Teenage Dream
3 Capítulo Dois- Vencedora
Notas iniciais
Capítulo Dois- Vencedora
“Você entrou no meu mundo louco
Como uma onda calma e pura
Antes eu sabia o que me atingiu, querido
Você está fluindo nas minhas veias” –Addicted to You, AVICII
Vovô Samuel saiu antes de mim da casa, me deixando perdida em suas palavras por algum tempo, mas logo me desvencilhei daquilo. Nosso almoço foi calmo, ao que parece vovô não estava com vontade de reclamar de nada naquele dia. Só que papai queria me dar seus conselhos sobre a festa que eu iria.
–Nada de bebida. Nada de ficar sozinha. Nada de ficar com garotos que não conhece. Nada de sair de lá para outro lugar. Quando estiver pronta para voltar para casa, nos avise, iremos imediatamente te buscar. Nem pensar em aceitar caronas, só tem permissão de voltar de lá se for com o Senhor e a Senhora Denali.
–Algo mais?
–Fique em casa, ai não me preocupo.
–Eu concordo com isso, tem muito garoto filho da puta por ai querendo se aproveitar de meninas como você –vovô palpitou.
–Não, eu vou para festa –era incrível como aqueles dois teimavam em me manter em uma bolha de proteção, como se eu fosse a garota mais indefesa do mundo. Eu nem queria ir para a festa, mas o fato deles quererem me prender fazia com que eu quisesse o contrário.
Depois de comermos e de eu ter que ouvir aquela bíblia de recomendações, fui com meu pai para a lanchonete, avisando Lucy que era para ela ir me buscar lá depois.
O movimento do local estava começando a se intensificar mais ainda, já que estávamos no inicio das férias de verão e o fato de Sun West ser uma cidade do litoral da Califórnia, só contribuía para termos turistas por lá. Ajudei meu pai por algum tempo no caixa, mas ele logo mandou com que eu ajudasse a servir as mesas, o que sempre me deixava mais cansada de todas as funções da lanchonete.
–Maninha, atende a mesa sete –Emmett passou por mim carregando uma bandeja cheia de copos de suco para os meninos que praticavam surfe na cidade.
–Boa tarde, o que vai querer? –perguntei para a garotinha loira que estava sentada sozinha olhando o cardápio.
–Um Mc Lanche Feliz! –exclamou exalando um sotaque britânico, abrindo um enorme sorriso para mim.
–Sinto muito, lanchonete errada –comecei a batucar com a caneta no bloquinho de anotações –Mas vendemos hamburguês saudáveis aqui, não aquela porcaria gordurosa que vendem lá.
–Mas eu prefiro a porcaria gordurosa –a menina loira cruzou os braços, parecendo indignada, ela não devia nem ter dez anos de idade e já era quase uma Lucy da vida em quesito exigência.
–Escuta, você tem ao menos dinheiro para pagar a comida? –indaguei.
–Tenho sim, olha aqui –ela meteu a mão no bolso do vestido que usava e jogou umas moedas em cima da mesa.
–Isso não dá nem para um copo de água –suspirei, tentando entender como eu faria para me livrar da garotinha.
–Meu irmão deve ter mais, para pagar essa sua água de ouro que quase um dólar não paga, a inflação aqui é alta né? –me lançou um olhar desafiador, devia ser uma daquelas crianças prodígios, ou modificada em laboratório.
–Já pediu? –um garoto que devia ter mais ou menos a minha idade sentou de frente para a garota, eles estavam em uma das mesas com bancos em estilo sofá que ficavam encostadas na grande janela da lanchonete, dali dava para ver boa parte da praia.
–Eles não vendem Mc Lanche Feliz aqui, isso é inadmissível! –a garota se voltou para o moreno –cabelos em um tom castanho, beirando o preto –de olhos azuis como os dela.
–Claro isso aqui não é o Mc Donalds, peste! –ele rebateu, senti vontade imediata de abraçá-lo, pois a menina e toda sua moral desapareceram imediatamente com a fala dele –Vamos querer dois hamburguês com queijo e uma porção de batatas fritas, coca-cola para mim e suco de uva para ela –o garoto dispensou olhar no cardápio para fazer seu pedido.
–Quero coca também –ela teimou.
–Nossa mãe te proibiu de beber refrigerante, então não estressa e bebe suco mesmo –ele deu um peteleco de leve na testa da menina, que bufou e começou a resmungar para si mesma.
–Volto já –ainda rindo por dentro da cara da garotinha, me afastei em direção ao balcão.
A lanchonete estava cheia, então o pessoal da cozinha tinham vários pedidos, o que demoraria a levar os dos turistas britânicos da mesa sete, enquanto isso fiquei atendendo os outros clientes. Só que vez ou outra me pegava olhando para onde eles estavam, não pela menina, porque ela era irritante, mas pelo menino.
