Teenage clichê
20 Pijama rosa rasgado
—Carol? Tá aí? Preciso de você.
—Que foi, Mila?
—O Lucas...
—Que foi que o babaca fez dessa vez? –disse ela com desdém, do outro lado da linha.
—Não sei como falar isso. Na verdade, não consigo.
—Deixa de cu doce e desembucha.
—Eu e o Lucas... A gente meio que trepou –disse Camila, tentando manter a calma.
—VOCÊS O QUE?
—NÃO GRITA COMIGO, EU TÔ SURTANDO E CÊ NÃO TÁ AJUDANDO –disse Camila, tendo uma puta crise de choro estilo pós-Titanic logo em seguida.
—Tá, calma, respira. Tô indo aí pra cê me explicar isso direito.
—Tá bom, mas vem rápido, por favor.
Carol desligou, Camila deitou em sua cama e pôs-se a chorar mais ainda.
(...)
Lucas dirigiu até a casa de Henrique, mergulhado em pensamentos que giravam em torno da “conversa” com Camila. Ele pensava na reação dele naquele momento, e se perguntava como era possível ele ter agido daquele jeito. Lembrava do cheiro da cama dela antes dela o ter acordado com um grito. O aroma lembrava-o de quando ela usava os casacos dele, principalmente o branco, sempre deixando uma marca dela, seja o cheiro, uma mancha ou um rasgo. Lembrou do jeito que o sol da manhã brincava no cabelo dela mais cedo, do pijama rosa rasgado que ela havia vestido para deixar a situação menos escrota. Ele, do jeito que era, devia ter tido um ataque pior do que o de Camila(sem as agressões físicas, claro). Mas ele tinha ficado estranhamente tranquilo, como se já esperasse aquilo acontecer. Não, era loucura. Afastou os pensamentos ao chegar em frente ao prédio de Henrique. Desligou o carro, desceu e foi andando até a entrada do prédio, respirando fundo antes de passar pela portaria. Entrou no elevador, subiu até o 10º andar e dirigiu-se ao apartamento do amigo. Tocou a campainha e Henrique atendeu na hora. Entrou e jogou-se no sofá.
—Pode ficar a vontade –disse Henrique, enquanto enchia sua xícara de café.
—Depois do dia que eu tive, eu mereço –disse Lucas, jogando os sapatos no outro lado da sala.
—O que aconteceu?
—Primeiro, quero uma cerveja.
—Cara, são 10 da manhã. Qual o teu problema?
—Bem, o maior deles é o fato de eu e a Camila termos transado e ela ter quase me mandado pro hospital por causa disso.
—Então... Ainda quer aquela cerveja?
Lucas deu um sorrisinho, que logo se apagou ao lembrar do ocorrido. Henrique jogou uma garrafa de cerveja pra ele, e sentou em uma poltrona em frente a ele.
—Quer me falar o que aconteceu?
—Não teria vindo se não quisesse.
—Solta o som então –disse Henrique, tomando um gole de seu café.
Lucas contou tudo que havia acontecido naquela manhã, do jeito menos escroto possível. Henrique quase não conseguia se manter imparcial, porque tudo aquilo era MUITO estranho.
— Você não lembra de nada antes do sexo?
—Tudo o que eu lembro vai até depois que você e a Carol deixaram eu e a Mila sozinhos. A gente ficou conversando, tomando umas, até que chegamos no assunto de Campinas. Depois disso, são imagens desconexas ou borradas. Acordei na cama dela, com um grito dela. Nós dois nus, e ela tendo um ataque.
—Qual foi a sua reação?
—Eu fiquei normal.
—Pera, como assim?
—Eu não surtei, só fiquei reparando nela. Ela tentou me culpar pelo que aconteceu, ficou mal pra caralho com tudo. A gente começou a discutir, mas antes que a coisa ficasse mais séria e eu perdesse a calma, eu saí.
—Tu deixou tua ex melhor amiga com quem você fez sexo na merda e mal? Quem é você e o que você fez com o Lucas?
—O que eu deveria ter feito?
—Deveria ter tentado acalmar ela, claramente.
—Ela não ia me ouvir. Ia me chamar de tarado ou sei lá.
—É ÓBVIO QUE ELA FARIA ISSO. A garota tá em choque porque ela definitivamente não esperava que a primeira vez dela fosse ser com um ex melhor amigo e ainda por cima ambos bêbados demais para lembrar de qualquer coisa.
—Pera, primeira vez? Que história é essa?
—Não sabia? A Camila é virgem. Ou pelo menos era.
—Não, ela perdeu com o André. Ela mesma me contou. Claro que sem os detalhes.
—Ela mentiu. Eu sem querer ouvi ela contando a Carol sobre isso, pedindo desculpas por ter mentido.
Lucas ficou paralisado. Passavam mil coisas na cabeça dele, ele não conseguia processar nada, apenas ficava perdido em sua mente: Ela era... Ai meu Deus, como assim? Isso não pode ser real. Não, tipo, caralho, comé que eu pude fazer isso? Não, pera, eu fiz mas é... Caralho, ela era virgem. Puta que pariu. Não, pera. Não, não, isso não tá acontecendo, tipo não tá... Não, eu não tirei a virgindade...Puta que pariu, eu tirei a virgindade dela. Puta merda, não acredito...
—Terra para Lucas. Cê tá bem?
