Teenage clichê

19 Entre a cruz e a espada


Os dois melhores amigos encontravam-se na casa da Camila. Ela ocupava o centro da cama, enquanto ele estava com metade do corpo na cama e a outra metade fora. Camila acordou, mas não abriu os olhos. Sua cabeça latejava e seu corpo doía. Não conseguia pensar nem raciocinar, mas forçou-se a pelo menos levantar para ir buscar uma água. Moveu-se para sair, puxando as cobertas quando percebeu que estava nua. Andou até seu banheiro, bebeu a água da pia e lavou seu rosto, olhando-se no espelho em seguida. Ela estava com muitas marcas de chupão no pescoço e com as partes íntimas ardendo. Surtou um pouco, porque não lembrava de ter conhecido nenhum cara, nem mesmo ter tido sorte com o bartender bonitinho. A única coisa que vinha em sua mente eram imagens borradas de uma bebedeira bem sucedida. Ela resolveu pensar naquilo e surtar depois que a dor de cabeça passasse, então permitiu-se voltar a dormir. Entrou no quarto e se deparou com um Lucas inconsciente na borda de sua cama, e segurou um grito. Aproximou-se dele para ter certeza de que não tinham feito nada de que fossem se arrepender. Porém, más notícias, alguém também tinha se dado bem ontem a noite. Camila gritou muito mais alto e forte naquele momento do que na noite passada. Lucas acordou e reclamou:

—Caralho, para de gritar, porra. Tô tentando dormir aqui –disse um Lucas em uma ressaca de merda.

—O QUE MERDAS VOCÊ TÁ FAZENDO NU NO MEU QUARTO? –gritou Camila, se enrolando na coberta.

—Eu tô me fazendo a mesma pergunta –disse ele, calmamente, cobrindo-se com um travesseiro.

Camila começou a ficar desesperada. Ela não sabia que merdas tava acontecendo, nem lembrava de ter transado com seu ex melhor amigo. Ela se sentia suja só de pensar nessa hipótese, e queria só se jogar da varanda da casa.

—Puta que pariu, fudeu muito –disse ela, em meio aos prantos.

Lucas se condenou imediatamente por não ter acordado mais cedo e saído. Ele realmente se sentia mal por ter deixado sua melhor amiga naquela situação. Ele tava bem em choque, pensando apenas em fugir dali pro México e mudar seu nome para Pablo. Mas, já que a merda já tava feita, ele foi na onda.

—Por favor, me diz que choveu e a gente dormiu pelado pra não ficar doente e que não rolou nada entre a gente –disse ele, preocupado.

—Você não é o único que quer que isso seja verdade, mas eu não lembro de merda nenhuma tanto quanto você–disse Camila, bem brava. Ela transitou pelo quarto procurando por pistas que a dissessem o que aconteceu naquela noite. Encontrou várias roupas pelo chão, garrafas de bebida e uma camisinha usada dentro do seu tênis.

—Merda –disse ela, boquiaberta.

—O que foi?

—Más notícias: você tá oficialmente morto –disse ela, pulando em cima dele.

Ela começou a estapeá-lo com toda sua força, fazendo seu nariz sangrar novamente. Ele ficou em cima dela e segurou seus pulsos contra o chão. O mais tenso do momento foi que, quando ela se jogou nele, a coberta dela e o travesseiro dele caíram no chão.

—Camila, se acalma. Vamo conversar sobre o que aconteceu ontem. Nem eu nem você temos uma lembrança nítida do que aconteceu, então vamos raciocinar juntos, tá? Mas você tem que manter a cabeça no lugar –disse Lucas, encarando-a.

—Bem, seria mais fáceis se não estivéssemos nessa exata situação, e se você não tivesse... sabe... –disse ela, controlando-se.

—Ah, puta merda, desculpa. Pode fechar os olhos?

—Achei que nunca fosse pedir.

Ele levantou, pegou suas roupas e foi ao banheiro. Cinco minutos depois, saiu somente sem camisa e sapatos. Camila aproveitou para colocar um pijama e uma calcinha para diminuir o constrangimento.

—Bem, tá com cabeça pra conversar ou prefere que eu vá embora? –perguntou Lucas, de modo delicado.

—Qual o seu problema mental, Lucas? A gente trepa e você simplesmente me pergunta se eu quero agir como se nada tivesse acontecido. Advinha? ACONTECEU! E não existe bebedeira que apague isso . Eu sabia que devia ter ido embora com a Carol, que não devia ter te defendido nem ter permitido você ficar–disse Camila, com desgosto e nojo da situação.

—Eu nunca disse isso, só achei que você pudesse querer falar sobre isso quando tivesse mais calma. Eu não quero deixar a situação pior do que já está.

—Mas cê tá deixando. Fora que tá fazendo eu me sentir um lixo. Que tipo de garoto faz isso com a suposta melhor amiga, pelo amor de Deus?

Lucas estava muito cansado de levar a culpa por algo que os dois tinham feito.

—Camila, nem vem colocar a culpa em cima de mim, porque quando um não quer, dois não fazem. Você poderia ter parado a qualquer momento, assim como eu. Somos igualmente culpados, e pode ter certeza que isso NUNCA mais vai voltar a acontecer. Quando decidir ser madura e aceitar que você cagou o pau também, só ligar –disse Lucas, pegando suas coisas, saindo do quarto, batendo a porta e deixando uma Camila bastante arrependida, envergonhada e chorosa.

Ele saiu da casa sem olhar para trás; não ia permitir que ela fizesse ele se sentir culpado de algo que fora feito pelos dois, algo de que ele nem lembrava-se. Ele foi o mais rápido possível para a casa de Henrique, enquanto Camila ligou desesperada para Carol. Se havia alguma chance de ambos voltarem a ser inseparáveis, agora não há mais. Ela nunca ia olhar para ele do mesmo jeito, iria lembrar das suas costas fortes e definidas com os arranhões de suas unhas. E ele nunca mais olharia para o pescoço dela sem ter a imagem de altos chupões. É, minha gente, a merda realmente foi catastrófica. A questão é, deixando reações a parte: o que aquela noite realmente significou para os dois? Estar entre a cruz e a espada nunca foi tão difícil.