Technocracy

3 Kapitel 2 - Kindergarten


— Frio...

A garotinha estava sentada no chão, sozinha. A neve caia incessantemente.

Não, aquilo não era neve. Mas ela também não sabia o que era.

Ao redor da garota tudo estava pintado de branco. Uma densa neblina a impedia de ver qualquer coisa ao seu redor.

Então ela ouviu sons de passos se aproximando. Mas ela não queria ver.

A garotinha fechou os olhos, mas ainda podia ouvir os gritos das pessoas.

— Eu estou com medo...

A garotinha não se lembrava do que acontecera. Ela só continuava ali, parada. Esperando por alguma coisa que nem ela sabia.

Então os homens se aproximaram e a levaram dali. Eles devem ter dado algo a ela, pois seus olhos se fecharam lentamente e ela não conseguiu abri-los por um longo tempo.

Quando ela acordou só havia uma pessoa ao seu lado: um garoto. Ela sentou-se na cama, recostando-se na cabeceira, e então deu uma outra olhada no quarto. Nunca tinha visto aquele lugar antes. Havia vários aparelhos estranhos dispostos por toda a sala.

E o garoto continuava a olhá-la fixamente.

— Um...

— Finalmente acordou. Está se sentindo melhor? — o garoto disse, se sentando na cadeira ao lado da cama. — Nós achamos você do lado de fora.

Ela não entendia o que o garoto estava falando. Ainda estava com sono.

— Onde eu estou?

— Em um hospital. Eles estão cuidando de você.

— Entendo...

— Você vai ficar boa logo. Aí nós vamos poder brincar. Você, Biene e eu.

Ela bocejou, e então voltou a dormir.

O tempo passou, ela não sabia exatamente quanto tempo. Ela não tinha idéia.

Mas agora ela não se sentia mais sonolenta. Ela tentou abrir os olhos, mas eles não se abriram. Seu corpo parecia não obedecer. Então ela ficou ali, imóvel. Provavelmente estava na mesma cama em que acordara da última vez.

Ela ouviu passos adentrando o quarto. E eles pararam bem perto dela. Depois de algum tempo ela ouviu a voz de dois homens conversando.

— O estado dela não está melhorando.

— Sim, ela ficou muito exposta à radiação e à toxina no ar de fora. Talvez não seja possível salvá-la.

Os dois homens conversavam sobre coisas que a garota não conseguia entender. Um deles parecia impaciente e a garota conseguia ouvir passos para lá e para cá.

— Tem certeza que ela não tinha nenhuma identificação com ela? Nada?

— Eu chequei, senhor. Mas ela parece não ter nenhum registro aqui também.

— Droga — ele pensou por um tempo. — Isole o quarto. Vamos observar.

— Tem certeza, senhor? Ela pode não ser humana.

— Mas ela pode ser também. De qualquer modo vamos apenas observar por um tempo.

Então ela ouviu mais sons de passos, vindos de fora e adentrando o quarto. Então parando bruscamente.

— Garoto, não deveria estar aqui.

— Mas...

— Volte para sua casa. Esse não é um lugar para garotos — o homem disse e então ela ouviu mais passos, dessa vez saindo do quarto.

— Isole o quarto. Mate todos que entraram em contato com a garota sem a devida proteção.

———oOo———

Helene acordou assustada. Ela mexeu seu corpo para ter certeza de que ele ainda se mexia. Fora só um sonho no fim das contas. A jovem olhou ao redor, estava no sofá da casa de Sabine.

— Hm, você acordou — Sabine disse olhando para Helene. — Algum problema?

— Não.

As duas ficaram em silêncio por um tempo.

— Você desmaiou... aqui.

— Entendo.

— Bem, — ela disse se levantando — eu tenho que resolver umas coisinhas. Seu queridinho quer falar com você.

— Jürgem...?

— Oh, você arranjou outro namorado?

— Ele não é meu namorado.

— Será? Você brigava tanto por ele quando éramos crianças.

Helene ficou em silêncio. Por algum motivo estranho ela não conseguia se lembrar de nada da sua infância. Ela sabia que era amiga de longa data de Jürgem. Mas eles eram amigos desde a infância? Ele e Sabine?

Ela não tinha certeza. Talvez fosse.

— Eu vou indo. Cadê a Kirstin?

— Com o Jürgem. Ele disse que ia verificar novamente o assunto dos e-mails.

— Eh? Ele veio aqui pegar a Kirstin para verificar os e-mails?