Ele era lindo, sem sombra de duvidas, durante as olhadas que dei para ele, pude notá-lo melhor. O cabelo caia despretensiosamente por seu rosto e de vez em quando ele o ajeitava, com toda certeza era alto e devia praticar algum esporte, pois seus ombros eram largos e seus braços malhados. Isso sem contar o sorriso fofinho que ele tinha e a pinta próxima ao seu lábio, do lado esquerdo do rosto.
–Prontinho –coloquei a comida na frente deles –Espero que gostem.
–O atendimento daqui é péssimo –a menina falou –Vocês demoraram quase vinte minutos para fazer isso –apontou para os hambúrgueres –Vou querer falar com o seu gerente depois.
–Bom, o gerente e dono daqui é meu pai, então melhor não falar mal de mim para ele –não me contive e apertei a bochecha dela, que soltou uma série de palavras em alguma língua que eu não sabia qual era –Tudo bem, comam ai –voltei ao meu trabalho.
Papai definitivamente precisaria parar de me explorar, eu não podia viver atendendo as mesas no Place of Masen como ele queria. Logo iria para o último ano do colégio e meu tempo livre diminuiria brutalmente, mas eu sabia que ele me faria trabalhar sempre que estivesse dando bobeira perto dele.
–Já vão querer a conta? –perguntei para o garoto inglês, quando ele me chamou, só ali percebi que a sua irmã estava do lado de fora da lanchonete, olhando para nós pelo vidro.
–Sim –assentiu e passei a nota para ele, antes que ele terminasse de pegar o dinheiro em sua carteira, a loirinha bateu no vidro, mostrando o relógio para ele.
–Ela é sempre assim? –questionei.
–Até quando dorme –se levantou e colocou o dinheiro na minha mão, por alguns instantes ficamos nos encarando e foi a primeira vez que gostei de ter alguém me encarando –Você trabalha sempre aqui? –me perguntou, sem soltar da minha mão.
–Sempre que meu pai me obriga –respondi, revezando meu olhar entre seus olhos e sua boca. Os olhos tinham um incrível tom de azul, muito próximo com o do mar que se estendia do lado de fora.
–Bom, quem sabe a gente se cruza por ai –um sorriso iluminou seu rosto –Qua... –foi interrompido mais uma vez pela irmã batendo no vidro, mas daquela vez ela mostrava um celular que estava recebendo ligação de um contato denominado “mãe” –Preciso ir –ele se apressou, sem me dar tempo de dizer qual era meu nome ou de perguntar qual era o seu.
Resolvi esquecer daquilo, não tinha tempo para ficar me preocupando com garotos, evitava namorar justamente para não me apaixonar e acabar sofrendo. E depois do conselho de vovô Samuel, iria passar bem longe de ter que clamar pelo amor de alguém.
Cerca de uma hora depois, Lucy apareceu, ordenando que eu entrasse no carro dela para irmos nos arrumar logo para a festa. Não contei para ela sobre o inglês, mesmo que sempre contássemos tudo uma para outra, mas como sabia que era improvável vê-lo outra vez -já que era um turista- preferi nem tocar no assunto.
–James me ligou –ela contou, abaixando a capota do carro e colocando os óculos escuros, parecendo uma modelo com toda aquela pose de estrela.
–E ai? –indaguei, James era o ex dela, um idiota que quando foi para a faculdade um ano antes abandonou minha amiga como se ela fosse um nada, eu o odiava com todas minhas forças.
–Aquele papinho de que me ama e que me deixar foi triste, mas necessário, pois não daríamos certo namorando a distância. Não acredito que dormi com ele –ela bufou quando paramos em um sinal vermelho –Fui tão estúpida dormindo com aquele imbecil.
–Por isso ainda sou virgem –ri internamente da minha sorte, ou azar, não sabia ao certo qual era o método melhor.
–Não precisa exagerar Rê –Lucy voltou a dirigir –Você já vai fazer dezessete anos e ainda é virgem e pura, o máximo que fez foi ficar com uns garotos, é assim que quer aproveitar a vida como diz?
–Não sou virgem e pura, só não quero sair dando para qualquer um –me defendi.
–Senti uma ofensa na sua fala, mas só para lembrar, James pode ser o cara mais babaca do mundo, só que éramos namorados quando transamos.
–E isso não adiantou muito? Tem um ano que terminaram e você continua sofrendo por ele.
