu não larguei minha função de guarda-costas até vir para cá. Nem Kakura-dono. Ela foi minha mentora. Eu estou feliz com essa notícia. Eu estive preocupada com ela desde a emboscada em Iwa. – Haruka apertou a mensagem contra o peito, respirando aliviada. O olho caiu sobre a expressão curiosa do irmãozinho. – Bem, ainda temos uns diazinhos antes da recepção. Vamos arrumar uma roupa formal pra você nesse meio tempo. Essa festa é importante.
—Sério? Pra quê? – Ele perguntou, piscando confuso. Haruka deu um sorriso maligno. Ir a um evento de gala com o jinchuuriki como acompanhante deixaria claro para as castas mais altas do país de que ele era seu irmão, e portanto, alguém com quem não se devesse mexer. Fora que ela queria ver os velhos conselheiros de cabelo em pé.
Ela podia sentir a inquietação toda vez que adentrava a mansão do Hokage. O problema não era Haruka em si, mas o que ela sabia, o quanto ela sabia e para quem poderia contar...
Tipo a aldeia inteira.
E ela o assim faria. Como afronta àquelas múmias que os deixaram no escuro por tanto tempo.
—Irritar algumas pessoas.
O canto do lábio do mais novo se curvou em um sorriso que não era prelúdio para algo bom.
—Irritar pessoas? Gosto disso... Gosto muito disso.
Um ar de maligna cumplicidade pairou entre os Uzumaki naquele instante, enquanto a brisa soprava leve lá fora. O arco-íris solar ainda pairava como um espectro soturno sobre a vila, trazendo consigo a previsão de algum desastre por vir.
…
Horas mais tarde, a notícia de que um sapo gigante havia entrado na vila carregando um menino loiro desacordado chegou aos ouvidos da Uzumaki mais velha, fazendo-a largar o treino com a Haruno pela metade para visitar o irmão. Ela pisava fundo pelos corredores, aflita para saber o que estava acontecendo. Ao parar um dos médicos no meio do caminho, perguntou o que houvera e a resposta a deixou aliviada. Era só estafa por falta de chakra, e um pouco de descanso lhe deixaria novo em folha. Ao rumar para o quarto do irmão, uma vozinha no corredor a fez parar.
—S-Sensora? O-o q-que está fazendo aqui? – A ruiva girou em seus calcanhares e avistou a fonte da voz. Uma garota magricela estava parada no corredor, encarando-a curiosamente com duas butucas peroladas. O rosto estava corado. Haruka já conhecia aquela menina, e mesmo que não lembrasse o nome dela, os olhos brancos eram uma dica forte de que se tratava de uma Hyuuga.
—Hyuuga Hinata. – Haruka deu-lhe um aceno leve com a cabeça e sorriu cordialmente para a genin. Hinata deu um passo a frente, ao notar que a sensora da Prova Chuunin a reconhecia. – Não sabia que ainda estava aqui. Como você está? Sua luta foi bem dura. – Ao notar o brilho da vergonha estampado naqueles olhos que fugiam do seu, a ruiva acrescentou. – Você lutou muito bem. Mostrou que tem muita fibra, apesar de tudo o que estava enfrentando ali. – Hinata corou, sentindo-se lisonjeada. A Uzumaki deu um sorriso triunfante. O que falara era verdade. A Hyuuginha parecia estar enfrentando um confronto que era muito mais profundo do que uma simples luta. O primo parecia ser alguém próximo de quem ela se distanciara. Dava para ver nos olhos da menina que ela se importava com ele, mas a frieza do rapaz para com ela com certeza dizia que ele foi o que se afastou. Mais do que aquilo, aquela garota andava com o ar de quem carrega um fardo nas costas e já deu o seu melhor, mas lhe fora dito que seu esforço não é suficiente. Mas sua reação à fala de Naruto...
—Estou melhor. Os médicos conseguiram estabilizar a minha rede de chakra. Se o tratamento tivesse demorado um pouco mais, bem... – Hinata abaixou os ombros e os olhos. Até que morrer não seria tão ruim. Pelo menos morreria lutando, como uma verdadeira ninja. Será que Naruto-kun a notaria? Será que se orgulharia?
—Fico feliz em ouvir isso. Você parece ser uma boa garota. – Haruka sorriu afavelmente. Hinata ficou ainda mais vermelha.
—O-obrigada. Mas então, o que está fazendo aqui?