— Eu liguei pra ele — as duas ficaram em silêncio por mais um tempo. — Quanto ao algoritmo... fui eu quem passei para o Jörn. É chato ter todos os seus e-mails violados pelo conselho.

— Entendo...

— Você não estava de saída?

— Sim. Até logo — Sabine não respondeu.

Helene foi até a glanz. Como Kirstin estava com Jürgem ela teve que dirigir. Não gostava muito de dirigir por algo que acontecera há muito tempo atrás, embora ela não se lembrasse direito do que acontecera.

Glanz estava fechada, as luzes apagadas. Jürgem não estava lá, ele deveria estar em seu quarto.

Helene tocou o interfone.

— Jürgem, sou eu, Helene.

— Helene! — ele disse com a mesma animação de sempre.

Não. Ele parecia mais animado hoje.

A jovem ouviu o som da porta da loja destrancando. Ela entrou e foi direto ao quarto de Jürgem, que estava bastante bagunçado. Livros e peças estavam espalhados sobre a cama e a mesinha de centro. Ele pegou uma cadeira para que Helene se sentasse ao lado dele.

— Ele é bom — o jovem disse, disse mais para ele mesmo do que para qualquer outra pessoa.

— Ele?

— Hm, nada. De qualquer modo, estou tentando chegar à pessoa que enviou estes e-mails. Ela parece ter alguma coisa contra você.

— Contra mim?

— Você não leu o último e-mail?

— Não tive chance.

— Oh, entendo. A Biene me disse que você desmaiou. Está tudo bem com você? — Helene confirmou silenciosamente com a cabeça. — Que bom! Bem, eu queria te pedir um pequeno favor.

— Pode pedir.

— Tem um bar do outro lado da cidade chamado Liebe. O dono é um grande amigo meu, e eu pedi para ele separar algumas peças para mim. Será que você poderia buscá-las?

— Claro. Já volto.

— Helene... — ele disse puxando ela pelo braço e ela se virou para ele.

— Algo mais?

— Hm, não é nada. Esquece — e ele soltou o braço dela.

Helene saiu do quarto e Jürgem continuou lá, sem se mover.

———oOo———

O estado dela não estava melhorando, e mesmo com aquelas pessoas não deixando ninguém entrar no quarto eu resolvi visitá-la. Era importante. Eu tinha a impressão de que essa poderia a última vez que eu a veria.

Meu pai era um dos responsáveis pela segurança de toda a cidade. E ele me ensinou muitas coisas sobre o trabalho dele. Talvez eu consiga usar isso para chegar ao quarto dela.

Eu já tinha tudo preparado. Durante a noite não ficava ninguém vigiando o quarto, mas a porta continuava fechada eletronicamente. Tudo o que eu precisava era descobrir a senha.

O plano parecia perfeito.

À noite eu fui até o quarto da menina e usei a senha do meu pai para abrir a porta. Assim que se abriu, eu entrei, com um sorriso no rosto. Talvez isso fosse animá-la. Mas não foi o que aconteceu.

Não havia ninguém para receber aquele sorriso.

A única pessoa dentro daquele quarto era eu.

Tudo estava impecavelmente limpo, arrumado, como se ninguém estivesse recebendo tratamentos ali.

Talvez eles a tenham mudado de quarto.

Talvez eles tenham encontrado alguma maneira de salvá-la.

Eu tentava repetir aquelas palavras para evitar pensar no que realmente acontecera.

Eu sabia. Sim, eu já sabia desde o início. Desde que eles trancaram a porta pela primeira vez. Eu sabia que ela já não estava mais nesse quarto.

Afinal, ela não devia ser humana...

Droga. Mesmo assim...

Eu me sentei na cama. Ao lado, um pouco escondido em um dos aparelhos de monitoramento estava alguma coisa brilhante.

Um... colar?

Sim, era um colar. Um colar estranho que pertencia àquela garotinha. No primeiro dia que eles se encontraram ela havia perguntado por um colar e eu a prometi que eu iria encontrá-lo e devolvê-lo a ela.

Talvez um dia eu consiga devolvê-lo...

Sim. Um dia eu vou encontrá-la e devolver o colar para ela. Então nós poderemos ficar juntos de novo...

———oOo———

Jürgem foi até um canto do quarto. Na estante, em cima de alguns livros, estava uma caixinha. Ele abriu. Dentro estava o colar do qual ele acabara de se lembrar. O colar que ele prometera devolver para aquela garotinha.

Mas ele não se lembrava mais dela. Não se lembrava do rosto dela. Não sabia nem se ela continuava viva.

Notas finais
—10.09.2009—