–Eu não estou sofrendo, só comentando que ele me ligou, não sinto mais nada por ele –afirmou –Tanto que estou disposta a parar de ficar com os garotos que curto por ai e achar um a minha altura, preciso de um namorado, para ser a rainha do baile da escola e mostrar o quanto sou a mais incrível daquele lugar –ela levantou a capota, se dando conta que ficaria descabelada logo.
–Tudo bem, você não é uma vadia –falei, mesmo sabendo que metade da cidade a considerava isso, pelo fato dela ter ficado com muitos, muitos mesmo, garotos.
A mãe de Lucy –Carmen- se arrumou conosco no salão, além de esposa do prefeito, ela também era editora chefe do jornal, onde minha mãe trabalhava. Foi através delas que Lu e eu nos conhecemos, quando tínhamos pouco mais de cinco anos e depois disso nunca mais nos largamos, nem mesmo minha irmã era tão próxima de mim.
–Logo você vai ter que retocar esse loiro –tia Carmen comentou ao olhar um dos tantos cabeleireiros escovar o cabelo da filha.
–Mamãe, eu sou loira natural! –Lucy exclamou, mentindo, pois todo mundo na cidade sabia que ela pintava o cabelo castanho desde que tinha apenas onze anos de idade e teimou que queria ser loira como uma Barbie, desde lá nunca mais vi minha amiga com seu tom natural de cabelo.
–Ninguém cai nessa, Lu –ri, ganhando uma careta dela.
–Ninguém precisa ficar lembrando disso –bufou –Alguém como eu tem uma reputação a zelar.
Lucy recebeu os primeiros convidados com os pais na festa, mas logo a garota deu um jeito de se desvencilhar deles e se unir a mim e ao nosso amigo que estava por ali. Jacob Black era filho de um advogado, o pai dele seria responsável pela parte administrativa do hospital, junto com um médico fodão que o prefeito tinha “importado” para nossa cidade.
–Opa, isso é bebida? –Lucy pegou a taça da mão de Jacob.
–Ai garota, você é uma alcoólatra –revirou os olhos para ela.
–Jakelicia, supere seu amor por mim –Lucy piscou para ele, ficando com a bebida para si.
–Queridinha, eu sou gay, não sou afim de você –ele piscou de volta para ela.
–Você é um grande desperdício, isso sim –falei para ele, indignada que um garoto tão bonito quanto fosse gay, nada contra, mas Jacob era um pedaço de mal caminho, todas iriam querer ele, mas o mesmo só queria outros garotos.
–Essa festa está chata –Lucy olhou ao redor.
–E você ainda me obriga a vir, obrigada por isso –peguei a taça da mão dela e bebi um pouco, sentindo o que devia ser champanhe passar direto pela minha garganta.
–Vamos dançar, então Rê! –ela bateu palmas empolgada.
–Não tem ninguém dançando –a pista de dança estava vazia e tocava uma música ambiente irritante.
–Nada que eu não possa resolver, vai querer dançar com a gente? –perguntou para Jake.
–Não, vou me levar para o bar e quem sabe faturar algo decente –piscou para a gente e se afastou.
Como Lucy sempre conseguia o que queria, foi muito fácil fazer com que o DJ da festa trocasse a trilha sonora, colocando Addicted To You do Avicii para tocar. A pista estar vazia não era um problema tão grande para a gente, sendo que estávamos acostumadas a nos apresentarmos para plateias, uma vez que éramos lideres de torcida na escola.
Sabíamos que estávamos chamando a atenção e mesmo que eu pagasse de garota certinha e recatada, era igualzinha Lucy e adorava ser admirada. Dançamos umas quatro músicas sem interrupção, na quinta a pista de dança já estava cheia com outras pessoas, mas mesmo assim continuamos ali e teríamos dançado muito mais, se Jake não tivesse aparecido e rebocado Lucy para apresentá-la a alguém, aproveitei a pausa e fui para o banheiro conferir se meu cabelo ainda estava arrumadinho.
Assim que voltei para o salão de festas e localizei minha amiga, vi que ela não estava sozinha, muito menos com Jake. O inglês que tinha ido a lanchonete naquela tarde, estava ali com ela.
Os dois estavam conversando bem próximos um do outro e ela não parava de tocar no braço dele e sorrir sem mostrar os dentes–técnica dela para aparentar ser mais misteriosa, que eu achava idiota-, o que era um sinal de Lucy quando queria deixar claro que estava afim de alguém. Ele estava de costas para mim e quando minha amiga me viu, fez um sinal de positivo sem que o garoto visse, o que só confirmava que ela o queria, sabíamos todas as técnicas uma da outra e aquela não passou despercebida.
Lucy estava afim do britânico, que eu também estava e sabia que lutar por ele seria idiota. Minha amiga sempre acabava como vencedora, sempre.
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