—Eu? – Haruka ergueu o queixo e a olhou de canto, pronta para analisar a reação da mais nova. – Eu vim ver Naruto. Ele parece que se meteu em uma confusão. – Os olhos de pérola da azulada se arregalaram instantaneamente. A vozinha fina afinou com o desespero.
—Naruto-kun está ferido?! O que aconteceu?!
—Eu não sei. Falta da chakra, pelo que parece. Não é nada sério, mas quero saber dessa história. Ele está no 67, se você quiser dar uma passadinha lá. – A piscadela da ruiva fez o rosto da azulada ficar da cor de seus cabelos. – Bem, tenho que ir. Passe lá para vê-lo, ele irá gostar. E não se preocupe, eu vou te dar uma força, tá? – Haruka colocou uma mão sobre os cabelos da baixinha, lhe dispensando um sorriso colgate antes de se afastar. O coração de Hianta pulou. Aquele sorriso era idêntico ao de Naruto-kun. Ela olhou para a porta de seu próprio quarto, visualizando uma das flores no criado-mudo. E se ela...? Será? Não, aquela flor era dela. Mas... Naruto-kun estava ferido...
A sensora parecia conhecê-lo. E ela também havia notado os sentimentos de Hinata, a Hyuuga tinha certeza. Será que isso fazia dela uma aliada?
Só havia um jeito de descobrir.
...
Naruto abriu os olhos devagar, notando os arredores de seu quarto de hospital. O semblante preocupado da ruiva a fazia parecer mais velha do que era.
—Por Kami, Naruto! O que houve com você? – Ela perguntou, chegando para frente para ouvir a versão dele dos fatos. Cada músculo de seu corpo doía. Maldito sapo. Tudo bem que sapo pula, mas ele tinha que pular tanto, -ttebayo?!
—Eu não sei bem. Eu tava treinando com o Ero-sennin quando ele me falou do chakra vermelho. Ele disse que eu podia despertá-lo se quisesse. Eu tentei e não consegui, aí ele me jogou de um penhasco. No meio da queda, eu consegui bater um papinho com a Kyuubi e ela me emprestou seu chakra. Eu invoquei o gama-oyabin, mas ele disse que só me reconheceria como seu servo se eu ficasse em cima dele. Aí ele começou a pular que nem um doido por aí. – Haruka piscou, surpresa.
—Então o seu treinador está te ensinado o Kuchiose no jutsu? – O mais novo assentiu. – Há quanto tempo? – Naruto olhou para o teto.
—Umas 5 horas, por aí. – Ele deu de ombros, mas sua expressão pareceu intrigada ao ver o choque no rosto de Haruka.
Ele invocou Gamabunta, o Sapo-Chefe, com apenas 5 horas de treino.
5 horas.
Um jutsu que pessoas normais levam semanas e até meses para aprender...
Ele chegou ao mais alto nível em 5 horas.
—Por Rikudou, menino! Você é o quê, um monstrinho? Eu nunca vi ninguém aprender esse jutsu tão rápido! – Ele deu uma risadinha sem graça, coçando a cabeça. – E cadê o tal Ero-sennin?
—Não sei. Aquele safado sumiu depois do precipício. – Ele respondeu, fazendo um beicinho magoado. E foi então que pela primeira vez ela rebobinou a história do irmão e notou a falha.
Ele atirou Naruto em um precipício.
E saiu fora como se nada tivesse acontecido.
A carranca da ruiva se aprofundou tanto que sulcos se enrugaram em sua testa e a raiva borbulhou no orbe azulado. Seus punhos estavam tão cerrados que os nós dos dedos da mão direita ficaram brancos.
Era um velho tarado. Ele invocava sapos.
Ela só conhecia uma pessoa com ambas as características.
O lendário Sannin dos Sapos...
Jiraya.
Uma tímida batidinha na porta fez Haruka se distrair de seu impulso assassino por um minuto. Uma cabecinha azulada emergiu da fresta, correndo os olhinhos brancos pelo recinto.
—S-sumimassen... – Hinata gemeu, olhando para a dupla. Naruto abriu um sorriso largo ao vê-la.
—Hey, Hinata! Que estranho ver você aqui, -ttebayo! Você tá melhor? – Os orbes azuis do Uzumaki estavam recheados de preocupação. A jovenzinha corou violentamente, já sentindo a cabeça leve. A mão da ruiva depositou-se sobre a dela, que segurava o puro lírio branco que trouxera, e fez a menor engolir o constrangimento. Hinata deu um passo para dentro do quarto, mas não conseguia olhar nos olhos dele. Seus sapatos lhe pareciam mais interessantes enquanto ela falava. O menino estreitou os olhos.