—Tô. Eu preciso falar com a Camila, agora.
—Tá com sorte, porque ela tá em casa com a Carol. Eu posso te levar até lá.
—Eu consigo ir sozinho.
—Cara, tu não viu a tua cara quase agora. Cê não tá com cabeça pra dirigir, então eu te levo. Mas a gente vai daqui a pouco, porque a Carol tá acalmando ela. Enquanto isso, eu te acalmo.
—Boa sorte nisso.
—Lucas, na moral, eu ainda não entendi como tu pode reagir daquele jeito hoje de manhã, como se vocês tivessem uma amizade colorida de anos.
—Sei lá cara, pra mim foi natural aquilo tudo. Eu sei, eu devo ter algum problema mental por causa disso, mas é como se eu já esperasse que algo fosse acontecer.
—Explica melhor, porque o que eu tô entendendo é que cê sempre esperou tê-la de um jeito mais do que como amiga, conscientemente.
—Não é bem assim. É como se uma parte de mim ainda fosse dela, e quisesse ser. E meio que faz sentido, porque fomos quase um só por anos.
—Ainda parece que você tem um crush nela.
—Ah, foda-se. Eu só quero falar com ela, preciso consertar isso.
—Então bora, tô ficando agoniado já.
Lucas pegou seus sapatos e as chaves, enquanto Henrique colocava um casaco e fechava a porta do apartamento. Os dois foram o mais rápido possível para o carro, e dirigiram até a casa de Camila.
Chegaram lá em questão de minutos. Talvez tivessem ganhado uma multa, porque Henrique não era o melhor motorista de todos, principalmente quando estava “emocionalmente instável”. Eles desceram do carro e Lucas foi correndo até o quarto da amiga, encontrando-a com Carol, assistindo Netflix.
—Bem, por essa eu não esperava –disse Lucas, bastante surpreso.
—Cê esperava que ela estivesse chorando porque você fugiu feito um covarde? –disse Carol, levantando-se da cama.
—Não começa, Carol. Eu vim falar com a Camila. Quero consertar isso –disse ele, aproximando-se dela.
—O que aconteceu entre vocês não tem conserto. Vocês cruzaram um caminho que não tem volta. Eu finalmente fiz a Mila entender isso, entender que vocês não tinham quase nenhuma chance de serem melhores amigos e que agora que não tem chances mesmo.
—Não, cê tá errada. A gente ainda pode ser amigos.
—Lucas, a Carol tá certa. Noite passada foi um erro, assim como a nossa amizade a partir de hoje é.
—Mila, não escuta ela. Eu sei que nada devia ter acontecido, mas aconteceu. E, pra ser honesto, eu já esperava por algo assim entre a gente. Não me leve a mal, mas não foi estranho pra mim porque por anos fomos um só. Durante toda a nossa vida, praticamente, estivemos juntos. Além disso, fiquei feliz em saber que cê não fez com o André. Cê merecia um cara incrível, eu sei, e eu sinto muito por isso.
—Não precisa se desculpar. Fico feliz de noite passada ter acontecido.
—OI? –disseram Lucas, Carol ao mesmo tempo, surpresos.
—Calma gente, deixa eu explicar. Eu fiquei feliz não porque eu queria que tivesse acontecido, mas porque eu perdi com alguém especial pra mim. Alguém em que eu confio e significa um mundo pra mim. E, honestamente, eu fico mais feliz ainda com o fato de eu não lembrar de nada.
—Então... a gente tá de boa? –disse Lucas, bastante confuso e surpreso.
—Claro –disse Camila, esboçando um sorriso logo depois.
—Camila, eu honestamente não sei o qual o teu problema –disse Carol, em um tom estranho.
—Carol, você que tem um problema aqui. Eu já tô cansada de estar nessa guerrinha entre vocês dois –disse ela, apontando para os amigos- e quero que se resolvam agora. Os dois tão agindo como na época do colégio.
—Eu não tenho nada a dizer para ele –disse Carol, dando as costas para Lucas.
—Pelo amor de Deus, Carol, até eu já tô de boa com o Lucas, e olha que eu tenho várias razões pra agir como cê tá agindo –disse Camila, com a maior naturalidade.
—Mila, na boa, deixa isso pra lá. Ela não quer falar comigo, tudo bem. O sentimento é mútuo.
Nessa mesma hora, Henrique entrou com um pedaço de bolo de laranja.
—E aí gente, o que eu perdi? –disse ele, dando uma dentada no bolo.
—Nada de mais. Cê chegou bem na hora –disse Camila.
—Pra que? –disseram os três em uníssono.
—Pra isso.
Camila pegou o celular dela e de Carol que estavam na cama, empurrou Henrique para fora do quarto, fechou a porta e a trancou, deixando Lucas e Carol sozinhos.
—CAMILA, QUE MERDA É ESSA? –disse Carol, enquanto esmurrava a porta.
—Isso é você e o Lucas sendo forçados a se dar bem, ou não saem desse quarto tão cedo.
—ME DEIXA SAIR AGORA!
—Não vão sair. Tratem de se dar bem. E nem pensem em tentar se distrair, porque estamos com seus celulares e a Wi-Fi tá desligada. Divirtam-se.
Camila desceu as escadas com Henrique, e os dois ficaram no sofá, comendo bolo e jogando cartas, enquanto Carol e Lucas tentavam não se matar no andar de cima.
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