Teenage clichê
12 Vida gravada em tinta
[Voltando para o chalé.]
Carol acordou abraçada à Camila. Elas, Bianca e Daniel haviam tido uma maratona de Netflix, seguida de uma competição de drinks. Ela não havia bebido, mas sentia uma dor de cabeça muito grande por não ter usado seus óculos ao assistir TV.
Ela levantou da cama, calçou suas pantufas de coala e saiu do quarto em direção à cozinha.
Bem, do quarto até a cozinha, tem um corredor que leva até a sala de estar. A sala de estar conecta todos os corredores do chalé, que não tinha poucos. Era uma construção toda de madeira de carvalho, com carpete no chão e muitas janelas de vidro, o que tornava a casa inteira bastante iluminada durante o dia. A sala de estar era bastante espaçosa, com um enorme sofá de tecido bege e suporte de madeira. Havia uma lareira no centro da parede na lateral do sofá e da mesa de centro, e cadeiras opostas aos lados da mesa. Carol passou pela sala e foi para a cozinha, onde iria preparar o café da manhã do pessoal.
Ela cozinhou ovos, bacon, tapioca, panquecas e entre outras coisas. Fez salada de frutas, café, suco de laranja e ajeitou a mesa. Pegou uma xícara de café e foi até a varanda.
A vista da varanda era simplesmente deslumbrante: a vegetação deixava de cercar a cabana até um ponto em que ela se abria e formava um corredor de árvores até uma ponte de madeira que dava ao lago. Carol olhava aquilo e lembrava de quando ela era mais nova, quando a família dela viajava para o chalé e ela corria até o lago, se pendurava em uma corda, pegava impulso e se jogava no lago. Era bom ter aquele pensamento depois de tanta coisa que havia acontecido em tão pouco tempo. Ela ficou com vontade de nadar, mas lembrou que estava de pijama.
—Ah, quer saber? Que se foda –disse ela, enquanto corria até o lago.
Carol chegou à ponte e procurou a corda: achou-a presa à uma árvore. Desamarrou, pendurou-se, balançou-se e jogou-se no lago. A água estava fria, mas ela não se importou. Permitiu-se sentir a fluidez da água, enquanto ela a envolvia. Passou alguns segundos debaixo d’água, depois passou a boiar.
E enquanto boiava, pensava. Pensava em muitas coisas, em muitas pessoas, em muitos momentos. Lembrava de tempos onde não havia nada para se preocupar além de chegar em casa a tempo para assistir seu seriado preferido. Onde ela e Camila matavam aula para ir ao shopping juntas. Pensou em sua amizade com Camila e Lucas, que não era tão forte e importante quanto a amizade entre eles. Ser a segunda opção de ambos não era algo importante, mas também não passava em branco. Ela pensou em como é fudida e o quão bosta era a vida dela naquele momento. Mas também sabia que tinha as melhores pessoas do mundo ao lado dela e era grata por isso.
Carol saiu do lago, pois seus dedos já estavam ficando emborrachados e não queria estragar seu pijama favorito. Dirigiu-se até a cabana, deixando as pantufas em cima do tapete e ensopando o carpete ao entrar. Todos já tinham acordado, e estavam tomando café da manhã. Camila reclamava que não tinha bolo e Daniel queria batizar o suco de laranja.
—Bom dia, Carol!? –disse Bianca
—Choveu hoje? –perguntou Daniel
—Não, idiota, ela foi nadar no lago de pijama. –disse Camila
—Bom dia, galera. Tão curtindo o café da manhã? –disse Carol enquanto seu cabelo pingava água no carpete.
—Tá muito gostoso, tu cozinha bem pencas! –disse Bianca, enquanto mastigava a sua 5 panqueca.
—Ahm, Carol, acho melhor cê ir tomar banho e colocar esse pijama pra lavar; cê tá fedendo já.
—Caguei pra ti –disse Carol enquanto se dirigia ao banheiro.
Carol chegou ao banheiro, se despiu e colocou a calça e o moletom na pia do banheiro. Ligou a torneira da banheira, parou por um momento e olhou-se no espelho seus traços detalhadamente: os grandes e redondos olhos cor-de-mel, que contrastavam com as mechas roxas como berinjela no cabelo loiro. Possuia a boca rosada e o rosto fino, levemente corado, marcado por covinhas. Tinha figura esguia, peito pequeno e quadris estreitos. Sua pele tinha marcas de cicatrizes que conquistara durante sua adolescência, em sua grande maioria. Em sua costela direita, sua tatuagem com a palavra “Always” encontrava-se desbotada. “Preciso tatuar novamente, pensou”. Era apaixonada por tatuagens: tinha uma frase católica na nuca, o mapa-múndi no pulso, uma coroa no dedo indicador direito e um coração atrás da orelha. Tatuagens eram a consequência de viagens para o exterior: não havia uma viagem na qual ela não tivesse marcado seu corpo. Era assim entre ela, Camila e Lucas: ela amava tatuagens, Camila amava piercings na orelha e Lucas gostava de videogames e de assistir à todo tipo de esporte. Saiu do seu transe de lembranças aleatórias quando a banheira transbordou. Ela tirou a rolha por alguns segundos, para secá-la, e depois entrou. E ficou lá por um bom tempo, apenas refletindo sobre a vida e escutando músicas aleatórias do celular.
Em algum ponto, ela dormiu lá(meio lesada, pra representar a escritora). Acordou com uma pseudometralhadora de batidas na porta(pega a metralhadora...).
—Carol, tu já tá ai há uma hora. Eu preciso mijar, sai logo. –disse Daniel
Carol levantou-se da banheira, com a pele toda enrugada(pior que maracujá). Se enxugou, e saiu em direção ao quarto, passando por Daniel, que disse:
—Deixa a toalha cair valá, pra compensar o tempo que eu fiquei esperando.
—Eu posso te recompensar com um chute no saco, se quiser.
—Não, não, tá de boa assim –disse ele, entrando no banheiro logo em seguida
Carol foi até o quarto, trancou a porta e se jogou na cama. Ela estava cansada, por algum motivo que não sabia. Ela não via mais graça nem razão para socializar; se sentia só e indiferente; mas ela nunca se importara, porque sempre colocara as necessidades dos outros acima das dela. E isso a fazia feliz. Resolveu não pensar nisso, pois não queria ficar mal e ter que mentir para todos. Levantou-se, vestiu-se e foi até a sala, jogar Banco Imobilário com as meninas.
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