—E-eu... E-eu... Hm... É que... Bem... Hm... – Ela começou, atropelando-se nas poucas palavras que conseguia pronunciar por causa de sua vergonha. Seu coração machucado pelo golpe do primo batia tão rápido que já sentia uma dor incômoda no peito. Haruka completou, salvando a menor de um ataque cardíaco.
—Ela veio te ver, Naruto. Olha só, até trouxe uma flor. Que delicado, Hyuuga-san! – Hinata deu uma olhada agradecida para a ruiva. Naruto inclinou a cabeça, ainda com os olhos estreitados.
—Isso é verdade? – Hinata assentiu freneticamente e lhe entregou a flor de cabeça baixa. Ele sorriu e pegou, por um segundo encostando em sua mão enquanto o fazia. A garota sentiu suas pernas bambearem. Ele havia lhe tocado. E sua mão era tão quente... – Obrigado. Sabe, eu sempre achei você uma garota estranha, fraca e sem força de vontade nenhuma. – Cada palavra foi uma faca cravada no peito da menina. Haruka fez uma carranca, mas as palavras seguintes do loiro as surpreenderam. Ele olhava para a flor, sorrindo levemente. – Mas na verdade, sempre posso contar que você vai fazer algo gentil. E mesmo assim, sempre me surpreende. Eu acho que... Gosto de pessoas como você, dattebayo! – O sorriso colgate do rapaz desconcertou as moçoilas. Haruka mordia o próprio punho, com o olhinho brilhando de orgulho e seu corpo tremendo em resistência ao impulso selvagem de apertá-lo até a morte.
—”Meu Kami, como ele é fofo!! Esse é o meu otouto!! Dá-lhe, Naruto!!”
Hinata estava estática, parada na mesma posição de antes. Ele a notava. Mesmo que seus sentimentos ainda fossem obscuros para o loiro, ele a reconhecia.
Aquilo era... Aquilo era...
O rosto da mocinha chegou ao ápice da vermelhidão. Seu coração batia tão rápido, e ainda sim, sua cabeça estava tão leve.
Leve...
Haruka aparou a Hyuuga quando ela desfaleceu. Naruto arregalou os olhos.
—Meu Kami! Você tá bem, Hinata?!
—Sim, ela só desmaiou. Acho que foi emoção demais, tadinha. -A jounin suspirou, pegando a genin nos braços. O Uzumaki a olhou, confuso.
—Hein?
—Não é nada. Vou levar ela para o quarto. E quanto a você, se comporte direitinho. Eu volto mais tarde.
—Onde você vai, dattebayo? – Ele inclinou a cabeça como um bichinho curioso, encarando a mais velha. Haruka deu um sorriso maligno, fazendo um arrepio percorrer a espinha do mais novo.
—Acertar umas contas. – E dito isso, ela sumiu pela porta, carregando a desfalecida Hinata nos braços.
…
Já caía a noite sobre a vila e Jiraya andava pelas ruas a esmo, segurando sua luneta. Sempre podia contar com a vila para lhe fornecer excelente material de pesquisa. Ele se recostou a um muro, pensando no acontecido de mais cedo. O moleque havia aprendido o Kuchiose em poucas horas. Claro que seu empurrãozinho, literalmente falando, o ajudou um pouco a invocar Gamabunta. Mas ele tinha que reconhecer que o pirralho tinha garra, pra aguentar o gênio horrível do mestre sapo.
—É, parece que ele tem algo seu afinal, Minato. – Ele sorriu tristemente. Era duro lembrar do ex-aluno, e as duas crianças tinham muito dele.
—Tio! Tio! Faz aquele negócio com o cabelo de novo? – A coisinha ruiva de quatro anos pedia, espichando os olhinhos muito azuis para o mais velho. Jiraya sorriu.
—E como alguém conseguiria dizer não pra uma coisinha linda como você? Tenho certeza que quando crescer, você vai parar o trânsito! – E dizendo isso, o Sannin solidificou o cabelo, arrancando palminhas entusiasmadas da ruivinha. Kushina entrou na sala de jantar com a travessa de comida, notando a barulheira que a dupla sentada à mesa fazia.
—Jiraya-sama, não a deixe tão animada. Assim ela não para quieta pra comer, dattebane! – A mãe censurou, estalando a língua. Haruka encheu as bochechas, contrariada.
—Ah... Okaa-sama... Mas ele é tão legaaal... – Chiou. Minato deu um sorrisinho ao entrar na sala e pegar a conversa no meio.
—Não se deixe enganar, Haru. Cuidado com o Jiraya-sensei. – O sorriso zombeteiro do Hokage foi respondido com uma bufada e revirada de olhos do Gama Sennin.
—Genial! Nem meu próprio aluno me respeita agora. – A alegação de Jiraya acarretou em uma explosão de risos da pequena família. Contagiado pela alegria, ele não pôde deixar de rir também.
Sentia falta de Minato. Muita falta.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma explosão no muro perto de onde ele estava. A poeira cobria a vista, mas o barulho não fora suficiente para esconder a voz enfurecida.
—JI-RA-YA!!!
O Sannin sentiu as pernas tremerem. Ele não sentia aquela aura negra desde a última vez que irritara Kushina em uma de suas brincadeiras. Preparou as pernas para correr, mas do meio da fumaça, um punho de ferro surgiu, chocando-se contra o estômago do sennin. Ele pôde sentir a descarga da chakra amplificando o efeito do golpe e, literalmente, o jogar longe. Jiraya chocou-se contra uma lixeira e derrubou umas tábuas de madeira velhas sobre sua cabeça. Sujo, confuso, tonto, com dor e possivelmente com umas costelas quebradas, ele encarou o demônio ruivo que se aproximava, com o olho muito azul faiscando de raiva. Ele reconhecia vagamente aquela figura.
—H-Haruka?! – O sannin balbuciou, desconcertado. Ele sacou que aquilo era mais um golpe para ferir seu orgulho e extravasar a raiva do que um ataque com intenção realmente assassina. Com certeza aquilo não foi tudo o que ela tinha. Jiraya ainda estava inteiro – ou quase – após um soco da temida Punho de Ferro Haruka, afinal. Como ele pensava após ouvir sobre a ruiva ao redor do mundo, a técnica era similar à de Tsunade.
—NÃO, O SHODAIME HOKAGE!! CLARO QUE SOU EU, AHO JIJI!! – Ela esbravejou, levantando-o pelo colarinho da camisa. – QUE IDEIA FOI ESSA DE JOGAR MEU IRMÃO DE UM PRECIPÍCIO, SEU IDIOTA?!! – Jiraya se encolheu. Então Haruka tinha retornado a Konoha, e estava cuidando do menino, aparentemente. O tom de voz da Namikaze era tão inflamado e escandaloso quanto o de qualquer Uzumaki.
—E-eu só queria que ele despertasse o chakra da Kyuubi! O moleque precisaria de uma situação de vida ou morte pra isso, então eu dei uma a ele! – Ele se defendeu, ainda um pouco desnorteado.
—JÁ PENSOU O QUE TERIA ACONTECIDO SE ELE NÃO CONSEGUISSE DESPERTAR O CHAKRA?!!!
—Uhh... – Jiraya gemeu. Realmente, ele não tinha pensado muito além daquilo. Se o moleque não tivesse conseguido escapar daquela... Ele teria morrido. Mas ele tinha certeza que a aneue não ia ficar feliz com a resposta. Ele deu um sorrisinho e ergueu o indicador, tentando amenizar a situação. – O importante é o que aconteceu. Ele conseguiu, invocou o Gamabunta! Você deveria estar orgul... – No meio da frase, um tapa o cortou, virando a cara do sannin para o lado. Algo o dizia que a tentativa de emenda de sua ação não funcionara. Ela rosnou, e a cada palavra, lá ia mais um tapa.
—NUNCA. MAIS. FAÇA. ISSO. DE. NOVO!!! – E o largou no chão. Jiraya caiu como um saco de batatas, olhando para a moça com receio.
—Sim s-senhora!! – A olhada feia da jounin o fez se encolher.
—Ótimo. Se eu ouvir que você fez mais uma gracinha dessas com Naruto de novo, da próxima vez eu carrego o chakra com força total. – A ameaça fria causou um arrepio no velho. Haruka se afastou, pisando fundo e levando sua aura maligna com ela. Jiraya levantou-se com dificuldade, sentindo uma dor forte no abdômen. É, parecia que ele tinha quebrado alguma coisa.
Aquela menina tinha se tornado o que ele sempre imaginara que ela seria. Até mais.
Poderosa. Linda...
E com o gênio do cão de dona Kushina e sua respectiva aura assassina.
Ele precisava tomar muito cuidado em como tratava o pirralho dali pra frente. A situação lhe trazia um déjà vu de Tsunade, e pelo que ele sabia dessa história, se ele fizesse qualquer gracinha, ela poderia muito bem lhe matar.
Estava ferrado.
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